domingo, 27 de novembro de 2016

é desse jeito, meu chapa (3)


desenho: Amaral


(...) Sabias tu, que até o Lampião de nosso orgulho de valentia, foi invenção de um árabe? Pelo sim, pelo não, Ibraim Abraão – que foi secretário de padre Cícero, tendo também dado uma mão de ajuda na fama do santo – chegou a Lampião em nome do padre. O árabe fez as primeiras e definitivas imagens do cangaço, que apesar do esforço de Getúlio de esconder os celuloides, são as imagens de Ibraim quem atestam não ser lenda a passagem de Lampião no sertão e deu feições a todo seu bando. Dadá e Corisco tão ali também na nossa epopeia sertaneja. Corisco foi um homem justo e ético, mesmo sem saber do que se tratava. Talvez a maior demonstração de sua conduta esteja no seu comportamento com Dadá. Foi cobrar uma dívida com um inimigo seu e lhe raptou a filha menor. Mas não tocou um dedo nela até ela ficar maior e deixar se namorar. Um respeito deste tamanho ecoa pelo sertão, certificando o código de ética dos tempos dos cangaceiros. E, para nós nordestinos, descendentes de nossos gregos e troianos, não importa se macaco ou cangaceiro, pois os heróis estão umbilicalmente ligados à conduta ética, pouco importando de qual lado se enfileirou. E Glauber Rocha fez dois filmes, a Ilíada e Odisséia nordestina, com Antonio das Mortes e Corisco numa guerra santa onde o Dragão da Maldade enfrenta Deus e Diabo.. O Riobaldo do Guimarães Rosa dispara onde está o código de honra sertaneja: “Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”. E é neste pensamento mais forte que Corisco foi buscar as razões de sua luta. Mas, seguindo os ditames vigentes no sertão. Homem de palavra vale mais que a valentia. E é isto que faz o inimigo respeitar a lida. Ela tem regras claras, embora nem nunca escritas como queria o poder do sertão, que sempre interpretou a lei escrita de acordo com seus interesses. Corisco foi um chefe decente. E justo, embora as atitudes tenham que se precipitar, pois é ainda Riobaldo quem nos ensina que “a chefe não convém deixar os outros repararem que ele está ansiando preocupação incerta”. Um chefe tem que ser justo e rápido: e isto era a ética nos tempos de Corisco. E é este paladino da justiça e honra nordestina que Glauber Rocha vai recriar no sertão a origem da nossa genealogia guerreira que começa num filme de um árabe no calor da caatinga junto aos xique-xiques e mandacarus e passa no nosso inconsciente as imagens de Glauber retratando o sertão para o mundo ver no nosso cinema novo. A nossa Inês é bem melhor viva que morta e comendo bode no sertão. Pois bem, o ensopado do borrego alentejano nos chegou por aqui no cabrito ao molho, que na nossa aldeia leva leite de coco babaçu como os peixes, mas só melhora o paladar daquele caldo ensosso e ralo do Alentejo. Também não é por demais supor que o bode assado do sertão tem o gosto do que nos deixaram os árabes na sua ancoragem em nossa árvore genealógica. Mais equidistantes de nossos achadores, longe da terra dos nossos antepassados de África e negado com veemência a mãe índia que foi ama de leite e iniciadora de nossa sexualidade, nascemos numa aldeia pequena, numa casa de palha de saber negado aos indígenas locais, alimentados pelo cuscuz de milho e do beiju da mandioca, duas plantas que herdamos do nosso nativo. Os africanos determinaram a culinária baiana, mas o mungunzá e o mudubim – como comemos cosido na casca ou cru – chegaram ao sertão com a pimenta malagueta de África. O cabrito, que a gente chamava de criação – criado no entorno lambendo o sal da terra e se alimentando do nada – se misturava às galinhas, capotes, patos, um peru vez por outra para o Natal. Mas quando a mãe de gente ficava prenha de nossos irmãos mais novos uma boa galinha era amarrada ao pé da mesa da cozinha para engordar sem andar e deixar as carnes moles. Para o moleque que acabava de nascer, o leite tinha de ser engrossado com pirão de parida da galinha gorda que tinha seus dias contados nos meses que faltassem para o nascer do moleque. Tens saudades daquele gosto? é que em casa de pobre a parida ficava com a parte nobre da galinha gorda, mas a família toda dividia as sobras com mais farinha para aumentar o pirão de parida pra barriga de quem também teve desejos de comer da galinha nos meses em que a barriga de mãe aumentava e o desejo dos meninos já nascidos também crescia. E essa história de quem conheceu a lenda terminou virando prato típico em restaurantes de balneários, mas o verdadeiro pirão de parida nos alimentou antes de chegar aos restaurantes, lembras disso? E tinha também a galinha gorda virada pedra que a gente buscava no fundo do igarapé num esporte náutico, o primeiro deles que vimos e vivenciamos nos banhos de rio. E o nosso rio era barrento e não esverdeado como esse Douro que corre por aqui ondulado. O Parnaíba deixava as barbas do velho monge escorrer lento para um litoral que só sabíamos na imaginação. As barbas do velho monge – dos versos de Da Costa e Silva – era a nossa estrada para o fundo do sertão ou para um litoral que ficava mais longe do que as caravelas portuguesas podiam percorrer nos nossos livros de história, meu chapa. O nosso mundo era tão pequeno, mas o achávamos maior do que precisava. Um dia o Parnaíba nos deixava num cais no descampado da praça que fundava a cidade. Pra quem não conhecia outra era uma cidade grande, acho que tu não lembras dessa dimensão do que eu estou dizendo. Falar disso aqui na Ribeira do Porto é pra gente entender que todo esse casario colorido e essas ruas tortuosas, assim como o correr encrespado desse rio batendo no cais já estavam aqui quando chegávamos ao nosso cais de uma cidade que nos ia abrigar no coração do sertão. N fez uma pausa enquanto eu tentava compreender o descompasso entre os tempos do que ele me falava e eu não disse nada até ele retomar o fio de uma meada embaralhada que parecia trocar de cores e de carreteis que o trançar dos bilros no seu barulho que martelava as lembranças tecendo a renda da memória (...)

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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rio em 1976. Em 31 de janeiro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)

Professor Solfiere





Era um antigo professor do liceu piauiense. Não foi meu professor. Mas me deu uma lição, que passo agora a relatar. Coisa que não mais acontece nos tempos de hoje, tempo em que aluno não respeita professou e vice-versa.

 Foi aí pela década de 70.

Naquele tempo, acontecia muitas vezes, estudantes, da classe média, metidos a revolucionários, sair do conforto da casa de seus pais e ir morar no subúrbio de um bairro distante. Pois é. Sua filha Marcelina e o Edmar fizeram isso. E me convidaram para morar com eles. Cada qual entrava com contribuição necessária para a manutenção da casa.

Um dia o professor resolveu nos fazer uma visita. Lembro-me bem. Era um dia de sábado. Um dia bonito pra chover, como sé se diz no Piaui.

 Quando o professor chegou, a nossa casa popular, no conjunto Parque Piauí, acompanhado de outra pessoa, eu estava lendo dentro de meu pequeno quarto, que tinha uma rede, uma pequena estante com livros, lápis e cadernos, e uma mesa com uma cadeira.

Eu acho que eu lia um romance. Pois sempre fui devotado ao romance. O moço que vinha com o professor falou alto, fazendo talvez alguma observação sobre a casa. Nisso o professor me viu debruçado sobre as páginas de meu romance e disse, em tom abrandado para o seu acompanhante.

 Fala baixo o rapaz está estudando.

 Não acostumado com a deferência das pessoas mais velhas me toquei com o seu gesto. Ele não era m professor comum. Em qualquer lugar que estivesse deixava a marca de sua didática e pedagogia. Com ele, aprendi, naquele momento, mais relações humanas do que em todo o meu tempo de ginásio e colegial. Esse encontro casual sempre perpassa a minha lembrança, como um exemplo que dificilmente se repetirá no mundo de hoje.

(Geraldo Borges)

SNOWDEN




Fui ver Snowden. Oliver Stone transforma em suspense uma história real. Por isso o filme prende e até assusta com uns sustos típicos de Stone. Mas nos conta a história assustadora de como os EEUU montaram a rede de espionagem mais inacreditável da face da terra usando hackers e outros gênios da informática. Todos garotos que tiveram suas vidas presas no espaço cibernético. Snowden é um gênio autodidata, nunca terminou o segundo grau, mas o surpreendente talento na internet o fez chegar a cargos tops na inteligência americana com menos de 29 anos, quando “desertou” para não ser morto ou isolado em Guantánamo como espião traidor da pátria.

E o interessante é que ele não conta um só segredo americano, nem trai a inteligência americana com segredos que poderiam ser repassados ao inimigo. Ele apenas divulga, o que sempre foi negado pelo governo americano, que todas as pessoas do globo terrestre são monitoradas pelo uso dos seus celulares, redes sociais e computadores (até quando desligados, pasmem!). Você carrega no bolso o seu controle. O celular – através do GPS – monitora os nossos passos onde quer que estejamos. (Um parêntese, não era à toa que um amigo nordestino, que se recusa a usar celular, chama o aparelho de chocalho. O vaqueiro acha o boi pelo chocalho; nós, pelo celular somos achados). E – não é o que acontece aqui, mas nos países em conflitos de interesse americano – podemos ser mortos por controle remoto. Claro que pode haver erros e o morto pode ser outro – e isso parece ser um dos efeitos colaterais que atormentaram Snowden. Mas é assustador estarmos monitorados pelo grande irmão.

Todas os seus telefonemas, suas conversas nas redes sociais são gravadas em nuvens infindáveis e um programa pode localizá-las e reproduzir sem necessidade de autorização judicial. Aconteceu com Dilma e ela denunciou na ONU. Aconteceu na Petrobrás para ajudar no golpe. Se o seu computador, mesmo desligado é atualizado pela Microsoft, Snowden confessa que o Serviço Secreto americano pode ativar a câmara do seu computador desligado e invadir a sua casa, o seu escritório. Assustador?
Foi isso que esse menino revelou para o mundo e o filme usa a linguagem da ficção para ser mais real. É nesse mundo que acreditamos. Oliver Stone acertou em cheio.

E por que não tiveram maiores impactos essas revelações assustadoras? Porque preferimos a segurança da nossa navegação do que a liberdade de pudermos navegar sem bisbilhoteiros. Talvez porque não temos nenhuns motivos para sermos vigiados. Pegaram um terrorista, mas eu não sou terrorista; o meu vizinho é do MST, mas eu não sou do movimento; o meu colega estava na passeata contra o golpe, mas eu não estava. Como no poema, um dia vão te levar e você não vai poder pedir ajuda a ninguém.

E eu posso ser denunciado até por está escrevendo isso aqui.      

(Edmar Oliveira)