domingo, 11 de junho de 2017

é desse jeito, meu chapa! (13)


Quando Nietzsche matou Deus não quis dizer que tudo é permitido como queria Dostoiévski para fazer Raskólnikov matar a velha em Crime e Castigo. Apenas que a Verdade socrática não estaria além do homem para explicá-lo. Sócrates tira o direito de fundação da filosofia pelos sofistas apenas para colocar uma Verdade do lado de fora que ficou bem na fita no Deus dos judeus e fez o homem errar por muitos séculos pelo deserto da fé até que Nietzsche precisasse matar essa Verdade com Deus e tudo. Acredite, se quiser. Jesus de Nazaré trouxe essa Verdade judaica para dentro do homem se dizendo filho de Deus. E Deus na terra principia tentando se apoderar do inalcançável que apenas produziu o Torá dos judeus e que ainda hoje se reúnem para interpretar o que diz a palavra, sem nunca conseguir produzir qualquer teologia. Nisso os cristãos conseguiram fundar em Paulo uma doutrina com a missão de se espalhar dos atos dos apóstolos aos coríntios em todo o mundo, acabando com a Verdade que era revelada apenas ao povo eleito. Porque até Saulo ter uma visão e acordar Paulo o cristianismo não existia. É um romano que funda o novo império que vai conquistar Roma. Porque muito mais tarde Lampeduza diria que é preciso que as coisas mudem para que continuem como sempre foram. E o império da igreja romana foi tão pecaminoso e devasso quanto o que substituiu. Conquistou governos, inaugurou o fundamentalismo, criou a guerra santa para impor a fé que professava pela força bruta. E pela força bruta declarou que os negros e índios não tinham alma para permitir a escravidão. Porque a verdade dentro de cada um vai se degenerando conforme as vicissitudes da história. E mesmo que excomunguem Marx, ele disse que o materialismo histórico tinha uma evolução natural só interrompida com a revolução. Quando o capitalismo substitui o feudalismo, já não bastava a força da fé. Era preciso uma fé que aceitasse a riqueza dos bens de produção. O cisma calvinista é apenas um prenúncio do desenvolvimento histórico.  Natural que essa babel cristã encontrasse a divisão em várias pequenas verdades que além de brigarem entre si, tentam negar a Verdade maior, no que a reforça. Em desacordo com a verdade feito homem do cristianismo, bem mais tarde, Maomé refaz a leitura da palavra num outro livro sagrado em que a teologia é a antiga guerra santa dos cristãos para o convencimento. E de lá tenta impor o nome de Alá que já foi grande, mas expulso pelos cristãos do território europeu conquistado. Hoje a verdade de Alá promete virgens aos que se sacrificam para impor uma fé. E se Nietzsche matou Deus, Alá é grande para o desespero dos que esperavam voltar aos sofistas despidos das armas. Desde o 11 de setembro é necessário ressuscitar o Deus cristão, que já era aliado do Deus de Abraão para brigar com Alá. E o mundo, em pleno século XXI, retrocedeu ao século XIX negando os embates libertários acontecidos ao longo do século XX. Amanhecemos, depois de uma ameaça velada de clérigos profetas de que de 2000 não passarás, num novo milênio que retroage numa rapidez milagrosa para que os preceitos da fé, que atrasaram a evolução dos costumes traga de volta o criacionismo, o racismo, a homofobia, a misoginia, a intolerância. A verdade de Alá na luta com o Deus ressuscitado pode crescer ameaçando a paz de quem sofisma sem ter a pretensão de possuir a verdade. Filosofei ou fui um pregador da palavra divina? Por que em nome dela se organizam chacinas? Em nome de Deus tantos crimes foram cometidos que não caberia no inferno os crentes de todas as religiões. Não te pareces? 

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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rioem 1976. Em 31 de dezembro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)    

escrevo


Escrevo como
Quem bebe a nascente
Morrendo de sede
E vivendo indigente

Escrevo como
Quem come o pão
Morrendo de fome
E estendendo a mão.

Escrevo como
Quem implora
Um aceno de saída

Escrevo como
Quem devora
As vísceras da vida

(Geraldo Borges)

Climério

A imagem pode conter: desenho
LEMBRETE TARDIO
para H.Dobal



Meu caro poeta,
Só depois que a gente morre

É que se dá conta
De quantas tardes 
Foram desperdiçadas
Por mero descuido


(Climério Ferreira)
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desenho: Amaral





Quem é você?, diga logo que eu quero saber o seu jogo


Imagem relacionada

Paulo José Cunha *

Acredite: já houve um tempo no Brasil em que não se quebrava nada nas manifestações políticas. Protesto era protesto, depredação era depredação. Raramente alguém saía ferido, e as escolas não eram invadidas, oops!, invadidas não: ocupadas, para usar a expressão atual. E os estudantes não precisavam entrar em greve. Os comícios pelas “diretas já” não tiveram um ato violento. E um presidente da república foi derrubado pelos caras-pintadas da mesma forma. 

Na ditadura, militares foram reprimir uma manifestação estudantil e mataram com um tiro o secundarista Edson Luiz de Lima Souto no “Calabouço”, o bandejão dos estudantes de baixa renda do Rio de Janeiro. Torturas e mortes ocorriam aos montes, mas nas masmorras do regime. Nas manifestações, não. Tanto que a camisa ensanguentada de Edson Luiz foi carregada pelas ruas como troféu e símbolo da truculência dos gorilas, como nos referíamos aos militares que pilotaram a ditadura de 1964.

Atualmente, não há manifestação sem um quebra-quebra patrocinado pelos black blocks. No passado, ao contrário de hoje, os participantes se orgulhavam de aparecer nas fotos. Uma das mais famosas, de Evandro Teixeira, em “O Globo”, exibiu artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Torquato Neto, de braços dados, na Passeata dos 100 mil, em 1968. Todos de cara limpa. Nada foi quebrado  naquela tarde.

Algo anda errado na tendência novidadeira dos black blocks que se mascaram para arrebentar estabelecimentos comerciais e bancos, de carona nos protestos legítimos contra o governo. Destroem-se placas de rua, bicicletas, banheiros químicos, pontos de ônibus. Incendeiam-se carros particulares, ônibus e lixeiras, em atos que atendem por um nome muito antigo: vandalismo. Destruição do patrimônio público em nome da defesa desse mesmo patrimônio? No mínimo, um contrassenso. No máximo, pura imbecilidade. Até porque lixeiras, placas, banheiros e pontos de ônibus são inocentes até prova em contrário...  

Não há registros, nas manifestações do passado, de gente mascarada. Sim, havia repressão policial, enfrentada com paralelepípedos ou “miguelitos”, artefatos feitos de pregos soldados entre si para furar pneus das viaturas policiais, e bolas de gude, que eram espalhadas no asfalto para desequilibrar os cavalos da tropa montada.

Nos protestos atuais, os manifestantes atribuem as depredações a grupos infiltrados. Mas não cuidam de expulsar os infiltrados. Dão a entender que aprovam a ação deles, embora de público os responsabilizem pela baderna e se eximam de responsabilidade.

O roteiro, com poucas variações, é um só: a manifestação segue tranquila até um mascarado agredir a polícia ou ameaçar invadir um prédio público. Aí os policiais reagem, às vezes exagerando na violência. Os vândalos insistem no ataque, a depredação cresce, patrimônios que não tem nada a ver com o peixe são atacados, o caos se instala. A senadora socialista Lídice da Mata (PSB-BA), revelou da tribuna ter visto na manifestação do dia 24 de maio em Brasília provocadores indo pra cima da polícia: “Agrediram até os próprios manifestantes e a polícia ficou como se não tivesse comando”, disse.

Raramente os apoiadores dos protestos reconhecem a ação deletéria dos mascarados.  Os policiais sempre são acusados de ter começado os confrontos, de atacar manifestantes desarmados, “vítimas indefesas de policiais truculentos”. Esse relato é repetido à exaustão, mesmo que se choque com a lógica mais primária: policiais, ao que se sabe, não atacam pessoas por prazer. Ao contrário, eles são treinados para proteger a população – inclusive os manifestantes - e o patrimônio público. Se agem em sentido contrário, cometem atos violentos ou irresponsáveis como o uso de armas letais, devem ser exemplarmente punidos. Simples assim.

Enquanto os organizadores das manifestações – legítimas, é bom que se insista - e os próprios manifestantes não expulsarem de suas fileiras os que se disfarçam para promover a baderna, a escalada da violência vai crescer.

Em tempo: quem não mostra a cara: 1) está mal  intencionado; 2) é o Batman; 2) é o Zorro; 3) é bandido. Por último, se estiver mascarado num baile de máscaras, 4) é carnaval.  
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*Paulo José Cunha é jornalista, professor e escritor        

Tabatinga


A ópera bufa de um cadáver insepulto


congresso dino

(Edmar Oliveira)

A revolta contra o governo usurpador e cheio de negociatas escusas foi à Brasília numa grande marcha pacífica pedindo “diretas já”. Aconteceu o script de sempre: anarquistas e agentes infiltrados partiram para o confronto disparando a senha de ataque à multidão pela força policial. Bombas de gás, tiros de borrachas, alguns nem tanto emborrachados, cavalaria montada e grande aparato militar atacaram, no descampado da esplanada, uma multidão indefesa, desarmada e embandeirada. Há graves feridos em hospitais e ainda não se fez o levantamento dos abatidos no massacre. Entretanto a perda material foi computada na conta de vândalos que justificaram o covarde ataque. Triste de uma gente que odeia vândalos para identificá-los com o protesto pacífico e chora o velório de vidraças quebradas.

Uma mídia hipócrita e parcial comanda a comoção com a depredação do patrimônio público, que não chega a um milímetro do rombo do desvio de recursos roubados pela quadrilha instalada no poder, nem perto das perdas que os trabalhadores terão nas reformas em pauta no congresso nacional. Quem são os vândalos?

No meio da tarde da grande marcha à Brasília, com a multidão já dispersa por uma violenta intervenção policial, um ex-comunista trapalhão ocupando o cargo de Ministro de Defesa de um governo que já acabou, anuncia que o cadáver do presidente insepulto – a pedido de um menino com problemas que preside a Câmara – assinou um decreto convocando as Forças Armadas “para a garantia da Lei e da Ordem no Distrito Federal” por uma semana.

Os personagens burlescos continuaram representando os atos da ópera bufa. As Forças Armadas, mesmo convocadas, declinaram do convite para ocupar o vazio, embora colocassem soldadinhos para garantir a segurança de uma praça de guerra já vazia. O menino mimado, apertado pela oposição, chorava que não pedira as Forças Armadas, mas a Força Nacional – expondo a descoordenação atrapalhada. Os ânimos se exaltaram no congresso mostrando a debilidade de liderança do menino chorão na Câmara e de um presidente do Senado que ameaçava encerrar a seção – único argumento que encontrava na mediocridade de quem passará em branco nos livros de história. Na turbulência por que passava o país naquele dia, eles insistiam em manter a pauta, como se nada estivesse acontecendo.

Comportamento dos que não sabem entender o movimento da história e pedem brioches na falta do pão. Enquanto a oposição se retirava em protesto na Câmara sob vaia dos que queriam seguir com a farsa, o menino irritado continuava a votar a pauta. O deputado Molon alertou: “da última vez que a oposição se retirou em protesto, quem estava sentado nesta cadeira foi deposto e preso” – tentou profetizar se referindo a Cunha, que ocupara antes a cadeira do menino Maia.

E no dia seguinte, o ex-comunista trapalhão, seguido do mudo generalzinho da véspera, anunciava, com voz solene e grave sem reconhecer o erro, a anulação do decreto, mas – incrivelmente – anunciando incorrer no mesmo erro e trapalhada se houvesse ameaças à lei e a ordem. A caneta da mãozinha trêmula do cadáver insepulto ainda ameaçava nova presepada.

O problema é que o cadáver precisa ser sepultado. Há os que desejam que ele seja empalhado no cargo para que as reformas, que tiram os direitos dos trabalhadores, sejam aprovadas. Não se sustenta o nosso El Cid burlesco. Se enterrado, teremos eleições indiretas. Se cremado, eleições diretas sem possibilidade de ressureição das trapalhadas de um governo ilegítimo. Para que se encerre de vez a ópera bufa que nos obrigaram a assistir no “intermezzo” de uma peça que tentava reconstruir a nossa democracia.

Longo intermezzo. Esperemos que não tome o lugar da democracia que queremos construir. Diretas já.
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desenho: Dino Alves