domingo, 17 de dezembro de 2017

EDIÇÃO ESPECIAL DE ANIVERSÁRIO DE 10 ANOS



Nesse dezembro, o Piauinauta completa dez anos dando voltas no planeta. Foi um recorde histórico para o espaço virtual. Digno de Guinness Book. Um blog que começou de brincadeira, claudicante e que comemora o décimo aniversário. Foram mais de 2000 postagens, o que teríamos um livro enorme se fosse editado em papel. Com fiéis assinantes leitores que nos acompanham nesse tempo, que é muito grande para essa efemeridade da internet.

Agradeço aos ilustradores que colaboraram para que essa edição histórica fosse possível: Gervásio, Dino Alves, Izânio, Paulo Moura, 1000TON e Netto de Deus.

Os artigos selecionado remetem às primeiras edições no ano zero, na distância de 2007.







PIAUINAUTA


Edmar Oliveira

Quando era pequeno, começando a me entender por gente - como se diz no Piauí -, ficava à noite olhando o céu na esperança de ver o satélite russo que rodeava a terra, lá longe no espaço. Depois, não entendi porque o Gagarin declarou que a terra era azul. Só mais tarde, vendo a terra em fotografias coloridas, compreendi o ponto de vista do Yuri, o que considerei, a princípio, uma ironia. Mas da real ironia do Ari Toledo, me lembro bem. Para os que chegaram recentemente ao planeta, o artista estava no auge, com canções picantes e debochadas. A melodia invade a memória, mas não posso dividir com vocês. A letra da canção, não sei toda. Me parece que uns versos diziam assim:

“O progresso nordestino
Esse menino já tem fama mundial
Se é foguete lá num falta
Um piauinauta
Foi ao espaço sideral.
Americano quando chega no espaço
Toma uma pílula, mode jantar
Mas lá no norte nós num faz economia
É melancia, rapadura com jabá...” 


O mundo deu suas voltas, o foguete também, e, cinco anos depois do Yuri, Armstrong pisou na lua. A frenética corrida invadiu o satélite. Logo depois se descobriu que não valia tanto a pena os vôos para o belo astro dos seresteiros, da famosa canção do Gil. A lua não tinha nada que interessasse à economia, só aos poetas. E estes voam sem necessidade de naves espaciais. As assas da imaginação podem levar a qualquer lugar. Mesmo aos enxeridos, como sou, que escreve sem ser convocado.

Isto me ocorre porque danei a escrever croniquinhas ordinárias, que só satisfazem a mim, mas que, aproveitando o fenômeno da internet, divido com as vítimas da minha caixa postal. E alguns de vocês têm me perguntado a razão de tanta conversa jogada fora. Eu também me pergunto e não sei bem a resposta.

Tendo a achar que me sinto como um piauinauta. Saído do sertão, vivendo no sul maravilha, me sinto perdido no espaço tentando entender a modernidade do planeta. As voltas que ele faz neste início de século me tornaram um estranho no ninho. Meu cordão umbilical me prende à nave mãe do sertão. Mas estou girando sem entender muito bem os acontecimentos. Alguém já disse que a crônica trata como banalidade as coisas sérias ou trata com seriedade as coisas aparentemente banais. Na modernidade, que determina o lugar das coisas sem questionamentos, para entender um pouco os acontecimentos atuais esta estranheza da crônica me é necessária... Preciso conversar comigo mesmo. Mando pra vocês porque falar sozinho é sintoma de loucura!
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Primeira crônica publicada no Piauinauta, em 04 de dezembro de 2007. Ela também explica o nome do blog e pode ser acessada na banda de rolagem, sempre que alguém novo apare aqui no espaço e estranha o nome.

Desenho para essa edição comemorativa: Gervásio 








UM CONTO DE NATAL


Edmar Oliveira

Nasceu num quarto de chão batido, o mesmo chão lambido pela vaca e pela cabra em busca do sal da terra. Debaixo do mesmo sol que ressequia o sertão e evaporava a água que não tinha. Maria lhe deu o nome de José, como o pai. José de Jesus, como promessa da redenção por novo provir. O mês era dezembro, o dia vinte e cinco, mas que tanto fazia ser outro dia, como todos tão iguais. Vingou, como José Antônio, José Francisco, José Pedro, Maria das Dores, Maria de Fátima, Maria do Amparo e Maria de Jesus, esta também como ele, nascida em outro Natal. Os santos marcavam o calendário do tempo que era de uma seca toda igual. Os outros, tantos quantos os vivos, morreram na primeira desavença do ser com o mundo. Febre e caganeira mataram mais de três. Catarro e tosse braba uns dois. Fraqueza e quebranto outros tantos. Nem dos nomes ninguém mais lembrava. Mas com ele Maria teve mais esperança. Não só de vingar, como em mudar a sina de quem se acabava em cima daquela terra, na qual mais se colhia sofrimento do que de comer. Mas é dos resistentes que o sertão é pátria. Do filho deste solo és mãe, gentil pátria minha sertão. Este José de dezembro ficou taludo, escapando de todas as artimanhas do árido. E começou a gostar das dificuldades. Um dia foi embora tentar a vida no sul. Morou na casa de uns primos, filhos do tio Baltasar. João Batista foi seu condutor na cidade grande. Ensinou o caminho do Rio das Pedras. Pedro e Lucas hoje contam suas aventuras. Pois que José de Jesus ganhou muito dinheiro na cidade grande quando mandou buscar Maria e seus irmãos. José, o pai, já tinha falecido. Maria agradeceu a Deus pelo filho que tivera. No seu barraco na favela tinha um conforto tão grande que nunca vira no sertão. Água encanada, então, Deus é pai. Televisão e luz elétrica eram mais que milagre. Comida no prato, todo dia, era muito mais do que desejara. Enquanto viveu, este filho só lhe deu alegria até ser atravessado por um tiro de fuzil, no alto do morro, em confronto com o caveirão da polícia. Subiu aos céus na semana santa. E em todo Natal Maria lembra do filho imolado para que seus irmãos tivessem uma vida mais decente nesta terra abençoada. Toda segunda feira Maria acende uma vela pro seu Jesus. E esta segunda feira é Natal...

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Crônica publicada em 16 de dezembro de 2007. Como o Piauinuata foi lançado em dezembro ao espaço sideral, manteve a tradição de ter uma crônica de Natal todos os anos seguintes. Essa foi a primeira, aqui republicada. Apenas tirei uma palavra da frase final. No original, a segunda feira era "véspera" de Natal, palavra que foi sacrificada para atualizar a crônica.

Ilustração para esta edição de 1000TON








TRÊS REIS MAGOS

desenho: Gervásio


José Expedito Rego

(Para minha mãe, Carmem Reis)

Gaspar veio das bandas do Jurani
Tinha os cabelos louros e os olhos azuis
O rosto cheio de sardas, o nariz arrebitado
Montava uma motocicleta de sonhos
Ultrapassava todos os carros
Na avenida Transamazônica
Ouvira sua mãe dizer
Que Jesus nasceria naquela noite
E que uma grande estrela pendurada no céu
Apontava para o lugar do prodígio
Gaspar montava sua motocicleta de sonhos
E voava no rumo da grande estrela

Melchior morava ao pé do morro do Leme
Tinha o moreno afogueado dos caboclos do Brasil
Cabelos lisos e corridos
Olhos ardentes, corpo desnutrido
Montava um cavalo de talo de carnaúba
E viu a grande estrela
Na direção da grande praça
Perguntou a uma mulher que passava a seu lado
E soube que nascera o Salvador
E que haveria presentes para as crianças
Aumentou o galope de seu cavalo de pau

Baltazar desceu do alto do Rosário
Negrinho como a noite
Vinha chutando uma lata sobre os lajedos
Com o pé saído dos murais de Portinari
Viu também a estrela
Que parecia pairar sobre o largo da Matriz
E quis saber o que era...
- Foi Jesus que nasceu! - uma voz disse ao lado
Ele montou num carneiro que passava
E atravessou a ponte do riacho da Pouca Vergonha
E Gaspar
E Melchior
E Baltazar
Chegaram juntos na grande praça
A estrela estava sobre a torre da matriz
E as freiras distribuíam presentes aos meninos pobres
Mas já estava no fim
Cada um ganhou apenas um saquinho de bombons
E saíram pulando
Chupando os confeitos
Foram visitar os presepes

Entraram numa casa
Onde havia um muito bonito
Todo enfeitado de ramos verdes
Bolas coloridas e bichinhos de matéria plástica
Sobre a areia da mesa
No centro o Menino-Deus
Deitado sobre o bercinho de palha
Em volta, José, Maria, os pastores

E Gaspar
E Melchior
E Baltazar
Ficaram parados em redor do presepe
Admirando tanto bichinho bonito...
Gaspar roubou em elefante
Melchior roubou uma vaquinha
E Baltazar roubou o galo
Que estava empoleirado num ramo de alecrim
Saíram de mansinho
Sem que ninguém notasse
A não ser o menino-Jesus de barro
Que do berço sorriu seu mais belo sorriso
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Extraído do livro "Horas sem tempo", (1999) de José Expedito Rêgo

Sobre o autor: José Expedito Rêgo, romancista, poeta, médico e jornalista nasceu em Oeiras no dia 1° de junho de 1928. Escreveu, entre outros, os romances "Né de Souza" (biografia romanceada do Visconde da Parnaíba Manoel de Souza Martins) e Malhadinha, considerado pela crítica como sua obra-prima. Como jornalista editou em Oeiras em parceria com Possidônio Queiroz e Costa Machado, o jornal mensal "O Cometa" que circulou na cidade de 1971 a 1976. Foi membro titular da cadeira número 2 da Academia Piauiense de Letras.
Faleceu no dia 31 de março de 2000.


Esse poema foi garimpado por Joca Oeiras, o Anjo Andarilho e publicado no Piauinauta de 18 de dezembro de 2007, marcando a primeira folha do blog. Na ocasião, tínhamos contato com Joca Oeiras e o convidamos para viajar conosco neste espaço. Ele compareceu algumas vezes e forneceu literatura dos filhos de Oeiras para estas páginas.

Joca já não está mais entre nós. Foi um paulista andarilho que escolheu a cidade de Oeiras, antiga capital do Piauí, para viver seus intensos últimos anos de vida. Estive com ele em Oeiras e em Teresina algumas vezes. De camiseta regata para o calor do sertão, uma sacola - que mais parecia um embornal nordestino e a bengala tosca marcavam sua figura doce e simpática.

Nesse maravilho poema, que ele nos deu a conhecer, fazemos nossa homenagem a Joca Oeiras.

Desenho especial para esta edição: Gervásio. Joca é o menino com a vaquinha.







O INCÔMODO DA LOUCURA

desenho: Dino Alves

Edmar Oliveira 

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Conto de pura ficção, provocado pela falsa realidade retratada nas páginas 14 e 15 de "O Globo", edição de nove de dezembro DE 2007, sobre a situação da Saúde Mental no Brasil. 
A reportagem, assinada por Soraya Aggege, insinua o retorno dos manicômios para o centro da Política Pública, como solução do problema. 
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Vez por outra o navio dos loucos aportava num cais de uma cidade qualquer. O capitão apitava anunciando a atracação. Alguns passageiros desciam e circulavam timidamente pela cidade. Mas quando a nave partia, os passageiros embarcavam em silêncio, mesmo tendo gostado do passeio na cidade. Vez por outra o navio atracava por mais tempo. E, em alguns cais, nem todos embarcavam de volta com a partida do barco. Houve mesmo revoltas comandadas por marujos que se recusavam a embarcar de volta com seus passageiros. De algumas, as cidades lembram bem. Teve aquela comandada por uma senhora muito pequenina, mas valente, chamada de "Revolta da Rebelde", que marcou toda uma geração. A senhorinha saiu com seus passageiros do navio e se recusou a voltar a embarcar, quando foi anunciada a partida. Distribuiu telas, tintas e pincéis para seus loucos, fazendo do cais um ateliê a céu aberto. Eles não pintaram o mar, o céu, os barcos, o pôr do sol. Eles pintaram imagens do mundo interior que mostravam o caos e a angústia da viagem no porão do navio. Mais tarde, mandalas organizaram a calma encontrada no cais e longe do navio. E depois eles conseguiram imagens que se confundiam com a própria paisagem e com a cidade. Mas, um dia o navio voltou, como acontecia sempre. E muitos foram reembarcados para a viagem ao longo do rio da vida, que raramente aportava nas cidades surgidas na travessia. E quando aportava, mais pessoas entravam e poucas saltavam. É de se confessar que algumas escaparam sem permissão. A lei era feita para embarcar os loucos na nau dos insensatos. Algumas pessoas contam que da margem escutavam gritos de dor e tristeza, quando o navio singrava manso o largo rio da desesperança. Mas a maioria das pessoas das cidades não escutava vozes e nem via o navio ao longe, tão longe que desaparecia de suas preocupações. O navio seguia, as cidades existiam livres da loucura que, sempre que era percebida, embarcava na atracação do navio. Outras cidades colocavam seus loucos em canoas e os levavam até ao navio. Os gritos de dor e tristeza aumentavam de forma ensurdecedora. Alguns marujos escaparam do navio e foram até as cidades dizer das condições de vida insuportáveis ali dentro. Algumas pessoas da cidade foram solidárias ao que diziam os marujos. O navio estava velho, pesado e sem conseguir fazer a travessia. Era uma viagem que tinha começado, mas nunca tivera fim. A travessia era a própria viagem sem fim. Tentou-se mudar o curso do navio. Não foi possível. O velho navio estava encalhado, seus passageiros feitos prisioneiros, sem conseguir fazer a travessia anunciada. Talvez presos para sempre. E para alguns que morreram na viagem, foi apenas a travessia para a morte. E outros gritaram que o navio devia ser abandonado. Mas tinha a travessia. E ela devia ser cuidadosa. De todas as cidades partiram barcos solidários para tirar os passageiros do navio. Cuidadosamente a travessia foi feita destinando cada um ao seu porto. E cada louco pôde circular na sua cidade, mas sempre que era preciso voltava ao cais e embarcava na sua pequena embarcação para um passeio no rio da vida. Ninguém foi levado de volta ao navio que foi ficando abandonado.E o cais foi alcançado pela maioria dos passageiros do navio. E cada cais, em cada cidade, ficou sendo o lugar do encontro. Dos passageiros libertos e de quem seria, no passado, um passageiro. E a partir do cais as cidades foram habitadas por seus loucos. Acostumavam-se com a loucura como um acontecer comum aos habitantes das cidades. E os marujos aprenderam também a conduzir seus passageiros em terra firme. Uma travessia que não precisa ser feita por longo tempo no porão do navio, mas de onde se ficou perdido, por entre bancários, automóveis, ruas e avenidas, como na canção do poeta. E quem ficou conhecendo cada história, de cada uma destas pessoas, sabe a diferença que fez não embarcar naquele velho navio. Sim, eu estou tão cansado... É que a história de fazer o rio da vida sem a nau dos insensatos é muito antiga. Quando tudo parecia dizer que a travessia dispensava a nau dos loucos, um jornal da metrópole anuncia nova descoberta da ciência: embarquem-se os loucos num moderno transatlântico que a travessia se fará em alto mar com tecnologias modernas. E eu, que estou tão cansado, reconheço aquele velho navio que pretende recolher o incômodo da loucura... 

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Conto publicado em 12 de dezembro de 2007 após um ataque rotineiro à Reforma Psiquiátrica. Só que agora, no presente, após o ataque do Ministério da Saúde golpista, junto à Associação Brasileira de Psiquiatria, o ataque pode ter maiores consequência que naquela época, o conto se atualiza com mais nitidez ainda!

Especial para esta edição: desenho de Dino Alves







O PARNAÍBA


Desenho: Paulo Moura


Geraldo Borges

O rio Parnaíba é um rio torto
Que da voltas por dentro do mato
É um rio que está quase morto
Maltrapilho de tanto mal – trato.

O rio Parnaíba é m rio sujo
Com as mãos estendidas em suas margens
Foi se o tempo que tinha marujo
Para contar historias de torna viagens.

O rio Parnaíba está se arrastando
Esfarrapado pela beira do cais
Não agüenta o peso das pontes de concreto

O rio Parnaíba está adornando
Água esvaindo pelos seus beirais
E o seu leito vai ficar deserto.

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Poema de Geraldo publicado na edição de 8 de dezembro de 2007. Naquele tempo não havia ainda as edições quinzenais. Íamos publicando de acordo com o material produzido. Nesses dez anos o Rio Parnaíba morreu mais um pouco!

Desenho luxuoso de Paulo Moura, para esta edição histórica.








AINDA TERESINA


Cinéas Santos(*)



Ainda não é uma grande cidade, graças a Deus! Ainda há quintais, mangueiras, passarinhos e meninos para persegui-los. Ainda se vêem pipas bailando no azul das tardes de maio e, nas manhãs de agosto, ipês derramam ouro no chão. Ainda persiste o costume antigo da cadeira nas calçadas e a conversa espichada de quem espera a brisa que ficou de vir lá do litoral... O Mercado Central, com seu cheiro inconfundível, resiste. Lá onde ainda se pode comer uma autêntica dobradinha, tomar uma talagada de cana com casca de angico preto, remédio para os males do corpo e da alma. Sem gastar um tostão, pode-se consultar um raizeiro, especialista em “doenças em geral”. Os mais apressados podem “tirar um retrato” num lambe-lambe e voltarem para casa”documentados”. Um pouco mais adiante, impera o Troca-Troca onde, com paciência e jeito, pode-se trocar quase tudo, inclusive uma de 40 por duas de 20, desde que, na transação, entrem alguns caraminguás de troco. A máxima é: “Eu vivo da troca e como da volta”.

A cidade ainda é reconhecível apesar dos esforços dos que tudo fazem para desfigurá-la. Ainda existem os dois rios e os que vivem dos rios: pescadores, lavadeiras, canoeiros, vazanteiros... No Encontro das Águas, moleques entanguidos recontam, à sua maneira, a famigerada lenda do Cabeça de Cuia, nunca se esquecendo de trocar o verbo comer por devorar: “comer virgem é prosa”, garantem. Ainda persistem nos subúrbios a prática bem nossa de afixar, na parede frontal da bodeguinha, a placa com o letreiro: É AQUI O FULANO, como se a simples menção ao nome do dono da birosca fosse garantia de qualidade do que se vende ali. Nos letreiros da cidade, como bem observou o poeta Dobal, escancara-se a megalomania enrustida. Há “reis” para todos os gostos: REI DO FRANGO, REI DOS FREIOS, REI DOS ESTOFADOS, REI DOS PARAFUSOS, REI DO TUCUNARÉ e até um inusitado REI DO TAMBAQUI ASSADO.

É certo que o espectro da violência já ronda a cidade, mudando hábitos antigos. Mas ainda persiste o costume - tão nosso – de pedir “emprestado” uma colher de pó de café, dois dentes de alho, uma xícara de açúcar, com o compromisso tácito de nunca devolver... Ainda há fuxicos, brigas de vizinhos, grandes cumplicidades, gestos de solidariedade e toda essa tênue teia que dá consistência ao tecido comunitário. Graças ao Pai Celeste, ainda há um jeito teresinense de ser. Ainda somos reconhecíveis.

Mas há outra cidade que desponta veloz, que se verticaliza como se buscasse distanciar-se de tudo o que lembre a província pacata e hospitaleira. É a cidade dos edifícios modernosos onde o principal atrativo é a “segurança”. É a cidade dos que têm os pés na província e a cabeça em Miami; dos que não vivem sem o chocalho do celular; dos que só circulam à noite; dos que fazem grandes transações; dos que nada temem; dos que metem medo; dos que, tendo nascido aqui, não sabem onde fica Teresina.

Impedir que essa nova cidade, veloz e voraz, engula a cidadezinha que se fez com trabalho, suor, dedicação e carinho dos mais humildes é tarefa de todos nós.É preciso (e urgente) mostrar aos bem-nascidos que há espaço para todos; para o Teresina Shopping e para o Mercado do Mafuá; para o Tarrafa’s e para o Restaurante da Tijubina; para o Garden e para o Cabaré da Pretinha; para o Ensaio Vocal e para a dona Maria da Inglaterra, com seu famoso “Estrela de Luzilândia”, o único conjunto do mundo capaz de acompanhá-la, ou melhor, de “persegui-la”.

Que a cidade cresça e prospere, que se modernize, mas sem abrir mão do que tem de melhor: a generosidade com que acolhe a todos, como acolheu, numa remota manhã de maio de 65, este cronista de meia-tigela, que está fazendo todo esse volteio apenas para dizer o óbvio:TE AMO, TERESINA.
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(*) Meu compadre Cinéas já aparecia na segunda vez irregular que o Piauinauta botou fogo no rabo para atingir o espaço sideral. Essa crônica é de 8 de dezembro de 2007. 
Receio que a cidade nova, que despontava veloz, quase engoliu a velha Teresina. E que nesses dez anos a antiga cidade foi bombardeada por especuladores que derrubaram antigos casarões para fazer estacionamentos.
Mas na velha cidade, mutilada, ainda persiste o jeito de ser Teresinense, desde que não escureça - porque a cidade abandonada foi entregue a vândalos.

Desenho luxuoso de Izânio para esta edição.








AQUECIMENTO GLOBAL


Edmar Oliveira

São assustadoras as previsões da ciência para o futuro do planeta. Se nada for feito para minorar os efeitos nocivos da civilização, em pouco tempo teremos um planeta desolador. E quente. Geleiras do tamanho do Estado de Sergipe se desprendem do Ártico congelado e derretem como cubo de gelo nos oceanos. Se estiverem certas a previsões, várias ilhas desaparecerão e o mar invadirá praias e arredores, refazendo a cartografia dos continentes. Montanhas geladas, como os Andes e Himalaia, já começam a derreter como nunca aconteceu, ameaçando os mananciais de água potável do planeta. E águas doces serão produtos de disputa entre nações. Metade da Amazônia terá virado cerrado com um crescimento do Nordeste rumo a oeste. As caatingas do Piauí invadirão o verde do Maranhão e uns dois Cearás brotarão depois do Pará. Neve em São Joaquim ficará tão difícil quanto em Teresina, que se destina a emprestar seu calor a outras paragens. 

E assim sendo, parece que os líderes das nações ainda não sentiram a devastação por vir. A América se recusou a assinar o protocolo de Kioto, para não renunciar ao crescimento econômico desenfreado, que faz do tio Sam o dono do mundo. Deliberações climáticas, como a ECO 92, não deram resultados práticos para deter o aquecimento global.

Creio na dificuldade que os homens têm de evitar uma situação se não estão diretamente afetados por ela. Nada de cidades da Europa, do Japão ou mesmo aqui no Rio de Janeiro para se discutir o aquecimento global. Acho que se fizessem uma reunião de líderes mundiais para discutir este assunto em Teresina, num dos meses do b-r-o-bró (de setembro a dezembro), num centro de convenções sem ar condicionado, os resultados poderiam ser diferentes. Ninguém ia querer que o calor de Teresina chegasse nas suas cidades. E antes que me digam que estou “tirando onda” com minha cidade ou falando mal, posso afirmar o bairrismo contido nesta proposta. Defendo minha cidade, pois, se o aquecimento global vencer, Teresina sairá do mapa de locais habitáveis e leva consigo mais da metade do sertão.

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Crônica publicada naquela edição inaugural de 2007. Depois disso tivemos Obama, que assinou uns protocolos e que já foram desassinados devidamente pelo louco do Trump, que quer tocar fogo no planeta, começando pela Ásia e Oriente Médio. Portanto a crônica continua valendo. E Teresina cada dia mais quente, depois desses dez anos. 

Aqui ilustrada pelo desenho de 1000TON.








GRANDES AVANÇOS, PEQUENOS PECADOS


Paulo José Cunha


Diariamente enganamos, diariamente somos enganados. Mas, como se houvesse um pacto de silêncio, nem o consumidor de notícias denuncia o emissor, nem o emissor reconhece que está enganando o consumidor. E assim a vida segue, na geléia geral brasileira que o Jornal do Brasil anuncia.

Êh, bumba-iê-iê-iê! E olha que já vai longe o tempo em que não se distinguia informação de opinião, não se sabia onde terminava a redação e onde começava o departamento comercial. Avançamos muito. Já escrevemos “Informe Publicitário” pra dizer que não se trata de notícia, mas de propaganda. Já publicamos (!) a notícia positiva sobre o inimigo do dono do jornal e, lá dentro, no editorial, espinaframos com ele. É, aprendemos a separar as coisas. Já abrimos espaço para o direito de resposta (reconheçamos: espacinho raquítico, sovinado e mofino, reduzido a toscas e choradas linhas, sem destaque algum, lá no meio da seção de Cartas dos Leitores, mas, vá lá, pelo menos ele existe, o que não é pouca coisa). Vez por outra até reconhecemos que erramos, e nos corrigimos. Acredite: estamos nos tornando civilizados. Nos cortes das entrevistas, já não colocamos um contraplano (imagem do entrevistador ou da mão do entrevistado, para dissimular a existência do corte que caracteriza a edição de uma fala). Hoje usamos um flash. Resolveu? Será que o respeitável público sabe que aquela piscada significa que ali houve a intervenção do editor? Talvez não. Mas já é um avanço. 

Ainda assim, o que não falta é chão pra andar quando se trata de ser transparente com nosso leitor, nosso ouvinte, nosso telespectador. Igualmente sobram artifícios para nos passar pelo que não somos, ou enganar os pobres diabos que nos lêem, nos ouvem ou nos assistem.

Vamos começar pelos impressos. Aposto que, se for feita uma pesquisa, raríssimos serão os leitores que conseguirão traduzir a expressão “Da Redação”. Provavelmente dirão que é texto escrito por algum jornalista do jornal ou da revista, que não quis se identificar. Poucos imaginarão que se trata de uma notícia que da redação não têm nadica de nadinha. Desinformado, o público leitor jamais suspeitará que, muitas vezes, a notícia “Da Redação” que está lendo é apenas a transcrição ipisis literis do texto que uma agência de notícias despejou via internet (antigamente chegava por telex) na redação. E aí, magicamente, em vez de ser da autoria da agência tal ou qual, transformou-se em notícia “Da Redação”. A prática lembra um pouco aquelas mulheres que botam um balde de silicone nos peitos e se orgulham de dizer: “São meus. Paguei uma baba por eles”. 

Nos veículos audiovisuais o truque é feito, digamos, com mais “catiguría”, mas a desfaçatez é a mesma. Em pouquíssimos casos, as matérias dos correspondentes internacionais são o resultado de produção própria. Na maioria das vezes, resultam da "cozinha" do material recebido de agências internacionais. Só que as emissoras de tv não revelam isso, não dão crédito às agências que as produziram nem naquelas letrinhas, que correm lá no final do telejornal. Se for feita uma pesquisa, o povão vai responder que as imagens internacionais que assiste foram produzidas pela emissora que os veicula. Nunca desconfiará que as emissoras alugam o trabalho de agências que lhes fornecem diariamente o material de que seus correspondentes se servem para fechar suas matérias. Com uma “discreta” agravante: quando um correspondente estrangeiro apresenta, de Londres, uma matéria sobre a explosão de um carro-bomba no Iraque, pouca gente sabe que, na verdade, a matéria poderia ter sido fechada ali na esquina que não faria a menor diferença. Apenas o destinatário das imagens das agências foi Londres e não Quixeramobim. Como dá mais charme escrever debaixo do nome do repórter: “Londres” do que “Quixeramobim”, a matéria é fechada pelo escritório de Londres. Vira "internacional"...

Outra enganação freqüente e pouco percebida é a da conversão da enquête em pesquisa, quando se sabe perfeitamente que uma coisa não tem rigorosamente nada a ver com a outra. É comum um repórter ouvir três ou quatro pessoas sobre qualquer tema e depois afirmar, como se fosse a verdade mais absoluta, que a população está a favor disso ou daquilo, seguido de três ou quatro opiniões no mesmo sentido. Base científica para fazer tal afirmação? Nenhuma. Mas quem se importa com isso?

No dia em que os jornais voltarem a dizer (sim, no passado eles diziam ao leitor que a matéria que iriam ler era da Associated Press ou da France Press) a origem da informação hoje escondida atrás do rótulo “Da Redação” retomaremos o caminho que um dia nos permitiu separar notícia de publicidade. No dia em que as emissoras de televisão creditarem a origem das imagens que o distinto público está assistindo, ele poderá pelo menos saber o viés ideológico de quem as captou (o ângulo editorial de uma matéria da Fox não tem nada a ver com a mesma matéria feita pela BBC ou pela CNN). Historinha rápida: durante a invasão do Iraque, Ana Paula Padrão mostrou no “Jornal da Globo” cenas de soldados norte-americanos ajoelhados em sinal de boa vontade para reduzir a ira dos religiosos que temiam a depredação de uma mesquita em Bagdá. Cenas que algumas agências distribuíram, outras não, por temer que fossem traduzidas como um ato de submissão das tropas norte-americanas ao inimigo. Ou seja: existem agências e agências. Como existem padarias e padarias.

Convém saber e dar a saber a procedência do pão. E das notícias. 

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Matéria de 2007, que também fez parte da edição histórica da entrada no ar do Piauinauta. Tudo que o Paulo diz aí continua sendo verdade, com um agravante: só piorou!

Aqui em ilustração atualizada de 1000TON

2018 - UMA PROSOPOPEIA NO ESPAÇO



O Piauinauta chegou à terra para uma temporada de férias. Netto de Deus fez um desenho prometendo a volta do velho Piauinauta ao espaço sideral em "2018 - uma prosopopeia no espaço". Aguardemos. Se é que a velha nave tem forças para voltar a navegar.
Agradeço aos fieis leitores por esses dez anos de aventuras!









domingo, 3 de dezembro de 2017

LEMBRANDO CHICO SALLES



Tornamo-nos amigos tarde, já quase perto de eu mudar para Laranjeiras em 2009. Dos nossos encontros às quartas-feiras no Mercadinho São José, arregimentando amigos, surgiu a Confraria do Botero. 

Praça São Salvador, Largo do Machado, Rua do Ouvidor, Feira de São Cristóvão, bares da Lapa, Bracarense, Chico e Alaíde e Manolo conheceram algumas de nossas conversas com a boemia do Rio. Ele já era um artista da gravação, de shows e do cordel, enquanto eu mal começava a escrever. Fez a orelha do meu primeiro livro e foi um incentivador dos outros. Em comum tínhamos a origem nordestina, a vinda ao Rio pra não mais voltar, o amor pela cidade que já nem é tão maravilhosa assim.

Tornamo-nos amigos “de infância”. Eu lhe “apresentei” Sérgio Sampaio e ele, com a maestria de Henrique Cazes e José Milton, fez um trabalho primoroso gravando os sambas do capixaba tido como maldito e desconhecido. Foi o criador do Bloco na Rua, em homenagem a Sampaio, que reunia Bambas no Mercado das Artes de Laranjeiras. Luiz Melodia, Renato Piau, Leo Gandelman, Moacyr Luz, Jards Macalé, Henrique Cazes, Tony Platão, Xico Sá, Edy Star (único remanescente da Ordem Grã-Cavernista de Raul e Sampaio) sempre prestigiaram o bloco a seu convite. Foi também a convite seu que a Confraria do Botero recebeu os ilustres Vladimir Carvalho, Moraes Moreira, Luís Carlos Maciel, Socorro Lira, Salgado Maranhão, Bráulio Tavares, Wilson Flora, Marcus Fernando, Hugo Sukman, José Milton Pinho entre tantos outros que nos deram o prazer de uma conversa agradável. Fomos parceiros na Casa Lima Barreto, onde conheci Simão Curuca, Geraldo do Norte, Sergival, Monarco, Carlinhos Nascimento, Rubem Confete, Roberto Serrão, Adriano do Borel entre tantos outros bambas.

Cordelista de primeira linha, sentado na cadeira de Catulo da Paixão Cearense na Academia Brasileira de Cordel, vendia cordéis na feira de São Cristóvão e nas livrarias, enquanto gravava musicas com Zeca Baleiro, Fagner, Zeca Pagodinho, Chico César, Maciel Melo, Silvério Pessoa e outros consagrados que emprestavam voz aos seus trabalhos em oito CDs autorais gravados, o último ainda inédito. Gostava do contato com o público em shows ao vivo. Num dos últimos comandou o lançamento do meu SITIADO, há um mês, aqui no Rio.

Na sua intransigente defesa da cultura nordestina, desafiava os cariocas: “Vocês concordam que num tripé de sustentação da música brasileira podemos colocar Luiz Gonzaga?” – perguntava aos que concordavam, certamente querendo ouvir dele, Chico, quais os outros dois pilares. – “Agora, procurem vocês os outros dois, porque um já estamos de acordo que é Gonzaga”. E soltava uma gaitada do malandro nordestino que passou pra trás o carioca. As tiradas “chicosalianas”, como ele mesmo chamava, eram divertidas. Tinha humor para tudo.

Duas coisas o tiravam do sério: O “iê-iê-iê” com Roberto Carlos, Beatles e tudo; e a Tropicália – não engolia Caetano. Embora reconhecesse em Gil um músico completo e dizia que só seria entendido inteiro no futuro, não gostava do movimento dos baianos.

Assistimos juntos “Torquato, todas as horas do fim” (de Eduardo Ades e Marcus Fernando), de que gostou muito e criou uma tirada “chicosaleana”:  “eu sempre soube que ele não se misturava aos baianos”, disse – elogiando os diretores do filme. Já tirava Torquato dos baianos – de quem tinha bronca – e queria os responsáveis pelo filme como aliados. Eu tinha separado a última Revestrés, com uma matéria de Carlos Galvão sobre a coleção de cordéis de Torquato e que falava sobre a influência da literatura de cordel nas letras de Torquato, ressaltado pelo autor. Certamente teria gostado muito. Pena que não deu tempo.

Tínhamos combinado fazer no Clube do Choro, um encontro a que ele denominou “Sitiados em Brasília” agregando a nós dois, o acordeonista maravilhoso Adelson Viana. Na sua generosidade, me botava no show e promovia meu livro. No dia anterior, eu já tinha um lançamento em Brasília na Visconde Livraria, a convite do Coletivo de Poetas na pessoa do conterrâneo Menezes y Moraes. Quando soube que estava doente, me pediu que desmarcasse o Clube do Choro e o nosso Sitiado, mas insistia com veemência que eu fosse ao lançamento na Livraria.

Depois do lançamento de Sitiado na livraria soube da sua morte no dia que seria realizado o show desmarcado. Na madrugada. Tinha falado com ele na véspera da viagem e não achava que ele partisse assim tão cedo.

Escrevo essas lembranças alguns dias depois e a ficha ainda não caiu. Tô achando que o encontro no Botero numa quarta feira dessas qualquer. Ou ainda espero um telefonema para tomar um chope no Manolo. Ele me mandou pra longe e morreu. Não pude ir ao enterro, não sou testemunha de sua partida. Eu aqui fiquei puto. Mas ele me explicou numa tirada “chicosaleana” as razões de sua partida – já que estava com um câncer – que me apareceu nesse instante, abrindo aleatoriamente um dos seus cordéis:

“A conclusão que cheguei
Sobre a morte repentina
Tem lá o seu lado bom
O lado que nos ensina
Viver não é permissão
Viver é uma missão
Naquilo que se destina

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Versos tirado do cordel “As Minas de Minas”, grifado no original.
Desenho: 1000TON

     



Chico no Céu por Gervásio


CAVALEIROS ENTRE O CORDEL E A HISTÓRIA (1)


Vladimir Carvalho (2)


                Quando Edmar Oliveira decidiu-se a vir aventurar-se no Rio de Janeiro nos ainda duros finais dos anos de 1970 já se encontrava sobrecarregado de nordestinidades: a seca, o cangaço, domínios holandeses, coronelismo, marchas revolucionárias, a fama dos cordéis e da literatura regionalista de décadas passadas. Não esquecera tampouco as boiadas, os vaqueiros, o folclore e o velho Parnaíba com suas curvas e ilhas passeadas por sonolentos vaporetos, enfim a cara e a memória do seu avoengo Piauí. Tudo aquilo e as histórias que curtira desde menino fustigavam a sua sensibilidade como a exigir o seu testemunho. Entretanto, não lhe pesavam no espírito essas lembranças; pelo contrário, as acolhia com uma espécie de estranha ternura, um paliativo enquanto afiava as garras no conhecimento da psiquiatria, esta, sim, ferramenta de trabalho que lhe inseria em novo cotidiano como médico engajado na fervilhante metrópole.

                Foi adiando como pôde o embate com o memorial que trazia no seu baú até que finalmente resolveu sentar-se e escrever o que latejava em seu íntimo. Veio como um jorro o seu primeiro romance, Terra do Fogo, que publicou em 2013 (Vieira & Lent Casa Editorial, Rio de Janeiro) sobre uma Teresina tentando acompanhar as mudanças prementes do país e fazer a sua reforma urbana, nem sempre favorável aos pobres e humildes.

                Os melhores dotes de sua obra inaugural, que não era indiferente a certos aspectos do épico, ressurgem agora de forma mais assumida em seu novo romance, este Sitiado (Chiado Editora, Portugal, Brasil, Angola) já nas livrarias. Sempre honrando os fatos da História, no caso a marcha célebre da Coluna Prestes, empreendida em meados dos anos de 1920 – em especial se ocupando dos episódios da sua passagem pelas terras do Piauí e do Maranhão – Edmar Oliveira leva a cabo um urdido jogo de contraponto seguindo os passos de seus personagens, ziguezagueando entre o real histórico e o imaginário popular num aliciante vai e vem lúdico e prazeroso que prende e envolve o leitor.

                Com essa estratégia narrativa, é bom dizer, plena de liberdade poética, vemos os homens da Coluna e mesmo as gentes do povo transformarem-se nas figuras medievais dos cavaleiros andantes das Cruzadas. Mouros e cristãos em ação, às vezes eletrizantes, que pela prodigiosa fusão literária nos fazem lembrar as astúcias estéticas que só o cinema pode nos proporcionar. Com roldãos, carlos magnos, oliveiros e ferrabrazes despudoradamente entrelaçados e confundidos com os nossos contemporâneos Luiz Carlos Prestes, Miguel Costa e Juarez Távora. Ao sabor desse compasso binário, a fabulação segue estribada nas reações e nos sonhos do matuto Teodoro, alma pura do povo, mas esperto e imaginoso amante de estórias, ouvido colado na oralidade, inveterado leitor que é de cordel e crente em padim Cícero. Uma natureza assim seria também uma porta aberta para os eflúvios de utopias salvadoras, de mágicas transformações, de mitos de terras prometidas e, portanto, logo acreditou que “Prestes era muito homem para vadear o mar-oceano e virar a Oropa em frege”

                Como soldado, Teodoro dormia na trincheira e sonhava como se estivesse nos embates antigos, coisas filtradas de suas leituras, que se misturavam com a realidade em que vivia as agruras de sua gente. Acordado ouvia falar das peripécias da Coluna aparecendo e desaparecendo, cegando as tropas inimigas com as manobras geniais do Cavaleiro da Esperança, que punha em prática estratégias desconhecidas como o nó húngaro e as falsas retiradas que desnorteavam o adversário. Mas também ficava a par dos desatinos e erros da Coluna, como foi o caso do ataque a Piancó, na Paraíba, onde os revoltosos encontraram forte resistência e deixaram para trás o episódio para sempre lembrado da morte do padre Aristides, que liderava a defesa da cidade. Uma mancha para sempre no currículo de Prestes. Tudo isso e muito mais é matéria prima nas mãos hábeis de Oliveira. Em estilo simples, fluente e bem-humorado, manobra ele numa clave próxima do realismo mágico, abrindo espaço para insuspeitados e sedutores personagens, alguns retirados da vida real e da crônica pródiga dos sertões de sua região. É o caso de um certo Manuel Bernardino da Mata, fascinante pelo que encerra de instigantes contradições, sendo ao mesmo tempo, por artes de uma curiosa dialética, socialista militante, espírita e vegetariano! Por isso mesmo tornando-se afamado e recebendo a alcunha de Lenine do Maranhão.


                Um aspecto de Sitiado que veio enriquecer e lhe trazer especial colorido foi o recurso em que acoplando História e estória recorre à literatura popular da lavra do gênio absoluto do cordel nordestino, o paraibano Leandro Gomes de Barros – seu proto criador, fonte em que até Ariano Suassuna chegou a beber. São de Leandro, sobretudo de sua História da Donzela Teodora, as epígrafes de abertura de cada capítulo do romance, concorrendo para o clima em que verdade e imaginação dominam todo o entrecho, o que o coloca entre os melhores da atual safra.

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(1) Publicado no Correio Braziliense em 18.11.17
(2) Cineastra, professor de cinema da UnB, escritor.