domingo, 17 de setembro de 2017

Sitiado



SITIADO será lançado no Rio, dia 23, no próximo sábado.
Local: Livraria Folha Seca  
Rua do Ouvidor, 37 - Beco do Samba.
Cerveja gelada e tira-gosto na Toca do Baiacu
Sitiados no Samba: Chico Sales, Chabocão e convidados.
Venha passar uma tarde agradável


Na sequência, o Piauinauta apresenta fragmentos dos três primeiros capítulos do romance em que são apresentados os personagens principais e o clima em que acontece a história aqui narrada. Porque "a história é uma coisa que nunca aconteceu, contada por quem não estava lá". 

No site da editora: CHIADO EDITORA










Cap I


Cap I tx

O calor do meio dia naquela trincheira era insuportável.
A farda ficava molhada de suor que lhe tirava o
claro cáqui para justo parecer a cor escura do inimigo. As
gotas de suor da testa escorriam para os olhos lacrimejarem
uma visão borrada do horizonte. Horizonte já distorcido
pelo calor, que evaporava um resto de umidade da terra
ressecada da caatinga após uma chuva orvalhada. De dia
o inimigo não dava sinal de vida, o silêncio era quebrado
pelo voo da juriti ou o canto da rolinha naquela cantiga
borbulhante de um “fogo-pagô”. Os galhos da vegetação
esturricada não se mexiam por falta de um vento que
diminuísse aquele calorão. Isso todos os dias. Mas
exatamente nesse tinha chovido de manhã e o céu nublado
apresentava um mormaço que esquentava mais que o sol.

A ordem era não conversar com o colega de trincheira,
porque tinha que aumentar a voz e revelar-se ao inimigo.
Mas cadê inimigo que não via e a vontade o fazia mirar
a arma numa rolinha, com o dedo coçando para abater a
penosa, quando a barriga começava a roncar. Já era hora da
Ceiça trazer o “de comer” que a fome já esfriava o suor que
escorria na barriga. Ceiça assoviava pela retaguarda no mais
tardar onze e meia. Pelo horário da fome já marcava mais
de meio dia. Bem acabou de pensar, escutou o assobio que
sabia ser de Ceiça e começou a olhar a retaguarda sem deixar
de reparar na possibilidade de o inimigo sair da folhagem
ressecada. Ela vinha abaixada, quase engatinhando entre os
gravetos secos da vegetação rasteira. Estava grávida, mas
a barriga inda não atrapalhava os movimentos de gatinho.

Teodoro distinguiu a roupa da cor de barro, que se confundia
com a terra recém-molhada. Percebeu Ceiça misturada na
paisagem, mas já se fazendo notar. Ela chegava guiada
pelo mandacaru, quase em forma de cruz, que marcava o
lugar na trincheira onde Teodoro ficava, desde as dez horas,
esperando a boia. As rolinhas e juritis fizeram um alvoroço
na aproximação de Ceiça. Ela se aproximou rápido, beijou a
testa suada do marido e entregou o “de comer” num prato de
barro amarrado com o pano de prato. Teodoro desamarrou
o nó do pano e desvirou o prato metendo a mão e pegando
uma coxa da galinha, sem nem esperar a colher que Ceiça
procurava no embornal. Ela já sabia que tinha de falar
baixinho e quase segredou:

“Ontem o povo correu da missa do galo, quando
começou o tiroteio”.

Teodoro, só naquele momento, percebeu que estava
passando o Natal dentro daquela trincheira e jamais se
esqueceria da data que aconteceu em 1925. E como sempre
acontecia no Natal, chovia na manhã e o céu ficava encoberto.
Todo natal amanhecia assim, não sabia como não tinha
lembrado a data até a Ceiça dizer. À noite os revoltosos
atiraram muito na escuridão e ele tinha respondido umas
tantas vezes, não muito mais de dez, segundo contou pela
manhã os cartuchos gastos de sua arma. Lá pelas nove horas,
no respingo de uma chuva rala, engatinhou até onde estivera
o inimigo à noite. Sabia que eles não estavam mais ali, muito
antes da barra do dia os tiros pararam do lado dos revoltosos
e já tinha dado dois tiros sem escutar resposta. Procurou e
encontrou uma boa quantidade de cartuchos das armas dos
revoltosos. Ceiça perguntou pelos cartuchos e Teodoro fez um
movimento de lábio para indicar onde estavam os cartuchos
no fundo da trincheira. Ceiça saltou pra dentro e encontrou
uma boa quantidade de cartuchos usados que guardava,
como se tivesse encontrado um tesouro, no matulão. Dentre
eles tinha três balas intactas que Teodoro comparou com a
dele, para dizer que era do inimigo. Teodoro mastigava uma
cabeça do osso da coxa daquela saborosa galinha e já tinha
comido todo o feijão e arroz do prato fundo – quase uma
travessa – trazido por Ceiça.

“Quanto acha que o Geraldo vai dar nesses cartuchos”?
– perguntou à mulher, mas ressaltando antes de esperar a
resposta – “Tem de valorizar, são os tiros do Natal”.


Cap II


Cap II tx

Abdon estava em Carolina no dia em que a Coluna
Revolucionária Miguel Costa-Prestes chegou à cidade
vinda do Goiás. Antes, os membros do Partido Republicano
de Carolina já tinham feito contato com a Coluna e os
esperavam em festa, acompanhados por boa parte da
sociedade local. Um emissário da Coluna conseguiu
imprimir, em uma das duas gráficas de Carolina, um
número do jornal revolucionário “O Libertador”, contando
os feitos dos andarilhos revoltosos nos sertões de Goiás.
Abdon assistiu à calorosa recepção da Coluna na cidade,
tão diferente do medo que o movimento tenentista fazia
chegar na capital. Um rico membro do Partido Republicano
da cidade fez um sarau em homenagem aos colunistas e
Abdon, que também fora convidado, teve a felicidade de
assistir a números musicais e recitais de poesias – com uma
linguagem mais culta do que a dos folhetos de cordéis que
também vendia com outras bugigangas – e ficou deveras
impressionado com o desenvolvimento artístico e político
de uma cidade tão distante do litoral.

Naquela noite amena, que até reclamava um lençol
para aquecer o corpo na hospedaria de Donana, Abdon
pensava na sua vida e nos últimos acontecimentos. Uma
carga de tecido tinha se perdido numa travessia do Rio
Pindaré e o patrão tinha posto na sua conta. Já fizera mais
de quatro viagens e não conseguia quitar a dívida. O patrão
adiantava algum, para que ele pudesse sobreviver, e a dívida
aumentava. Achava que estava escravo do “carcamano”
para sempre. Precisava mudar alguma coisa.

Dos últimos acontecimentos em Carolina lembrava
o dezenove de novembro, dia da bandeira, que lhe seria
inesquecível, pela presença da Coluna dos tenentes
revoltosos do exército brasileiro. Após o hasteamento da
Bandeira Nacional, foi lido um boletim do tenente-coronel
Cordeiro de Farias, alusivo à data. Entretanto, os discursos
de Juarez Távora e Moreira Lima fizeram eco pela proposta
de um mundo melhor naquela pátria, que nem era dele, mas
sabia que a tinha adotado para sempre. Os oradores davam
sentido à marcha empreendida pela Coluna. Seus membros
precursores eram tenentes das forças armadas brasileiras,
que se revoltaram contra os desmandos da perniciosa política
do café com leite, em que o poder era repartido com o apoio
dos “coronéis” do interior deste grande país, que mantinham
seus privilégios grilando terras e explorando, quase como
escravos, os moradores locais. O sentido da marcha pelos
sertões, frisara enfática e convincentemente Juarez Távora,
era mostrar essa situação aos povos oprimidos e fazê-los
acreditar que havia esperança. O movimento revolucionário
propunha um outro Brasil, livre da corrupção, da exploração
e dos desmandos dos opressores, que ainda possuíam a lei
e os cartórios para a defesa de seus interesses. Abdon tinha
pensado que bem uma revolução podia também livrá-lo de
suas dívidas.

Para libertar o povo da opressão, em ato contínuo
aos inflamados discursos, os revolucionários mandaram
queimar, em praça pública, os livros e as listas relativos à
cobrança de impostos, “verdadeiro auto de fé, praticado
como protesto às extorsões que o fisco oligárquico exerce
sobre o povo escravizado”, nas palavras de Moreira Lima
que ficaram impressas no cérebro de Abdon. A população
assistia a esta queima na maior alegria. Abdon lembrava
que os habitantes fiscalizavam a fogueira e teve um que
reclamou que o seu recibo não tinha sido ainda queimado.

Távora sorriu e o incentivou a atiçar a fogueira para que as
labaredas destruíssem as dívidas do reclamante. Um velho
vaqueiro do sertão, dirigindo-se a Moreira Lima exclamou:
“Seu capitão, eu já tenho setenta e oito anos e até hoje
foi a coisa mió que vi fazê na Carolina, pruquê os dêrêito são
um despotismo”. E, enquanto a fogueira queimava as dívidas
dos carolinenses com a Coletoria Federal, a Filarmônica
local executava a música “Ai, seu mé”, provocando uma
verdadeira euforia no povo mais humilde da cidade.

As lembranças de Abdon cavalgavam que nem as
mulas de suas viagens por essas terras férteis e prenhes de
babaçuais. À tarde os revolucionários começaram uma ação
que eles chamavam de “requisição de mercadorias”, para
uso dos colunistas e para distribuição para os moradores
mais humildes da comunidade. Tudo era pago com notas
promissórias que seriam resgatadas quando a revolução
fosse vitoriosa. Os comerciantes fechavam suas casas para
tentar evitar o que chamavam de “saque”, mas Abdon
achou justa a história das promissórias. Tão justo que ele
mesmo ofertou a sua valiosa carga – as peças de mesclas,
que serviam para a confecção de uniformes militares –, os
animais que seriam valiosos para a marcha dos tenentes,
negociando para ficar com a seda e o linho, que, entretanto,
também foram requisitados pelos revoltosos para presentear
o povo pobre. Abdon só pediu que fossem acrescidos na sua
nota promissória, o que foi feito de pronto, e decidiu entrar
para a Coluna tenentista. Faria uma mudança de vez na sua
vida, pensou naquele momento, e guardou as promissórias
que era a garantia que estava passando de devedor a credor.

A mudança de sua vida estava ligada à mudança de governo.
Aquela era a sua causa.

Cap III


Cap III tx

Quando a barra do dia foi colorida pelo sol que ainda
ia sair, Teodoro cochilou um pouco.

E sonhou que sua trincheira era o Rio Parnaíba e que,
do outro lado, os inimigos eram os mouros que atacavam
os cristãos. Ele era um dos cruzados, que defendiam a terra
santa e esperavam pelo rei Dom Sebastião, que deveria
voltar num corcel pisando os infiéis para instaurar o reino
dos céus nas terras do Piauí. Os mouros eram assassinos,
que vinham, do outro lado do rio, roubar as princesas da
nossa terra. E sonhou com os colunistas vestidos de mouros,
montados em imponentes corcéis, portando uma lança com
que transpassariam seu coração.


***

Os heróis atravessaram o rio que separava as
terras já conquistadas pelos cristãos e as terras dos infiéis
do Maranhão. Nas terras de Mormionda a muralha dos
castelos dos infiéis tremia sob os cascos dos cavalos do
exército de Carlo Magno e seus Doze Pares de França.
A batalha derradeira aconteceria na tomada do castelo
defendido por Ferrabrás. Catapultas do exército de Carlo
Magno ativavam bolas de fogos sobre as muralhas do
castelo. Gigantes aríetes eras arrastados por fortes homens
e a cabeça do carneiro, desenhada na ponta da gigantesca
árvore, facilmente colocava abaixo a porta do castelo.
Homens armados de elmos e espadas invadiram o castelo
e travavam sangrentas batalhas de corpo a corpo contra
os infiéis. Roldão se encarregou de travar combate com
o temível Ferrabás, o filho do almirante Balão. Oliveiros
combatia bravamente, ao mesmo tempo, contra todo um
pelotão do exército dos infiéis. Teodoro se esgueirava entre
as ruelas do interior do castelo e via homens de turbantes
tomados de bexigas da varíola, perdendo membros
destroçados pela peste. Um pestilento tombou por cima de
Teodoro e sussurrou que ele estava na trincheira errada.
Enquanto tinha medo de contrair a varíola do pestilento que
estava por cima do seu corpo e já sem vida, Teodoro assistia
a luta heroica de Roldão e sua espada Durindanda contra
Ferrabrás nos seus trajes sarracenos. Ao mesmo tempo que
Oliveiros brandia sua espada Alta Clara contra o pelotão
de infiéis que morriam atravessados pela lança do bravo
cavaleiro. Enquanto o pelotão mouro sucumbia aos golpes
de Oliveiros, Roldão obrigava Ferrabrás a converter-se à
fé cristã. Os gritos dos mouros que habitavam o Maranhão
eram ensurdecedores. Os infiéis zombavam dos cristãos.
Um maranhense com sotaque de carcamano gritava: “seus
ceroulas, a batalha está perdida”. Não sabia quem ia
ganhar aquela guerra.


***

Cartaz








domingo, 3 de setembro de 2017

RECORDAÇÕES DA CASA PATERNA

(Edmar Oliveira)

Recebi o novo livro de Geraldo Borges (Recordações da casa paterna, 2017, Pi, edição do autor e Manoel Ciríaco) pelo correio e só tive tempo de abrir o envelope no dia seguinte. Ainda bem que não abri o envelope no dia que recebi, senão meus afazeres seriam seriamente prejudicados. Quando dei de cara nas primeiras letras, não consegui parar de ler. Fiz apenas uma ligeira pausa para o almoço e voltei ao livro.

Não é um livro de crônicas, como os dois anteriores (Cidade Submersa, 2011 e Estação Teresina, 2014). Se as crônicas anteriores já traziam o memorialista de forma esparsa, as Recordações são uma autobiografia sequencial deliciosa. Que se inicia antes do nascimento do autor, enredado em destrinchar a genealogia que o trouxe ao mundo, das lembranças do engatinhar nos ladrilhos da casa paterna, das descobertas do mundo nos pequenos detalhes e personagens de sua aldeia, da viagem na balsa que levou a maioria de nós interioranos para a capital, da entrada em Teresina pelo cais – quando a estrada para o sertão ou para o litoral era o rio. 

Nessas primeiras impressões, Geraldo tem o dom de revelar ao leitor piauiense as suas memórias esquecidas, pois são verdadeiras lembranças de arquétipos grudadas no nosso DNA afetivo. Do cuspe ao pé do balcão da venda; do depósito de couro de boi e de bode; do sal vendido a litro de madeira, que retira a umidade e o cheiro de maresia de um mar que nunca tínhamos visto; do vapor-gaiola, que carregava um trem de barcaças com mercadorias desejantes para serem trocadas por gêneros extrativistas, num escambo primitivo sem papel-moeda. Assim ele faz a revelação de nossas próprias memórias escondidas.

Temos uma diferença de idade que se agora não é notada, fazia-nos em gerações diferentes na meninice. Mas eu estava no vapor que aportou na Bacaba do Geraldo para o troca-troca de mercadorias e vi também o seu amigo que fazia verdadeiras maravilhas esculpidas em buriti. Descubro que aprendi a cortar a laranja com o pai do Geraldo  Era como se ele tivesse me roubado a memória para me fazer lembrar. Esses encantamentos, certamente, vários leitores terão. É o autor revelando no leitor – de forma quase mágica – suas próprias recordações esquecidas. Também cheguei pelo cais do Parnaíba, quase que na mesma balsa, e joguei bola na rua de terra batida, que depois foi empredada – como se dizia na época – e muito depois asfaltada.

Quando as recordações de Geraldo vão tecer a sua história pessoal, deixando de lado o genérico, descobrimos que não conhecemos o amigo por mais que tenhamos convivido. A pessoa que vai sendo autobiografada é um desconhecido, acho que também para o próprio autor, pois é ele quem afirma que “quem recorda já não é a mesma pessoa que viveu aquele outro tempo”. 

Mais não digo, para não privar o leitor das descobertas que me encantaram. E ainda reclamo que suas recordações terminam exatamente na época em que nos conhecemos. E de lá pra cá são quase quarenta e cinco anos que ele fica me devendo. Mesmo que “os fatos vividos e lembrados nem sempre são iguais”, nós inventamos a versão do que fomos. E a invencionice é a literatura e sua magia. No que a mentira vira verdade definitiva. Uma boa leitura!



Climério

A PAISAGEM & SEU REFLEXO
Para Edmar Oliveira

Quando na água, a paisagem é trêmula
Vulnerável ao círculo que provoca qualquer mergulho
Da pedra atirada ao pouso macio da gaivota
E, assim, de ponta cabeça as coisas mudam de lado

Uma coisa é a coisa e outra coisa é seu reflexo
O modo de ver é determinado pelo ângulo
Pelo lugar nenhum de cada um ao ver
E a mesma coisa vira seu oposto, se afirma ou nega

A mirada é informada e se produz pelo conceito
Pelo preconceito, pelo preceito, pelo efeito
Pelo aceito, pelo eleito, pelo defeito, pelo afeito
Pelo trejeito, pelo pleito, pelo direito, pelo suspeito

É que a paisagem nunca se impõe por si
É tida porque lida e declarada ao ser descrita
E passa a ser a descrição de si mesma
Mais do que o fato de ser o que de fato é

A paisagem, não se engane quem a olha:
É o cenário que a cultura crê
Que a história retém em seus períodos
E que a gente julga enxergar ao vê-la

(Climério Ferreira)

O TECIDO DA HISTÓRIA



Leo Almeida


De que tecido é composta a História? Qual a matéria que forma os ídolos, os grandes eventos, as lendas? Enfim, de quantas pequenas e grandes mentiras é feita a verdade da História?  Em “Sitiado” (Editora Chiado, 2017, 210 p.), o escritor Edmar Oliveira toca nessas questões com grande elegância, criatividade e humor. Seu romance constitui-se de uma urdidura ficcional que permeia os fatos históricos que marcam a passagem, pelo Nordeste, da Coluna Prestes. Na verdade, o romance focaliza o cerco empreendido pelos colunistas à capital do Piauí, Teresina, cidade onde formou-se o escritor. A estratégia narrativa privilegia os diversos pontos de vistas dos personagens/testemunhas do evento histórico, pondo em destaque aqueles que sempre são meros coadjuvantes, pequenas engrenagens do carro da História. O olhar quixotesco de Teodoro, um pequeno proletário cheio de sonhos e fantasias, que, enviesado, confunde as histórias dos Pares de França, do clássico texto de cordel, com a situação histórica da qual participa ativamente. É pelo olhar de Teodoro que o autor se permite desarmar a versão oficial, abrindo possibilidades outras para a explicação de determinados eventos históricos. Nesse sentido, guardadas as devidas proporções, “Sitiado” é um texto irmão de “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro. O intertexto, ferramenta fundamental na construção de “Sitiado”, configura-se na adoção, por analogia, das narrativas de cordel de autoria de Leandro Gomes de Barros, especialmente a história de Carlos Magno e “A história da donzela Teodora”, de onde o autor extrai as epígrafes de cada capítulo. As narrativas populares encontram eco na visão de mundo do matuto Teodoro e tornam a leitura de “Sitiado” num pequeno jogo de aproximações. Depreende-se dessa leitura que, no fim das contas, não existem fatos, mas versões de fatos. A História, podemos entender, é uma espécie de literatura de ficção que se quer absolutamente verdadeira, sem poder sê-la, pois a visão do historiador é sempre um recorte da realidade, assim como a versão das testemunhas trazem sempre seu ponto de vista. Se para Teodoro, o cidadão piauiense, suas leituras demandam o intertexto de cordel, outro personagem importante na narrativa, o imigrante de origem libanesa Abdon, incorpora os contos/causos do popular personagem turco Nasrudin. Em contraponto às diversas situações por que se depara o personagem, as narrativas do quase folclórico Nasrudin costuram humor e crítica refinados. Abdon, assim como Teodoro, ingressa na Coluna Prestes cheio de sonhos. O primeiro, pragmaticamente, vê-se colunista como forma de resolver um problema financeiro com o patrão. Julgando-se explorado, acredita que a Coluna trará um mundo melhor e aposta nessa possibilidade, ingressando em suas fileiras. Teodoro por sua vez, contaminado pelas fantasias cavaleirescas e pela sincera intenção de mudar sua situação de vida, abandona a farda e segue ao encontro de seu Carlos Magno. Esses dois personagens poderiam sustentar, sozinhos, toda a trama, e o fazem com coerência e substância a partir da construção literária empreendida por Edmar Oliveira que, não se contentando com isso, ainda nos traz a figura emblemática do Lenine do Maranhão, figura interessantíssima que, por si só, seria capaz de compor uma grande história. O personagem, baseado numa figura histórica real, atravessa a narrativa como um relâmpago. De revolucionário político torna-se ao final da vida um místico, cumprindo uma trajetória no mínimo peculiar de alguém que parte de Lênin para tornar-se Antonio Conselheiro. Curioso lembrar que sua vida nos remete à lembrança do processo de mudança em Tolstói que também, na velhice, abandona sua vida mundana e foge para a morte em seu misticismo. A galeria de personagens nos traz a figura de Geraldo, articulador político silencioso. Os personagens femininos são construções que ideologicamente se afastam: por um lado, Donana, mulher empreendedora e romântica, paradoxo que se resolve com a sua decisão de mudar de cidade por sugestão de um novo amor. Do outro lado, Ceiça, humilde e simplória. A primeira, dona de uma pensão, apaixonada pelo libanês Abdon, persegue seu desejo. A segunda, parideira, submissa ao marido, Teodoro, segue sua sina de parir filhos e sofrer ao lado do marido. Ceiça tem um quê de Sinhá Vitória, mas não tem a garra do personagem de Graciliano.

Os personagens Históricos se apresentam na narrativa a partir dos pontos de vistas dos personagens construídos por Edmar Oliveira. Assim, Juarez Távora surge como o prisioneiro garboso e poderoso que se entrega às forças legalistas e Prestes, como um fantasma, atravessa o texto sempre em fuga. “Sitiado” é uma grande coluna arrastando-se em nossas retinas, levando de roldão as gentes que fazem a História, mesmo quando dela não participam.
_____________________

SITIADO teve pré-lançamento na Bienal do Rio, sexta-feira.
Lançamento no Rio: Livraria Folha Seca, Rua do Ouvidor, Beco do Samba, dia 23 de setembro, sábado, das 14 as 16 h.
Aguardando data para lançamento em Teresina, Brasília e Recife.

Gervásio


Um olha sobre a cidade de Teresina



Resultado de imagem para guilherme müller e a invenção visual de teresina 


Ao folhear do livro de Paulo Gutemberg – Guilherme Muller e a invenção visual de Teresina – , nos damos conta do balanço do tempo, das transformações.   Por exemplo. A Coluna da hora na Praça Rio Branco. É um modelo de arquitetura, um monumento histórico de outra época. Mas perdeu a sua utilidade principal, já que todo mundo usa  relógio de pulso. Também se vê a foto de um  orelhão , que não serve mais para nada, pelo menos, na pratica da comunicação auditiva. E um marco do passado. Este é um olhar interessante que as fotos favorecem ao leitor atento. De modo que a leitura das fotos nos propicia uma viagem pelas avenidas, logradouros, atravessando o tempo, um leque de luz. E cada olhar do leitor vai descobrindo novas faces e fases do trabalho de Paulo Gutemberg.

Na fotobiografia de Teresina, não apenas o cenário político nos é apresentado, festas cívicas e religiosas, como, também, cenas  ribeirinhas,  como por exemplo, as lavadeiras batendo roupa, homens trabalhando no calçamento das ruas, canoas no leito do rio com pescadores solitários  A cidade progredindo, se urbanizando Também fotos onde autoridades presenciam o asfaltamento de estradas.  Fotos  representando  a liturgia do poder.

Nem uma   foto sobre a Estação do Trem  aparece no livro, o que talvez seja um descuido. Pois  trata-se da estrada de ferro, tão importante para o Piauí e o Maranhão, como o rio Parnaíba.  A Estação  foi o  local onde o fotografo Guilherme Muller desembarcou. Bem que poderia ter deixado uma lembrança. Um souvenir, um cartão postal. Hoje o espaço da estação restaurado nos propicia uma nova visão cultural.

Outro descuido é a ausência do Porto no cais do rio Parnaíba com os vapores   gaiola. Esses dois meio de comunicação (o trem e o vapor)  foram até certo período da nossa história o eixo por onde fluía os nossos produtos agrícolas..

O livro do Paulo Gutemberg  tem duas contextualização, um recorte biográfico que trata da vida do fotografo Muller, uma dissertação bem elaborada; o outro recorte trata   da  própria evolução urbana da capital pictoricamente falando.

 No inicio, a cidade, com a  chegada do fotografo Muller,  era  espaçosa, tinha mais paisagem ruralista,   menor população, de modo que quase ninguém via pessoas na rua, a não ser quando saiam aos domingo para a missa.. Aos pouco a cidade foi crescendo e mudando a sua arquitetura; diminuindo o tamanho dos quintais, residências dando lugar as comércio. Incluindo novas praças  derrubando árvores. Exigindo mais pontes para atravessar os rios na sua ânsia de novos espaços. Como aconteceu com as amendoeiras de toda a Rua da Gloria.  

 Teresina hoje não é mais a Teresina, cidade verde, sob o olhar de Coelho Neto, é uma cidade cinza,  e o asfalto reverbera aos olhos de seus habitantes. Mas tem uma história, esta historia foi registrada em parte na câmara do fotografo Guilherme Muller. Hoje, na era do celular, todo mundo tem a história de Teresina gravada,  de conformidade com o seu interesse.

Eu peço licença ao Paulo Gutemberg  para oferecer esse livro, já que me sinto um pouco seu coautor, para um punhado de pessoas que  não foram fotografadas;  mas, sem sombra de duvidas, ajudaram a dar impressão e imagens a nossa cidade,   quer como figuras populares, e outros tipos de personalidades.

Portanto ofereço este livro ao motorista Gregório, santo e padroeiro dos desvalidos, ofereço  este livro ao Pedro Margarida, que tinha um ambulatório e cuidava  da saúde das mulheres da rua Paissandu. Ofereço este livro  ao Manelão, que divertia as crianças com brincadeira de cinema, ofereço este livro a Nicinha, a folião mais conhecido de nossos carnavais de rua. Ofereço este livro ao Guarany poeta e humorista da Radio Difusora, ofereço esse livro a Guadalupe a primeira vereadora mulher em Teresina. Ofereço este livro às lavadeiras do cais, aos pescadores do rio Poty e do rio Parnaíba, ao Cabeça de Cuia.  Ofereço este livro a seu Cornélio  e a comunidade árabe que frequentavam o Café Avenida. Ofereço este livro ao Providencia que amava tanto as artes cênicas e também ao Santana E Silva. E a todos que habitam ou habitaram  essa cidade;   pessoas invisíveis, mas presentes no imaginário cultural da  nossa capital. E deles que eu quero falar. Todos já estão mortos. Mas sem eles a nossa cultura popular seria inexpressiva. Falo do fotografo Lambe Lambe que quebrava o galho do estudante pobre tirando retrato três por quatro, falo do camelô, que fazia discurso de propaganda de seus remédios na Praça da Bandeira   para o povo doente. Falo dos locutores dos alto falantes do bairro Macaúba e do Mafuá. Falo da Maria da Inglaterra, do Braguinha  conversando na esquina da Farmácia do Povo. Falo do Mafuá e do Augusto Ferro.

  Guilherme Muller chegou a Teresina procedente de  Belém via são Louis, pela estrada de ferro, desembarcou na estação com sua maquina fotográfica à tiracolo. Saiu de uma cidade cosmopolita, mas se deu bem aqui na província. Veio trabalhar na Imprensa Oficial,  cobrir  os eventos políticos do estado novo. Casou com uma filha da terra, de família  da nobreza rural e teve muitos filhos. Logo virou um personagem importante no meio da sociedade piauiense, em parte devido o  glamour da sua profissão e, também, pelo zelo de seu trabalho. Teresina quase toda foi fotografada por ele, desde os prédios mais antigos aos mais modernos Fez também fotos aéreas da cidade. As suas fotos agora arrumadas em álbum num livro, sem rigorosamente  uma linearidade cronológica,  são a testemunha de como uma cidade, mesmo com sua fúria de progresso conseguiu manter algumas edificações  que bem representam o seu passado; se bem que algumas foram sacrificadas. Rever as fotos de Guilherme Muller é reviver uma época de emoções e perplexidade, desde o tempo do Estado Novo, passando pela frágil  democracia que elegeu Getúlio Vargas, a sua morte, e por fim uma prolongada, escancarada e vergonhosa ditadura. 

Quanto ao texto de Paulo Gutemberg é bastante elucidativo ao que diz respeito ao tratamento do  tema focado em seu trabalho. Na verdade, disserta muito bem, sobre a história do desenvolvimento da imprensa no Piauí, especialmente quando aos recursos técnicos e humanos. Os dois ilustres protagonistas  do  livro  se completam.


Cidade Vigiada de Paulo Tabatinga

A imagem pode conter: planta

POR QUEM AS PANELAS DOBRAM

Navio negreiro

(Edmar Oliveira)

O comandante da Rota de São Paulo confessou desavergonhadamente que não pode tratar morador de favela igual trata moradores do Jardins. Mais: a polícia perde o respeito se não for enérgica com favelados, mas os moradores de bairros nobres podem ficar assustados se não forem tratados com delicadeza. A política da desigualdade foi declarada oficial por um representante bastante graduado de um poder público.

Temos aqui apenas a confissão de que a nossa sociedade não aboliu a escravidão, como quis uma lei que ninguém cumpriu. Aqui fica entendida a revolta de nossas elites às leis de cotas, aos negros nas universidades, à bolsa-família, aos aeroportos ficarem parecidos a rodoviárias, ao perfume da madame usado pela empregada, ao massacre policial diário para manter os favelados no seu lugar.
Eu não sei se vocês perceberam, mas tudo isso – que por um momento diminuiu, um pouco que seja, o enorme fosso social entre a casa grande e a senzala – voltou a nossa normalidade escravagista. As universidades serão pagas para tirar os pretos e pobres de suas salas; o cartão do bolsa-família é ridicularizado e rapidamente apagado de nossa vista; nos saguões dos aeroportos não há mais chinelo de dedo com bermuda e regata viajando; os direitos das domésticas – que vinham sendo regularizados – foram ao ralo, tão desnecessários quanto o perfume que elas ousaram usar; as linhas de ônibus foram reorganizadas para que os bondes das favelas não cheguem à zona sul; a guerra às drogas é só uma desculpa para manter a favela sob controle; portanto é mais que natural que a polícia escrache os filhos dos escravos e trate com polidez o “cidadão de bem” dos Jardins.

Foi contra a ameaça de se querer apagar – ou esmaecer um pouco que fosse – a secular divisão de nossa sociedade escravocrata, que a classe média – guardiã das elites na esperança inútil de por elas ser acolhida – foi para as ruas bater panelas com a camisa da seleção. Não foi pela corrupção como a mídia tentou fazer parecer. Foi para mandar as esquerdas para Cuba. Foi por medo de que o país se tornasse bolivariano – gritou quem nem sabia a identidade do libertador – e abolisse a escravidão com que nos acostumamos desde que trouxemos escravizados amontoados nos navios negreiros para o cais do Valongo.

Ainda hoje festejamos na Praia de José Gonçalves, em Búzios, a memória desse corajoso traficante de almas. Pela praia que leva seu nome fizemos um tráfico irregular – mesmo depois da abolição – sob as vistas grossas de um governo que sempre protegeu os seus malvados favoritos. José Gonçalves foi um grande traficante de escravizados. José Gonçalves é o verdadeiro herói dessa nação escravocrata. É ele que mantém os pretos e pobres “sob controle” nas favelas, usando a força policial do governo para, em nome de um novo tráfico, manter a escravidão. E a elite toma uísque nas praias de José Gonçalves e de João Fernandes, enquanto a classe média não permite que ônibus com os negros das favelas desembarquem na zona sul. Até hoje querem os negros em suas cozinhas, não na praia.

Então, parem de cobrar que os batedores de panelas voltem às ruas porque a corrupção só piorou. Não foi por ela – até foi porque alguns bolivarianos se enlamearam nas práticas privativas dos donos dessa nação. Mas não era a razão principal. As panelas gritaram porque a ordem natural de uma nação escravocrata ameaçou mudar.

As panelas calaram-se porque os donos da nação escravocrata voltaram ao berço esplêndido ao som do mar e a luz do céu profundo, enquanto o braço forte do escravizado movimenta o impávido colosso.

E eles querem que assim seja eternamente…
__________________________
foto da internet sem indicação de autoria.