domingo, 8 de outubro de 2017



Agora é a vez de Teresina, a cidade sitiada pela Coluna Prestes entre o Natal e o Ano Novo de 1925. SITIADO é um romance que acontece antes e depois deste cerco, onde o autor 
"serve-se do episódio da passagem da Coluna por terras mafrenses para desenvolver sua ficção histórica. Mas uma ficção histórica diferente. Nela, a trajetória e as características físicas e psicológicas dos personagens são menos importantes do que a relevância do painel multifacetado de referências fundadoras do imaginário do povo piauiense exibidas em cada linha do texto". (no texto de Paulo José Cunha).

Dia 27 de outubro, sexta feira, na Entrelivros da Avenida Dom Severino, às 19 horas. 

O Piauinauta convida os conterrâneos para esta passagem da Coluna Prestes por terras mafrenses, acompanhada de Carlo Magno e seus Pares de França, na fabulosa epopeia da península ibérica, que Leandro Gomes de Barros traz para o sertão!


***

O livro pode ser comprado pela internet no site:



Um romance em que o imaginário é o principal personagem

                           
   Paulo José Cunha, jornalista, professor e escritor

À primeira mirada, Sitiado (Edmar Oliveira, Chiado Editora, 2017) parece uma obra de ficção, como diz a contracapa, baseada na passagem da Coluna Prestes pelo nordeste do Brasil na primeira metade do século XX, onde ocorreu o único cerco a uma capital brasileira – Teresina, no Piauí.

Isso até que é verdade. Mas tratá-lo assim é praticar uma redução injusta, porque o livro é mais, bem mais.   

Na obra, Edmar Oliveira revira o histórico da Coluna e do próprio Piauí. Ele, que já havia feito uma primeira e bem sucedida incursão pela história piauiense em Terra do Fogo (Vieira e Lent, RJ, 2013),  -  seu romance de estréia, -  serve-se do episódio da passagem da Coluna por terras mafrenses para desenvolver sua ficção histórica. Mas uma ficção histórica diferente. Nela, a trajetória e as características físicas e psicológicas dos personagens são menos importantes do que a relevância do painel multifacetado de referências fundadoras do imaginário do povo piauiense exibidas em cada linha do texto. Em Terra do Fogo ele já havia tangenciado esse formato intrigante de desenvolver uma trama para desvelar aspectos constitutivos do imaginário piauiense. Em Sitiado, desnuda por inteiro a intenção de abordar os marcos fundadores da história e sua importância na formação do povo do Piauí utilizando-se de personagens que têm a única finalidade de ajudá-lo nessa tarefa. Ou seja, o livro não é, definitivamente, um thriller. Dele não se espere grandes momentos de ação, rompantes heróicos, arroubos cívicos. A viagem que Oliveira propõe é de outra ordem.

Um rápido parênteses: a colonização das terras piauienses recebeu influência decisiva dos migrantes sírio-libaneses, que se entregaram no território semi-virgem desde o final do século XIX aos dias de hoje à atividade milenar em que são mestres: o comércio. Desde muito tempo, os nativos do Piauí se acostumaram a conviver com sobrenomes como Adad, Bichara, Bucar, Caddah, Chaib, Cury, Hidd, Kalume, Ommati, Sady, Said, Tajra e tantos outros. O jornalista e escritor Higino Cunha documentou a chegada dos primeiros árabes mascates ao Piauí: “De 1985, começaram a chegar ao Piauí os primeiros sírios, estacionados de preferência nas cidades ribeirinhas do rio Parnaíba e entregando-se ao comércio de modas e fantasias. É uma gente honesta, laboriosa e econômica. Todos sabem ler e escrever na língua árabe e têm muita facilidade de aprender e falar o português” (História das Religiões no Piauí, Teresina, 1924).

Edmar Oliveira homenageia e distingue a presença decisiva dos migrantes sírio-libaneses na formação econômica no imaginário do povo piauiense no personagem Abdon, mascate que se fascinaria pelas figuras emblemáticas e corajosas que empreenderam a grande marcha liderada pela figura heráldica de Luiz Carlos Prestes. E mais não conto de Abdon  para não fazer o leitor perder o interesse pelo desenrolar do enredo.

Os integrantes da Coluna são pintados no romance como heróis valentes e românticos daqueles tempos áridos, o que de certa forma transporta obrigatoriamente a narrativa para o cenário dos dias difíceis do Brasil de hoje: “O movimento revolucionário propunha um outro Brasil, livre da corrupção, da exploração e dos desmandos dos opressores, que ainda possuíam a lei e os cartórios para a defesa de seus interesses”.

Entremeando o texto e o entrecho, Oliveira envolve o leitor nas referências do imaginário mágico dos heróis da literatura de cordel, como o imperador Carlos Magno e seus Doze Pares de França, personagens do cordel mítico de Leandro Gomes de Barros. Trechos daquele livrinho vendido e declamado nas feiras, que embalou os sonhos dos nordestinos delirantes por tantas e tantas décadas funcionam como epígrafes/preâmbulos aos capítulos do livro. Com isso, a própria narrativa se encharca da epopéia dos heróis e vilões  medievais, item obrigatório de exame a quantos freuds e jungs  se atrevam a estudar os arquétipos do imaginário nordestino.

Com a precisão do pesquisador dedicado, que vasculhou cuidadosamente os compêndios que relatam a história nordestina e piauiense, o autor ambienta seus personagens nos marcos fundadores dessa história. E faz com que o leitor dialogue e se envolva com a realidade social da época. Teresina, a capital sitiada, é apresentada na inteireza de um tempo que o progresso engoliu. Como se tomasse o leitor pela mão, Edmar Oliveira o conduz pelas ruas e avenidas de barro batido daquele tempo, quando as vias ostentavam os nomes ingênuos e poéticos com que foram batizadas, antes que fossem trocados pelos nomes sem graça das autoridades de ocasião.
O livro é leve, e se mais não me aprofundo no enredo, como disse, é para não privar o leitor do prazer da viagem.

Reza a lenda, entre os críticos de literatura histórica que, depois de A Guerra do Fim do Mundo, de Vargas Llosa, que mergulhou nas profundezas da epopéia dos beatos de Canudos (que já tinha sido retratada sem retoques romanescos no antropológico/sociológico Os Sertões, de Euclides da Cunha), qualquer pretensão de ficção histórica no Brasil já nasce frustrada. Pois Edmar Oliveira frustrou a lenda. E, de quebra, ainda ofereceu ao povo brasileiro e sobretudo ao povo do seu Piauí, tão carente de referências que alavanquem sua auto-estima, um retrato romanceado e épico de um momento único de sua história.

A boa literatura brasileira só tem a agradecer ao autor por esse belo presente.           

   

A BATALHA DE OLIVEIROS COM FERRABRÁS


Trecho de SITIADO:

Os heróis atravessaram o rio que separava as
terras já conquistadas pelos cristãos e as terras dos infiéis
do Maranhão. Nas terras de Mormionda a muralha dos
castelos dos infiéis tremia sob os cascos dos cavalos do
exército de Carlo Magno e seus Doze Pares de França.
A batalha derradeira aconteceria na tomada do castelo
defendido por Ferrabrás. Catapultas do exército de Carlo
Magno ativavam bolas de fogos sobre as muralhas do
castelo. Gigantes aríetes eras arrastados por fortes homens
e a cabeça do carneiro, desenhada na ponta da gigantesca
árvore, facilmente colocava abaixo a porta do castelo.
Homens armados de elmos e espadas invadiram o castelo
e travavam sangrentas batalhas de corpo a corpo contra
os infiéis. Roldão se encarregou de travar combate com
o temível Ferrabás, o filho do almirante Balão. Oliveiros
combatia bravamente, ao mesmo tempo, contra todo um
pelotão do exército dos infiéis. Teodoro se esgueirava entre
as ruelas do interior do castelo e via homens de turbantes
tomados de bexigas da varíola, perdendo membros
destroçados pela peste. Um pestilento tombou por cima de
Teodoro e sussurrou que ele estava na trincheira errada.
Enquanto tinha medo de contrair a varíola do pestilento que
estava por cima do seu corpo e já sem vida, Teodoro assistia
a luta heroica de Roldão e sua espada Durindanda contra
Ferrabrás nos seus trajes sarracenos. Ao mesmo tempo que
Oliveiros brandia sua espada Alta Clara contra o pelotão
de infiéis que morriam atravessados pela lança do bravo
cavaleiro. Enquanto o pelotão mouro sucumbia aos golpes
de Oliveiros, Roldão obrigava Ferrabrás a converter-se à
fé cristã. Os gritos dos mouros que habitavam o Maranhão
eram ensurdecedores. Os infiéis zombavam dos cristãos.
Um maranhense com sotaque de carcamano gritava: “seus
ceroulas, a batalha está perdida”. Não sabia quem ia
ganhar aquela guerra.

O TECIDO DA HISTÓRIA


Leo Almeida, escritor, professor de literatura, músico

De que tecido é composta a História? Qual a matéria que forma os ídolos, os grandes eventos, as lendas? Enfim, de quantas pequenas e grandes mentiras é feita a verdade da História?  Em “Sitiado” (Editora Chiado, 2017, 210 p.), o escritor Edmar Oliveira toca nessas questões com grande elegância, criatividade e humor. Seu romance constitui-se de uma urdidura ficcional que permeia os fatos históricos que marcam a passagem, pelo Nordeste, da Coluna Prestes. Na verdade, o romance focaliza o cerco empreendido pelos colunistas à capital do Piauí, Teresina, cidade onde formou-se o escritor. A estratégia narrativa privilegia os diversos pontos de vistas dos personagens/testemunhas do evento histórico, pondo em destaque aqueles que sempre são meros coadjuvantes, pequenas engrenagens do carro da História. O olhar quixotesco de Teodoro, um pequeno proletário cheio de sonhos e fantasias, que, enviesado, confunde as histórias dos Pares de França, do clássico texto de cordel, com a situação histórica da qual participa ativamente. É pelo olhar de Teodoro que o autor se permite desarmar a versão oficial, abrindo possibilidades outras para a explicação de determinados eventos históricos. Nesse sentido, guardadas as devidas proporções, “Sitiado” é um texto irmão de “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro. O intertexto, ferramenta fundamental na construção de “Sitiado”, configura-se na adoção, por analogia, das narrativas de cordel de autoria de Leandro Gomes de Barros, especialmente a história de Carlos Magno e “A história da donzela Teodora”, de onde o autor extrai as epígrafes de cada capítulo. As narrativas populares encontram eco na visão de mundo do matuto Teodoro e tornam a leitura de “Sitiado” num pequeno jogo de aproximações. Depreende-se dessa leitura que, no fim das contas, não existem fatos, mas versões de fatos. A História, podemos entender, é uma espécie de literatura de ficção que se quer absolutamente verdadeira, sem poder sê-la, pois a visão do historiador é sempre um recorte da realidade, assim como a versão das testemunhas trazem sempre seu ponto de vista. Se para Teodoro, o cidadão piauiense, suas leituras demandam o intertexto de cordel, outro personagem importante na narrativa, o imigrante de origem libanesa Abdon, incorpora os contos/causos do popular personagem turco Nasrudin. Em contraponto às diversas situações por que se depara o personagem, as narrativas do quase folclórico Nasrudin costuram humor e crítica refinados. Abdon, assim como Teodoro, ingressa na Coluna Prestes cheio de sonhos. O primeiro, pragmaticamente, vê-se colunista como forma de resolver um problema financeiro com o patrão. Julgando-se explorado, acredita que a Coluna trará um mundo melhor e aposta nessa possibilidade, ingressando em suas fileiras. Teodoro por sua vez, contaminado pelas fantasias cavaleirescas e pela sincera intenção de mudar sua situação de vida, abandona a farda e segue ao encontro de seu Carlos Magno. Esses dois personagens poderiam sustentar, sozinhos, toda a trama, e o fazem com coerência e substância a partir da construção literária empreendida por Edmar Oliveira que, não se contentando com isso, ainda nos traz a figura emblemática do Lenine do Maranhão, figura interessantíssima que, por si só, seria capaz de compor uma grande história. O personagem, baseado numa figura histórica real, atravessa a narrativa como um relâmpago. De revolucionário político torna-se ao final da vida um místico, cumprindo uma trajetória no mínimo peculiar de alguém que parte de Lênin para tornar-se Antonio Conselheiro. Curioso lembrar que sua vida nos remete à lembrança do processo de mudança em Tolstói que também, na velhice, abandona sua vida mundana e foge para a morte em seu misticismo. A galeria de personagens nos traz a figura de Geraldo, articulador político silencioso. Os personagens femininos são construções que ideologicamente se afastam: por um lado, Donana, mulher empreendedora e romântica, paradoxo que se resolve com a sua decisão de mudar de cidade por sugestão de um novo amor. Do outro lado, Ceiça, humilde e simplória. A primeira, dona de uma pensão, apaixonada pelo libanês Abdon, persegue seu desejo. A segunda, parideira, submissa ao marido, Teodoro, segue sua sina de parir filhos e sofrer ao lado do marido. Ceiça tem um quê de Sinhá Vitória, mas não tem a garra do personagem de Graciliano.


Os personagens Históricos se apresentam na narrativa a partir dos pontos de vistas dos personagens construídos por Edmar Oliveira. Assim, Juarez Távora surge como o prisioneiro garboso e poderoso que se entrega às forças legalistas e Prestes, como um fantasma, atravessa o texto sempre em fuga. “Sitiado” é uma grande coluna arrastando-se em nossas retinas, levando de roldão as gentes que fazem a História, mesmo quando dela não participam.



PREFÁCIO DE SITIADO

                              
                                     

             SITIADO é a segunda obra na linha ficcional de Edmar Oliveira. Esse notável piauiense de Palmeirais, radicado no Rio de Janeiro. Tal como a primeira, “Terra do Fogo”, foi alicerçada em fato histórico. Antes de abraçar, ou ser abraçado pela literatura, o autor exerceu a psiquiatria com competência e louvor. Dela extraiu algumas experiências e situações utilizadas nos livros “Ouvindo Vozes”, em 2009, e “von Meduna” em 2011.  

              Agora, servindo-se de outro fato histórico, a Coluna Revolucionária Miguel Costa- Prestes, criou este romance. Escrito na terceira pessoa e de atmosfera, às vezes lírica, às vezes trágica. Também de passagens e personagens epopeicos. O livro é composto de 21 capítulos. Todos epigrafados com versos do cordel, que se estendem, adequadamente, ao longo do texto ficcional. E que funcionam como uma espécie de trilha sonora. Muito mais do que reforço à narrativa. Por sinal, atraente e emocionante.   

            O texto inicia-se nas trincheiras dos soldados piauienses, montadas nos arredores da cidade de Teresina, quando esta se viu cercada pela Coluna, nos últimos dias do ano de 1925. A única capital do País sitiada por aquele movimento. A partir daí, a ficção mistura-se, envolve-se e se imbrica, mutuamente, com a realidade histórica.

             A própria Coluna que, normalmente apareceria como pano de fundo, surge com o ímpeto de uma personagem autônoma e vigorosa. Além de divisor do espaço e do tempo. A ela se juntam os protagonistas: o soldado Teodoro; o mascate libanês Abdon;  o comerciante coxo Geraldo;  e Bernardino - o “Lenine da Mata”,  introdutor do espiritismo na região central do Maranhão. Figuras emblemáticas que vão sendo reveladas ao longo do texto.

                          A Coluna, após percorrer por 13 estados (Do Rio Grande do Sul a Bahia) acabou com seus chefes exilados na Bolívia. E utilizava uma estratégia defensiva, como explicaria Luís Carlos Prestes: “O nosso intuito (...) era o de manter a revolução, esperando que, nas capitais, alguma eventualidade nos proporcionasse o ensejo para o golpe decisivo sobre a tirania opressora. Por isso, evitamos choques. Não nos interessava o combate decisivo”. (“A Coluna Prestes”, p. 189, de Anita L. Prestes, 4ª Ed., Paz e Terra). 
 
             Como a capital piauiense estava fortemente protegida não proporcionou a eventualidade almejada e, por consequência, não foi invadida. Ao contrário, ainda, prenderam um dos líderes revoltosos, o tenente Juarez Távora que, curiosamente, não esboçou  a  reação esperada de um oficial revolucionário. Aqui, Edmar Oliveira deixa à mostra a famosa dúvida histórica: de que ele já estava cansado e convicto da “falência da empreitada” e por isso se deixou prender. Pode ter sido, mas isso fica a cargo da História. Tanto quanto o insucesso da Coluna na cidade paraibana de Piancó, que fixou o começo do fim do movimento.  
        
             Edmar Oliveira descreve Teresina do meado da década de 20 com toda fidelidade, inclusive citando os nomes originais dos logradouros e o surgimento dos sobrados e mansões que foram ocupando seus espaços vazios. E, com muita sensibilidade, o drama dos moradores durante o cerco. 
  
           Outra descrição que ressalta pela força e vigor é a da paisagem do sertão baiano, comum a todo Nordeste. Vale transcrevê-la: “A vegetação ia se estreitando pelo caminho, apertando a passagem da tropa. Eram mandacarus, veleiros, chiques-chiques, unha de gato, facheiros, macambiras, coroas-de-frade, todos eles eriçados em grandes e duros espinhos (...)  Era a Estrada do Cruel e o nome rezava, conforme o desatino de quem fazia aquela passagem. Quanto mais iam em frente, mais a mata de espinho rasgava a carne das pernas e dos braços. Também as mãos que protegiam os rostos ficavam lanhadas e não conseguiam desviar os espinhos que marcaram as faces daqueles homens”.  
 
                SITIADO não acaba com a Coluna. Continua. E deixo o desfecho para o leitor, porque não sou estraga-prazer. De uma coisa posso assegurar: terá boas surpresas. Pois, trata-se de um livro muito bem escrito, feito com garra, imaginação e talento.

  
JOSÉ RIBAMAR GARCIA
-  advogado e escritor –
Membro da Academia Piauiense de Letras
                                                                               

A PRISÃO DE OLIVEIROS



Trecho de SITIADO:

Notou que sua espada era curva como as sarracenas
e que o exército a que pertencia não tinha nos uniformes e
nos escudos a cruz de Cristo. O major que conduzia a tropa,
reparando bem, tinha um turbante árabe e procurava, na
estrada da beira do rio, o exército inimigo. De repente o
céu tremeu num trovão e o relâmpago cegou seu exército.
Ficaram como encantados. Quando o encantamento
passou, viram um nobre cavaleiro, num magnífico cavalo,
em armadura de um grande guerreiro cristão, com um
escudo com a cruz cristã, viseira com penacho, uma grande
lança na mão direita e na esquerda dava para reconhecer a
famosa espada “Alta Clara”, característica de um dos Doze
Pares de França. O exército sarraceno estava perplexo e
caiu de joelhos diante do cavaleiro cristão. Este tirou a
viseira e mostrou a tez morena, os olhos duros, o semblante
pétreo. Jogou as armas e o escudo no chão e falou em voz
firme: “Sou Oliveiros e entrego-me prisioneiro”. O chefe
sarraceno pediu que não atirassem, mas quem teria coragem
de enfrentar, mesmo desarmado, aquele cavaleiro? O chefe do
exército sarraceno balbuciou: “Capitão Oliveiros, não?”,
ao que Oliveiros respondeu: “Não sou capitão, não pertenço
mais a este exército, sou Oliveiros, general do exército
cristão e um dos Doze Pares de França do imperador Carlo
Magno, e agora seu prisioneiro de guerra”. Oliveiros e seu
cavalo andavam na frente com o exército que o capturou
atrás, como se o seguisse e não como o batalhão que o tivesse
capturado. De volta para a cidade, parecia que o prisioneiro
conduzia seus captores. O cavaleiro fazia da espada que lhe
fora devolvida, uma cruz e conduzia todo o exército como se
fosse uma procissão. E Teodoro sentiu que ele e mais quatro
companheiros haviam sido convertidos pela fé do cavaleiro.
Chegando diante do castelo do almirante Balão, Teodoro
ouviu em claro e bom som: “E, naquela multidão / Levando
os prisioneiros,/ Entregou os cavaleiros / Ao almirante
Balão. / Ele lá, como um leão, / Em desesperos fatais. /
Igualmente a Satanás / No dia que o céu perdeu, / Disse: –
Desses, quem venceu / O meu filho Ferrabrás?”

impressões

           


"Uma das estratégias aplaudida na carpintaria do romance de Edmar Oliveira é a que o autor utiliza para estruturar a trama da historia: o contraponto. Ou melhor, um triangulo narrativo: a história da Coluna, personagens históricos, heróis nacionais, uma historia antiga e já bem surrada, didática, espalhada por ai em teses acadêmicas. Vem depois a eixo da narração que está centrado na vida cotidiana de um povo, personagens que se sugestionam com as escaramuças da Coluna e até tomam partido, uns contra, outros a favor. O autor mostra com clareza como uma revolta pode mexer com os sentimentos de um povo simples e tocar no seu juízo; o terceiro lado do triangulo são os delírios de alguns personagens que incorporam a subjetividade do romance de cordel dos Doze Pares de França; esse último lado do triangulo e o mais impressionante para que o romance fique de pé E o lado subjetivo da profecia que todo bom romance tem como ingrediente. E a parte profética da história. E o delírio". 

(Geraldo Borges, escritor)

A DONZELA TEODORA


Trecho de SITIADO:

As folhas de carnaúba apareciam no
clarão dos tiros. Um estrondo maior fez tremer a terra em
que estava deitado. Parecia tiro de canhão. Após o estrondo,
os gritos lancinantes vinham da escuridão. Lembrou de uma
adivinhação da Donzela Teodora:

“...Donzela, o que é a vida?
diz ela: um mar de torpeza
o que pode assemelhar-se
à vela que está acesa
às vezes está tão formosa
e se apaga de surpresa”

A guerra continuava ao longe e um tropel de cavalos
chamou sua atenção para o outro lado. Mesmo na pouca
luz da lua, pôde distinguir perfeitamente os cavaleiros. Sem
dúvidas, Roldão e sua espada “Durindana” batiam-se ao
cavaleiro Oliveiros. A espada “Alta Clara” e a “Durindana”
tintilavam no cruzar dos movimentos dos cavaleiros. Aquela
batalha não estava nos livros de cordel que sabia de cor.
Os Pares de França travavam uma luta entre os iguais,
os cavalos relinchavam, mas era possível ver nitidamente
a cruz cristã na armadura de cada cavaleiro.

dia 27 de outubro na Entrelivros, às 19 horas, em Teresina




Na internet pode ser adquirido pelo site:

domingo, 17 de setembro de 2017

Sitiado



SITIADO será lançado no Rio, dia 23, no próximo sábado.
Local: Livraria Folha Seca  
Rua do Ouvidor, 37 - Beco do Samba.
Cerveja gelada e tira-gosto na Toca do Baiacu
Sitiados no Samba: Chico Sales, Chabocão e convidados.
Venha passar uma tarde agradável


Na sequência, o Piauinauta apresenta fragmentos dos três primeiros capítulos do romance em que são apresentados os personagens principais e o clima em que acontece a história aqui narrada. Porque "a história é uma coisa que nunca aconteceu, contada por quem não estava lá". 

No site da editora: CHIADO EDITORA










Cap I


Cap I tx

O calor do meio dia naquela trincheira era insuportável.
A farda ficava molhada de suor que lhe tirava o
claro cáqui para justo parecer a cor escura do inimigo. As
gotas de suor da testa escorriam para os olhos lacrimejarem
uma visão borrada do horizonte. Horizonte já distorcido
pelo calor, que evaporava um resto de umidade da terra
ressecada da caatinga após uma chuva orvalhada. De dia
o inimigo não dava sinal de vida, o silêncio era quebrado
pelo voo da juriti ou o canto da rolinha naquela cantiga
borbulhante de um “fogo-pagô”. Os galhos da vegetação
esturricada não se mexiam por falta de um vento que
diminuísse aquele calorão. Isso todos os dias. Mas
exatamente nesse tinha chovido de manhã e o céu nublado
apresentava um mormaço que esquentava mais que o sol.

A ordem era não conversar com o colega de trincheira,
porque tinha que aumentar a voz e revelar-se ao inimigo.
Mas cadê inimigo que não via e a vontade o fazia mirar
a arma numa rolinha, com o dedo coçando para abater a
penosa, quando a barriga começava a roncar. Já era hora da
Ceiça trazer o “de comer” que a fome já esfriava o suor que
escorria na barriga. Ceiça assoviava pela retaguarda no mais
tardar onze e meia. Pelo horário da fome já marcava mais
de meio dia. Bem acabou de pensar, escutou o assobio que
sabia ser de Ceiça e começou a olhar a retaguarda sem deixar
de reparar na possibilidade de o inimigo sair da folhagem
ressecada. Ela vinha abaixada, quase engatinhando entre os
gravetos secos da vegetação rasteira. Estava grávida, mas
a barriga inda não atrapalhava os movimentos de gatinho.

Teodoro distinguiu a roupa da cor de barro, que se confundia
com a terra recém-molhada. Percebeu Ceiça misturada na
paisagem, mas já se fazendo notar. Ela chegava guiada
pelo mandacaru, quase em forma de cruz, que marcava o
lugar na trincheira onde Teodoro ficava, desde as dez horas,
esperando a boia. As rolinhas e juritis fizeram um alvoroço
na aproximação de Ceiça. Ela se aproximou rápido, beijou a
testa suada do marido e entregou o “de comer” num prato de
barro amarrado com o pano de prato. Teodoro desamarrou
o nó do pano e desvirou o prato metendo a mão e pegando
uma coxa da galinha, sem nem esperar a colher que Ceiça
procurava no embornal. Ela já sabia que tinha de falar
baixinho e quase segredou:

“Ontem o povo correu da missa do galo, quando
começou o tiroteio”.

Teodoro, só naquele momento, percebeu que estava
passando o Natal dentro daquela trincheira e jamais se
esqueceria da data que aconteceu em 1925. E como sempre
acontecia no Natal, chovia na manhã e o céu ficava encoberto.
Todo natal amanhecia assim, não sabia como não tinha
lembrado a data até a Ceiça dizer. À noite os revoltosos
atiraram muito na escuridão e ele tinha respondido umas
tantas vezes, não muito mais de dez, segundo contou pela
manhã os cartuchos gastos de sua arma. Lá pelas nove horas,
no respingo de uma chuva rala, engatinhou até onde estivera
o inimigo à noite. Sabia que eles não estavam mais ali, muito
antes da barra do dia os tiros pararam do lado dos revoltosos
e já tinha dado dois tiros sem escutar resposta. Procurou e
encontrou uma boa quantidade de cartuchos das armas dos
revoltosos. Ceiça perguntou pelos cartuchos e Teodoro fez um
movimento de lábio para indicar onde estavam os cartuchos
no fundo da trincheira. Ceiça saltou pra dentro e encontrou
uma boa quantidade de cartuchos usados que guardava,
como se tivesse encontrado um tesouro, no matulão. Dentre
eles tinha três balas intactas que Teodoro comparou com a
dele, para dizer que era do inimigo. Teodoro mastigava uma
cabeça do osso da coxa daquela saborosa galinha e já tinha
comido todo o feijão e arroz do prato fundo – quase uma
travessa – trazido por Ceiça.

“Quanto acha que o Geraldo vai dar nesses cartuchos”?
– perguntou à mulher, mas ressaltando antes de esperar a
resposta – “Tem de valorizar, são os tiros do Natal”.


Cap II


Cap II tx

Abdon estava em Carolina no dia em que a Coluna
Revolucionária Miguel Costa-Prestes chegou à cidade
vinda do Goiás. Antes, os membros do Partido Republicano
de Carolina já tinham feito contato com a Coluna e os
esperavam em festa, acompanhados por boa parte da
sociedade local. Um emissário da Coluna conseguiu
imprimir, em uma das duas gráficas de Carolina, um
número do jornal revolucionário “O Libertador”, contando
os feitos dos andarilhos revoltosos nos sertões de Goiás.
Abdon assistiu à calorosa recepção da Coluna na cidade,
tão diferente do medo que o movimento tenentista fazia
chegar na capital. Um rico membro do Partido Republicano
da cidade fez um sarau em homenagem aos colunistas e
Abdon, que também fora convidado, teve a felicidade de
assistir a números musicais e recitais de poesias – com uma
linguagem mais culta do que a dos folhetos de cordéis que
também vendia com outras bugigangas – e ficou deveras
impressionado com o desenvolvimento artístico e político
de uma cidade tão distante do litoral.

Naquela noite amena, que até reclamava um lençol
para aquecer o corpo na hospedaria de Donana, Abdon
pensava na sua vida e nos últimos acontecimentos. Uma
carga de tecido tinha se perdido numa travessia do Rio
Pindaré e o patrão tinha posto na sua conta. Já fizera mais
de quatro viagens e não conseguia quitar a dívida. O patrão
adiantava algum, para que ele pudesse sobreviver, e a dívida
aumentava. Achava que estava escravo do “carcamano”
para sempre. Precisava mudar alguma coisa.

Dos últimos acontecimentos em Carolina lembrava
o dezenove de novembro, dia da bandeira, que lhe seria
inesquecível, pela presença da Coluna dos tenentes
revoltosos do exército brasileiro. Após o hasteamento da
Bandeira Nacional, foi lido um boletim do tenente-coronel
Cordeiro de Farias, alusivo à data. Entretanto, os discursos
de Juarez Távora e Moreira Lima fizeram eco pela proposta
de um mundo melhor naquela pátria, que nem era dele, mas
sabia que a tinha adotado para sempre. Os oradores davam
sentido à marcha empreendida pela Coluna. Seus membros
precursores eram tenentes das forças armadas brasileiras,
que se revoltaram contra os desmandos da perniciosa política
do café com leite, em que o poder era repartido com o apoio
dos “coronéis” do interior deste grande país, que mantinham
seus privilégios grilando terras e explorando, quase como
escravos, os moradores locais. O sentido da marcha pelos
sertões, frisara enfática e convincentemente Juarez Távora,
era mostrar essa situação aos povos oprimidos e fazê-los
acreditar que havia esperança. O movimento revolucionário
propunha um outro Brasil, livre da corrupção, da exploração
e dos desmandos dos opressores, que ainda possuíam a lei
e os cartórios para a defesa de seus interesses. Abdon tinha
pensado que bem uma revolução podia também livrá-lo de
suas dívidas.

Para libertar o povo da opressão, em ato contínuo
aos inflamados discursos, os revolucionários mandaram
queimar, em praça pública, os livros e as listas relativos à
cobrança de impostos, “verdadeiro auto de fé, praticado
como protesto às extorsões que o fisco oligárquico exerce
sobre o povo escravizado”, nas palavras de Moreira Lima
que ficaram impressas no cérebro de Abdon. A população
assistia a esta queima na maior alegria. Abdon lembrava
que os habitantes fiscalizavam a fogueira e teve um que
reclamou que o seu recibo não tinha sido ainda queimado.

Távora sorriu e o incentivou a atiçar a fogueira para que as
labaredas destruíssem as dívidas do reclamante. Um velho
vaqueiro do sertão, dirigindo-se a Moreira Lima exclamou:
“Seu capitão, eu já tenho setenta e oito anos e até hoje
foi a coisa mió que vi fazê na Carolina, pruquê os dêrêito são
um despotismo”. E, enquanto a fogueira queimava as dívidas
dos carolinenses com a Coletoria Federal, a Filarmônica
local executava a música “Ai, seu mé”, provocando uma
verdadeira euforia no povo mais humilde da cidade.

As lembranças de Abdon cavalgavam que nem as
mulas de suas viagens por essas terras férteis e prenhes de
babaçuais. À tarde os revolucionários começaram uma ação
que eles chamavam de “requisição de mercadorias”, para
uso dos colunistas e para distribuição para os moradores
mais humildes da comunidade. Tudo era pago com notas
promissórias que seriam resgatadas quando a revolução
fosse vitoriosa. Os comerciantes fechavam suas casas para
tentar evitar o que chamavam de “saque”, mas Abdon
achou justa a história das promissórias. Tão justo que ele
mesmo ofertou a sua valiosa carga – as peças de mesclas,
que serviam para a confecção de uniformes militares –, os
animais que seriam valiosos para a marcha dos tenentes,
negociando para ficar com a seda e o linho, que, entretanto,
também foram requisitados pelos revoltosos para presentear
o povo pobre. Abdon só pediu que fossem acrescidos na sua
nota promissória, o que foi feito de pronto, e decidiu entrar
para a Coluna tenentista. Faria uma mudança de vez na sua
vida, pensou naquele momento, e guardou as promissórias
que era a garantia que estava passando de devedor a credor.

A mudança de sua vida estava ligada à mudança de governo.
Aquela era a sua causa.

Cap III


Cap III tx

Quando a barra do dia foi colorida pelo sol que ainda
ia sair, Teodoro cochilou um pouco.

E sonhou que sua trincheira era o Rio Parnaíba e que,
do outro lado, os inimigos eram os mouros que atacavam
os cristãos. Ele era um dos cruzados, que defendiam a terra
santa e esperavam pelo rei Dom Sebastião, que deveria
voltar num corcel pisando os infiéis para instaurar o reino
dos céus nas terras do Piauí. Os mouros eram assassinos,
que vinham, do outro lado do rio, roubar as princesas da
nossa terra. E sonhou com os colunistas vestidos de mouros,
montados em imponentes corcéis, portando uma lança com
que transpassariam seu coração.


***

Os heróis atravessaram o rio que separava as
terras já conquistadas pelos cristãos e as terras dos infiéis
do Maranhão. Nas terras de Mormionda a muralha dos
castelos dos infiéis tremia sob os cascos dos cavalos do
exército de Carlo Magno e seus Doze Pares de França.
A batalha derradeira aconteceria na tomada do castelo
defendido por Ferrabrás. Catapultas do exército de Carlo
Magno ativavam bolas de fogos sobre as muralhas do
castelo. Gigantes aríetes eras arrastados por fortes homens
e a cabeça do carneiro, desenhada na ponta da gigantesca
árvore, facilmente colocava abaixo a porta do castelo.
Homens armados de elmos e espadas invadiram o castelo
e travavam sangrentas batalhas de corpo a corpo contra
os infiéis. Roldão se encarregou de travar combate com
o temível Ferrabás, o filho do almirante Balão. Oliveiros
combatia bravamente, ao mesmo tempo, contra todo um
pelotão do exército dos infiéis. Teodoro se esgueirava entre
as ruelas do interior do castelo e via homens de turbantes
tomados de bexigas da varíola, perdendo membros
destroçados pela peste. Um pestilento tombou por cima de
Teodoro e sussurrou que ele estava na trincheira errada.
Enquanto tinha medo de contrair a varíola do pestilento que
estava por cima do seu corpo e já sem vida, Teodoro assistia
a luta heroica de Roldão e sua espada Durindanda contra
Ferrabrás nos seus trajes sarracenos. Ao mesmo tempo que
Oliveiros brandia sua espada Alta Clara contra o pelotão
de infiéis que morriam atravessados pela lança do bravo
cavaleiro. Enquanto o pelotão mouro sucumbia aos golpes
de Oliveiros, Roldão obrigava Ferrabrás a converter-se à
fé cristã. Os gritos dos mouros que habitavam o Maranhão
eram ensurdecedores. Os infiéis zombavam dos cristãos.
Um maranhense com sotaque de carcamano gritava: “seus
ceroulas, a batalha está perdida”. Não sabia quem ia
ganhar aquela guerra.


***

Cartaz








domingo, 3 de setembro de 2017

RECORDAÇÕES DA CASA PATERNA

(Edmar Oliveira)

Recebi o novo livro de Geraldo Borges (Recordações da casa paterna, 2017, Pi, edição do autor e Manoel Ciríaco) pelo correio e só tive tempo de abrir o envelope no dia seguinte. Ainda bem que não abri o envelope no dia que recebi, senão meus afazeres seriam seriamente prejudicados. Quando dei de cara nas primeiras letras, não consegui parar de ler. Fiz apenas uma ligeira pausa para o almoço e voltei ao livro.

Não é um livro de crônicas, como os dois anteriores (Cidade Submersa, 2011 e Estação Teresina, 2014). Se as crônicas anteriores já traziam o memorialista de forma esparsa, as Recordações são uma autobiografia sequencial deliciosa. Que se inicia antes do nascimento do autor, enredado em destrinchar a genealogia que o trouxe ao mundo, das lembranças do engatinhar nos ladrilhos da casa paterna, das descobertas do mundo nos pequenos detalhes e personagens de sua aldeia, da viagem na balsa que levou a maioria de nós interioranos para a capital, da entrada em Teresina pelo cais – quando a estrada para o sertão ou para o litoral era o rio. 

Nessas primeiras impressões, Geraldo tem o dom de revelar ao leitor piauiense as suas memórias esquecidas, pois são verdadeiras lembranças de arquétipos grudadas no nosso DNA afetivo. Do cuspe ao pé do balcão da venda; do depósito de couro de boi e de bode; do sal vendido a litro de madeira, que retira a umidade e o cheiro de maresia de um mar que nunca tínhamos visto; do vapor-gaiola, que carregava um trem de barcaças com mercadorias desejantes para serem trocadas por gêneros extrativistas, num escambo primitivo sem papel-moeda. Assim ele faz a revelação de nossas próprias memórias escondidas.

Temos uma diferença de idade que se agora não é notada, fazia-nos em gerações diferentes na meninice. Mas eu estava no vapor que aportou na Bacaba do Geraldo para o troca-troca de mercadorias e vi também o seu amigo que fazia verdadeiras maravilhas esculpidas em buriti. Descubro que aprendi a cortar a laranja com o pai do Geraldo  Era como se ele tivesse me roubado a memória para me fazer lembrar. Esses encantamentos, certamente, vários leitores terão. É o autor revelando no leitor – de forma quase mágica – suas próprias recordações esquecidas. Também cheguei pelo cais do Parnaíba, quase que na mesma balsa, e joguei bola na rua de terra batida, que depois foi empredada – como se dizia na época – e muito depois asfaltada.

Quando as recordações de Geraldo vão tecer a sua história pessoal, deixando de lado o genérico, descobrimos que não conhecemos o amigo por mais que tenhamos convivido. A pessoa que vai sendo autobiografada é um desconhecido, acho que também para o próprio autor, pois é ele quem afirma que “quem recorda já não é a mesma pessoa que viveu aquele outro tempo”. 

Mais não digo, para não privar o leitor das descobertas que me encantaram. E ainda reclamo que suas recordações terminam exatamente na época em que nos conhecemos. E de lá pra cá são quase quarenta e cinco anos que ele fica me devendo. Mesmo que “os fatos vividos e lembrados nem sempre são iguais”, nós inventamos a versão do que fomos. E a invencionice é a literatura e sua magia. No que a mentira vira verdade definitiva. Uma boa leitura!



Climério

A PAISAGEM & SEU REFLEXO
Para Edmar Oliveira

Quando na água, a paisagem é trêmula
Vulnerável ao círculo que provoca qualquer mergulho
Da pedra atirada ao pouso macio da gaivota
E, assim, de ponta cabeça as coisas mudam de lado

Uma coisa é a coisa e outra coisa é seu reflexo
O modo de ver é determinado pelo ângulo
Pelo lugar nenhum de cada um ao ver
E a mesma coisa vira seu oposto, se afirma ou nega

A mirada é informada e se produz pelo conceito
Pelo preconceito, pelo preceito, pelo efeito
Pelo aceito, pelo eleito, pelo defeito, pelo afeito
Pelo trejeito, pelo pleito, pelo direito, pelo suspeito

É que a paisagem nunca se impõe por si
É tida porque lida e declarada ao ser descrita
E passa a ser a descrição de si mesma
Mais do que o fato de ser o que de fato é

A paisagem, não se engane quem a olha:
É o cenário que a cultura crê
Que a história retém em seus períodos
E que a gente julga enxergar ao vê-la

(Climério Ferreira)

O TECIDO DA HISTÓRIA



Leo Almeida


De que tecido é composta a História? Qual a matéria que forma os ídolos, os grandes eventos, as lendas? Enfim, de quantas pequenas e grandes mentiras é feita a verdade da História?  Em “Sitiado” (Editora Chiado, 2017, 210 p.), o escritor Edmar Oliveira toca nessas questões com grande elegância, criatividade e humor. Seu romance constitui-se de uma urdidura ficcional que permeia os fatos históricos que marcam a passagem, pelo Nordeste, da Coluna Prestes. Na verdade, o romance focaliza o cerco empreendido pelos colunistas à capital do Piauí, Teresina, cidade onde formou-se o escritor. A estratégia narrativa privilegia os diversos pontos de vistas dos personagens/testemunhas do evento histórico, pondo em destaque aqueles que sempre são meros coadjuvantes, pequenas engrenagens do carro da História. O olhar quixotesco de Teodoro, um pequeno proletário cheio de sonhos e fantasias, que, enviesado, confunde as histórias dos Pares de França, do clássico texto de cordel, com a situação histórica da qual participa ativamente. É pelo olhar de Teodoro que o autor se permite desarmar a versão oficial, abrindo possibilidades outras para a explicação de determinados eventos históricos. Nesse sentido, guardadas as devidas proporções, “Sitiado” é um texto irmão de “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro. O intertexto, ferramenta fundamental na construção de “Sitiado”, configura-se na adoção, por analogia, das narrativas de cordel de autoria de Leandro Gomes de Barros, especialmente a história de Carlos Magno e “A história da donzela Teodora”, de onde o autor extrai as epígrafes de cada capítulo. As narrativas populares encontram eco na visão de mundo do matuto Teodoro e tornam a leitura de “Sitiado” num pequeno jogo de aproximações. Depreende-se dessa leitura que, no fim das contas, não existem fatos, mas versões de fatos. A História, podemos entender, é uma espécie de literatura de ficção que se quer absolutamente verdadeira, sem poder sê-la, pois a visão do historiador é sempre um recorte da realidade, assim como a versão das testemunhas trazem sempre seu ponto de vista. Se para Teodoro, o cidadão piauiense, suas leituras demandam o intertexto de cordel, outro personagem importante na narrativa, o imigrante de origem libanesa Abdon, incorpora os contos/causos do popular personagem turco Nasrudin. Em contraponto às diversas situações por que se depara o personagem, as narrativas do quase folclórico Nasrudin costuram humor e crítica refinados. Abdon, assim como Teodoro, ingressa na Coluna Prestes cheio de sonhos. O primeiro, pragmaticamente, vê-se colunista como forma de resolver um problema financeiro com o patrão. Julgando-se explorado, acredita que a Coluna trará um mundo melhor e aposta nessa possibilidade, ingressando em suas fileiras. Teodoro por sua vez, contaminado pelas fantasias cavaleirescas e pela sincera intenção de mudar sua situação de vida, abandona a farda e segue ao encontro de seu Carlos Magno. Esses dois personagens poderiam sustentar, sozinhos, toda a trama, e o fazem com coerência e substância a partir da construção literária empreendida por Edmar Oliveira que, não se contentando com isso, ainda nos traz a figura emblemática do Lenine do Maranhão, figura interessantíssima que, por si só, seria capaz de compor uma grande história. O personagem, baseado numa figura histórica real, atravessa a narrativa como um relâmpago. De revolucionário político torna-se ao final da vida um místico, cumprindo uma trajetória no mínimo peculiar de alguém que parte de Lênin para tornar-se Antonio Conselheiro. Curioso lembrar que sua vida nos remete à lembrança do processo de mudança em Tolstói que também, na velhice, abandona sua vida mundana e foge para a morte em seu misticismo. A galeria de personagens nos traz a figura de Geraldo, articulador político silencioso. Os personagens femininos são construções que ideologicamente se afastam: por um lado, Donana, mulher empreendedora e romântica, paradoxo que se resolve com a sua decisão de mudar de cidade por sugestão de um novo amor. Do outro lado, Ceiça, humilde e simplória. A primeira, dona de uma pensão, apaixonada pelo libanês Abdon, persegue seu desejo. A segunda, parideira, submissa ao marido, Teodoro, segue sua sina de parir filhos e sofrer ao lado do marido. Ceiça tem um quê de Sinhá Vitória, mas não tem a garra do personagem de Graciliano.

Os personagens Históricos se apresentam na narrativa a partir dos pontos de vistas dos personagens construídos por Edmar Oliveira. Assim, Juarez Távora surge como o prisioneiro garboso e poderoso que se entrega às forças legalistas e Prestes, como um fantasma, atravessa o texto sempre em fuga. “Sitiado” é uma grande coluna arrastando-se em nossas retinas, levando de roldão as gentes que fazem a História, mesmo quando dela não participam.
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SITIADO teve pré-lançamento na Bienal do Rio, sexta-feira.
Lançamento no Rio: Livraria Folha Seca, Rua do Ouvidor, Beco do Samba, dia 23 de setembro, sábado, das 14 as 16 h.
Aguardando data para lançamento em Teresina, Brasília e Recife.