domingo, 11 de junho de 2017

é desse jeito, meu chapa! (13)


Quando Nietzsche matou Deus não quis dizer que tudo é permitido como queria Dostoiévski para fazer Raskólnikov matar a velha em Crime e Castigo. Apenas que a Verdade socrática não estaria além do homem para explicá-lo. Sócrates tira o direito de fundação da filosofia pelos sofistas apenas para colocar uma Verdade do lado de fora que ficou bem na fita no Deus dos judeus e fez o homem errar por muitos séculos pelo deserto da fé até que Nietzsche precisasse matar essa Verdade com Deus e tudo. Acredite, se quiser. Jesus de Nazaré trouxe essa Verdade judaica para dentro do homem se dizendo filho de Deus. E Deus na terra principia tentando se apoderar do inalcançável que apenas produziu o Torá dos judeus e que ainda hoje se reúnem para interpretar o que diz a palavra, sem nunca conseguir produzir qualquer teologia. Nisso os cristãos conseguiram fundar em Paulo uma doutrina com a missão de se espalhar dos atos dos apóstolos aos coríntios em todo o mundo, acabando com a Verdade que era revelada apenas ao povo eleito. Porque até Saulo ter uma visão e acordar Paulo o cristianismo não existia. É um romano que funda o novo império que vai conquistar Roma. Porque muito mais tarde Lampeduza diria que é preciso que as coisas mudem para que continuem como sempre foram. E o império da igreja romana foi tão pecaminoso e devasso quanto o que substituiu. Conquistou governos, inaugurou o fundamentalismo, criou a guerra santa para impor a fé que professava pela força bruta. E pela força bruta declarou que os negros e índios não tinham alma para permitir a escravidão. Porque a verdade dentro de cada um vai se degenerando conforme as vicissitudes da história. E mesmo que excomunguem Marx, ele disse que o materialismo histórico tinha uma evolução natural só interrompida com a revolução. Quando o capitalismo substitui o feudalismo, já não bastava a força da fé. Era preciso uma fé que aceitasse a riqueza dos bens de produção. O cisma calvinista é apenas um prenúncio do desenvolvimento histórico.  Natural que essa babel cristã encontrasse a divisão em várias pequenas verdades que além de brigarem entre si, tentam negar a Verdade maior, no que a reforça. Em desacordo com a verdade feito homem do cristianismo, bem mais tarde, Maomé refaz a leitura da palavra num outro livro sagrado em que a teologia é a antiga guerra santa dos cristãos para o convencimento. E de lá tenta impor o nome de Alá que já foi grande, mas expulso pelos cristãos do território europeu conquistado. Hoje a verdade de Alá promete virgens aos que se sacrificam para impor uma fé. E se Nietzsche matou Deus, Alá é grande para o desespero dos que esperavam voltar aos sofistas despidos das armas. Desde o 11 de setembro é necessário ressuscitar o Deus cristão, que já era aliado do Deus de Abraão para brigar com Alá. E o mundo, em pleno século XXI, retrocedeu ao século XIX negando os embates libertários acontecidos ao longo do século XX. Amanhecemos, depois de uma ameaça velada de clérigos profetas de que de 2000 não passarás, num novo milênio que retroage numa rapidez milagrosa para que os preceitos da fé, que atrasaram a evolução dos costumes traga de volta o criacionismo, o racismo, a homofobia, a misoginia, a intolerância. A verdade de Alá na luta com o Deus ressuscitado pode crescer ameaçando a paz de quem sofisma sem ter a pretensão de possuir a verdade. Filosofei ou fui um pregador da palavra divina? Por que em nome dela se organizam chacinas? Em nome de Deus tantos crimes foram cometidos que não caberia no inferno os crentes de todas as religiões. Não te pareces? 

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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rioem 1976. Em 31 de dezembro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)    

escrevo


Escrevo como
Quem bebe a nascente
Morrendo de sede
E vivendo indigente

Escrevo como
Quem come o pão
Morrendo de fome
E estendendo a mão.

Escrevo como
Quem implora
Um aceno de saída

Escrevo como
Quem devora
As vísceras da vida

(Geraldo Borges)

Climério

A imagem pode conter: desenho
LEMBRETE TARDIO
para H.Dobal



Meu caro poeta,
Só depois que a gente morre

É que se dá conta
De quantas tardes 
Foram desperdiçadas
Por mero descuido


(Climério Ferreira)
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desenho: Amaral





Quem é você?, diga logo que eu quero saber o seu jogo


Imagem relacionada

Paulo José Cunha *

Acredite: já houve um tempo no Brasil em que não se quebrava nada nas manifestações políticas. Protesto era protesto, depredação era depredação. Raramente alguém saía ferido, e as escolas não eram invadidas, oops!, invadidas não: ocupadas, para usar a expressão atual. E os estudantes não precisavam entrar em greve. Os comícios pelas “diretas já” não tiveram um ato violento. E um presidente da república foi derrubado pelos caras-pintadas da mesma forma. 

Na ditadura, militares foram reprimir uma manifestação estudantil e mataram com um tiro o secundarista Edson Luiz de Lima Souto no “Calabouço”, o bandejão dos estudantes de baixa renda do Rio de Janeiro. Torturas e mortes ocorriam aos montes, mas nas masmorras do regime. Nas manifestações, não. Tanto que a camisa ensanguentada de Edson Luiz foi carregada pelas ruas como troféu e símbolo da truculência dos gorilas, como nos referíamos aos militares que pilotaram a ditadura de 1964.

Atualmente, não há manifestação sem um quebra-quebra patrocinado pelos black blocks. No passado, ao contrário de hoje, os participantes se orgulhavam de aparecer nas fotos. Uma das mais famosas, de Evandro Teixeira, em “O Globo”, exibiu artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque e Torquato Neto, de braços dados, na Passeata dos 100 mil, em 1968. Todos de cara limpa. Nada foi quebrado  naquela tarde.

Algo anda errado na tendência novidadeira dos black blocks que se mascaram para arrebentar estabelecimentos comerciais e bancos, de carona nos protestos legítimos contra o governo. Destroem-se placas de rua, bicicletas, banheiros químicos, pontos de ônibus. Incendeiam-se carros particulares, ônibus e lixeiras, em atos que atendem por um nome muito antigo: vandalismo. Destruição do patrimônio público em nome da defesa desse mesmo patrimônio? No mínimo, um contrassenso. No máximo, pura imbecilidade. Até porque lixeiras, placas, banheiros e pontos de ônibus são inocentes até prova em contrário...  

Não há registros, nas manifestações do passado, de gente mascarada. Sim, havia repressão policial, enfrentada com paralelepípedos ou “miguelitos”, artefatos feitos de pregos soldados entre si para furar pneus das viaturas policiais, e bolas de gude, que eram espalhadas no asfalto para desequilibrar os cavalos da tropa montada.

Nos protestos atuais, os manifestantes atribuem as depredações a grupos infiltrados. Mas não cuidam de expulsar os infiltrados. Dão a entender que aprovam a ação deles, embora de público os responsabilizem pela baderna e se eximam de responsabilidade.

O roteiro, com poucas variações, é um só: a manifestação segue tranquila até um mascarado agredir a polícia ou ameaçar invadir um prédio público. Aí os policiais reagem, às vezes exagerando na violência. Os vândalos insistem no ataque, a depredação cresce, patrimônios que não tem nada a ver com o peixe são atacados, o caos se instala. A senadora socialista Lídice da Mata (PSB-BA), revelou da tribuna ter visto na manifestação do dia 24 de maio em Brasília provocadores indo pra cima da polícia: “Agrediram até os próprios manifestantes e a polícia ficou como se não tivesse comando”, disse.

Raramente os apoiadores dos protestos reconhecem a ação deletéria dos mascarados.  Os policiais sempre são acusados de ter começado os confrontos, de atacar manifestantes desarmados, “vítimas indefesas de policiais truculentos”. Esse relato é repetido à exaustão, mesmo que se choque com a lógica mais primária: policiais, ao que se sabe, não atacam pessoas por prazer. Ao contrário, eles são treinados para proteger a população – inclusive os manifestantes - e o patrimônio público. Se agem em sentido contrário, cometem atos violentos ou irresponsáveis como o uso de armas letais, devem ser exemplarmente punidos. Simples assim.

Enquanto os organizadores das manifestações – legítimas, é bom que se insista - e os próprios manifestantes não expulsarem de suas fileiras os que se disfarçam para promover a baderna, a escalada da violência vai crescer.

Em tempo: quem não mostra a cara: 1) está mal  intencionado; 2) é o Batman; 2) é o Zorro; 3) é bandido. Por último, se estiver mascarado num baile de máscaras, 4) é carnaval.  
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*Paulo José Cunha é jornalista, professor e escritor        

Tabatinga


A ópera bufa de um cadáver insepulto


congresso dino

(Edmar Oliveira)

A revolta contra o governo usurpador e cheio de negociatas escusas foi à Brasília numa grande marcha pacífica pedindo “diretas já”. Aconteceu o script de sempre: anarquistas e agentes infiltrados partiram para o confronto disparando a senha de ataque à multidão pela força policial. Bombas de gás, tiros de borrachas, alguns nem tanto emborrachados, cavalaria montada e grande aparato militar atacaram, no descampado da esplanada, uma multidão indefesa, desarmada e embandeirada. Há graves feridos em hospitais e ainda não se fez o levantamento dos abatidos no massacre. Entretanto a perda material foi computada na conta de vândalos que justificaram o covarde ataque. Triste de uma gente que odeia vândalos para identificá-los com o protesto pacífico e chora o velório de vidraças quebradas.

Uma mídia hipócrita e parcial comanda a comoção com a depredação do patrimônio público, que não chega a um milímetro do rombo do desvio de recursos roubados pela quadrilha instalada no poder, nem perto das perdas que os trabalhadores terão nas reformas em pauta no congresso nacional. Quem são os vândalos?

No meio da tarde da grande marcha à Brasília, com a multidão já dispersa por uma violenta intervenção policial, um ex-comunista trapalhão ocupando o cargo de Ministro de Defesa de um governo que já acabou, anuncia que o cadáver do presidente insepulto – a pedido de um menino com problemas que preside a Câmara – assinou um decreto convocando as Forças Armadas “para a garantia da Lei e da Ordem no Distrito Federal” por uma semana.

Os personagens burlescos continuaram representando os atos da ópera bufa. As Forças Armadas, mesmo convocadas, declinaram do convite para ocupar o vazio, embora colocassem soldadinhos para garantir a segurança de uma praça de guerra já vazia. O menino mimado, apertado pela oposição, chorava que não pedira as Forças Armadas, mas a Força Nacional – expondo a descoordenação atrapalhada. Os ânimos se exaltaram no congresso mostrando a debilidade de liderança do menino chorão na Câmara e de um presidente do Senado que ameaçava encerrar a seção – único argumento que encontrava na mediocridade de quem passará em branco nos livros de história. Na turbulência por que passava o país naquele dia, eles insistiam em manter a pauta, como se nada estivesse acontecendo.

Comportamento dos que não sabem entender o movimento da história e pedem brioches na falta do pão. Enquanto a oposição se retirava em protesto na Câmara sob vaia dos que queriam seguir com a farsa, o menino irritado continuava a votar a pauta. O deputado Molon alertou: “da última vez que a oposição se retirou em protesto, quem estava sentado nesta cadeira foi deposto e preso” – tentou profetizar se referindo a Cunha, que ocupara antes a cadeira do menino Maia.

E no dia seguinte, o ex-comunista trapalhão, seguido do mudo generalzinho da véspera, anunciava, com voz solene e grave sem reconhecer o erro, a anulação do decreto, mas – incrivelmente – anunciando incorrer no mesmo erro e trapalhada se houvesse ameaças à lei e a ordem. A caneta da mãozinha trêmula do cadáver insepulto ainda ameaçava nova presepada.

O problema é que o cadáver precisa ser sepultado. Há os que desejam que ele seja empalhado no cargo para que as reformas, que tiram os direitos dos trabalhadores, sejam aprovadas. Não se sustenta o nosso El Cid burlesco. Se enterrado, teremos eleições indiretas. Se cremado, eleições diretas sem possibilidade de ressureição das trapalhadas de um governo ilegítimo. Para que se encerre de vez a ópera bufa que nos obrigaram a assistir no “intermezzo” de uma peça que tentava reconstruir a nossa democracia.

Longo intermezzo. Esperemos que não tome o lugar da democracia que queremos construir. Diretas já.
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desenho: Dino Alves

domingo, 14 de maio de 2017

é desse jeito, meu chapa! (12)





O nosso arrependimento vem nos jaculatórios e nas rezas do sertão. Bendita sois entre as mulheres na nossa religião mariana que elegeu o cântico da cova de Iria no treze de maio para louvar o rosário de Fátima. Fomos criados no sertão caminhando em procissões que rezavam “a treze de maio, na cova de Iria, no céu aparece a Virgem Maria, Avé, Avé, Avé Maria”. Lembras da cantilena? O que achavas o que era a cova de Iria e onde ficava esse local que os três pastorinhos viram a Virgem? Assim como o vovô da cartilha viu a uva – que nós nunca tínhamos visto, só no desenho da cartilha – acreditávamos que os meninos viram a virgem na gruta da Iria. É o que dá achar que o português daqui – o que nos originou – é o mesmo que falamos por lá. Em Portugal cova pode designar uma extensão de terra numa baixada. Cova de Iria era a designação das terras pertencentes aos pais de Lúcia, a pastorinha maior que foi induzida a sustentar a história das aparições até depois de grande, quando virou freira e serviu a Salazar na propaganda anticomunista necessária a Portugal. Os segredos de Fátima, lembras deles? Eram uma vez três pastorinhos. Lúcia, Francisco e Jacinto. Segundo o padre Mário de Oliveira, aqui de Lisboa, que comprou uma briga om o Vaticano, os três foram usados pela a igreja para afirmar uma aparição, que no seu entender foi uma visão. Mais grave ainda, o padre Mário afirma que a igreja na época construiu a lenda de Fátima e, depois da morte dos irmãos Francisco e Jacinta – de pneumonia, frisa o padre negando o milagre – Lucia foi ser freira e re-significou as visões atendendo aos interesses políticos de uma igreja aliada a Salazar. Mas vamos falar baixo, que é bem capaz de um português ouvir a heresia que falo de ouvir da boca do padre e zangar-se imensamente com um dogma de fé português que colocou a peregrinação de Fátima no calendário religioso mundial. E aposto contigo quem defende os milagres de Fátima com mais fé: se o português ou o sertanejo que acha que a cova de Iria é um buraco na pedra na árida caatinga sertaneja e os pastorinhos são filhos de um vaqueiro que se perderam em algum lugar para verem a aparição da santa virgem. Até porque dos milagres de Fátima no sertão deve ter um que faça chover ou promessa para achar uma rês desgarrada antes que o carcará dê cabo da cria. Nos apropriamos da santa portuguesa com uma fé tão grande quanto a deles, me entendes? O sertanejo é tão agarrado no rosário de Fátima quanto os filhos de portugueses que enricaram no Brasil e adornam seus carros com as contas do rosário, como que agradecendo a santa por ter um carro novo. Aqui, na religiosidade portuguesa, que fundou um país na expulsão dos árabes, é dogma inquestionável, embora o padre Mário tenha escrito um livro chamado Fátima S. A. para demonstrar a exploração da fé como a indústria religiosa mais rendosa que o Vaticano. E antes que imagines a cova de Iria como a imaginação sertaneja nos desenhou, é bom que saibas que as aparições da virgem foi numa azinheira, essa árvore sagrada portuguesa protegida por decreto. Da azinheira, onde se deu as aparições da santa, não resta a sombra, que os romeiros levaram pra casa na esperança do raminho propiciar um milagre pastoril. E no sertão, onde nunca nasceu uma azinheira, ficava esquisito a aparição da santa ser em riba de um pé de pau, entendes? Melhor traduzirmos a cova daqui para uma loca na pedra que foi desenhada até nos nossos livros de catecismo e no oratório da minha avó. E quais o segredo da santa? Lúcia – a sobrevivente dos visionários pastores – entrou na ordem das Carmelitas Descalças e só em 1941 – vinte e quatro anos depois – revelou duas partes do segredo: a primeira parte é a descrição do inferno mais medonho do que o de Dante. Foi tão horrível a visão que Lúcia confessa que só escapou de morrer pela promessa da santa em levá-la aos céus. Na segunda parte conta que para salvar a humanidade do martírio da primeira parte é necessária a devoção ao coração de Maria. E para a guerra acabar seria necessária a conversão da Rússia, senão a guerra acabaria e viria outra pior. Na localização política da revelação do milagre, saibamos que a santa apareceu em 1917 – no meio da primeira guerra e da proclamação das repúblicas soviéticas. Na sua divulgação já estávamos na segunda guerra e – na opinião de Salazar – a Rússia era a culpada de nova eclosão da guerra por falta de conversão e adoração ao coração de Maria. A terceira parte foi escrita em 1944 e só revelada em 2000. Deixem a pena de Lúcia escrever com a ordem do bispo de Leria: “E vimos numa luz imensa, que é Deus, algo semelhante a como se vêm as pessoas no espelho, quando lhe diante passa um bispo vestido de branco. Tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre. Vimos vários outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande cruz, de tronco tosco, como se fora de sobreiro como a casca. O Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade, meio em ruínas e meio trémulo, com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena. Ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho”. Mesmo que a posteriori, essa parte foi interpretada como o atentado ao Papa João Paulo II em 1981. Mas há interpretações mais ligadas à geopolítica que dizem que a revelação deste sinal fez a igreja reagir e por interações divinas a União das Repúblicas Soviéticas é destruída dez anos depois, atribuindo-se ao segredo de Fátima a manutenção desse mundo de Deus católico livre do comunismo. O certo é que no sertão isso não tem a menor importância e continuamos a cantar que a treze de maio na cova da Iria no céu aparece a Virgem Maria. E todo o segredo não pode ser discutido cá em Portugal pela força da fé no rosário poder destruir quaisquer pretensões dos esquerdistas da terrinha. Afinal, segredo é segredo e bom que fique assim, oh pá!      
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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rioem 1976. Em 31 de dezembro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)     

Literatura húngara



(Geraldo Borges)


Há muitos anos atrás, no tempo eu que eu era devorador de estórias curtas, eu li e reli, não sei quantas vezes, um conto húngaro, de inefável beleza, intitulado o “Ferreiro da Catarata“ de Makszáth Cálmán que faz parte de uma  antologia,  de contos húngaros,  organizada e traduzida por Paulo Rónai, e  prefácio de Guimaraes Rosa, mesclado de bastante erudição, onde ele ministra uma aula sobre a  historia da formação cultural da Hungria.

O conto em questão trata de uma estória a respeito de um ferreiro, de mão pesada, que, por um estranho dom, sabia fazer operação de catarata. Que beleza. Fazia as criaturas de Deus voltar a enxergar. E nesses milagrosos momentos suas mãos ficavam leves como borboletas.

A sua fama correu a vizinhança da sua aldeia, chegou até a Universidade. O mundo acadêmico quis coloca-lo à prova. E arranjou um paciente para que ele o operasse dos dois olhos. Deram-lhe uma passagem de trem. Ele veio de pé. Um dos médicos reclamou por que ele tinha vindo de pé. Ele retrucou. Vou fazer a operação com as mãos. Então mãos a obra, disse o médico, tentando conter a sua curiosidade.

O ferreiro empunhou o seu canivete e começa a descascar um olho do paciente tão delicadamente como se tivesse descascando a pele de uma maçã. E os médicos olhando aparvalhados, perplexos. O caso era complicado. Mas o ferreiro saiu-se bem no primeiro olho que era até mais estragado do que o outro, mais comprometido.

Nisso, um dos médicos, querendo mostrar conhecimento cientifico, não aguentou e abriu o verbo falando sobre a organização do olho humano, a rede de seus nervos, a sua fragilidade, e o que uma operação efetuada por um leigo poderia ser uma temeridade. Esta advertência abalou o animo do ferreiro.

Mesmo assim o médico  permite que ele trabalhe no outro olho do paciente. Mas as mãos antes firmes e leves começam a tremer, como um leque travado. E o ferreiro deixa cair o seu canivete, e sentindo-se culpado desiste de continuar o seu serviço. Começa a transpirar frio com medo de encarar um órgão tão complexo.

O conto, na verdade, é escrito em forma de prefácio para a obra de um suposto autor E o narrador parece que está dizendo que a técnica não é tudo, que há mais coisas entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia. E que não se aprende a escrever apenas com os instrumentos acadêmicos, e que o talento, o dom, e a graça não tem preço. E que é perigoso deixar de ser louvado. Hoje se promove oficinas literárias para que estudantes apreendam a escrever. Tudo bem. Não custa nada. Mas, é bom saber que os maiores escritores brasileiros foram autodidatas, e se guiaram mais pelo talento do que pela técnica.

o poeta e as flores



(Geraldo Borges)
                     
        
Manhã de sábado. Tinha acabado de ver o programa Feito em Casa de Cineas Santos. Logo mais sai de minha residência no bairro Aeroporto na companhia de meu filho, Amadeu Neto, para entregarmos as marmitas do nosso almoço na casa da senhora que nos fornece a boia, a um quarteirão de distancia de nossa casa. 

Quando íamos chegando, ao dobrar a esquina, o Amadeu avistou o Cineas. E disse: Olha ali o Cineas.

Na verdade, não era mais a mesma  criatura,  que, tínhamos visto, ainda, há pouco,  na televisão. Era uma figura fora da tela. Real. Não estava representando.

Ele estava  ao lado de seu carro, um Fiat. Achei  a sua presença, estranha,  ali, naquele local. E como se  tivesse saltado da tela para a realidade  Seus cabelos prateados brilhavam ao sol. 

Cumprimentamo-nos. Ele disse que estava fotografando flores silvestres. Notei que elas cresciam exuberantes, devido a força das chuvas e do sol, ali, por perto, no passeio da calçada. Flores silvestres do subúrbio que nasceram ali por obra e graça da polinização, como os lírios do campo. Depois  explicou-se dizendo que fotografar flores  era coisa de velho.

Aproveitei para me lembrar dos versos do final de um soneto chamado “Envelhecer” de Bastos Tigre. (quem se lembra de Bastos Tigre?)

Que a neve caia! O teu ardor não mude!
Mantém-te jovem, pouco importa a idade!
Tem cada idade a sua juventude...

Eu acho que o Cineas não quis dizer que estava velho. Nem todo velho fotografa flores. Eu se fosse  esperto, espirituoso, teria respondido direto  para ele. Coisa de poeta, meu velho.

Tabatinga


domingo, 9 de abril de 2017

é desse jeito, meu chapa! (11)

O livro em que falo dos incêndios citados aqui

(...) Concordo da intolerância ao ambiente acadêmico. Todos querem convencer ao outro antes de convencer-se a si mesmo, além do que o prestígio é medido por artigos publicado e por citação dos colegas. E é preciso mendigar a comiseração dos colegas. Nessa medida o troca-troca de favores de um dizer do nada é inerente ao fazimento de se conquistar a medida de si pela medida do outro. Quem não aguenta se aposenta e vai escrever bobagens para melhor satisfazer o ego combalido de batalhas narcísicas. É certo que os professores têm um quê de guia turístico. A primeira vez que visitei Lisboa, fui apresentado ao Aqueduto das Águas Livres como uma construção romana que resistiu ao terremoto de 1755. Por certo os romanos fizeram seus aquedutos que não foram destruídos por terremotos, mas apenas corroídos pelo tempo. O das Águas Livres foi construído por engenheiros lusitanos – talvez com algum conhecimento mouro – cujos arcos evitaram as falhas geológicas, creio que acidentalmente. Tinha apenas sete anos quando resistiu bravamente ao terremoto de Lisboa. O interessante é que a causa da sua construção não era a falta d’água em Lisboa, mas os incêndios que até hoje ameaçam a cidade nos meses quentes de verão. Entretanto, o Marquês de Pombal deu permissão a si mesmo e aos afortunados que gozavam de sua amizade para desviarem águas que foram privatizadas – no primeiro caso que se tem notícia – no século XVIII. Nas Minas Gerais a Nestlé já secou o poço de água naturalmente gasosa de São Lourenço e ameaça avançar na privatização de nosso bem mais precioso. Os poços de petróleo serão uma lembrança amena quando privatizarem os poços d’água. Quando privatizarem os rios, então terão o controle de toda vida na terra. Se os pedágios melhoram as estradas, talvez a privatização dos rios possa livrá-los da morte de uma poluição absurda. Não estaremos no planeta para assistirmos a essa etapa de um capitalismo que parece não esgotar seu apetite destrutivo. Talvez consiga destruir o planeta no seu apetite incontido. Se não conseguimos encontrar culpados, talvez possamos responsabilizar esse apetite, embora o capitalismo ainda não fosse tão gordo assim, pelos incêndios na nossa aldeia. A capital do sertão se preparava para completar cem anos e ainda era uma cidade tosca com inúmeras casas de palha e pau-a-pique, numa construção mais afeita ao nosso gentio que aos conquistadores portugueses. Oeiras, a capital com nome lusitano, ainda está de pé com seu casario colonial e ruas de pedras feita por mãos escravas controladas pelos conquistadores e feitores da conquista. Mas a nova capital foi construída às pressas, entre dois rios, no meio do século XIX. Enquanto se construía o núcleo de uma cidade inventada as choupanas se multiplicavam em maior velocidade. Às vésperas de fazer cem anos a cidade envergonhava sua elite. Pois a periferia continuava feia, com as casas de palhas muito juntas e em desalinho, deformando o traçado xadrez da planta original da cidade projetada. O contraste era enorme: o núcleo da cidade em afastamento para norte e para sul deformava-se muito antes de atingir a Avenida do Contorno que deveria limitar o perímetro urbano. Até as casas de alvenaria tinham, na sua maioria, telhados de palha e foram construídas fora dos parâmetros definidos no Código de Postura Municipal. Passando a avenida que contornava o plano central, a miséria se estabelecia quase que por completo. Uma casa e outra de alvenaria ou adobe, certamente antiga sede de alguma fazenda. No geral, os bairros eram muito feios e pobres, numa invasão constante de migrantes que escapavam da seca do sertão para a periferia da cidade grande. Então começaram os incêndios de 1943. De forma intensa e violenta. Da Vermelha à Matinha. Da Piçarra ao Cajueiro. Do Porenquanto ao Mafuá. Os incêndios comiam as casas dos bairros da periferia, mas chegou muito próximo das construções modernas que começavam a aparecer.  Às poucas construções coloniais erguidas na lembrança do Conselheiro Saraiva, juntou-se um aglomerado de casebres e choupanas que envergonhavam a elite local nos tempos do Estado Novo de Getúlio. Aproveita-se da ditadura para queimar a feia deformação gentia, muito mais propensa aquele clima de calor absurdo, que foi trocada por palacetes neoclássicos completamente indispostos ao clima. Nos meses de agosto a novembro do ano do fogo de 1943 os incêndios se espalharam no Cajueiro, Vermelha, Piçarra, Matinha, Mafuá, Barrocão, em volta do núcleo central da cidade. Ao mesmo tempo muitos “filhos de ninguém” eram feitos prisioneiros e torturados barbaramente para confessarem o autor dos incêndios, que eram descaradamente criminosos. Até um aviso, em código, era distribuído à noite nas casas que seriam incendiadas ao meio-dia. Posteriores investigações do exército acharam artefatos químicos, que seriam jogados à noite nos telhados de palha para que o incêndio começasse quando o sol ficava mais forte. Geralmente os incêndios aconteciam entre dez e quinze horas. No alto das torres de todas as igrejas ficavam vigilantes de plantão para dar o alarme quando a fumaça se fazia no horizonte denunciando um incêndio criminoso. Tinha que se culpar alguém. Os de sempre. Interessante que uma investigação federal – que inevitavelmente foi feita para tentar apurar tão proposital destruição da pobreza – nomeou os apontados como culpados, pela polícia local, como “filhos de ninguém”. A crueldade não tem limites, meu chapa! As próprias vítimas dos incêndios eram culpadas do acontecimento. Até hoje romances e poesias choram aquela tragédia que nunca foi desvendada. Certamente os nossos pais sabiam de alguma coisa, mas nunca comentaram lá em casa. Comentaram contigo? Esse fogo destruiu a nossa alma mafrense. Matamos os índios, nossos irmãos, comemos nossas irmãs para miscigenados ficarmos e tocamos fogo no nosso passado para nos esquecermos quem éramos. Por isso somos assim atormentados (...)
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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rioem 1976. Em 31 de dezembro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)