domingo, 18 de dezembro de 2011

É Natal


Recebi este cartão de Natal do grande Gervásio, com um desabafo abaixo que divido com vocês:

Acredite: Papai Noel existe!  E mora na minha rua. Na verdade ele mora em várias ruas, mas ontem estava aqui perto. Se chama Carlos, tem oito anos e não é framenguista:
- Tô usano a camisa porque a moça mim deu. A outra tava muito rasgada.
Esse ano havia decidido caprichar no cartão de Natal. Depois de hora e meia desenhando resolvi fazer uma pausa e saí pra tomar um chopp. Foi então que encontrei Papai Noel. Quando voltei pra casa (vários chopps depois) desisti da idéia original e hoje fiz esse outro desenho. Acredito que esse será o cartão mais feio que vocês vão receber nesse Natal. Espero que me perdoem. Prometo não fazer pausa pro chopp, ano que vem.

Mas foi o cartão do Gervásio que inspirou minha crônica de Natal desse ano, na sequência.

Conto de Natal

Edmar Oliveira

Era esmirradinho, tinha uns dezesseis que pareciam oito, se muito. Tinha mãe, na cadeia, mas tinha, e filho da puta és tu. Maria mãe devia estar passando necessidades no presídio. Ele, Jesus menino, não podia fazer seu presépio vivo, como o de outros natais nas ruas daquela grande cidade.

Era preto, um pequeno menino preto com um gorro de Papai Noel. Mancava. Mais parecia um saci com uma camisa do Flamengo. E tinha um cachimbo. Pererê a mágica que o deixava numa nóia em nuvem de fumaça que embaçava aquele presente que não existia. E a fumaça do cachimbo lhe levava as luzes de uma árvore de natal que nunca teve. E aquele montão de luzes da sua imaginação fazia um natal de brilhos, cores e estilhaços de um futuro que poderia ser diferente. Mas muito rápido as luzes iam e a nóia vinha na certeza de que o mundo todo lhe queria mal. Tinha que buscar outra pedra.

Como um zumbi, o saci mancava de uma perna que teimara em não crescer como a outra. Uma pedra podia fazer o cachimbo pererê fazer a mágica de tirá-lo deste mundo noiado, pois toda gente tinha medo dele. E onde estava a pedra que posta em fogo no cachimbo faria um pererê com esse mundo cruel que não tinha lugar pra quem não encontrava um lugar?

O crack mágico da queima da pedra no cachimbo pererê improvisado numa lata de coca-cola vazia. E aquela fumaça puxada com força e ainda com gosto gasoso da coca da lata vermelha cortava sua garganta, mas dos pulmões ia ao cérebro e como um passe de mágica fazia o mundo iluminado ficar bom, as luzes da árvore de natal piscar de várias cores e a música de natal invadir seus ouvidos para trazer Maria mãe muito perto, tomando o pequeno corpo do saci no colo acolhedor das carícias infantis que nunca teve.

Acordou noiado, junto ao lixo. O mundo real sem a mágica da fumaça do seu cachimbo tinha jogado o saci no lixo. Não é que não tenha futuro. Isso não conta. Ele não tem é presente. E era natal.      

A PARTÍCULA DE DEUS



Olhe atentamente para os lados
Veja a vida que nos envolve
Observe nos raios encantados
A beleza que a visão devolve

 Tudo vem dos nadas que se ligam
Em partículas malditas ou divinas
Que se entrechocam e migram
Formando coisas sólidas e celestinas

 No meio de tudo estamos nós
Com nossa dor, tristeza e alegria
E por temor de sermos sós
Inventamos o amor e a poesia

(Climério Ferreira)

Maria Sapatão

Geraldo Borges

Não tive o contentamento de conhecer Maria Sapatão, o substantivo sapatão, aqui, não tem nada a ver com o significado de hoje em dia, era aumentativo de sapato, mesmo. Além ter os pés grandes, destacava-se por seu comportamento pitoresco. Usava sapatos surrados, presente, com certeza, de alguma madame.

            Aos poucos Maria Sapatão foi virando folclore teresinense. E como eu disse, no começo dessa crônica, não a conheci, de modo que ela tornou-se importante ainda para mim como uma personagem saída das páginas de um romance de província, reinventada pela memória e imaginação do povo, a qual eu também posso acrescentar o meu toque de fantasia.

            Minha irmã conheceu Maria Sapatão, e disse-me que, uma vez, o seu professor de português, no Liceu Piauiense, mandou que ela fizesse uma redação sobre a conhecida personagem, uma espécie de perfil. Minha irmã deve ter saído pelas ruas para conhecer os lugares mais freqüentados por Maria Sapatão, para dar mais autenticidade ao seu texto.

 Isso foi, mais ou menos, pelos idos de mil novecentos e quarenta, depois da Segunda Guerra Mundial. Minha irmã saiu–se muito bem em seu trabalho, devido a sua veia poética, principalmente. Hoje essas simples impressões literárias de uma colegial poderiam estar arquivadas em algum possível Arquivo folclórico do Piauí. Mas, nem sempre, as autoridades competentes sabem avaliar a dimensão social e histórica do que têm nas mãos.

            Existe um pequeno mote a respeito de Maria Sapatão que eu ouvia os mais velhos cantar.

"- Caju tá maduro, tá bom de colher,

     Maria Sapatão tá boa de morrer.”.

Não sei como Maria reagia a isto. O povo sempre gosta de fazer troça com pessoas que não seguem a sua régua, que não andam no seu compasso. Maria Sapatão andava com seus sapatões deixando marcas bem visíveis nas ruas da cidade. Havia também outra história  em que  Maria Sapatão era a personagem principal. Uma turma do Liceu fez o casamento dela com um estudante, de brincadeira. Ela parece que ficou acreditando. E não deixava o colegial em paz. Tudo é história que me contaram. E se estou exagerando na crônica fica por conta do meu estilo.

São poucas as informações que tenho sobre Maria Sapatão. Era uma baiana, com certeza, repleta de penduricalhos, com o rosto pintado. Como chegou à Teresina, não se sabe. Andava requebrando as cadeiras, e os moleques corriam atrás dela fazendo festas, cantando os versos que torno a repetir.

” - Caju tá maduro, tá  bom de colher,

 Maria Sapatão  tá boa de morrer”

 Com certeza, se eu tivesse conhecido Maria Sapatão no seu tempo de fama, eu também teria feito parte da molecada.

Não sei se alguém possui o retrato de Maria Sapatão, a foto, para ser mais claro. Talvez o José Elias, zeloso pesquisador da cultura piauiense, a possua, nos seus guardados. Ou quem sabe o saudoso Josias Clarence que também era um ilustre pesquisador do folclore piauiense, possuísse.

Maria Sapatão talvez tenha sido um dos primeiros moradores de rua da cidade de Teresina, afora  gatos e cachorros abandonados. Parecia uma paisagem ambulante enfeitando as praças e ruas com sua saia rodada e estampada descendo até os calcanhares expondo escandalosamente os seus pés grandes. Imagino como ela se comportaria hoje, sabendo que o seu apelido poderia ter uma dupla interpretação.

Ausentes

Paulo Tabatinga

Amigos ausentes
Vivendo outro tempo
De falsos arrebóis
Amigos ausentes
Fitando horizontes
Sem vida sem sois

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e nesse natal eu me lembro de Edivan, Valney, Ricardinho, Valdir, Alencar, Henrique, meu pai, minha mãe e outros pedaços de mim (edmar)

Azul Teorema ou Fado Pueril


Lazáro José de Paula




adia ,  por  favor,
pra  manhã a  minha  dor
as  franjas  do  cruzeiro do  sul
plantaram   madeixas afiadas
ao  norte   do  equador
de azul  teorema
alivia,  por  favor,  esse  anzol,
no  qual   a  noite  me  fisgou
de qual  dilema  terei     feito  o   meu  poema ?
adia,  que amanhã   é  outro  sistema,  outro  setor
descerei   colina  abaixo
trazendo entre os   dentes,
do  campo,  uma  fina  flor  orvalhada
sêlo  precioso
pruma   canção  perfumada
pra  te  dizer  naquele   momento,
e,    naquele  momento,
apenas  de  qual   dilema
terei  feito  o  meu  poema

ÁGUA


Meus senhores eu  sou a água
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a  rata e os entrefolhos
que  lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está  vago
pois lava as mamas e  por onde cago.
Meus  senhores aqui está a água
que rega a salsa e o  rabanete
que lava a língua a  quem faz minete
que lava o  chibo mesmo da rasca
tira o  cheiro a bacalhau da lasca
que bebe o homem que bebe o  cão
que lava a cona e o  berbigão.
Meus senhores  aqui está a água
que lava os  olhos e os grelinhos
que  lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes  lutas
que lava sérias e lava  putas
apaga o lume e o  borralho
e que lava as  guelras ao caralho.
Meus  senhores aqui está a água
que rega as rosas e os  manjericos
que lava o bidé,   lava penicos
tira mau cheiro  das algibeiras
dá de beber  às fressureiras
lava a  tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um  broche.
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MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE (15.09.1765 / 21.12.1805), além de gênio
literário, mostra-nos há mais de dois séculos a preocupação com a água.

Oeiras visita o Rio

O Rio Continua Lindo

Ferrer Freitas

Estive na última semana  de  outubro  de passagem pelo Rio  de  Janeiro,  que continua lindo, como no samba de  Gil,  acompanhando a   filhota  Juliana e seu "husband", meu  genro Nikolai. Ficamos em hotel  de Copacabana situado no quarteirão entre as  ruas  Ronald de Carvalho e Duvivier, imediações da Praça do Lido.  Na primeira artéria  outrora existiu o "Bierklause", casa de chope  de  decoração  alemã  e  pessoal  de  atendimento vestido a  caráter. Para  tristeza  minha,  hoje  é   uma churrascaria de nome "Carretão".  Na outra, surpreendi-me  de   ainda ali  estar,  mesmo  meio  desativado,  o famosíssimo "Beco das Garrafas", onde inventaram a Bossa  Nova. Trata-se de antiga  travessa  para pedestres que  dava  na  Rodolfo Dantas,  acesso    interrompido por  muro alto. No  térreo  do   prédio  de  nome  “Cervantes”  (o  do  lado  contrário   é  o “Barão  de  Itapetininga”), com  as  famosas boates  de  portas  cerradas,  já  há  algum  tempo,  uma  placa fala de  sua  importância   e,  na  esquina,    uma   loja  de  nome   Bossa  Nova   vende    cd's  e  dvd's,  a maioria de cantores e músicos do importante movimento musical,  além  de  livros.  O beco foi tombado como "Patrimônio Cultural Carioca”  conforme diz  placa  colocada:  “Beco das Garrafas (Bem Cultural Imaterial) -  Circuito  da Bossa  Nova   -  Aqui  artistas  se  apresentaram  nos  palcos  das  boates  Little  Club,  Bottles  e  Baccara  no  final  de  1950  e  início  de  1960.”  

              Por  se  tratar  de  viagem  ao  túnel  do  tempo,  jamais  poderia  deixar  de  rever  o  bairro  de  Noel,  Vila  Isabel,  onde  residi  de  1962  a  1964,    e  aproveitar  para  conhecer  a  estátua do músico e poeta  sentado  à  mesa  de  bar   sendo  atendido  por  garçom  com  pano  à  mão  como se estivesse a   limpá-la,  ainda  exposta  a  letra  do  samba  “Conversa  de  Botequim”,  aquele  que  diz:  “Se   você  ficar  limpando  a  mesa /não me  levanto, nem  pago  a  despesa.”  Desnecessário   dizer  que  é  tudo   em  bronze  e  de  uma  perfeição  inigualável,  inclusive    o  queixo   do   poeta  com   o   afundamento  da  mandíbula,  lado  direito,  causado  por  fórceps  usado  no  seu  nascimento.  Destaque  ainda  para  as  calçadas em pedra  portuguesa do  Boulevard  28  de    Setembro formando  partituras  de  músicas  famosas  do  cancioneiro  popular,  como,   por  exemplo,  o  samba  canção  “Chão  de  Estrelas”,  de  Orestes  Barbosa  e  Sílvio  Caldas.

            Se  fosse  pôr  aqui  tudo  que  vi  (ou  li)  talvez  este  relato  de  viagem  se  tornasse  monótono.  Mas,   não  posso   deixar  de  registrar  (pouca  gente  sabe!)  como  são   inúmeras    as  igrejas  do  centro  do  Rio  em  área  que  permite  o  deslocamento a  pé:  Santa  Luzia,  São  Jorge,  N.S.  do  Carmo  (Memorial  ao  lado),  Santa  Cruz  dos  Militares,  São  José,  N.S. da  Conceição  e  Boa  Morte,  Candelária,  São  Francisco da  Penitência, N.S. da Lapa dos  Mercadores,,  N.S.  Mãe  dos  Homens.  Muitas  em  estilo  barroco,  com  retábulos e  púlpitos  belíssimos.  Tudo  muito  conservado. 

             É  incrível,  mas  o  Rio  de  Janeiro  resiste  a  tudo:  enchentes,  bandidagem,  explosões,  deslizamentos  etc.,  etc.   Em  Copacabana, como  é  sabido,  a  maioria  dos  moradores  é constituída  de  idosos.   Pois,   nada  impede  que  os  velhinhos  e  as velhinhas  desçam   de  seus  apartamentos para  andar  pelo  calçadão,  muito  à  vontade.  É  comovente   ver  os  casais  conversando,  andando  lentamente  para   olhar  a   paisagem  e  o  mar,  muitos   talvez  lembrando o  samba   antológico  “Copacabana”  (“Existem  praias  tão  lindas,  cheias  de  luz./Nenhuma  tem  os  encantos  que  tu  possuis.”),   de   João  de  Barro  (Braguinha)  e  Alberto  Ribeiro,  gravado  em  1946  por  Dick  Farney  com  sua  bela  voz  que  lembrava a  de  Frank   Sinatra,  “the  voice”.  Por sinal Dick, cujo  nome  era  Farnésio  Dutra  e  Silva,   se  vivo  estivesse  completaria  90  anos   no  dia  24  de  novembro.

               Arrematando.  Como  nem  tudo  é  só  alegria,  devo  registrar  que  estava  ainda  no  Rio   quando  faleceu,  aos  87  anos,  aquele  que  considerava   o  melhor  comentarista  de  futebol   do  rádio  carioca, o  gaúcho  Luiz  Mendes,  o  “palavra  fácil”,   conhecido  também  por  “tchê.”   Era   um  figura  extraordinária.  
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(*) Ferrer  Freitas  é  do  Instituto  Histórico  de  Oeiras

   

Terceiro Tempo

Cinéas Santos

Capricho do destino: poucas horas antes de o Timão entrar em campo para conquistar o campeonato brasileiro de 2011, um dos mais festejados ídolos corintianos de todos os tempos saiu de cena sem se despedir dos “loucos”  que o veneravam. Às 4h e 30 m, do  último domingo, dia 4  do corrente, Sócrates Brasileiro Sampaio de Sousa Vieira, aos 57 anos de idade, foi derrotado por um “choque séptico”, decorrente de uma infecção intestinal, segundo boletim médico. Na verdade, há quatro meses, Sócrates vinha perdendo o jogo para uma cirrose que lhe arruinara o fígado. Na sua última entrevista, o “Magrão”, como era conhecido pelos amigos, mais parecia um desses velhos roqueiros tresmalhados que pervagam pelos bares sórdidos do mundo. Segundo um cronista maluco, “Sócrates morreu de viver”.       

            Por duas vezes, tive a oportunidade de vê-lo jogar; a última delas em Teresina. Embora não estivesse numa tarde inspirada, fez duas ou três jogadas que valeram o ingresso. Era, como dizem os cronistas esportivos, “um jogador diferenciado”. Alto ( 1.92), magro,elegante, mais parecia uma garça-real. Corria pouco, mas via o jogo de cima e errava o mínimo. Nos momentos cruciais, lá estava ele, pronto para o arremate. Ao contrário de Aquiles, cujo calcanhar era vulnerável, o do Sócrates era o terror dos zagueiros.

            Estudante de medicina, Sócrates não encarava o futebol como profissão. Jogava no Botafogo de Ribeirão Preto como diletante. Mesmo quando se fez profissional, se lhe cobravam um comportamento compatível com a condição de atleta,  retrucava: “Não sou atleta; sou um artista do futebol”. Em 1978, transferiu-se para o Corinthians e, em 79, ajudou  o Timão a conquistar o título de campeão paulista.O mais é do conhecimento geral: vitórias, títulos, sucesso. Se em campo, encantava os torcedores com seu futebol refinado, fora dos gramados era uma espécie de ícone da esquerda brasileira. Articulado, politizado, em plena ditadura, engendrou a famosa “democracia corintiana” que, segundo um desafeto, “era  apenas um  expediente para fugir da concentração”. Fez campanha pelas “Diretas já” e chegou a comprometer-se a não sair do Brasil. caso a emenda pelas eleições diretas fosse aprovada. Desencantado com o destino do país, transferiu-se para a Itália onde  não se firmou. Na seleção brasileira, brilhou, sem conquistar títulos. De volta ao Brasil, jogou no Flamengo, no Santos e encerrou a carreira com a camisa do Botafogo de Ribeirão Preto, em 1989.

            Fiel à filosofia do carpe diem, nunca se privou dos prazeres mundanos: fumava e bebia como um celerado. Talvez se possa tirar da tragédia do “Doutor” pelo menos uma lição: o talento mal administrado não leva a nada. Fora dos gramados, Sócrates não foi o melhor exemplo para a juventude brasileira. Por rebeldia,talvez não tenha seguido a recomendação dos que faturam com a indústria da morte: “beba com moderação”.
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ilustração: Netto de Deus

Natal pelos 4 cantos

domingo, 4 de dezembro de 2011

Viagem ao passado VI (última parte)

Edmar Oliveira
           
Àquela noite dormi como um anjo, embalado ao deslizar do rio, do grilo cantante e do sapo resmungão. Sonhei com um menino numa canoa, remando rio arriba, entre canaranas, pescando piaus, ancorado a uns galhos de Maria-mole. E sabia que a isca do anzol era o palmito de um buritizal do brejo perto de casa. Senti um gosto de guabiraba na boca e acordei, ainda escuro, no cantar de um galo batendo as asas no quintal. A manhã vinha chegando vagarosamente com um pouco de claridade refletindo o rio manso. O galo já tinha cantado mais de três vezes e eu ali não negava aquela beira de rio, por onde fui posto no mundo.

            A mesa arrumada por Zenóbia, a dona do rancho em que estávamos hospedados, era de uma fartura sertaneja: beiju, cuscus de milho, bolo de goma, café com leite, vitamina de abacate e suco de goiaba. Geraldo, meu companheiro dessa viagem, lambia os beiços querendo aumentar o sabor de um café, que nem tão cedo experimentaríamos novamente. Enquanto tomávamos café (aquele café!) olhávamos umas fotografias que eu fizera no forró de ontem à noite e Zenóbia identificava os pares de dançarinos pelo nome. Um deles, muito mais baixo do que a parceira, era identificado por “Coronel”, um tipo muito popular na cidade. Zenóbia correu pra mostrar a auxiliar a “presepada” do “Coronel”. Ele sempre tava metido em uma, comentavam.

              Depois do banquete no “Tibungo”, na beira do rio Parnaíba, chegara a hora da partida. Tínhamos que deixar a nossa Palmeirais, que tanta emoção nos trouxera na viagem. Arrumamos os embornais, nos despedimos da rancheira e partimos.

            O carro rangia vagarosamente no calçamento irregular. Paramos na igrejinha da praça para uma última foto. Mais adiante paramos no mercado para ver a feira. Qual foi minha surpresa ao ver o “Coronel” meio largado, com os olhos cansados de ressaca, conversando com duas barraqueiras. O baixinho feio parecia gostar muito de mulher. Depois da noitada, já estava ele ali de prosa nova. Mostramos a foto pra ele que ficou contente.

            Entramos novamente no carro, contornamos a praça da matriz e pegamos a estrada. Atravessamos o riacho do Cadoz deixando Palmeirais para trás. Tinham nos falado de um porto de travessia para a cidade de Parnarama, logo depois do Cadoz. Achamos uma estrada carroçal e emburacamos na bicha. Depois de muito andar percebemos que estávamos paralelos ao rio e não indo a um porto. Eu senti uma angústia no peito, como se aquela estrada de terra, das parecidas com as estradas da minha infância quisesse nos reter no passado. Com medo do mistério demos marcha ré e voltamos ao asfalto.

            Fizemos outra parada no Riacho dos Negros, para uma água fria e pegamos a estrada, procurando os Estados Unidos, que tínhamos perdido na ida. A nomeação pomposa que meu tio Tancredo dera à sua propriedade tinha um significado nas minhas lembranças. Um campo de futebol imenso, para que seus filhos (na quantidade de duas equipas) exercitassem o corpo. Uma venda e a casa grande com um muro onde se lia “Estados Unidos”. Essa imagem não tinha achado antes e nem achava agora. Só depois entendi. A estrada perdeu a curva, ficando mais reta, a casa grande ficara muito longe, na beira do rio, e a uma casa nova fora erguida junto ao novo percurso da estrada. Isso não estava nas minhas lembranças.

            Depois de muito perguntar, chegamos. Ao vendeiro perguntei se era o Leonan, meu primo. Era seu filho com seu semblante que eu tinha retido no passado. Fomos à nova casa da fazenda, que parecia desabitada. Arrudiando a casa pelo quintal dei de cara com minha prima Valésia, que fazia uma obra num barracão. Me reconhecendo, correu ao meu encontro. E começou a conversar, como sempre fazia, sem parar. Apresentei o Geraldo e pareceu que eles se conheciam de muito tempo. Logo, logo, ela só falava com ele. Valésia foi buscar minha tia Judith, que estava numa cadeira de rodas, mas absolutamente lúcida. E conversamos muito. Eu com a tia, Geraldo com Valésia. Ele falava de seu romance recém publicado. Ela pegou um leptop e começou a ler o seu. E discutiram como já se fossem velhos amigos. A literatura une os solitários amantes das palavras.

            Eu falava com minha tia do passado e a ela essa conversa fez os olhos brilharem como se falar daquele tempo fosse o único assunto agradável de agora. E já, já, me vi mergulhado num cenário em que vivi menino nas lembranças da minha tia.

            Tínhamos que ir. Tínhamos que deixar o passado. A viagem, fabulosa, precisava acabar. O passado pode alimentar a alma para que estejamos mais felizes e possamos forjar nosso caráter no presente. Pegamos a estrada para a capital, que fora o nosso destino no passado. Agora ela era apenas uma passagem para o aeroporto. Tínhamos que voar para voltar ao presente e viver o futuro que ainda nos resta...
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fotos: o "Coronel" dançarino; a igreginha; Geraldo  e Valésia; minha tia Judith e Leonan

Rio de Janeiro


Graça Vilhena

Em dois momentos
Deus criou o Rio:
no primeiro, sozinho,
pra que se acreditasse nele,
arranjou o mar
e as montanhas.

No segundo, cercado de homens,
pra que se acreditasse neles
segurou cada mão
e criou as favelas.

E todo o resto que há
são apenas postais
que se amarelam ou se avivam
ao gosto do tempo.

klöZ

Nonato Oliveira


Geraldo Borges


A minha amizade com Nonato Oliveira data do começo dos anos setenta, o conheci através do Raimundo Rios, o Mundinho, que tinha a competência de se dar com pessoas de rara sensibilidade. Mundinho era um jovem rebelde filiado ao partido comunista brasileiro. Desiludido de Teresina foi embora para o Rio de Janeiro. Nonato Oliveira também foi embora por alguns tempos Perseverou em seu oficio de pintor. Não demorou muito ficou famoso, badalado na mídia. Visitou galerias importantes pela Europa  expondo os seus quadros.

            Tipo jovial, alegre, vendendo vitalidade, bonachão, se dava bem com todo mundo, com a oficialidade governamental e com a plebe. Bom de copo.

Como é sabido Teresina tem sua marca pictórica expressas em  seus murais, com motivos folclóricos de nossa gente. Ninguém discute o talento do pintor, ele agrada, e pronto. Claro que não trouxe nenhuma novidade para a arte plástica contemporâneas, e por isto mesmo é original, original porque é chão, pinta sua aldeia. Sua pintura penetra os olhos com ênfase de cores, vibrações, é expressiva, É o que importa. Além do mais e reconhecido internacionalmente, até mesmo como escultor e entalhador

            Como escultor nos deu a obra que se encontra  no Encontro das Àguas à beira dos rios Poti e Parnaíba, denominada; - O Cabeça de Cuia e as sete Marias virgens.Uma obra significativa  do folclore piauiense. Não podemos dizer que seja uma obra prima. Mas é de pedra e perdurará quer haja seca ou enchentes nos rios. È um marco.

            A ultima vez que vi Nonato Oliveira, ele estava meio  sorumbático. Já não via seu nome estampado nas manchetes de jornais. Mas não tinha perdido a elegância. Convidou-me para entramos num bar a fim de conversarmos e bebermos alguma coisa. Atendi ao seu convite, embora, ainda não fossem dez horas da manhã.

 Entramos no antigo bar do Santana, na   praça da Liberdade,  em frente a Igreja  São Benedito, que é uma obra de arte, construída a ferro e fogo com o suor dos de escravos e flagelados da seca. Eu pedi cerveja, ele, vodka. Conversamos. Banalidades, esquecidas. A única coisa que me lembro é que falou do nosso amigo Josias Clarence, o mesmo, tinha deixado, ao morrer, um museu particular,  legado da família, e que, com certeza, era muito valioso. Até hoje não sei que fim levou as peças desse museu.

Saímos do bar, mais animado. Eu estava de passagem por Teresina, voltando para Campo Grande, Mato Groso do Sul.  Despedimos - nos. Talvez ele não se lembre mais deste momento, de um instante inesquecível  de seu cotidiano.

 Em  Campo Grande,  como sempre acontece, aos dias de sábado, freqüento os sebos da cidade. E, ocorreu que, uma vez numa dessas visitas ao sebo, conversando com o escritor e professor universitário Gilberto Alves, ele me perguntou por que eu tinha desaparecido. Falei que tinha voltado recentemente de Teresina, Piauí, Ele olhou para mim e enfatizou. – Teresina, Piauí? – Sim Teresina, Piauí. Pensei que ele fosse fazer uma piada. E fiquei com a mosca na orelha, esperando a sua manifestação. Finalmente, ele me perguntou. – Você conhece o Nonato Oliveira pintor? Sorri aliviado. – O Nonato? Sim conheço, é meu amigo. Por quê? – É que eu tenho um quadro dele lá em casa.

Não perguntei –  onde o  adquirira. Talvez eu alguma galeria do Rio de Janeiro ou São Paulo, ou mesmo na Europa. O certo é que me falou com orgulho que tinha um quadro de Nonato Oliveira. Eu disse você fez uma boa aquisição. Ele me convidou para ir a sua casa ver o quadro. Mas nunca deu certo. E como tive de me mudar para outra  cidade, não vi o quadro de Nonato Oliveira, quer dizer, do Gilberto Alves. Mas imagino  sua cor, sua textura, muita tinta, muito sol, a alma do nordeste piauiense.
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foto do artista e um dos seus trabalhos

1 versinho


O POVO TRANSPLANTADO

Eles vieram de longe: dos andaimes de construtoras,
da poeira vermelha, da cidade livre, das invasões
do sertão quente e brabo

                                                                                                  Eles vieram de longe: das montanhas cortadas por trens,
do circuito das águas, das escavações dos minérios,
das históricas igrejas

                                                                                            Eles vieram de longe: das matas fechadas, dos caudalosos rios,
das aldeias mais isoladas, das chuvas eternas e diárias
das terras ainda intocadas

                                                                                                      Eles vieram de longe, de um longe que é mais perto,
de um longe que é quase aqui, de um lugar encravado no centro,
de um recanto de peixe e pequi

                                                                                                          Eles vieram de longe, das fronteiras da américa,
do gosto do chimarrão, os galopes nos pampas,
das chulas e dos lenços no pescoço

                                                                                                                 Eles vieram de longe, praias e morros,
do futebol, carnaval, muito samba
da fala chiada e da ginga

                                                                                                                      
                                                                                                                                     Hoje eles,
                                                                                                                  sujos de barro e cheios de esperança,
                                                                                                                               são o povo daqui
                                     
                                                                                                                            (Climério Ferreira)

Á Pêlo

Ana Cecília Salis

Com os pés e as mãos desatadas
Com passe livre para ir onde bem quiser
Com a autonomia dos pássaros
Com poesia e desenho à lapis


E com batons de variados matizes

Estou presa!

Por favor, venha me tirar daqui...

Brasíla Tombada

Por te tombar, tombamos
                                             Paulo José Cunha


O primeiro a tombar, sob a rodas de um TCB,
foi um morador da Cidade Livre,
cujo nome a história não guardou.

Depois tombaram crianças que seguiam pra escola,
pedreiros, comerciários, empregadas domésticas,
músicos com seus instrumentos,
e mulheres gordas com sacolas, essas que não conseguem correr.

Aí começaram a tombar os bêbados,
os vagabundos, os boêmios,
os afoitos e os doidos varridos.

Até que tombaram e vêm tombando
por dentro dos anos, no açougue público a céu aberto,
motoristas e passageiros,
com sua carne fresca, fria e pegajosa.

E assim, por te tombar, tombamos
e continuaremos a tombar, silenciosos,
nesta singela homenagem 
aos teus órfãos e viúvas.

Tombemos, pois, a cada dia,
já que assim diz a lei.
E a lei deve ser cumprida a qualquer custo,
eis que a lei está acima de tudo, 
inclusive da vida,
assim como da morte.

EM CHINÊS


Lázaro José de Paula

ERA UMA VEZ UMA  HISTORIA  INCOMUM
QUE  REUNIU  MAIS DE  DEZ
CANTOS DE  ARARAS,   ANDORINHAS  E  ANUNS
COISA  PRA MIL  DECIBÉIS
BATIAM  ASAS  COM MUITO  ZÊLO
DEZ  COLIBRIS  A  ENFEITAR  TEU  CABELO

ERA  VEZ  UMA  HISTORIA  EM  CHINÊS
QUE  PRETENDIA  O  LILÁS
VOCE  CHEGOU  MUITO  ANNTES  O.K.
DESTINO  PRA  ALCATRÁS
SEPAROU  O JOIO  DO  NOBRE  TRIGO
E  NA  FUMAÇA  ESCOLHEU  SEUS  SINAIS
DA  TRIBO

MAS  VOCE  FEZ  A  QUESTÃO  DE  MANTER  A  ILUSÃO
E  AUMENTAR A  VOLTAGEM
FICO  OU  NÃO FICO
MERO  DESDEM E  SEM  AVISO AVANÇOU  SOBRE O   TREM...

ERA  UMA  VEZ  MA  AURORA  INFELIZ
QUE  REFLUIA  COM  O  SOL
COISAS  DA  MÃE   NATUREZA,
ALGUEM  DIZ ,  QUE  PERDEU  O SEU  ANZOL
LOUCA  RAINHA,  É  O  O  QUE  ELA  FOI
SUMIU  COM  O  VASSALO  E  SEU  PRATO  DE ARROZ


ELA  APOSTOU   MUITO  CEDO
PERDEU  OS  ANÉIS  E   GANHOU  TODO  MEDO
SOBROU  PAURA  PRUM  VENDAVAL
E NUM  RELANCE  PERDEU
O  CARNAVAL
B R  I N  Q  U E  D O

iniciantes


Luiz Horácio

O cotidiano e sua precariedade formam a base dos contos de Raymond Carver. A rotina dos casais, em grande parte. O tédio diário, inevitável para os personagens de Carver, algumas vezes quebrado por ações violentas, assassinatos não são incomuns.

Carver fotografou com precisão, sem a objetiva  dos sentimentalismos e melodramas, esse universo dos desencontros.

O Raymond Carver, de Iniciantes, não é o mesmo Raymond Carver que ocupou o parágrafo que você acaba de ler.

Mórbido e oportunista leitor, por favor me acompanhe nessa dupla exumação.

Iniciantes, quando tinha a paternidade dividida atendia por  Do que Estamos Falando Quando Falamos de Amor. A partir da interferência "nada oportunista" da viúva do autor teve sua identidade modificada. No entender deste aprendiz, para pior, rumo ao limbo habitado pela grande maioria dos contistas.

Você poderá compará-los facilmente, ambos foram publicados pela Cia. das Letras. Oportunidade para medir os cadáveres. O famoso, Do que estamos falando quando falamos de amor, que rendeu a Carver o rótulo de minimalista,  Carver a criatura de Gordon Lish, o editor que cortou e modificou os contos. Sobre a mesa ao lado  o cadáver original, exposto com todas suas adiposidades e aderências,o Carver de Iniciantes, o autor e seus excessos. Mais um contista, nada além disso.

O editor cortou, cortou sem piedade, mas não parou por aí. Um exemplo do trabalho de Lish é Cadê todo mundo?, aparece com esse título em Iniciantes, e você, descrente leitor, poderá compará-lo com a versão que contou com a “tesoura”do editor em 68 contos de Raymond Carver.A primeira mudança ocorre no título Mr. Coffee e Sr. Conserta -Tudo, e segue com mudanças de nomes de personagens, de tamanho, Lish o reduziu a metade, e o final, também alterado, traz mais impacto.

Foi com Do que estamos falando.... que Raymond Carver foi considerado um expoente do minimalismo, seguia o caminho de Hemingay. Poucos sabiam que tal caminho era indicado/iluminado pelo seu editor. Nesse mundo a exigir enquadramentos e rótulos, onde a literatura desponta como um dos ambientes mais propícios a tal prática, minimalista é uma classificação a ser exaltada.

Não é de hoje que o terreno literário aceita,e bem, uma floresta de excessos. O conto, embora sua suposta exigência de síntese, também se alastra enquanto a qualidade definha.



Pois bem, Carver alcançou fama e reconhecimento, apesar de sua temática repetitiva, graças a tesoura e, vá lá, conhecimento do terreno de Gordon Lish. Isso feito, vem a público a versão out Gordon, e, pelo menos aqui no Brasil, num  pouco costumeiro surto ético tenta-se justificar e criar uma diferenciação positiva pendendo para Iniciantes. A exumação exige calma e atenção, o cadáver de Iniciantes,percebe-se, foi conservado sob as mais requintadas técnicas, mas Do que estamos falando...ainda exala um certo perfume de inquietação. Fundamental às artes e à vida.

Emerson Boy


Emerson Boy, de Oeiras, mora em Sampa, e tem um trabalho inovador. Contira.

domingo, 20 de novembro de 2011

VIAGEM AO PASSADO V

Edmar Oliveira

Quantas lembranças num só dia”, Geraldo comentava enquanto passávamos no portão do cemitério – “nossos antepassados estão enterrados aqui”. Olhei pelo portão as catacumbas que parecia só ter anjinhos, de tão pequeno que era o local dos mortos. Pensei como devia ser pequena a nossa árvore genealógica ali enterrada. O mato alto dava um ar de abandono àqueles mortos. E com certeza a mãe Velha e o Pedro Solano repousavam em uma daquelas sepulturas.

            Contornamos o cemitério, com a algazarra de meninos que saiam da escola e fomos até o alto, junto ao pátio da Igreja Matriz e do mercado. Já anoitecera, mas ainda cedo para o zunido das muriçocas que anunciavam o ataque noturno. Sentamos na praça do mercado e pedimos uma cerveja. Um pouco de cerveja pede um dedo de prosa e ficamos sabendo, que bem ali naquela quitanda um raio atingiu a rede elétrica matando várias pessoas na cidade. Pedro Solano, o meu avô, e o tio Inácio Teixeira, irmão de minha outra avó, não morreram porque estavam de sandálias de rabicho com solado de pneu, encostados no balcão de madeira da venda tomando pinga. A história, já contada inúmeras vezes desde o seu acontecimento, era repetida por quem devia ser muito pequeno na época, mas contada como se tivesse acontecido há alguns minutos na presença de todos ali.

            Engraçado, pensei, o meu avô Sessé, tabelião da cidade, cidadão da antiga vila de Belém que virou Palmeirais, não era lembrado. Tá bom que ele foi embora para a capital há muito tempo e não se enterrou naquele cemitério. Até sua antiga residência, que abrigava o cartório, não existia mais. Mas ele também não era lembrado. Já o Pedro Solano, matador de bodes, roceiro e contador de histórias, era lembrado por toda cidade como uma lenda viva. E eu lembrava naquele momento do seu sorriso cansado, com um cigarrinho no canto da boca, contando uma lorota e mentindo quando dizia que o “corredor” dianteiro do bote tinha tanto tutano quanto o traseiro. Vovó Bebela, esposa do Sessé, nunca engoliu essa conversa do Pedro Solano. Dizia que ele queria lhe passar a perna do bode sem tutano. E o seu neto gostava do “corredor” do bode. O neto, agora velho, se embriagava nessas lembranças com gosto de tutano e carne de bode guisada no leite de coco babaçu.

            Para que as lembranças tivessem mais gosto, quando voltamos ao “Timbungo”, nosso bar, restaurante e pensão, Zenóbia tinha prepara uma galinha com os temperos de nossa infância. Não sobrou sequer um osso da galinha, que um gato debaixo da mesa ajudava a terminar quando já tínhamos ruído o osso duro da galinha caipira.

            Antes entramos na antiga Usina Elétrica que hoje era uma biblioteca. A Usina de luz continuava iluminando como Usina das Letras. Geraldo fez uma doação do seu livro e o meu já se encontrava na biblioteca. Sentimo-nos queridos filhos da terra, que já que a biblioteca da cidade nos conservava nas suas memórias. Gratos.

            Fomos dormir ainda cedo, que a noite caminha muito devagar naquelas paragens. Geraldo dormiu logo e eu não conseguia, tantas eram as emoções que precisavam de digestão junto com a galinha no estômago. Logo um silêncio se impôs ao ressonar do Geraldo e da cantiga de um grilo que desafiava o coaxar de um sapo.

            Era lá muito longe, um tum tum de um zabumba que coincidia com o bater do pé na terra do terreiro de festa. Saí do quarto para a noite estrelada que parecia amplificar o som que trazia uma concertina marcando acordes no espaço. Não sei o que me deu, mas fui hipnotizado pelo som que o vento da noite trazia. Entrei no carro, baixei os vidros e segui pelas ruas desertas, dobrando nos cruzamentos por onde o vento me trazia a amplificação daquele forró. A cada curva, sem saber por onde ia, o som aumentava. Cheguei.

            Os carros estacionavam num pátio. Os ingressos eram vendidos numa tenda, junto com as bebidas. O ingressante no barracão era marcado com um esmalte fluorescente no braço, para poder entrar e sair quando quisesse. E lá dentro do barracão de palha, os músicos no palco, uma luz estroboscópica rotatória no teto mostrava quadro a quadro, como em fotografia, os casais dançando no salão. Casais de todas as idades, velhos e crianças, no mesmo passo miudinho, cada casal atrás um do outro numa roda anti-horária, como se fosse uma quadrilha sem marcação, muito mais uma mistura de um minueto francês com uma polca boêmia. Claro que na adaptação caipira, que em si trazia a característica daquela comunidade. E não pude deixar de observar que quando me arrisco a uns passos de baião danço muito parecido com o que eu estava assistindo ali nos Palmeirais. Eu sabia fazer aqueles movimentos que, a princípio, pareciam estranhos. Era como se eu carregasse marcado no meu dna o modo de dançar dos meus antepassados. Curiosa observação.

            Volto para a pensão, na beira do rio, na noite estrelada. Desliguei o motor do carro e fiquei a ouvir aquele grilo que insistia em desafiar o sapo, que já coaxava rouco. O brilho da noite nas águas calmas do rio Parnaíba me dava a sensação de ter voltado pra casa. Como que eu só tivesse saído para sentir saudades...             




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A igreginha e o forró no barracão que mexeram tanto com o coração do cronista...
O último capítulo na próxima edição do Piauinauta.
Se voc~e não leu os anteriores coloque na pesquisa do blog "Viagem ao Passado" (sem as aspas).



Convite


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    Todos os leitores do Piauinauta, que estiverem no Rio no dia 1 de dezembro, estão intimados a comparecerem às 19 horas na Livraria do Museu da Republica, no Catete. No prédio do Museu ao lado do cinema. Naquele palácio mesmo que Getúlio se matou.
O von Meduna aconteece em Teresina, mas fala da história da psiquiatria e seus métodos cruentos no mundo todo e que foram aplicados aos desgarrados da seca.
Mesmo os que já tenham adquirido o livro, estão convidados a tomar um vinho comigo e a jogar conversa fora.
Espero vocês lá. Anote na sua agenda. Primeiro de dezembro, às 19 horas.

Delírio de um hóspede de von Meduna

Geraldo Borges

Ora, ora, aqui na  minha casa – de - orates, não estou entendendo nada, nada mesmo do que está acontecendo em redor de meu recinto, do meu reino que conquistei, há muito anos, desde o tempo em que aportei por aqui e finquei a minha âncora de coral, com a idade de trinca e cinco anos, no meio do caminho de minha vida, de nossa vida, como diz o poeta, nostra vita. Aqui, no meio desses muros brancos esverdeados de hera, passei a vida inteira lendo Dante, aquele homem de feições severas, nariz adunco, passeando com ele pelos círculos e labirinto do inferno, purgatório, paraíso, acompanhado de Virgílio, às vezes, de Beatriz, terminei misturando tudo, o texto e a realidade e elegi para mim o meu paraíso, no meio dos meus colegas loucos prenhes de fantasias.

            Agora começo a ouvir uma história muita estranha. Espiões entraram sorrateiramente, como ladrões na calada da noite nos aposentos do meu reino, nos escaninhos de meus segredos e estão planejando uma estratégia para me colocar fora de minha estação, do meu castelo, da minha fortaleza. O plano deles é acabar com a minha dinastia. O pior é que já estou sozinho segurando os fiapos de meus fantasmas marionetes da minha própria pessoa. Os homens de branco estão desaparecendo à sombra das árvores com os seus medicamentos. Meus colegas foram embora.

            Eu vou ter que resistir até o fim. Olhando aqui do meu mirante, pela luz opaca de minha clarabóia, vejo no rubro horizonte nuvens vultosas que se aproximam como vândalos para saquear o meu castelo, o meu mosteiro.

 O que se fala do lado de lá dos muros é que o meu castelo precisa desmoronar, vir abaixo, pois é inoperante, mesmo a despeito de toda a sua história  de glória e de loucura. Só servia para fazer doido, foi construído por um. E aqui é minha estalagem, meu castelo, é aqui que me deleito com o meu Dom Quixote, com os meus moinhos de vento, e, também, com o meu Dante seguindo os labirintos e círculos do inferno, purgatório e paraíso. Os vultos que se aproximam feito nuvens no horizonte querem me surrupiar tudo em nome de uma  liberdade provisória.

            Mas, eu só me retiro daqui morto. Pois eu faço parte do Von Meduna. Considero-me um tijolo de suas paredes, um só não. Talvez eu seja uma parede inteira. O que eles querem fazer do meu reino? Um cavalo-de-batalha. Se Napoleão não tivesse ido embora daqui para a Ilha de Elba cavalgando o seu cavalo branco, com certeza iria me ajudar na resistência ao assalto a minha fortaleza, assim como  Átila, Calígula e outros doidos afamados que nos visitavam aqui no sanatório.

            Cada vez mais os meus supostos inimigos se aproximam, estão chegando mais perto das muralhas de minha fortaleza, já sinto o seu cheiro de óleo e vísceras se decompondo, com certeza estão acompanhados de muitos malucos que deviam estar aqui comigo, de meu lado, vestidos de branco, sorrindo para a sombra das arvores. Eu olho para um lado e para outro e não vejo ninguém para quem eu possa dar uma ordem. Uma ordenança. Vou ter que dar ordem às velhas árvores para que elas me protejam contra as ordens dos meus inimigos que estão chegando.

            Finalmente, eles chegaram, ou, melhor declinando, infelizmente. E entraram sem o menor pudor no meu santuário, no meu sanatório. Tinham a chave do meu reino. Só não tinham a fechadura. Com certeza arranjaram a copia com algum espião. Com um leve estalo tomaram de conta de minha fortaleza e me meteram em uma camisa de força, engessaram o meu corpo, mas a minha mente continuou elástica como uma paisagem se desdobrando à luz da madrugada. Eles estão me levando como se leva um espantalho não sei para onde talvez para espantar os pardais buliçosos.

            Absurdo o que estão fazendo comigo. Por que não me deixam in pace no meu reino de loucura? Se eles ao menos soubessem que eu já fui Napoleão, Julio Cesar, eles não me expulsariam de minha casa branca, teriam medo dos gritos dos gansos. Pergunto para onde estão me levando. Não respondem Dizem apenas que eu estou livre. E me mostram a rua, e acrescentam que no lugar onde está erguido o meu sanatório será edificado um grande shopping para as pessoas normais se divertirem com os seus brinquedos. Ora, ora,  orate frates.
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ilustração: Paulo Moura