domingo, 16 de julho de 2017

é desse jeito, meu chapa! (15)



E porque nascemos no mapa feito pelos europeus, fomos desenhados na parte de baixo e entre muitos rios de uma terra sem fim “em si plantando tudo dá”, de um povo que não precisava andar vestido e enfeitado de penas coloridas e lianas trançadas aos tornozelos e braços com significado incompreensíveis aos olhos dos achadores, mas que não precisavam cobrir as vergonhas, como diria Caminha no primeiro e-mail que comunicava haver de fato terras na divisão das Tordesilhas e abaixo do equador, como dizia o santo padre que governava o mundo ocidental até ali. E por vergonhas descobertas, deu-se uma sem-vergonhice sem fim de nosso pai ser português e nossa mãe, índia e já chegaria a tia preta das costas de África para enredar o carnaval de nossa miscigenação a perder de gerações, que para os puristas marcava a degeneração da raça, enquanto médicos mulatos tentavam enxergar um melhoramento na literatura de Machado de Assis. Porque Lima Barreto continuaria a ser a degeneração dos costumes dos subúrbios misturados à aguardente Paraty fabricada nas senzalas e internado no hospício. Os jesuítas conseguiram provar que a alma tinha cor e era branca, tendo vindo nas caravelas do mundo civilizado para desembarcar numa terra de índios sem deus e com as vergonhas oferecidas. A tia preta de África aqui chegou também despojada de alma porque as almas brancas sempre habitaram um território celeste acima do equador. Os índios nunca aceitaram as almas que os jesuítas quiseram lhes colocar por não se deixarem domesticar. Desse gentio intratável o jeito foi dá fim aos machos e amarrar as índias na cumeeira da cozinha para servir à mesa ao dia e rede à noite. Mas na sua rebelião a nossa mãe servia de rede ao português e seu filho e por isso somos tios de nossos irmãos. E pela parte do DNA branco que recebemos pudemos ser catequizados na infinita misericordialidade do criador, porque Deus é um poço de bondades, diziam os jesuítas. Tínhamos que imaginar um poço noutras terras, pois no sertão o poço estava seco das bondades do criador e nem água dava, tinha era um fundo de pedregulho no lajedo estorricado da seca e não podíamos entender esse posso sem fundo e com muita água benta que nunca secava. Mas aos trancos e barrancos fomos também catequisados no sertão. No preto a catequese foi diferente: se aceitava o Jesus dos jesuítas tinha a alma branca imaculada, nos trajes de senhor fidalgo de Machado de Assis. Degenerado, beberrão, inconformado, de fato sujo e vomitado, andando pelas sarjetas e hospício no exemplo de um preto em quem nunca conseguiram escanchar a alma, como em Lima Barreto. O preto de alma branca sempre teve sua cor desbotada pela percepção dos brancos, mas o preto sem alma sempre foi amaldiçoado como um pária que apenas trazia a peste da degeneração e os maus costumes do pito no pango e no cultivo de suas divindades pagãs. A intelectualidade de Lima Barreto acreditava tanto nisso que não lhe deu filhos, como se para abortar a maldição. Mas a maldição de seus escritos perdura pela eternidade na alma que saiu da pena daquele preto sem alma. E era uma alma preta nas cores de seus personagens dos lábios grossos, nariz esparramado, testa curta e cabelo encarapinhado de “um mulato nato no sentido lato mulato democrático do litoral”. Foi a escrita de Lima Barreto que libertou os escravos e não a lei dourada da princesa Izabel. O problema é que só libertou nas letras vivas dos livros fechados nas prateleiras das livrarias e não foi muito lido pelos escravocratas que foram desalfabetizados na herança escravizante que traz incrustada no DNA de colonizador transmitido ao feitor filho da tia negra de África que nega sua origem naufragada num navio negreiro que não aportou na sua consciência e nunca chegou ao cais do Valongo redescoberto ainda agora nos escombros da revitalização do porto da cidade maravilhosa. Na redescoberta do cais do Valongo, novos negros, mulatos, cafuzos e mamelucos foram novamente expulsos das habitações largadas que tinham invadido. Mostraram o cais do Valongo aos descendentes dos escravos que aqui desembarcaram para que eles desocupassem o porto maravilha revitalizado. O cais ficou sem os pretos para a exposição aos olhares dos brancos. Nova forma de escravidão cultural. E os brancos também invadiram a Pedra do Sol para dançar e cantar a música dos negros expulsos de lá. Preto velho ri da ironia de um destino que atravessou o atlântico para que fosse catequizado por cristãos jesuítas nas terras novas em que Ogun teve que montar o cavalo de São Jorge, Oxalá fosse Jesus crucificado, Xangô brinca com o carneirinho de São João, Iansã faísca os raios de Santa Bárbara e a rainha do mar exige incorporar a santa Maria mãe de Deus nos barquinhos de prendas lançadas a Iemanjá. Preto Velho finge que foi catequizado e aprende a rezar missa ofertando galinha morta no sacrifício da encruzilhada. Porque se nós somos um sonho do português com o paraíso na terra, quer dizer, um sonho de vinda; nós sonhamos com uma volta ao que não existe mais aqui em Portugal. 
________________
 Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rio em 1976. Em 31 de dezembro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)                    

Sobre livros



 
escultura de Su Blackwell
(Geraldo Borges)

            O livro é um objeto antropomórfico  e também antropofágico. E natural. Pois é uma construção humana. Vejamos a sua morfologia.

 Ele tem lombada e fica em pé enfileirado nas estantes, como guerreiros prontos para o combate.

Tem pé de página e rodapé. Tem folha de rosto, tem orelha, tem boneca, tem capa e contra capa, brochura e capa dura, dura mais quando é capa dura, encadernado. Tem título.  Por exemplo: Dom Quixote, David Copperfield, Brás Cubas.

Também  existem livros de cabeceira e livros de bolso.

 O livro já foi virgem. Ainda na metade do século passado e em todo o século dezenove, o livro saia do prelo com as folhas  pregadas. Lê-lo era a maior aventura.

 Podemos ler num trecho de Ana Karênina, uma cena que ilustra bem o que estou  dizendo “ (...) Pediu a Anuchka que pegasse a lanterna, prendeu a no braço da poltrona e retirou de dentro da bolsinha uma espátula para separar as paginas  de um romance inglês .”

E assim de página em página, de cena em cena, de capítulo em capítulo Ana vai  penetrando nas entrelinhas, de um enredo maravilhoso, dentro de um trem.

Hoje mudou, não há mais virgindade. O mais que se pode fazer com o livro  e embrulhá-lo em papel plástico e expô-lo nas prateleiras das livrarias. Uma forma de censura velada, como se livro não fosse feito para ser manuseado e lambido, e cheirado.  Ainda existe muita gente por ai, leitor antigo, que passa as páginas de seus livros com um toque de saliva.   Daí um passo para comer o livro, sentir o gosto.

Mas isso é um perigo. Pois o livro pode estar envenenado. Como ocorreu no romance  o Nome da Rosa.

 Pois é, sedento leitor. O livro é um alimento fenomenal. Um biscoito recheado. Você come, digere, assimila. Ou um tijolo, que de repente você descobre que é uma catedral.

 Às vezes ele lhe  constipa e você  vira um visionário. Foi  o que aconteceu com o fidalgo Dom Quixote ao ler os romances de cavalaria. Valeu a pena. Vale.

E melhor você ficar doido por excesso de leitura do que ficar estupido por falta de livros; ficção principalmente, já que a vida é uma narrativa, onde cada personagem cumpre sua jornada e encarna o seu livro, com suor e sangue. Em carne viva.




A dança das cores

Nenhum texto alternativo automático disponível.
Você se esconde em tons de azul
E fica assim um ser celestial
Que outro dia morava em minha rua
E hoje habita as notas da canção

Desorienta o norte do meu sul
Não observa as regras do normal
Em vez de andar você flutua
E desafia as leis do coração


Você se mostra ao vestir-se de vermelho
Incendiando os lugares onde passa
Vai espalhando luz intensa nessa roupa
Mais brilhante e mais quente que o sol


Tudo isso é refletido no espelho
Entre nuvem incandescente de fumaça
Sob o canto de um anjo de voz rouca
Que ostenta a solidão de um farol


Você e seu vestir compõem um mundo
Que desnuda o colorido da nudez
E traçam no desejo mais profundo
O mar mais fundo da profunda sensatez


(Climério Ferreira)
_________________________________
desenho: Amaral

Investigação sobre a natureza do amor



E se nos montes, rios ou em vales
Piedade mora ou dentro mora amor
Em feras, aves, plantas, pedras, águas
Ouçam a longa história de meus males,
E curem sua dor com minha dor
Que grandes mágoas podem curar mágoas.
(Camões)

Acostumou-se a não ser nada além de um saco de pancada. Carinho? uma palavra estranha, tinha cheiro, gosto de coisa não comida, travo e trevas. Palavras eram grunhidos, berros cuspidos, um gemido aqui, outro acolá. O que valia mesmo eram os vergões nas pernas, o galo na testa, o roxo-beliscão na pele, as cicatrizes que desciam pelas costas magras. Cresceu assim, apreendendo o mundo embaixo de porrada e gritos e palavras feias, por isso mesmo era uma menina burra, manquitola e desdentada, uma coisa, a epiderme uma titica manchada, tecido desbotado de uma macabéica figura, ser sem tempo. Confiava apenas na suspeita, era boa nisso, em suspeitar. Vivia esperando coices, de tudo e de todos. Passava horas roendo as unhas, arrancando cascas de feridas de antigas surras. Isso sim lhe era prazeroso, o sublime gesto de arrancá-las, as casquinhas pretas, devagar, introduzindo, após diversas tentativas, a unha roída entre aqueles montinhos escuros e secos de substância nova e sua parte velha do corpo, puxando-as levemente para cima, afastando-as com aquela dorzinha típica e familiar que redundava nos ferimentos abertos e sangue fresco, uma babinha rala e rubra que ela espalhava com o dedinho, antes de lamber. Aprendera a gostar de lamber-se e daqueles raros momentos de silêncio absoluto, quando enfiava a cabeça na bacia d’água suja e o mundo desaparecia num silêncio turvo e aquático. Não sabia ler olhares, eram todos iguais, mordiam, ameaçavam. Sua cartilha era essa: olhos de dor e foda-se. A mãe, um tumor fétido coberto costumeiramente por homens sujos, farrapos bípedes e bêbados que muito raramente depositavam uns trocados por conta do gozo rápido que ela lhes oferecia e que em seguida lavava na bacia ao pé da cama. Era a própria metástase peniana disseminada numa vagina que berrava e xingava e batia e cuspia e lamentava e chorava sem razão. Assim, seus olhinhos amarelo-malária enxergavam a mãe. O pai que lhe restara na memória era aquela massa disforme e sangüínea que um caminhão carregado de cimento houvera por bem amaciar. O que mais a incomodava não eram as surras, que se sucediam tediosas e que por serem constantes ela já se acostumara, mas estar, às vezes, amarrada ao pé da cama. Nessas horas, sangrava-lhe o tornozelo e não lhe era permitido gemer, pois isso incomodava o sono materno. Assim aprendeu que toda dor é silenciosa, deve ser assim silenciosa, indefectivelmente silenciosa e solitária. Aprendia rápido e esquecia quase sempre na mesma velocidade. A vida era uma eterna investigação sobre a natureza de tudo. Desnecessário dizer que ela nunca saberia o que é investigação ou natureza ou vida ou tudo. Puro instinto. Mas nesta manhã, atada ao pé da cama, ela conheceu o amor. Foi despertada de um sono atribulado por uma barata que lhe cruzou toda a extensão da perna estendida. A sensação de algo além de dor fez com que abrisse os olhinhos amarelo-icterícia e ficasse, inerte, saboreando as coceguinhas que as patas da barata lhe faziam, primeiro nas pernas, depois, na virilha, na barriga. Era um trajeto de estranho gozo que ela saboreava desesperadamente. Não que esses insetos lhe fossem estranhos, pois baratas e ratos enormes infestavam aquele lugar, mas essa baratinha, especificamente essa e não as outras, pela primeira vez lhe tocara gentilmente o corpo, de uma forma diferente, de um jeito diferente, com patas diferentes. Ou seria ela, a coisinha murcha de olhar-cancro-e-herpes, o fato diferente naquela história toda? Não, ela era a mesma florzinha sem graça e triste atada ao pé da cama. Só podia ser a barata. Era mesmo a barata. Dessa ela gostava e nem sabia o que era gostar, estava aprendendo. Desconfiava agora que o gostar era o diferente que caracterizava essa baratinha e a distanciava de todas as outras. Sim, gostar é um algo diferente. Gostar é o-mesmo que um dia se torna um-outro. Talvez o gostar fosse essa coisa que ela sentia nessa manhã, muito além do princípio do prazer. Talvez gostar fosse, na verdade, o gosto de não sentir dor. Talvez o prazer de não sentir dor fosse o gostar. Ou será que o gostar era a sensação de descobrir no toque, no contato, algo mais que a força bruta, que dor e ferimento? Gostar, ela sentia, era então querer que aquilo nunca acabasse. Era lutar para parar tudo que andava e para manter tudo como está. Ela tentava evitar, em vão e a duras penas, até respirar mais profundamente ou mover-se bruscamente com receio de que a barata fugisse e lhe deixasse só, com seu tornozelo ferido e atado à cama, onde a mãe, aquele furúnculo, dormia com outro homem sujo, babando-se. Então, gostar era também não respirar e ficar parada para que tudo não se acabasse. Gostar era ter medo de que tudo acabasse. Medo do acabar. O medo de perder era parte do gostar, ela descobriu. Estendeu a mãozinha e gentilmente colheu do chão a barata que já se afastava. Colheu-a como se colhe um caju, uma coca-cola, um Caetano na loja de discos, que ela nem sabia o que era. A barata debatia-se desesperada diante do olhar embaciado-hepatítico da menina. Ela, orgulhosa de suas descobertas, imune ao pavor do seu objeto de desejo que esperneava, levou-o à boca, muito aberta e receptiva, e mastigou-o, sentindo-lhe o sabor, a consistência, enquanto algumas lágrimas escorriam pelo rosto. Aprendia nesse gesto, finalmente, que o amor, o gostar, era algo que exigia ação e, mais que ação, paladar e sacrifício. Aprendia que o amor era integração de corpos e de almas, exigia que se guardasse o diferente, o amado, dentro de si; que o amado podia ter um gosto amargo e que, principalmente, tempos depois de provado, o amor era capaz de deixar traços muito dolorosos e tristes no coração, um buraco cheio de vazios… e resíduos de asas nos dentes.

(Leo Almeida)

Salgado Maranhão

Nenhum texto alternativo automático disponível.
POESIA III

Não é o cais interdito
que nos insta,
é a nudez
da palavra
em teu vértice -- onde

urdes esta simetria
que se nos afere
o lugar de fera.


Gris é o sol
que cinde
a memória de um tempo
que sequer foi ontem.


Porém, tu cantas
onde os santos dormem
e o graal
serve aos mercadores.


(Porém, se cantas,
as estrelas tocam
teus milênios).


Ó selva enredada
de signos,
deixa-me arder
em teu reino sem superfície.


Sou apenas esta cordilheira
entre o ser
e o nunca. 


SALGADO MARANHÃO
(Do livro "A Sagração dos Lobos")

________________________________
desenho: Gabriel Archanjo

O MEDO POR COMPANHIA



(Edmar Oliveira)

Já passava da meia noite quando a família de Bryan – o pai, a mãe, a irmã e a tia – saiu da casa da avó para voltar ao lar, aonde Bryan não chegou. A violência que transborda numa cidade que perdeu os contornos da lei faria outra vítima, apenas porque a gratuidade da violência não admite porquês. E ela cada vez mais se aproxima das situações mais banais que acontecem na vida de seus habitantes.

O pai de Bryan até tinha pressa para levar a família à segurança do lar. O sábado na casa da avó entrou na madrugada do domingo. Parou no semáforo vermelho na estrada de Campinho, uma via importante do bairro onde mora. A obediência ao semáforo fechado irritou o motorista do carro que estava atrás. O apressado na noite buzinou, ligou os faróis altos e acelerou como querendo passar por cima do carro que obedecia a paragem na sinalização vermelha.

Certamente um otário que obedecia ao sinal vermelho àquela hora da madrugada, deve ter pensado o motorista impaciente. O semáforo mudou para verde e o pai de Bryan saiu sobressaltado com a impaciência do motorista detrás. O motorista nervoso acelerou e, ao lado do carro da família de Bryan, xingou colérico e o pai de Bryan tentou pedir desculpas no momento em que percebeu que o motorista impaciente estava com uma arma na mão. A acompanhante do motorista colérico – sim, ele estava acompanhado de uma mulher – até que tentou evitar que seu companheiro atirasse.

Num átimo que acompanha o instinto, e que às vezes nos trai, o pai de Bryan acelerou, enquanto o motorista colérico apertava o gatilho algumas vezes. O pai de Bryan conseguia sair da linha de tiro, mas a rapidez que o afastou, deixou a mãe e as duas crianças no banco de trás vulneráveis ao trajeto das balas. A mãe de Bryan foi ferida pelo grito da filha, a irmã de Bryan gritava como se um animal feroz mordesse sua perna. Bryan sentiu uma dor nas costas que lhe tirava a respiração. Queria ir pra casa, mas não chegaria.

O pai de Bryan, mesmo com agonia dos gritos dos entes querido, ainda conseguiu dirigir até um hospital do bairro. Pelo retrovisor, preocupava uma mancha vermelha que crescia na camisa de Bryan. Acelerou para que a vida não deixasse Bryan antes do que fosse possível ser feito.

A irmã de Bryan teve ferimento leve, se é que se pode chamar assim o efeito de uma vontade assassina. Bryan não resistiu. Foi ferido de morte numa discussão de trânsito, onde a culpa do seu pai foi apenas ser obediente a um semáforo vermelho. A cor que estampou a camisa de Bryan na madrugada trágica.

Nada se sabe do motorista colérico. A aflição do pai de Bryan não permitiu que a placa fosse anotada. Teria? Seria clonada? O carro assassino sumiu na noite escura deixando o rastro de sangue e tirando a ainda muito pequena vida de Bryan.

A cidade violenta não tem tempo para chorar Bryan. Ontem, Arthur morreu no ventre da mãe antes de nascer. Hoje, outra criança foi ceifada por uma morte violenta que carrega um fuzil para uma guerra sem fim…

A cidade não é mais maravilhosa. A violência estendeu seu manto para esconder a beleza das montanhas e a alegria de ser carioca. Temos o medo por companhia.
__________________
desenho: Dino Aves

cidade sitiada

Página fotografada de Cidade Sitiada de Paulo Tabatinga

domingo, 2 de julho de 2017

É desse jeito, meu chapa! (14)

Resultado de imagem para santo antonio gordo desenhos
Aspira esse ar do Douro, que as nuvens já se vão com a brisa que vem do mar. Se tivermos sorte o sol dará as caras antes de ir embora e seus raios farão brilhar o cais da Ribeira no casario que se debruça ao rio. Porque o casario daqui parece vir de dentro do passado longínquo, não é como o casario de Lisboa botado abaixo pelo terremoto de 1755 e refeito em cima da risca na obsessão do Marquês de Pombal, que escorou as estruturas para que outro terremoto não desmanchasse de novo a Lisboa alegre à beira do Tejo. Não se sabe se a cidade resistirá a um novo terremoto que os lisboetas tanto esperam. Muito antes da modernização de Pombal, nasceu Antônio num casario antigo perto da velha Sé. Santo Antônio foi converter os árabes no Marrocos, numa tentativa de tentar evitar a invasão árabe que hoje invadiu a Europa e, como já sabemos, não foi feliz. No regresso de sua empreitada, uma tempestade deixou seu navio nos costados da Sicília. Na Itália conhece São Francisco e foi um pregador profícuo da arte que aprendera em Coimbra. Tendo lecionado em Paris, não volta a Lisboa e vai morrer em Pádua na Itália, ficando ali conhecido como Santo Antônio de Pádua. Os portugueses não se conformam dos italianos terem roubado seu santo padroeiro e no dia 13 de junho um carnaval toma conta da Avenida da Liberdade para reivindicar que Antônio é de Lisboa e se come sardinhas que se multiplicam como os milagres do santo que tem a fama de casamenteiro. Presta atenção se tu pegas o vinte e oito para Alfama. Antes do largo da Sé, a tua direita, num terreno recuado, está o templo em homenagem a Antônio com um museu de relicários anexo. Não tão exuberante como o de Pádua, que preserva a língua incorrupta do santo pregador e o crânio no qual foi baseada uma reconstituição que deram a Antônio um aspecto italiano. O templo na subida a Alfama foi reconstituído no lugar de um outro derrubado pelo famoso terremoto, mas o sítio é o local da casa em que nasceu Antônio de Lisboa que foi morrer em Pádua muito antes do terremoto. Acho que por mais que os portugueses festejem Antônio não deram sorte com a nacionalidade do santo. Quando ele atravessou o Atlântico para aportar no Brasil, embrenhou-se no sertão e foi fazer fortuna como o milagreiro casamenteiro das festas juninas. No sertão ele dança uma quadrilha de anarriê roubada da França e tem que fazer milagres escrevendo as iniciais do namorado da moça na lâmina da faca enfiada no tronco da bananeira. E lá no sertão, o santo reverenciado aqui em Portugal e na Itália, não tem toda a importância que a igreja romana lhe confere. Lá Antônio conseguiu se misturar com as lendas pagãs e é tratado como se homem comum vivo fosse. Em algumas cidades, os homens pedem licença às entidades indígenas para caçar um mastro onde será erguido o pavilhão do santo. Colocado na porta da igreja, o pavilhão é cercado por mulheres interessadas no casamento, que aproveitam a fama de Antônio para desejar um marido. Reza a lenda que quem pegar no pau do mastro do santo consegue a graça. Mas vá que não tem homem disponível para todas, principalmente nos períodos de seca, quando os varões se embora foram para São Paulo. O santo paga pela graça negada! E é submetido a castigos cruéis.  Na representação em que Antônio leva o menino Jesus no colo, a criança é retirada e só é devolvida aos braços do santo se a moça casar. Tirar o símbolo cristão dos braços do santo é como lhe negar a religiosidade, né não? Mas tem outras que se revoltam com o santo e viram a imagem de cabeça para baixo ou tentam afogá-lo numa bacia d’água ou ainda lhe emborcam com a cara na terra e colocam uma pedra em cima. E esses castigos só são aliviados se o santo atender a graça solicitada. No sertão Antônio perde tanto a nacionalidade portuguesa ou italiana para ser um vaqueiro de dentes careados, baixinho careca com um rosário de poucos cabelos em volta, levando um menino no colo ameaçando entregar para uma mãe solteira. E aí se ele não consegue um pai pro menino que está por vir – com ele anunciando na imagem – a revolta é grande e tome taca no santo. E nas festas juninas lhe arranjaram dois companheiros que foram discípulos de Jesus: Pedro, que é de 29 e João, cantado em 24. Antônio, João e Pedro passam o mês de junho nas festas de forró, enfeitadas com bandeirinhas e com fogueiras crepitando alegria na embriaguez do aluá, da pamonha, canjica e mugunzá na festa pagã de celebrar a colheita no solstício de inverno. Ironia do destino: Antônio nos trouxe as festas pagãs da Europa mudando de hemisfério para trocar o plantar por colher.  

 ____________________________
Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rio em 1976. Em 31 de dezembro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)             

O QUE LEIO NOS JORNAIS


O que leio nos jornais
Atesta um sofrimento humano
Que se dá longe da minha casa
E eu sofro

O que leio nos jornais
Diz-me de uma injustiça enorme
Na qual mergulham o meu país
E eu sofro


O que leio nos jornais
Nada fala da felicidade que sinto
Que neste exato momento
Ao terminar este verso


(Climério Ferreira )

Encontro com a velhice

Nenhum texto alternativo automático disponível.

(Geraldo Borges)


         Saí para tirar a barba. Estou pensando em ficar mais novo. Cheguei  a porta do barbeiro  e a encontrei fechada. Tive que voltar para casa. Eram mais ou menos dez  horas da manha. Logo de saída quando ia atravessar a rua, encontrei uma  mulher alva, bonita, com feições de nobreza decaída, com um livro na mão.

Perguntei-lhe de ela gostava de ler. Disse-me que sim e me mostrou o livro; era uma bíblia “para mulher.” O que me surpreendeu. Começamos a conversar. Disse-me que era casada e tinha filhos, um casal. E havia feito no Senac um curso de educação dos idosos. E me perguntou por que eu estava ali sozinho.  De início eu poderia ter cortado o papo e dito.

 Eu não estou sozinho. Estou com você. Mas já estou indo embora.

 Mas a mulher era simpática e atenciosa e começou a provocar em mim emoções censuráveis, de modo que tive de conter meus sentimentos primitivos para não contrariá-la.   
      
Ela disse para mim que estava esperando uma pessoa, ali onde nos encontramos. Mas que a criatura estava demorando.

  Resolvemos nos despedir. Foi então que ela sugeriu que ia me deixar em casa. Pois eu  não deveria andar sozinho. Era perigoso. Poderia ser assaltado. Foi nesse momento que atravessamos a rua. Ela pegou  em minha mão e guiou os meus passos. Gostei do seu conato. A esta altura eu já sabia de sua idade. Tinha quarenta e sete anos e era  filha de um ex- expedicionário da FEB.

         Continuamos andando para o rumo de minha casa. Imaginei mil coisas. Quem sabe ela não faria parte de alguma quadrilha para saquear os velhos e o cara que ele estava esperando  não seria seu cumplice. Disse para ela que bem que poderia contratá-la para ser a minha secretaria particular e cuidar de mim. Enquanto isso íamos  aproximando mais da minha casa. A atenção com que ele me conduzia era tocante. Eu estava  em suas mãos. Era um momento mágico. As coisas estavam acontecendo. Imaginei – me chegando em minha casa apoiado no seu braço. Tocando a campainha, a minha mulher abrindo  a porta e se deparando comigo e a minha amiga de mãos dadas. Eu falaria.

"Essa aí, Fatima, é a minha nova  secretária".

  Não consegui imaginar a reação da minha mulher. Mas talvez  ela fosse rir e achar muito engraçado. Imaginei um dialogo entre as duas,

 "Eu o encontrei perdido, e trouxe o para casa".

 "Obrigada".

Estava nesse devaneio quando a mulher  ouviu o seu celular tocar e atendeu. Era a pessoa que ela estava  esperando. Não sei se era jovem ou velho. Aproveitei para me despedir. Já que estava perto de casa, a um quarteirão de distancia. Valeu. Socorro. Tudo foi tão rápido que me esqueci de pedir o numero de seu telefone.

         Provavelmente nunca mais verei essa mulher, de modo que ela virou uma personagem na minha imaginação. Mas, esse episódio serve, para  que, eu me convença realmente de minha velhice, com barba ou sem barba.

_______________
desenho: Antônio Amaral




  

serventia

Nenhum texto alternativo automático disponível.
No dia em que as bandeiras
(inclusive o pendão salve lindo)
não se gastarem mais ao léu, tremeluzindo,
e sim enxugarem o suor de quem trabalha,
é a paz, enfim, que lá vem vindo.


Paulo José Cunha

__________________________
desenho: Gabriel Archanjo

A história de C.B.


Nenhum texto alternativo automático disponível.




(Léo Almeida)

C.B. sempre acreditou que podia mudar o mundo. Desde pequeno tratou de afiar suas ferramentas para a grandiosa tarefa. Aprendeu filosofia, estudou biografias de gênios da literatura, da música, das artes em geral. De temperamento extremista, mergulhou com muita fé em todas as crenças, beijou os pés do Papa, chutou imagens de Santas, caçou muita rola, bebeu chás e ácidos, fez libações e ajoelhou-se na direção de Meca e Machu Pichu, rezou todos os evangelhos e cometeu também todos os pecados, além de procurar discos voadores nos arredores da Chapada. Preparou-se como ninguém para a obra máxima de sua existência: mudar o mundo. Mas por onde? Mudar o quê? Primeiro resolveu salvar as foquinhas das mãos dos japoneses, pois sabia a crueldade que aquele povo destila em animais indefesos. Resultado: quase lhe tiram também o couro e C.B. parou estrategicamente para repensar seus planos. Viajou para a Amazônia, haveria certamente de impedir o desmatamento e a matança de botos. Pegou malária, ficou meses na rede, suando frio, delirando, até que foi desalojado daquela rede pois precisavam das árvores em que estava amarrada. C.B. ficou em Manaus por um tempo, lambendo suas feridas e seu orgulho. Tanta filosofia para pouco resultado. Mas C.B. não era homem de desistir fácil assim, não seria uma reles malária a responsável pelo seu fracasso. Engajou-se como marinheiro num barco de bandeira grega e saltou em Moçambique cheio de boas intenções: ajudaria no combate a AIDS e ao Ebola. Inteligente como ele só, C.B. logo dava palestras sobre sexo seguro para prostitutas. Sentiu-se, pela primeira vez na vida, realizado. Mas o fato é que, esqueceu-se C.B., as prostitutas, já soropositivas, não têm poder algum sobre os homens que lhes frequentam as partes. Os casos de AIDS continuaram crescendo, promovendo, como portugueses dos quinhentos, o extermínio de tribos e tribos africanas. A série de fracassos não foi maior que sua esperança e C.B., durante muito tempo, julgou-se o salvador do mundo. O que se sabe é que hoje, depois de muitas frustradas tentativas e um AVC que o faz puxar a perna esquerda, C.B., cinquentão, sobrevive como assessor parlamentar de um deputado, amigo de infância. Mora em Brasília, numa quitinete na Asa Norte, que divide com um amigo poeta, e redige pareceres engajados sobre a questão social no Brasil e no mundo. Pareceres inúteis, posto que sempre desconsiderados pelo amigo deputado de uma legenda de aluguel. Batalha feito um louco para provar tempo de serviço suficiente para aposentar-se. Sei que há homens que lutam um dia e são bons, outros que lutam muitos dias e são melhores, e outros...blá blá blá, enfim, há aqueles que, como C.B., lutaram uma vida inteira. Esses...ah, esses a gente conta nos dedos e lamenta sua sorte.
__________________
Ilustração: Amaral





Do novo livro do Paulo Tabatinga, "a cidade vigiada"

domingo, 11 de junho de 2017

é desse jeito, meu chapa! (13)


Quando Nietzsche matou Deus não quis dizer que tudo é permitido como queria Dostoiévski para fazer Raskólnikov matar a velha em Crime e Castigo. Apenas que a Verdade socrática não estaria além do homem para explicá-lo. Sócrates tira o direito de fundação da filosofia pelos sofistas apenas para colocar uma Verdade do lado de fora que ficou bem na fita no Deus dos judeus e fez o homem errar por muitos séculos pelo deserto da fé até que Nietzsche precisasse matar essa Verdade com Deus e tudo. Acredite, se quiser. Jesus de Nazaré trouxe essa Verdade judaica para dentro do homem se dizendo filho de Deus. E Deus na terra principia tentando se apoderar do inalcançável que apenas produziu o Torá dos judeus e que ainda hoje se reúnem para interpretar o que diz a palavra, sem nunca conseguir produzir qualquer teologia. Nisso os cristãos conseguiram fundar em Paulo uma doutrina com a missão de se espalhar dos atos dos apóstolos aos coríntios em todo o mundo, acabando com a Verdade que era revelada apenas ao povo eleito. Porque até Saulo ter uma visão e acordar Paulo o cristianismo não existia. É um romano que funda o novo império que vai conquistar Roma. Porque muito mais tarde Lampeduza diria que é preciso que as coisas mudem para que continuem como sempre foram. E o império da igreja romana foi tão pecaminoso e devasso quanto o que substituiu. Conquistou governos, inaugurou o fundamentalismo, criou a guerra santa para impor a fé que professava pela força bruta. E pela força bruta declarou que os negros e índios não tinham alma para permitir a escravidão. Porque a verdade dentro de cada um vai se degenerando conforme as vicissitudes da história. E mesmo que excomunguem Marx, ele disse que o materialismo histórico tinha uma evolução natural só interrompida com a revolução. Quando o capitalismo substitui o feudalismo, já não bastava a força da fé. Era preciso uma fé que aceitasse a riqueza dos bens de produção. O cisma calvinista é apenas um prenúncio do desenvolvimento histórico.  Natural que essa babel cristã encontrasse a divisão em várias pequenas verdades que além de brigarem entre si, tentam negar a Verdade maior, no que a reforça. Em desacordo com a verdade feito homem do cristianismo, bem mais tarde, Maomé refaz a leitura da palavra num outro livro sagrado em que a teologia é a antiga guerra santa dos cristãos para o convencimento. E de lá tenta impor o nome de Alá que já foi grande, mas expulso pelos cristãos do território europeu conquistado. Hoje a verdade de Alá promete virgens aos que se sacrificam para impor uma fé. E se Nietzsche matou Deus, Alá é grande para o desespero dos que esperavam voltar aos sofistas despidos das armas. Desde o 11 de setembro é necessário ressuscitar o Deus cristão, que já era aliado do Deus de Abraão para brigar com Alá. E o mundo, em pleno século XXI, retrocedeu ao século XIX negando os embates libertários acontecidos ao longo do século XX. Amanhecemos, depois de uma ameaça velada de clérigos profetas de que de 2000 não passarás, num novo milênio que retroage numa rapidez milagrosa para que os preceitos da fé, que atrasaram a evolução dos costumes traga de volta o criacionismo, o racismo, a homofobia, a misoginia, a intolerância. A verdade de Alá na luta com o Deus ressuscitado pode crescer ameaçando a paz de quem sofisma sem ter a pretensão de possuir a verdade. Filosofei ou fui um pregador da palavra divina? Por que em nome dela se organizam chacinas? Em nome de Deus tantos crimes foram cometidos que não caberia no inferno os crentes de todas as religiões. Não te pareces? 

____________________________
Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rioem 1976. Em 31 de dezembro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)