quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Uma Prova de Composição

Geraldo Borges

Quando menino, fiz a minha primeira prova de composição literária ao prestar exame de admissão para o ginásio no Liceu, baseada em um quadro que mostrava uma paisagem rural. O quadro estava aberto. Pendurado no quadro negro da sala de aula. Para os alunos candidatos ao exame observarem-no, e, dizerem o que se encontrava nele, de uma forma simples e legível. Era um quadro familiar para os meus olhos de menino que tinha vindo do interior; com certeza eu já havia me encontrado naquela situação. Não havia nada de extraordinário naquele quadro que não me tocasse de perto. Era um lago, e na beira do lago um homem pescando ao lado de um cachorro, debaixo da sombra de uma árvore, onde cantavam alguns pássaros.


Então comecei a desdobrar o quadro na minha imaginação. A parti daí não obedeci mais a ordem do quadro. No lugar do cachorro coloquei um gato que comia quase todos os peixes, que o pescador pescava. Acrescentei uma mulher e uma leve brisa que soprava nos seus cabelos compridos, despenteados. A mulher pegava uns gravetos, fazia uma fogueira e começava assar umas piabas. Eliminei o homem, e fiz de conta que era eu, um menino, que estava pescando. Puxei o anzol de dentro do lago e trouxe fisgado um beija - flor, que logo dei para o gato comer.
O professor anunciou que faltavam cinco minutos para terminar a redação. Alguns colegas já haviam terminado. Eu pensei em rasgar a minha redação e começar de novo. Mas achei que não dava mais tempo. Estava gostando do que estava escrevendo, sem me enquadrar, continuei inventando. Era um impulso que eu não podia dominar, como se eu tivesse nadando no leito do lago, que, nessa altura, não era mais lago, era um açude.

De repente olhei para o céu azul do quadro pendurado no quadro – negro, clareado por um sol bonito, como se anunciasse chuva. Inventei uma chuva, uma tormenta. O menino, a mulher, o gato, resolveram voltar correndo para casa, que eu construíra em cima de uma colina, quer dizer de um morro no meio de um bosque, digo floresta...

De repente, não mais que de súbito, começou a chover de verdade. Um temporal.
Logo mais os retardatários estavam entregando as suas redações. Fomos para casa.
No outro dia teríamos que voltar ao Liceu para sabermos o resultado de nossa prova de composição literária. Voltei. Entramos na sala e esperamos com o coração batendo. Não sei por que cargas d’água o quadro da composição ainda estava na sala pendurado no quadro – negro. Um quadro que tinham muito pouco a ver com a minha composição. Eu gostaria que ele não estivesse mais ali.

O professor começou a distribuir as notas para os. alunos. Eu bastante ansioso esperava a minha vez. Quando o professor disse o meu nome fiquei em suspense. Ele olhou par mim como se eu fosse um estrangeiro, e disse:


- Seu Geraldo o senhor tirou zero. Está reprovado. Volte no ano que vem.

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