quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Estrela de Belém


O Piauinauta, na noite de natal, viu riscar o céu uma estrela de Belém, que descambou lá pros rumos do sertão. Lembrou que Palmeirais, onde nasceu, primeiro se chamou Belém. Será que a estrela foi prá lá?
Feliz Natal pra todo mundo, que eu aqui sou feliz com Marcelina, Januária, Juliano e Janaina, meu particular espaço sideral.
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O Piauinauta sai numa quarta feira porque é Natal.Se você não aceitá-lo como presente bote debaixo da árvore. Alguem pode querer um presente qualquer.


OUTRO CONTO DE NATAL

Edmar Oliveira




para Viviane Fonseca

Aquele dia era diferente dos outros. Os carros buzinavam mais, as pessoas pareciam mais felizes, o sol era mais brilhante, o movimento de tudo era diferente dos outros dias. Foi fácil conseguir dinheiro para um refresco e um salgado no primeiro lanche do dia, antes da primeira hora de malabarismos no sinal. Nos outros dias, quase sempre, só conseguia comer alguma coisa à tarde. Foi de novo para o sinal e logo tinha grana pro almoço. Nem pensou em cheirar cola naquele dia. As pessoas, diferente dos outros dias, não estavam irritadas, brigonas. Riam, abaixavam o vidro do carro. As crianças, muitas crianças dentro dos carros, davam adeusinho, num cumprimento de sorrisos. Como era criança também, daquela vez sentiu uma inveja sem raiva de estar dentro dos carros. Almoçou sem pedir. Descansou de barriga cheia, que era um cansaço gostoso e dava sono. Fazia tempo que não se sentia assim. Despertou com um ho, ho ho, de um gordo papai-noel que passava na carroceria de um carro, ao som de um gingo-bel natalino, pedindo para as pessoas comprarem um presente de última hora na loja tal, que ficaria aberta até muito tarde. Nem lembrava que já era natal. E não podia ir pra casa hoje. Não tinha presente, não tinha natal, não podia voltar pra casa. Devia droga a uns carinhas no morro e fugiu, jurado de morte. Estava perto, mas muito longe se não podia voltar. O pai não tinha, a mãe chorava e rezava por ele, tinha certeza. Anoitecia, as ruas se esvaziaram e ficou triste. O pisca-pisca das luzes de natal nos apartamentos em volta. A felicidade lá em cima e a tristeza cá em baixo na solidão da rua vazia. A tristeza da noite trouxe a penumbra das poucas luzes dos postes. Mas as luzes coloridas do natal, piscando nos prédios, eram estrelas de Belém em várias casas. Nenhuma estrela dizia que ele estava ali. Nunca ficou tão só. Cheirou cola e se sentiu melhor no meio daquelas luzes de natal. Sentiu até que elas desciam dos prédios para ficarem perto dele numa árvore de natal cintilante. Adormeceu sob a marquise e sonhou que a estrela de Belém ficava acima do morro em que tinha sua casa. E que os três reis magos levavam presentes para o morro. Mas ele não estava lá. Estava só, sem manjedoura, sem família, sem presentes, sem natal. Era um filho de Deus bem mais pobre que o outro...


Natal


Graça Vilhena


nada sei de ouro

insenso ou mirra

se armo um presépio

é porque minha mãe ensinou

que se deve acreditar

nos meninos pobres.

CANDIDATO À ACADEMIA



Geraldo Borges


Quando eu era jovem, na minha província, arrogante, vanguardista, odiava as academias de letras, não sabendo que eu possuía a minha própria igreja onde queimávamos o nosso incenso juvenil. Hoje beirando a velhice, tão eufemisticamente chamada de terceira idade, já não me dou ao luxo esnobe de odiar nada. Minha mente, como um rádio, sintoniza todas as freqüências, admira todas as cores do arco–íris .
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Neste momento, pasmem os meus amigos, proponho-me uma cadeira na academia Não pensem que é na APL, academia piauiense de letras. Proponho uma vaga na ABL. Nessa academia onde fecharam as portas para Lima Barreto, Monteiro Lobato, Graciliano Ramos, Mario Quintana, e muitos outros que o leitor pode nomear. E abriram-na cordialmente para Ivo Pintanguy, um cirurgião plástico. Talvez Freud explique. Beleza e imortalidade se refletem no mesmo espelho.
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O meu desejo de entrar na academia é o chá, o chá das cinco, com torradas, junto com os velhinhos, vestindo aquele uniforme esquisito, chamado fardão, de estilo me parece barroco, rococó, numa palavra, extravagante. Quero ter a sensação de como aquele figurino vai sensibilizar o meu corpo, e como eu vou me comportar dentro dele. Outra coisa: quero ver a beleza das porcelanas, a sonoridade dos pires nas chávenas. Os enfeites vazados no bule. Não acredito que acadêmicos usem garrafas térmicas para servir o seu chá. Seria o cumulo da falta de bom gosto. Um bule clássico serve de emblema, sem duvida, à aristocracia das letras brasileira.
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Tenho para mim que a academia foi uma das maiores invenções de Machado de Assis, seu principal livro enciclopédico, com o maior numero de personagens, que, vão se sucedendo, de gerações em gerações, embora, sejam imortais. E eu como sou um ser fictício, um ente de papel, gostaria de fazer parte deste sodalício, palavra bela que, me fez muita inveja, na juventude.
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Agora me acho-me psicologicamente amadurecido para entrar na academia. Mas para adentrar as portas deste solene recinto, deste templo da imortalidade e provar do elixir da longa vida, quer dizer, de seu chá, com torradas, é preciso escrever livros, discursos políticos, manifestos. Parece que houve acadêmicos que, entraram na Academia, assim como guerreiros, que entram na igreja montados em cavalos, mais pelo fio da espada do que pelo bico da pena. Hoje a Academia inclinou-se bastante para o campo político, é tão obliqua e dissimulada como os olhos de Capitu. Talvez isto aconteça por uma questão de sobrevivência. Muitos personagens de Machado estão na Academia. Rubião, por exemplo, um grande finório que enrolou o filosofo Quincas Borba... Bentinho deve estar lá também, com certeza, pois escreveu Dom Casmurro. Exposto o meu desejo de entrar para a Academia Brasileira de Letras. Vou meter mãos a obra e começar a minha campanha eleitoral. Para isto, de antemão, vou rezar para que alguns velhinhos tomadores de chá morram o mais rápido possível as despeito de toda sua imortalidade, pois quanto mais vaga no Cenáculo melhor. Eu já li em algum lugar por aí, como é, mais ou menos, o ritual, os procedimentos, que se deve seguir para angariar votos e simpatia para ser eleito. Quem melhor talhou este ritual para arranjar votos, e foi eleito rapidamente, chama-se Paulo Coelho. Talvez tenha feito magia. È um mago. Não teve dificuldade de entrar na Casa do bruxo Machado de Assis. E não venha com esta de dizer que Paulo Coelho não é escritor. É sim. Vou escrever uma carta, com o mesmo teor, para todos os acadêmicos, e desejar-lhes Feliz Natal e próspero Ano Novo. Pode ser que não seja eleito logo na primeira investida. Sempre é bom arranjar um padrinho, alguém lá de dentro que sensibilize os outros acadêmicos. Não vou desistir. Um dia chego lá. A academia está de portas abertas para quem quiser vestir o fardão da República das letras. E quando um belo dia, eu chegar a academia, vou matar duas lebres com uma paulada só. Pois na condição de imortal, e autor que ainda não é defunto, eu tenho certeza que a academia piauiense de letras me abrirá as portas por unanimidade. E aí eu vou apadrinhar o Kenard Kruel, que também está doido para ser membro deste sodalício..

Poesia

Ana Cecília Salis





As palavras
não dizem o suficiente.
Só quando fazem poesia...

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O QUE CADA UM MERECE NA CARA

Durvalino Couto



quando recebeu uma torta na cara
Jean-Luc Godard começou a tirar
a torta da cara com o dedo e comentou
(levando o dedo à boca):
“a torta está uma delícia”
José Genoíno devia ter tido a mesma reação
mas não
ninguém lhe jogou na cara o dedo duro
de um morto em Xambió-ah!
que papelão
jogaram uma galinha na Marta
fiquei na minha
não dá farofa farinha com farinha
eu jogaria um violão na cara do Sérgio Ricardo
um veado nos braços de Kassab
quem sabe?
jogaria uma cueca na cara
do Wando da calcinha
e ficaria na minha



jogaria um disco de cera
quebrado
na cara do Flávio Cavalcante
não jogaria bacalhau
na cara do Chacrinha
na cara do Maluf
um Vulcabrás sem mais
e no cu um vibrador lhe enfiaria
afinal
estupraria mas não mataria
jogaria uma sapato gostosa
o que é que tem?
nos braços da prefeita
de Fortaleza
lá no Pecem
jogaria um beijo
nas bochechas da Bündchen
seria uma beleza
e me jogaria avec plaisir
nos braços da Bruni do Sarkozy





o Bush?
agir como ele age!
(e na minha cara mesmo
só poemas safos de Bocage)
não jogaria um sapato em sua cara
hesito, temo mas não tardo:
na cara do Bush jogaria um petardo






Durvalino


16.12.2008

Flor sobre rodas


Pablo das Oliveiras

por sobre
areia e deserto
pólem povo
não sei por onde
agarra-se a flor
que roda ao vento
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Pablo já esteve no Piauinauta. Renorna nos desertos dos bedoínos...

O HOMEM TRANSFERIDO

Aderval Borges

Próximo da virada do ano, sinto-me o homem transferido, conduzido para lá
e para cá, sem autonomia, dependente das pessoas e das circunstâncias.
Há uma semana a situação era outra. Andava pelas ruas de Sampa sob devaneios libertários. Pensava no quanto são pouco importantes para a esquerda de hoje os únicos marxistas que para mim valem a pena serem conservados após o óbito da idealizada revolução que prometia pôr o planeta nos eixos: Rosa de Luxemburgo e Antonio Gramsci. Pensamento dialético, para Rosa, era, sobretudo, ter respeito pelas convicções contrárias. Enaltecia a dúvida, o espírito crítico (e autocrítico) constantemente alerta, a radical tolerância às diferenças, para evitar a radicalização sectária e revanchista que mais tarde conduziu os países sob governos marxistas a regimes de exceção mais bárbaros do que aqueles que seus dirigentes haviam combatido. Gramsci foi mais longe. Enquanto para a plêiade marxista tudo o que importava era a política – até um peido era um ato político –, para ele a função
da revolução era meramente aprimorar o processo civilizatório, para propiciar sistemas mais justos. Foi o primeiro comunista a aceitar o jogo democrático. Mas fazia um alerta: se a política prepondera em uma nação, é porque as coisas não vão bem.
Estas foram minhas últimas divagações, quando o farol verde para a passagem de pedestres se abriu. Ainda olhei para conferir se os carros tinham mesmo parado. Quando estava quase chegando ao canteiro central da avenida, a senhora à minha frente gritou "cuidado". Nos milésimos de segundos seguintes fui "transferido" de onde estava para uns quatro metros adiante, sobre o jardim do canteiro (o que me salvou a vida), com os seguintes resultados: uma perna quebrada (e os músculos gravemente feridos), um braço com múltiplas fraturas, um rim bastante ferido, um olho com descolamento do vítreo (causa interferências na imagem, com a sensação de mosquinhas rodopiando o campo de visão) e escoriações até na cabeça do pau. Claro que Rosa, Gramsci e os esquerdistas boçais do nosso tempo nada tiveram a ver com o que aconteceu. Apenas mais um motoboy irresponsável que, num ato político homicida, passou a toda pelo sinal vermelho.
Daí por diante, vivi o purgatório danteano. Por desleixo, não tenho plano de saúde. Fui transferido de hospital para hospital, só conseguindo passar pela cirurgia – que deveria ser de emergência – quatro dias depois. Nesse período, estive nos cenários mais sórdidos desse nosso medieval sistema público e privado de saúde. Passei por todo tipo humilhações e contaminações possíveis. Respondi a dezenas de questionários idiotas. Usaram-me como caso para aula prática para alunos de Medicina. Nenhuma das minhas solicitações foi atendida e nenhuma das minhas dúvidas respondidas. Sobrevivi graças ao empenho desesperado da minha mulher.
Estou bem? Resignadamente, respondo a todos que sim. Vou dizer o quê? Meus visitantes estão tão eufóricos com a virada do ano, apesar dos auspícios da crise, e não gosto de jogar merda no pirão de ninguém. De vez em quando o bostinha que quase me matou telefona. Liga choroso para saber como estou. É evangélico. No final da conversa, sempre deseja que Deus fique comigo. Ao que respondo da mesma forma: muito agradecido, mas prefiro o meu Deus, do qual não cobro nada, nada me cobra, respeita os sinais de trânsito e preza a vida das pessoas.
Para finalizar da forma mais idiota possível, conforme a etiqueta de fim de ano, desejo um bom 2009 para todos. Da minha parte, para o ano que entra e para os demais vindouros, ficarei com um olho no gato e o outro no peixe. Melhor dizendo, um olho na vida e o outro no trânsito.
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Aderval Borges é poeta paulistando e foi encontrado no espaço sideral, depois deste impulso motoboysta, por Durvalino.

Terra Natal

Geraldo Borges


O que resta em mim de minha cidade
Tirei da sua raiz e de seu humo
Do seu chão não tenho mais saudade
Nem do balanço de seu fio de prumo.

O que resta em mim do quarteirão
Da esquina da praça e da igreja
Postais perdidos riscos do borrão
De um passado um eco que flameja.

O que resta em mim do som do sino
Do Parnaíba correndo no seu leito
Da minha calça curta de menino

É este soneto molhado que derrama
Da raiz do humano do meu peito
Serpente suspensa que se escama...

Feliz Natal, ou NO PAÍS DE BETTY E MADONA, E ARREDORES

1000TON


Betty Boop, essa mulherzinha sensacional, personagem de desenhos animados, criada por Max Fleischer, fez sucesso nos states e no mundo todo, na mesma época da grande depressão e do Al Capone, mestre em imundas falcatruas e bárbaros assassinatos, pelos quais passou quase incólume. Dançou porque fraudou o imposto de renda. A pequenina e formosa pin-up foi censurada na época, por dançar com o cachorrinho Bimbo, seu namorado, em trajes menores, com as coxas de fora não podia (por aqui, a xuxa não foi molestada, trepar com ursinho de pelúcia pode).
Órgãos de informação, hora e meia, teimam em comparar a grande depressão com a queda de pressão sanguínea, momentânea, dos atuais big shots da especulação desenfreada. Os grandões tomam apenas pequenos sustos dentro de suas limousines, no percurso pavimentado até o próximo cassino, sem problemas. É como se fosse um escorregão da Madonna. Ela levanta rápido, e continua o seu chôu, lépida e fagueira. Nossotros continuamos dançando ao som de “Soy loco por ti, America”.
“Sifu” mesmo é quem comprou ou negociou os papéis podres vendidos por esses profissas.
O mais engraçado de tudo isso é que, lá nos anos 30, o governo americano não dispunha da altíssima tecnologia da qual dispomos hoje, desde a escuta telefônica até os mais sofisticados aparelhos de rastreamento, sem falar nos aparelhadíssimos birôs de contra espionagem e contrainformação.
Com todas essas vantagens, os nossos modernos iluminados cabeções não descobriram na-da, na-da, nadinha, mermão! Méritos pros contadores, técnicos e detetives das antigas, com suas maquininhas mecânicas de manivela, à luz de velas, com lupas embaçadas, noites e mais noites pesquisando, escarafunchando, vigiando...E conseguiram enjaular talvez o maior gângster de todos os tempos, bró !
Escorregando para os nossos dias, agora, cagar regra depois do acontecido, há, há, há, Miriam Leitão e PAUL VOLCKER (me perdoe, oh! meu querido Paul, de tantas contribuições científico-econômicas para a humanidade, colocar-te aqui junto com essa lesma lerda!). É mole ? ”Indícios havia...sinais de alerta...alguns observadores já haviam detectado...” Ora, vão todos pra bolsa que ruiu !...




Bicho, aqui na terra do Zé Carioca, desde a década de 30, quando já se fazia uma fezinha no tradicional “jogo do bicho”, valia o escrito e vale até hoje, viu ?
Nessa mesma década do Capone também valia o escrito: tantos por cento pro chefe de polícia fulano, tantos por cento pro senador sicrano, tantos por cento pra obra de caridade de beltrano, estava tudo nos conforme.
Na terra da Betty Boop e da Madonna, pasmem, indagorinha mesmo, não valeu o escrito!
O papel era de mentirinha, tal e qual a encantadora personagem, só existia nos desenhos animados. Boop-Oop-A-Doop !(tradução: bu-bu-pi-du!)
E a face do papel foi desbotando, desbotando, assim como a maquilagem da Madonna, ao término de mais uma de suas feéricas apresentações, deixando evidente o cansaço, as rugas e a envelhecida face real de um sistema decrepto, que teima em “circular” pelo mundo, feito um papai noel mortovivo, sem uma tumba para descansar o sono eterno.
Dá pra ouvir algumas palavras, murmuradas bem baixinho, pelo combalido e maltrapilho velhinho, ouçam:
“Ho! Ho! Ho! Onde fica o próximo cassi... No! No! No!”

anoquevemsejafeliz



ouça bastante mpb (no rádio, nos carros, nas casas, nos apartamentos, na televisão); que a poesia penetre os corações (a poesia de mariana botelho, a de graça vilhena, a de keula araújo, a de salgado maranhão, a de joão ayres, a de lelê, a minha (rs), a de nicolas behr, a de muitos outros); leia as crônicas de rogério newton; ouça fernanda takai, ceumar, clodo ferreira, dominguinhos, tom zé, silvério pessoa e ednardo sem parar; devore os livros de thomas nagel, de andré comte-sponville, de edgar morin ("amor/poesia/sabedoria", por exemplo); e não se deixe de cineas santos, de assai campelo, de frô, de celso bê, de celso adolfo, nileide e demais iguais, que tornam imensa a existência de um vivente; e não esqueça os versos de chico alvim; nunca se ausente de pensar em mim – de mim que estou ali no berlim sorvendo uma gelada, esperando aloísio brandão; de mim que me sinto feliz e guardado em carinho por helô, matias, julia, luisa, débora e daniela



são votos de Climério Ferreira

UM CONTO DE NATAL




Edmar Oliveira

Nasceu num quarto de chão batido, o mesmo chão lambido pela vaca e pela cabra em busca do sal da terra. Debaixo do mesmo sol que ressequia o sertão e evaporava a água que não tinha. Maria lhe deu o nome de José, como o pai. José de Jesus, como promessa da redenção por novo provir. O mês era dezembro, o dia vinte e cinco, mas que tanto fazia ser outro dia como todos tão iguais. Vingou, como José Antônio, José Francisco, José Pedro, Maria das Dores, Maria de Fátima, Maria do Amparo e Maria de Jesus, esta também como ele, nascida em outro Natal. Os santos marcavam o calendário do tempo que era de uma seca toda igual. Os outros, tantos quantos os vivos, morreram na primeira desavença do ser com o mundo. Febre e caganeira mataram mais de três. Catarro e tosse braba uns dois. Fraqueza e quebranto outros tantos. Nem dos nomes ninguém mais lembrava. Mas com ele Maria teve mais esperança. Não só de vingar, como em mudar a sina de quem se acabava em cima daquela terra, na qual mais se colhia sofrimento do que de comer. Mas é dos resistentes que o sertão é pátria. Do filho deste solo és mãe, gentil pátria minha sertão. Este José de dezembro ficou taludo, escapando de todas as artimanhas do árido. E começou a gostar das dificuldades. Um dia foi embora tentar a vida no sul. Morou na casa de uns primos, filhos do tio Baltazar. João Batista foi seu condutor na cidade grande. Ensinou o caminho do Rio das Pedras. Pedro e Lucas hoje contam suas aventuras. Pois que José de Jesus ganhou muito dinheiro na cidade grande quando mandou buscar Maria e seus irmãos. José, o pai, já tinha falecido. Maria agradeceu a Deus pelo filho que tivera. No seu barraco na favela tinha um conforto tão grande que nunca vira no sertão. Água encanada, então, Deus é pai. Televisão e luz elétrica era mais que milagre. Comida no prato, todo dia, era muito mais do que desejara. Enquanto viveu este filho só lhe deu alegria, até ser atravessado por um tiro de fuzil, no alto do morro, em confronto com o caveirão da polícia. Subiu aos céus na semana santa. E em todo Natal Maria lembra do filho imolado para que seus irmãos tivessem uma vida mais decente nesta terra abençoada. Toda segunda feira Maria acende uma vela pro seu Jesus. E esta segunda feira é véspera de Natal...
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Esse conto foi publicado no ano passado. Em 19/12/2007 , uma segunda.
Ilustração: "Meu Guri", Da Penha, da Casa Lima Barreto, ali no sítio abaixo.

AGORA

Keula Araújo


Agora
Que você resolveu
Querer estar
Agora
Que percebeu
Sentir amor
Depois de tanto tempo
Refletindo
Tanta dúvida
Ao me olhar
Agora que sorriu
E disse venha
Agora
Me convença
A ficar.

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Desenho: Paulo Moura

Copacabana



Numa dobra do tempo o Piauinauta foi à Copacabana no passado, num dia de lindo por-do-sol. Repare que o mar não tinha sido aterrado para aumentar a avenida Atlântica e na praia só o Copacabana Palace aparece imponente. Ainda já foi mais bonito esse Rio de Janeiro...

Alguem sonhou comigo

Climério Ferreira



Às vezes sinto-me tão bem

Que chego a pensar

Que eu sou o sonho bom de alguém

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Pedra Furada



Só num por-do-sol do equinócio, quando o astro rei amarela ouro assim a Pedra Furada, na Serra da Capivara, é possível avistar o Piauinauta deste ângulo. No ano que vem só nos dia 20 de março ou 22 de novembro é possível esta revelação na Serra da Capivara. O problema é que no Piauí, quase na linha do equador, acontece o equinócio quase todo dia. É só a gente tudo se juntar ao norte do parque, no rumo de Parnaíba, pular forte, que ajuda a terra embalar um pouquinho pra permitir a visão...

O AFETO QUE SE ENCERRA

Edmar Oliveira

Amigo é coisa pra se guardar do lado não sei do quê das canções que escutei. Mas é mais. Amigo é pedaço, cultivo da semente da planta que a gente quer bem. É nossa construção e fica fazendo parte de nós. Quase como um órgão vital que faz o nosso ser funcionar e às vezes nos adoece.
É que têm as desavenças, as discordâncias da gente com a gente mesmo. Se é das amizades se tolera os atropelos. Mas há a possibilidade do rompimento. Não é que se queira, mas
há. E pior, a gente nem sabe quando foi a ruptura. É muito depois que se descobre a quebra. E aí não há possibilidade de descobrir onde aconteceu. Um acúmulo. A tal da gota que transborda o copo e não tem nada com o derramamento do conteúdo. Aquela última gota coube, a outra é que saiu. E quando se torna fato o que não se quer é de um sem jeito danado. Outro dia me senti assim. E a gente fica sem entender que um pedaço seu tem que ser extirpado na cirurgia dolorosa dos encontros.
E aquela pessoa, tão amigo seu, se distancia na imensidão de um espaço que se não conhecia. E é como se nunca estivesse estado ali próximo. É na distância que se colocam as divergências insuperáveis. Porque as há. Não que se queira, mas elas se impõem. E a fase de uma separação de amigos é dolorosa, como é a falta de um pedaço seu.


Mas mais dói, mais destrói a alma, é descobrir a dor da insignificância do tempo que teceu aquela amizade. Uma dor de que aquele tempo enorme parece nunca ter existido. Que é uma dor de alívio, como já não existisse razão até de se falar deste assunto. Mas de quê mesmo se estava a conversar? Ah! Cantando música de amigo que já não há. O que se imagina é mais verdadeiro que o que se percebe. O que era um amigo pode muito bem ser um bom filho da puta. E ai a gente se acalma porque o filho da puta pode ser eu, do lado de cá de nós também. Não ganhamos o jogo, mas o empate pode ser um resultado além das expectativas. Porque não há um lado que fica ruim, mas os dois juntos saem bem, passada a contenda. Não foi o amigo que deixou de ser. Mas o eu, dentro de nós, na construção do que não tinha...


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ILUSTRAÇÃO: Amaral de Teresina, o gênio dos traços computadorizados.

ÍNFIMA



Ana Cecília Salis


Digo às palavras
Que teimam em fugir
De mim
Não quero mais brigar...
Mas façam-me uma sentença
que faça sentido
e eu as deixo em paz...
não peço mais que um sentido...
Não me importa o véu
que se danem as certezas
que proliferem dúvidas
não me importa
mas não me roubem um sentido
uma ínfima afirmação
que me permita
o recomeço
que me devolva
o traçado
a trilha
o fio que me reconduza a ti ...

Encontro Sinistro

Geraldo Borges



De repente, ao passar pela praça da Bandeira, vi, ao pé de uma estátua, a figura de um amigo, vestindo calça e camisa vermelha. Há mais de três anos eu não o avistava. Pois fazia muito tempo que eu não voltava a minha cidade. Agora estava de volta, sentido o clima, tentando ver se valeria a pena voltar de vez, para sempre, ao meu berço natal. Notei, que, meu amigo, mesmo olhando para mim, não deu sinal de vida.


Na verdade, quando o vi, achei-o velho, decrépito, duvidei que fosse ele. Tomei um susto. E não fiz nenhum movimento para me aproximar dele e cumprimentá-lo. Olhei para ele disfarçando e como não vi nenhum brilho nos seus olhos encravado em seu rosto, pálido, desisti, e arrepiei caminho. Se fosse mesmo o meu amigo, teria correspondido o meu olhar e me dirigido a palavra. Mas que parecia com ele, parecia, descontando um pouco as feições envelhecidas.
Ele ficou para trás, escorado, na estatua de um morto famoso.



De repente me deu vontade de mijar. Se estivesse em Roma, rapidamente teria mijado, por que lá existem muitos banheiros públicos entre suas velhas ruínas, e até as estatuas se dão ao prazer de mijar ornando lindas fontes. Mas eu estava em Teresina à margem do rio Parnaíba. Calor quarenta graus.


Procurei um banheiro fora da praça, em um bar. Não foi fácil. Finalmente encontre-o De bexiga aliviada retorno para a praça pelo mesmo caminho.


De repente tomo um susto de novo. Agora é o meu amigo mesmo de verdade que está ali. Não é uma alucinação, embora o sol esteja quase derretendo a minha moleira. Só que não está mais perto da estatua. Está sentado em um banco. Eu o vejo e o reconheço. Chamo-o por seu nome e me aproximo dele. Dou-lhe um forte abraço. Aí conto - lhe minha história recente.
- Não podia ser eu mesmo. Cheguei aqui agora.


Digo-lhe que a única diferença é que ele está vestido de preto, o outro estava de vermelho.
Começamos a recorda a nossa infância e adolescência na rua Campo Sales. Eu falei que estaria voltando para a cidade onde moro, na quinta feira, dia 30 de outubro. Estávamos no dia 25. Ele pediu o meu telefone para telefonar no outro dia e marcar um encontro para tomarmos umas cervejas. Até me perguntou se eu ainda bebia. Ele também me deu seu telefone. Despedimo-nos. Como estava de preto eu pensei que estivesse de luto de alguém. Mas preferi não perguntar.
Passaram-se três dias. Nada de meu amigo me telefonar. Resolvi ligar para ele. Atenderam de uma agencia funerária. Perguntei por ele.


- O Fausto?
- Sim. O Faustino.
- Está morto. No cemitério.
- Que dia ele morreu?
- Amanhã é sua visita de cova.


Bati o telefone, sem entender nada. Depois deste acontecimento resolvi que não voltarei mais a Teresina nem a passeio. Pois toda vez que chego nessa cidade tenho noticia da morte de um amigo.

Mandala

SACHA


Sandra Chaves é professora e artista plástica

Anotação Instigante de Lima Barreto no Diário do Hospício

Edmar Oliveira





Jurandir Freire Costa, psicanalista, escritor e intelectual de nossas letras, num antigo trabalho de pesquisa, disseca a "Liga Brasileira de Higiene Mental", movimento eugênico da psiquiatria brasileira atrelado ao nazismo europeu antes da Segunda Guerra (ver "História da Psiquiatria no Brasil" Ed. Documentário, RJ, l976). Nesse trabalho desenterra um texto significativo do psiquiatra Henrique Roxo (1877-1969). O alienista dos anos vinte e trinta do século passado, preocupado em disseminar as idéias eugênicas entre nós, faz uma afronta, mesmo ao conhecimento científico de então, apenas para afirmar sua tese em que pregava a inferioridade racial dos negros. Dizia o texto de Henrique Roxo, garimpado por Jurandir: "Não é a constituição física do preto, a sua cor escura que lhe marcam o ferrete da inferioridade. É a evolução que não se deu. Ficaram retardatários. Ao passo que os brancos iam transmitindo um cérebro em que as dobras de passagem mais se aprimoravam, em que os neurônios tinham uma atividade mais apurada, os negros que indolentemente se furtaram à emigração, em que a concorrência psíquica era nula, levam a seus dependentes um cérebro pouco afeito ao trabalho, um órgão que de grandes esforços não era capaz".

Meu Deus! Quanta deturpação da ciência em nome da política. O que estava por trás era o racismo desavergonhado de então. Releia o texto para realçar a deformidade que o racismo impunha ao que se chamava de ciência. Atenção para afirmações inteiramente falsas sobre anatomia para afirmar o racismo. E tem mais, vocifera Henrique Roxo, pregando abertamente a aculturação e subordinação racial: "Suponhamos(...) que um negro com esta má tara hereditária se transportasse para um centro adiantado e que com sua congênere viesse a ter descendência. Imaginemos (...) que esta fosse pouco a pouco progredindo e que de pai a filho se fosse legando cada vez mais um cérebro exercitado, ativo. Dentro de um certo número de descendentes chegaria, finalmente, um cérebro tão evoluído quanto de um branco. Seria tão inteligente quanto este".

Mas porque fui buscar tal despautério de um psiquiatra do começo do século passado, hoje sabidamente ultrapassado nos seus conhecimentos? (Apesar de um auditório do Instituto de Psiquiatria da antiga Universidade do Brasil – atual UFRJ –, berço do conhecimento acadêmico, levar seu nome. E vários hospitais psiquiátricos pelo Brasil).Primeiro, porque é muito bom que saibamos que o fascismo, o nazismo e o racismo estiveram entre nós e sempre tentam um retorno, mesmo por linhas tortas. Nos deixa vigilantes contra um pseudo-saber que, vez por outra, nos apresentam. Com a certeza do Henrique Roxo nos falam agora da droga da felicidade, de mapeamentos cerebrais e outras bobagens. Mas não é disso aqui que falo hoje.

Vou buscar uma instigante anotação do velho Lima Barreto no Diário do Hospício. Internado como maluco Lima Barreto guardava a análise do seu tempo muito intacta. E se é um absurdo tomarmos conhecimento das declarações estapafúrdias do Henrique Roxo, é com um enorme prazer escutar Lima Barreto afirmar nas anotações do seu Diário do Hospício: "Tinha que ser examinado pelo Henrique Roxo. Há quatro anos, nós nos conhecemos. É bem curioso esse Roxo. Ele parece estudioso, inteligente, honesto; mas não sei porque não simpatizo com ele. Ele me parece desses médicos brasileiros imbuídos de um ar de certeza de sua arte, desdenhando inteiramente toda a outra atividade intelectual que não a sua e pouco capaz de examinar o fato em si. Acho-o muito livresco e pouco interessado em descobrir, em levantar um pouco o véu de mistério – e que mistério! – que há na especialidade que professa. Lê os livros da Europa, dos Estados Unidos, talvez; mas não lê a natureza. Não tenho por ele antipatia; mas nada me atrai a ele".

Acertou de novo o mulato! E que acerto! Botando na insignificância um baluarte da ciência da época, que no futuro seria descoberto como equivocado, senão mal-intencionado. Sem fazer qualquer concessão aos poderosos de sua época da laia do Dr. Henrique Roxo. Por pura convicção e não por ressentimento. O Henrique Roxo era o psiquiatra. Lima Barreto, o maluco. Naquela época. Mas observem a lucidez e o acerto do Lima quando escrevia, senão para sua época, para o futuro! Se a época não queria ouvir os acertos de Lima, seus escritos seriam reconhecidos no futuro. Um pequeno comentário que, se transformado em romance, não seria reconhecido àquele tempo, hoje é um acerto monumental a um pensamento anacrônico no futuro. E Lima estava já tão certo que não cabia em seu tempo...

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Publicado antes na Casa de Lima Barreto.

ASSUNTO

Keula Araújo

quando você se ausenta
nosso mundo comum
se dissolve
tudo são experimentos
de solidões e liberdades
buscas

então você volta

e a casa se remonta
em nossa cama de rotinas



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desenho: Anjo Doido pra Sair, Paulo Moura

EU AMO A BOMBA

Durvalino Couto

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Depois de ter visto pela terceira e melhor vez o filme Doutor Fantástico, de Stanley Kubrick (Dr. Strangelove or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb), cheguei à conclusão de que os artistas, os criadores, os fantásticos homens de invenção das artes sempre interpretam os fenômenos históricos com um nível de acerto tremendamente superior aos historiadores, sociólogos, antropólogos, economistas ou intelectuais de plantão que existem aos montes por aí. Estes mesmos que a toda hora lançam teses, ensaios, livros e demais ferramentas de resultados questionáveis e sempre superáveis a cada nova tendência, a cada novo filósofo, nova escola, moda, enfoque, foco, argh!

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As ferramentas de Kubrick são a ironia e o humor negro e cáustico. O suficiente para desbancar e debochar da filosofia beligerante que imperou a partir da segunda metade do século XX, após a Segunda Guerra. O mundo fôra, então, repartido em bloco ocidental liberal capitalista e bloco oriental soviético comunista, gerando a monstruosidade conhecida como Guerra Fria, palco de fabulosas tragédias que ceifaram milhares de vidas humanas enquanto durou (inclusive muitos brasileirinhos patriotas, pois não, ou você já esqueceu a ditadura dos militares em todo o continente sul-americano?).

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O começo do filme já e uma piada: um coronel idiota do Reino Unido (o genial Peter Sellers), numa base militar da OTAN abandona metros e metros de impressos de um gigantesco computador analógico para atender ao telefone, onde um general enlouquecido comunica que deflagrou o holocausto nuclear. Os B-52, então, a princípio incrédulos, passam a executar o terrível “Plano R de Romeu”, apontando suas ogivas nucleares para alvos primários e secundários da Cortina de Ferro, do outro lado do mundo.

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Caos e desordem. O humor fino de Kubrick nos arranca gargalhadas nervosas, explosivas, imprevisíveis – tamanho é o non sense das sequências na tela. A cena do general vivido por George C. Scott saindo do banheiro do que parece ser um quarto de motel para atender a outro telefonema às 3 da manhã (acompanhado de uma deliciosa secretária só de calcinha e sutiã que lhe estende o fone) é impagável; do outro lado da linha um funcionário do Pentágono lhe comunica o iminente bomb crash e o convoca para uma reunião de emergência com o presidente da república (também vivido por Sellers). Em trajes menores, pressionado pela amante para não ir, Scott argumenta que o Departamento de Estado “não pára nunca” e sai como se fosse para mais uma reunião trivial, quando, na verdade, se trata do destino de toda a humanidade a ser resolvido nos próximos e exíguos dezoito minutos!

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O clima de caos total ante a loucura que os telefones vermelhos não conseguem resolver; o pânico do presidente vivido por Sellers; o aspecto bufão do premier soviético; a cena em que o coronel/Sellers tenta ligar para a Presidência da República de um orelhão e está sem dinheiro, forçando um soldado a atirar numa máquina de Coca-Cola para conseguir algumas moedas – tudo no filme encaminha o espectador para um clima de farsa total – e o que é pior: tudo isso, durante décadas, sempre esteve na iminência de acontecer, de fato, no mundo.

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O que mais impressiona é que Stanley Kubrick fez este filme genial em 1964, ou seja, no exato momento em que estes fenômenos todos estavam ocorrendo – a crise dos mísseis em Cuba, a guerrilha de Che em lationoamérica, o envio maciço de tropas para o Vietnam, os testes nucleares em ilhas paradisíacas, a presença bela e tétrica do cogumelo atômico, os regimes de direita nas republiquetas bananas ad nauseam...

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O niilismo debochativo de Kubrick subverte qualquer análise aparentemente profunda que os filósofos querem imprimir a uma época que (parece) ainda não passou, de loucura, caos e bestialidade humana. Conseguiremos ainda nos destruir totalmente, como quando no tempo recente em que a vida no planeta era quantificada em megatons? Sem que haja resposta, vejamos de novo este fabuloso filme. Corrida rápida às locadoras e feliz revival.

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Duda voltou ao Piauinauta enciontrado numa dobra do tempo. À locadora, crianças, Eu vi pra mais de dez vezes.

O SONO DOS SINOS

Graça Vilhena







foi o cafuné

das andorinhas

que adormeceu

os sinos da cidade

COMEÇAR DE NOVO





Eu tinha medo da escuridão


Até que as noites se fizeram longas e sem luz


Eu não resistia ao frio facilmente


Até passar a noite molhado numa laje


Eu tinha medo dos mortos


Até ter que dormir num cemitério


Eu tinha rejeição por quem era de Buenos Aires


Até que me deram abrigo e alimento


Eu tinha aversão a Judeus


Até darem remédios aos meus filhos


Eu adorava exibir a minha nova jaqueta


Até dar ela a um garoto com hipotermia


Eu escolhia cuidadosamente a minha comida


Até que tive fome


Eu desconfiava da pele escura


Até que um braço forte me tirou da água


Eu achava que tinha visto muita coisa


Até ver meu povo perambulando sem rumo pelas ruas


Eu não gostava do cachorro do meu vizinho


Até naquela noite eu o ouvir ganir até se afogar


Eu não lembrava os idosos


Até participar dos resgates


Eu não sabia cozinhar


Até ter na minha frente uma panela com arroz e crianças com fome


Eu achava que a minha casa era mais importante que as outras


Até ver todas cobertas pelas águas


Eu tinha orgulho do meu nome e sobrenome


Até a gente se tornar todos seres anônimos


Eu não ouvia rádio


Até ser ela que manteve a minha energia


Eu criticava a bagunça dos estudantes


Até que eles, às centenas, me estenderam suas mãos solidárias


Eu tinha segurança absoluta de como seriam meus próximos anos


Agora nem tanto


Eu vivia numa comunidade com uma classe política


Mas agora espero que a correnteza tenha levado embora


Eu não lembrava o nome de todos os estados


Agora guardo cada um no coração


Eu não tinha boa memória


Talvez por isso eu não lembre de todo mundo


Mas terei mesmo assim o que me resta de vida para agradecer a todos


Eu não te conhecia


Agora você é meu irmão


Tínhamos um rio


Agora somos parte dele


É de manhã, já saiu o sol e não faz tanto frio


Graças a Deus


Vamos começar de novo.


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Poema anônimo, que circula na internet, que fala de uma enchente na Argentina. Resurge na enchente de Santa Catarina, onde as trágicas imagens fazem o visual do poema. Garimpado por Simão da Casa Lima Barreto.

UM CASO DE AMORROR

1000TON


Faz tempo que não que não me escutas
Tu dizes que meus uivos ferem teus ouvidos

Faz tempo que não passeamos agarradinhos
Tu dizes que tens pavor da noite

Faz tempo que a gente não namora
Tu dizes que meus pelos eriçados te arranham

Faz tempo que não dormimos juntos
Tu dizes que minhas garras e meus dentes te machucam

Faz tempo que não brindamos nosso amor
Tu dizes que tens nojo de sangue jorrado

Faz tempo que não jantamos a sós
Tu dizes que te enjoa a carne crua

Faz tempo que não recebemos amigos em casa
Tu dizes que eles se portam como cães danados

Faz tempo que não vamos ao cinema
Tu dizes que não gostas dos filmes do zé do caixão

1000TON








1000 nudes




Giuglielmo Marconi, 1870. Subtraído de Joca Oeiras que publica esta preciosidade e várias outras do livro "1000 nudes" da editora "Taschen". Uma raríssima coleção de nus entre 1839 - 1939.

Um Conto de Luíz Horácio:APENAS OS IDIOTAS CONSEGUEM EXPLICAR O AMOR

Luíz Horácio



para Rejane


Quando ele veio trouxe uma mala velha cheia de livros. Naquele mesmo dia enfiou-a embaixo da nossa cama. Todas as manhãs colocava a mala em cima da cama e ficava a olhar e chorar em meio às páginas dos livros. Um dia tomei coragem e perguntei a razão daquilo e ele respondeu que chorava pelas pessoas tristes que assim eram porque não tinham coragem de chorar. E chorou ainda mais, dia após dia, depois daquele dia.
Quando ele veio, também trouxe consigo uma outra mala, não tão velha, cheia de CDS. Tinha de quase tudo, de jazz a bossa nova passando por MPB, samba e rock. Alguns ele costumava ouvir no carro, mas a maioria escutava em casa quando me mostrava e se entristecia por eu não gostar. Com a música ele não chorava, mas não parava de fazer anotações a cada disco que escutava. Dizia que as músicas acordavam lembranças e que tudo que escrevia resultava dessas recordações, por isso anotava.
Ele gostava de rir, agora eu sei que ele ria para encobrir a tristeza. E ele era triste por tantas coisas, um dia, a garrafa de vinho pela metade, me confessou que tudo o entristecia e que por isso pensava seriamente em se matar. Sei que foi feliz comigo, que foi feliz com o que eu podia lhe dar; não posso almejar mais do que isso. Em primeiro lugar, porque ele não me permitia outras ações, em segundo; porque ele era assim e mais tarde entendi o porquê de ele viver dizendo que as pessoas não mudam. Ele bem que tentava, mas não conseguia mudar.
Uma vez uma amiga o aconselhou a rezar e ele disse que não acreditava em rezas e tampouco em Deus.Como crer em alguém capaz de prometer uma vida eterna à uma criança e logo permitir que ela morra com pouco mais de dois meses de vida.
Anteontem, no começo da noite ele ligou o computador e me chamou.
-Sim.
-Gostaria que você lesse e me desse sua opinião.

Ele tinha acabado de escrever mais um de seus livros. Antes de ler tomamos uma garrafa de vinho.Depois, vim para o computador, ele sentou no sofá e mais uma vez começou a ler o Dom Quixote. Por volta das quatro da manhã terminei de ler o livro. Não sabia o que dizer. Ele dormia no sofá em minha frente, acordei-o.

-Leu?
-Li.
-Está bem escrito?
-Está.
-E da história, você gostou?
-Primeiro quero saber se você gostou? Você gosta das histórias que cria?
-Gostei, gosto.
-Mesmo com tanta dor, tanta morte?
-A morte é o apogeu da dor. Mas dói, escrever me dói tanto, meu amor, me faz sofrer tanto,eu me vingo de mim, eu me vingo...
Vivo a me perguntar: será que um dia conseguirei me consertar?, às vezes me canso de mim...queria tanto ser mais útil para aqueles que precisam de mim, principalmente meus filhos. Preciso escrever um livro sem defeitos. E afinal, você gostou?
-Preciso ler de novo.
Mas saiba que essa insatisfação não é sua apenas. Eu poderia fazer muito mais se não fosse tão desorganizada e até certo ponto "irresponsável". Por certo, poderia dar uma condição de estabilidade futura muito melhor a meu filho, uma qualidade e vida melhor a meu pai e mais tranqüilidade a todos que me cercam.
Não seja tão duro com você.
Sofra, porque isso é inevitável, sempre podemos fazer melhor. Sinal de consciência, mas não tanto que aniquile com sua felicidade. Por favor!Por que eu dependo dela.
Seja um pouco mais modesto. Aliás, não. Quem sabe possa escrever o tal livro perfeito, afinal você é você.

-Se você vai precisar ler de novo é sinal que está ruim, um livro bom não precisa de mais de uma leitura para ser entendido.

Levantou e saiu. Fui dormir.
Quando acordei ele estava escrevendo.
-Deixa eu ler de novo?
-Deletei.
-Você está brincando! Tinha umas frases tão bonitas, pena que não anotei.
-Agora é tarde.Estou escrevendo outro.
-Sobre o que é?
-É a história de um homem que tinha dois medos; de amar e de morrer.

Eu sabia que se tratava da história dele. Afinal de contas um homem que se separa cinco vezes é porque tem medo de amar. Se bem que às vezes fico em dúvida. Talvez ele não tenha medo de amar, o que ele faz é assustar com seu jeito de amar.
Lembro do dia em que ele me revelou que se descobrira apaixonado por outra mulher, mas isso não significava que precisasse deixar de me amar. Pedi que explicasse e ele contou que uma antiga colega de faculdade tinha revelado que sempre prestara atenção nele, tinha um interesse especial. Ele estava comigo e me amava, nunca tive dúvida, mas ouvir ele dizer que a ex-colega também lhe despertava interesse, não me fez muito bem. Tentei deixar pra lá, afinal de contas desde o começo de nossa relação me convenci que o que ele mais precisava era de amor e atenção.Nunca vi alguém tão carente e solitário quanto ele. Impressionante! Ele precisava de amor e atenção das pessoas que ele escolhia, não era o amor de quem precisava amá-lo. Coisa de enlouquecer. Não, não foi nem uma nem duas vezes que cheguei a pensar que ele estava ficando louco. Ao mesmo tempo me perguntava como um louco conseguia ser um amante quase perfeito. Louco ou quase louco não importava, eu o queria ao meu lado. Mas eu sofria.
-Querido, vou te amar pra sempre, no que depender de mim essa relação nunca terá fim.
-Deixar de te amar...só se eu enlouquecer.
-Mesmo assim, continuarei a te amar, te amarei feito uma louca.

Ficamos juntos um longo tempo e agora tenho que admitir que foi um erro. A pior escolha que uma mulher pode fazer é essa, viver com um escritor; estão sempre insatisfeitos. A ele tudo incomodava, nunca entendi a facilidade com que chorava, para que serve um escritor, por que não escrevem coisas só para a gente se distrair, por quê? Ele precisava da tristeza, da dor, para escrever.
Quando ele veio me trouxe um medo: que a cada mulher inteligente e culta que conhecesse, seria capaz de amar, afinal de contas tinha me dito que entendia ser amor sinônimo de liberdade. E de vez em quando se punha a falar das ex-mulheres;o que incomodava não eram as lembranças das fartas frustrações de seus relacionamentos e sim a lembrança/saudade dos momentos bons vividos com aquelas mulheres.Por que não as esquecia por completo? É assim, as coisas ruins existem para nos fazer lembrar das coisas boas, eu não suportava, embora ele estivesse aqui, comigo.Sempre muito carinhoso. De tanto sentir medo escrevi um livro de poesia, todas sobre o mesmo tema. Uma é esta.
Acho que é impossível mascarar o medo
...o medo é uma merda...mas
De todos os medos que me castigam
Tem um que é especial
Ele se fantasia
Com as cores da crueldade e da compaixão
É mais triste que o medo da morte
Mais frio que o medo da noite
Ou mais alienante que o sonho da sorte
É o medo louco de não ser ninguém
de virar mendiga
Patética criatura do chão
Onde só fotógrafos sádicos
Conseguem focalizar poesia
Em tamanha degradação


Quando ele veio trouxe um vazio imenso que conseguimos amenizar, tinha dias que ao vê-lo tão triste me dava vontade de queimar aquela mala, parecia que as dores que o castigavam estavam todas ali. E ele fazia questão de renová-las.
Hoje pela manhã ele se foi.
-Por quê?
-Só tenho repetições a lhe oferecer, você merece mais.
-Mas que pretensioso, quem você pensa que é para dizer do que preciso ou deixo de precisar?
-Não sei de mais nada, tenho uma certeza apenas; tudo é muito triste. Em certos dias quase tive certeza do meu amor por você.
-E agora, agora...que dia é hoje? Dia da incerteza? Então quem sabe amanhã você tornará a me amar?
- Não estou brincando. Faz tempo que o amor é só mais um pedaço do meu sofrimento, cansei.
-Porra, mas que merda de amor é esse que opta pela separação?
-Esse é o meu amor, um jeito de amar que me desagrada, mas basta!, apenas os idiotas conseguem explicar o amor.
Hoje pela manhã ele se foi, não levou a mala.
Quando ele voltar...............


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Luíz Horácio, Jornalista, Escritor, Professor de Literatura, Porto Alegre. Autor dos romances "Perciliana e o Pássaro com Alma de Cão" (ed. Conex) e "Nenhum Pássaro no Céu" (ed. Fábrica de Leitura). Já meu amigo, sem o conhecer. Escreve pro Piauinauta da fronteira do sul do país. E o Piauinauta atravessa o Brasil. Foto: Paraty, Edmar.

LAVRA

Luiz Martins



Lavrar, lavrar e lavrar,

A lavoura como destino,

Mesmo em desuso das aras

Nesta última sesmaria.



Orar com o antes da hora,

De trinar os passarinhos,

Pão frugal e mãos à obra

Até à última ave-maria.



À forja com o que é músculo,

Na têmpera de cara e caráter;

Abrandar só ao crepúsculo,

A sede da impertinência.



E para que tanta lavoura?

Se a Terra não vale verde?

Se as ervas são bem daninhas

Se o trigo não é mais ouro?



Justamente, bem por isso,

Para agastar a esperança,

Na teima do todo dia,

Na faina da experiência.



Se há semente, haja sentido!

Ainda que ao fim e ao meio

Se saiba o que se sabia

Que o deserto é uma ciência.



________________

Recebi assim de Climério:

edmar,

um exemplo da lavoura cabralina do meu amigo Luiz Martins, com toda a secura da árdua labuta.

Climério.

NAÇÃO PIAUÍ



Dias 12, 13 e 14 de dezembro, em Brasília, a Nação Piauí se apresenta para o Brasil.


quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Estômago



O Piauinauta sobrevoa aquele estômago vazio dos piauiseiros na seca que está de acontecer de novo por essa era do século XXI. Hoje eu vi reportagem de gente que anda pra mais de duas léguas pra tirar água barrenta de um poço no sertão. Pensava que este século enterrava o outro. Ledo e ivo engano, Lêda minha conterrânea...

o homem e a faca

Edmar Oliveira

O homem tinha pra lá de medo do riscado da faca. O outro era valente de aventurança sertaneja. Onde a peleja importa o tino, o desafio. Não se fia por nada de motivos da política. Antes fosse amizade. Se macaco ou se soldado, importava primeiro a valentia que o lado de se posicionar na contenda. E de quem fosse amigo sincero nas armas de matar inimigo, que inimigo é contraponto pro amigo. O sincero, o querer bem de gostar como irmão fosse de sangue. Mas muito se fazia depender da convivência que até irmão de sangue vira pra outra banda. E quem tivesse na outra banda tava na ponta da faca. O outro era assim altaneiro e cabra de valentias testadas. O homem é que era morredor. E aí já perdeu a briga...

ABOIO

Geraldo Borges



De primeiro
Quando eu era menino
Meu pai foi vaqueiro
Do meu destino.

O tempo foi passando
E a boiada cresceu
Meu pai foi aboiando
Até que desapareceu.

Virei um boi velho
Girando o meu engenho
Na roda da vida

Sem ouvir conselhos
Apenas me empenho
Em jogar a partida.

GRITO



Ana Cecilia Salis


Prefiro o choro derramado
que faz soluço,
que incha os olhos
que culpa alguém
e faz dormir...

A esta única gota
que cai do olho,
e rasga a pele
e cala a boca
e sustenta a vigília
que pressente a morte.

Teresina num supetão

Paulo Vilhena


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Edmar, O Piauinauta está, mais do que ótimo, necessário. Por favor, não deixe de fazê-lo. Vou escrever, aqui mesmo, "de supetão", uma pequena coisa e se você achar que deve editar, você sabe:

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Não é que Teresina seja uma cidade pequena. Quase um milhão de habitantes?Não é culpa nossa. Nem que seja uma cidade atrasada. Aqui convivem espécimes da raça de todas as origens. Nossos mamelucos são fidalgos, e nossos portugueses são loucos por negras e índias. Até abandonaram o coitado do Fidié, na guerra da independência.

Não que Teresina não tenha evoluído: as moças já não rodam na praça PedroII. O Teresina Shoping é bem mais confortável. O Atlantic City recebe abanda Calipso com uma estrutura que nada deve às melhores casas de show de Chicago. E se Hollywood era fashion, lascou-se: nós também temos nosso Beverly Hills. Na área da construção civil, aí é que ficou porreta:

Teresina tanto se internacionalizou (é a globalização), que estamos prontos para receber turistas do mundo inteiro. E com uma grande vantagem: nem precisamos mais falar português. The International Theresyna que o diga: Irineu'fotos, Pallazo Poty, Atlantic City, San Pietro Residence, Aldebaran Ville etc.

Sem contar a grande vocação que Theresina revela com relação à sua capacidade quase esperántica de atrair esses milhares de turistas, mesmo que venham de Caxias, Sobral ou - e olhe lá - Araripina.

Ontem mesmo fui testemunha desse fenômeno: a agência de um grande banco resolveu a poliglotia. No estacionamento, uma belíssima placa adverte:"parking rotativo".

O que Teresina não parece ter mesmo é a cafonice do passado. Aquela cafonice que fez e faz nossos filhos e os filhos dos nossos amigos honrarem o Piauí. Aquela cafonice que fez e faz dos piauienses campeões das disputas de vagas em vestibulares, em concursos públicos, em medalhas de ouro no esporte (A Sara Menezes não atrai mídia, a bola da vez é a"Gysele BBB), com a dignidade do silêncio.

O que Teresina não parece mais ter é uma década sufocada, que fez os jovens talentosos da cidade ousarem com o superoito, com belíssimos poemas e lindas músicas, com arrojados projetos culturais, com a coragem política e com o destemor das paixões. E com Chico Buarque. Porque nem existia televisão, e ninguém morreu. E nem existia "banda calipso", e ninguém ficou histérico.
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Recebi essa crônica do Paulo Vilhena, mestre em jornalismo, professor da Universidade Federal. O mais surpreendente e que fui, com meus colegas de época, objeto da tese do mestre: imprensa alternativa no Piauí. Isso traz orgulho com velhice, o que é uma merda...

Mas você sempre será bem vindo neste espaço, Paulo. (Edmar)

Foto da Igreja do Amparo: Patricia Basquiat.

Psicanalista

1000TON

DOMÉSTICAS!




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Pancada! De volta ao Piauinauta, o poeta piauiense Durvalino Filho e o poeta paulista Aderval Borges juntam suas forças e saem em defesa das domésticas de todo o Brasil, numa correspondência que mantêm há anos, onde acertam os ponteiros de suas idéias nem sempre politicamente corretas. Agora, Aderval e Durvalino (Dervas e Duda, respectivamente, como se tratam nas missivas) saem de pau na classe média idiotizada do país, principalmente aquela que se acha de esquerda, bem pensante e pouco atuante.
Durvalino defende o direito que as domésticas têm de, nos lares onde trabalham, saberem que estão sendo filmadas, como acontece com todos nós ao nos depararmos com a infeliz plaqueta de todos os dias que diz: SORRIA! VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO.
Aderval radicaliza ainda mais: diz ele que as novas gerações que estão saindo só não são mais idiotas devido aos cocorotes e pescoções que um dia pegaram dessas heroínas do nossos lares. Confiram.


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Caro Dervas:


Eu sei que você lembra – às vezes chegávamos no Sujinho, na Vila Madalena, depois do ensaio dos Verdadeiros Artistas, e o clima era de esbórnia. No meio daquela confusão de bêbados e doidões, era comum nos depararmos com crianças dormindo em duas ou três cadeiras agrupadas, enquanto pai e mãe festejavam alucinados (às vezes só a mãe, outras só o pai). É isso mesmo! Falo em nome das empregadas domésticas, essas mesmas que praticamente educam os filhos desses putos e agora vivem sendo levadas para as delegacias, sob a acusação de agressão às crianças. Ora veja. Pai e mãe vão trabalhar na selva da cidade, vez ou outra ligam para as crianças em casa (na maioria das vezes nem se lembram), trabalham duro e, quando chega o fim do dia, esses putos não resistem e partem para a “happy hour”. Muitas vezes emendam e chegam em casa lá pras tantas, a mil por hora e com tudo (tudo mesmo) na cabeça.
Os pestinhas, portanto, passam o dia infernizando a vida da pobre doméstica, que tem que lavar, passar, fazer comida, arrumar a casa e ainda cuidar dos putinhos. Se estes não comem, a patroa acusa a qualidade da comida. Se bagunçam a casa, a culpa também é da doméstica.Ora pombas, essas pobres mulheres que moram lá na casa do caralho e que têm de pegar até trem para chegar em casa não podem nem dar um cascudo nos pestinhas para que comam tudo e parem de sujar o tapete! O que os patrões fazem? Escondem entre os livros que nunca mais leram uma sorrateira câmera digital de vários megapixels para flagrar a pobre doméstica dando um brogue na cabeça do desgraçado do moleque que não quer comer ou que está pegando em sua bunda.
Protesto! Exijo que os patrões, doravante, sejam obrigados a afixar em todos os cantos da casa a célebre plaqueta que a gente vê nas padarias, nos postos de gasolina, supermercados e até nas empresas onde trabalhamos: SORRIA! VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADA.
Em nome das domésticas, reivindico esta providência. Vamos levar essa questão para o sindicato dessas heroínas dos nossos lares. Tenho dito.

Duda
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Duda:

Esteja dito e reafirmo embaixo: as domésticas merecem todo o nosso apreço e estima, principalmente pelas merecidas porradas que dão nos moleques. Tô numa fase que não suporto mais moleques ou molecas. Estas, só levo em consideração quando têm um bom chumaço de pelos constituído acima das xotas. Meu instinto de paternidade está a zero. Por isso, minha solidariedade com as empregadas "do lar" é total.
Hoje, pus no clipping matéria sobre as projeções populacionais do Brasil e doutros países pra 2050. Vai decrescer a nacional, mas bem menos do que deveria. Certamente colaborarão em muito os milhões de sem-terra enfurnados em acampamentos pelo país afora, fazendo porra nenhuma, só mamando umas canas e mandando ver na senhora sem-terra, em prol de uma extensa prole de sem-terrinhas. Pena que não possam ter suas empregadas domésticas sob o barracão de lona, pra meter umas porradas nesses mal nascidos.
Quanto à classe média a que você se refere, prossegue sendo o primor da babaquice. Especialmente a de esquerda, que se acha bem-pensante. Os filhos desta, principalmente, é que merecem uns bons petelecos educativos. Para não repetirem o percurso dos pais. Estes (os pais machos) passam a vida na farinha boliviana e nas cervejadas diárias, não lêem porra nenhuma, não vêem porra nenhuma, mas têm extensíssimas opiniões formadas sobre tudo. Quando cabeças-brancas e barrigudos, contam lorotas - para os infelizes que se prestarem a ouvi-los - sobre as glórias do passado. Os pais fêmeas (as mães) dão pra todo mundo quando atrativas - graças a Deus, pelo menos isso - e depois que desabrocham as pelancas, viram místicas retardadas. Ainda bem que estão lá as domésticas pra casquetar uns cascudos nessa molecada, pra jamais serem assim.
Com exceção das domésticas, de todos que trabalham de verdade e das mulheres com xotas admiráveis que se dão a todos os prazeres possíveis, não tenho mais qualquer compaixão pelos da minha espécie. Mas minha compaixão é sobretudo baixíssima por crianças, tendo em vista a alta probabilidade de um dia serem parecidos com os pais.
Na linha da tua indignação com as afrontas dos pais às empregadas domésticas que dão uns merecidos corretivos em seus pimpolhos sem limites: Enervam-me atrizes/atores/manequins/cantores/esportistas e outros de formação limitada que arrotam publicamente que acreditam em Deus e soltam aquela ladainha melosa e idiota na qual até o bom Roberto Carlos já caiu.
Adorei uma entrevista do Edmundo (atualmente no Vasco), com a sinceridade que lhe é peculiar, dizer que quando um colega se declarava "atleta de Cristo", ele procurava manter distância, para não atrapalhar a dedicação do outro a Jesus.
Acabo de ler nas páginas dos limpa-cus do dia que um bostão chamado Fábio Assunção, ator de novelas, está licenciado da Globo pra se tratar. Caso evidente de cheirador que passou dos limites e não está mais conseguindo controlar a rotina de trampo. Daí o puto anuncia que vai tratar da saúde e que "Jesus guiará meus passos". Aiaiai.
A exemplo de Darlene Glória e Gretchen, que deram pra Deus e o mundo, e agora só dão pra Deus (viraram evangélicas), toda celebridade gostosa que passa do ponto de ter altos atrativos sexuais, se torna fervorosa devota. Até Gal Costa tá nessa.
Tomara que o Angeli tenha saúde, depois dos trocentos picos que já tomou, pra inseri-los todos na sua gigantesca lista de personagens idiotas da República dos Bananas.

Dervas


1 POEMA DE GRAÇA

Graça Vilhena



faça de conta

que o amor

é copo d'água:

basta-lhe a sede

e não o mar
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Assim foi postado por Climério. 1 poema de graça. Já gosto de Graça Vilhena ha tempos. Poeta piauiense, de uma familia de letristas. Salve Graça, sempre benvinda no Piauinauta (Edmar)



Ao Relento

Keula Araújo


O seu abraço
baú de guardados
onde eu deitava,
insones, meus sustos


Onde entrava,
fôlego preso,
pra respirar, trancada
meus absurdos
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Ainda não conheço a Keula. A moça. A alma conheço e me apaixona, com todo o respeito do poeta. Este poema recebi ainda quentinho e perguntei por e-mail:
"E esta pérola tem título, princesa? Edmar"

A resposta veio em rente e certeira:
De tão recente, ainda nem foi batizado. Vamos lá...Vou chamá-lo, então de:
AO RELENTO
Keula Araújo

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Como o Piauinauta tem data pra nova edição, demorou e ela me mandou outro e-mail dizendo que o poema fora publicado no site do Joca Oeiras. Faz mal não moça. Um poema dessa beleza não pode ser de um apenas. (Edmar)

URGÊNCIA PARA O FUTURO



Edmar Oliveira

Acabei de ler o livro da Luciana Hidalgo. Literatura de Urgência – Lima Barreto no Domínio da Loucura (Anablume Editora, SP, 2008, 250 pgs.). A moça mostra um conhecimento denso e consistente da obra e da vida do mestre dos inconformes. Partindo da literatura em que ele se faz na obra, desde o Isaías das Recordações, do Augusto e do Gonzaga da Vida e Morte, do Policarpo Quaresma, até ao Vicente do Cemitério dos Vivos, refazendo o Diário do Hospício. Faz um profundo apanhado do Diário e do inacabado Cemitério para mostrar mais urgência na literatura que o hospício poderia causar. Mas desenvolve um minucioso estudo de toda a obra, inclusive crônicas e peças avulsas publicadas na imprensa da época. Louvável o trabalho de pesquisa de Hidalgo. E um presente inestimável para nós, que queremos o Lima vivo.

Na síntese do pensamento do Lima ressoa a frase “Ah! A literatura ou me mata ou me dá o que peço dela”, justificando a urgência da literatura do mulato. O trabalho de Hidalgo é muito rebuscado, parece mais um trabalho de um acadêmico, historiador, sociólogo ou que mais. Não estou a desmerecer a jornalista, mas dizer que o aprofundamento é digno de um trabalho além do campo jornalístico. É da doutora em Literatura Comparada e Pós-doutora. Procura a construção mesma do conceito de “Literatura de Urgência”.

Portanto a competência dos comentários sobre o trabalho fica aquém das minhas possibilidades palpiteiras. É preciso um moço mais graduado que eu pra se levar a sério resenhar tal trabalho. Me deliciei com os detalhes das urgências literárias do Lima.

Mas encasquetei com se achar ressentimentos nas anotações limabarreteanas. E de que ele queria o reconhecimento para a entrada, pela literatura, nas elites. Não me soa assim.

Desconto se faça no meu pobre palpite. Mas acho que Lima se descobre implicante e não ressentido: “implico com três ou quatro sujeitos das letras, com a Câmara, com os diplomatas, com Botafogo e Petrópolis; e não é em nome de teoria alguma, porque não sou republicano, não sou socialista, não sou anarquista, não sou nada; tenho implicâncias”. Na minha terra, tem um verbo digno dele: “inticar”. Inticar é verbo do dialeto nordestino que pode ser traduzido como “troçar”, “caçoar”, “zombar”, “gracejar”, “implicar” ou algo semelhante, mas que para o vocabulário nordestino é tudo isso junto e muito mais ofender. É esse verbo que acho pertinente ao Lima. Implicar ofendendo. Arranhando a alvura dos compromissos formais da época.

Me parece que Lima não consegue viver o seu tempo. Não cabia nele. Ele estava colocado além do tempo, além das burrices, além dos borra-botas, dos poderosos da época. Todo o seu comportamento inviabiliza o seu existir. Isaias critica todo o entorno beletrista de então. Insuportável. Fica fora do Gonzaga em Augusto, para os dois se colocarem na contramão da mediocridade. Como se Lima e Barreto pudessem existir aos pares para suportar a realidade. No Policarpo consegue zombar de si mesmo de das idéias que sabia serem vistas como policarpianas pela elite de então. No diário do hospício já constrói Cemitério dos Vivos e se faz em Vicente um crítico dos donos da loucura com palpites certeiros sobre os erros de então. E também não cabe no meio dos pobres, do subúrbio, dos doidos: “isso aqui tá parecendo um colégio”, fez um doido no hospício criticando Lima e seus livros, numa parte bem humorada do Diário.

Lima não cabia no seu tempo. E tinha que fazer uma literatura de fora daquele tempo. Mesmo que usando todo o entorno local para ser universal. E a si também se colocava por fora do tempo. Quase um Garambombo, o invisível, personagem de Manuel Scorsa que se sente invisível por não ser levado a sério, Lima vai de bêbado e sujo pra Ouvidor ver a Belle Epoque passar. Inticava com tudo. Implicava ofendendo. Só se mostra ressentido no diário íntimo, porque não se consegue ficar tão longe de uma época vivendo nela, mesmo estando fora. Na intimidade do diálogo com o mundo em que teimava em viver. Mas no conjunto da vida e obra é um implicante, replicante que “inticava” com todo mundo.

E a síntese: “Ah! A literatura ou me mata ou me dá o que peço dela”. Acertou nas duas pontas: matou o mulato e lhe deu tudo que ele queria dela. Acho simples assim. O reconhecimento em vida seria o fim do Lima que todos admiramos. E um detalhe: o reconhecimento por Monteiro Lobato em vida foi porque o paulistano não tinha de conviver com Lima Barreto. Um dia lhe vendo bêbado e implicante não teve coragem de se apresentar. Lobato fez de conta que não conhecia Lima. Ele já estava lendo Lima Barreto no futuro...

Não discordo aqui da escrita de si como uma literatura de urgência, como constrói com maestria a Luciana Hidalgo. Mas me atrevo a acrescentar Lima Barreto no rol dos escritores do futuro, porque não se comportavam (com todos os sentidos) na sua época. E, assim, colocaria Lima na companhia de Sousândrade, Gregório de Matos, Quorpo Santo e Torquato Neto, só pra começar e sem comparar os talentos, que cada um tem o seu cada qual.
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Luciana lendo Lima é montagem minha.
Publicado antes na Casa de Lima Barreto, site ali embaixo.

A DÚVIDA DA FÉ

Climério Ferreira



A morte pode ser até

A vida que perde a dúvida

Ou a dúvida que perde a fé

Abolição da escravatura: Brasil - EUA

Geraldo Borges


A princesa Isabel assinou a Lei Áurea. Foi aplaudida. Mesmo assim a história é mais objetiva que o sentimento das pessoas. E se formos ver com clareza o processo da Abolição da escravatura no Brasil, vamos ver que a Abolição começou na verdade com a iniciativa da Inglaterra, movida por interesses econômicos da chamada Revolução Industrial. A Inglaterra já estava de olhos no mercado brasileiro desde a vinda de Dom João VI para o Brasil.

A luta pela Abolição, oficialmente falando, começou pela lei instituída na Inglaterra contra o Trafego Negreiro, em 1850. Pressionados pelos abolicionistas o governo cria a lei do Ventre Livre, em 1871. As crianças nascidas a partir desta data seriam livres. Os pais que cuidassem delas. Os patrões lavavam as mãos. As crianças deixavam de ser escravos, mas para sobreviver teriam de ser agregados de algum latifundiário.

Depois veio a Lei do sexagenário, em 1885, quer dizer, os escravos com a idade de sessenta e cinco anos, que tinham envelhecido no cabo da enxada, no engenho, no eito, agora podiam descansar, morrer em paz, já que não acrescentavam mais valor para o patrão: era peso morto.

Com essas duas leia gradualmente a Escravatura foi sendo abolida através de um processo biológico e demográfico, quer dizer, a população escrava tendia cada vez mais a desaparecer, acrescentando, também as alforrias que ias acontecendo. Claro que a Lei do Trafego Negreiro não era comprida à risca, mesmo assim, serviu em parte para inibir a vinda de mais negros da África.

A elasticidade de nosso processo de Abolição da Escravatura ficou tão poroso que os escravos receberam a festa da Lei Áurea, sem muita perspectiva para um futuro imediato. As crianças do Ventre Livre estavam agora com dezoito anos, apenas com o direito de ir e vir, e se agregar em alguma fazenda. Os velhos estavam morrendo. E deixaram uma geração de mão de obra domestica mal paga por este Brasil a fora. O governo deu-lhes liberdade, mas não lhe deram terra. Liberdade sem propriedade não existe. O problema até hoje continua. Os donos do Brasil preferiram os imigrantes europeus para cuidar da lavoura.

Acredito até que não havia mais escravos efetivamente quando a princesa assinou a Lei Áurea, que tudo não passou de uma pantomima oficial, com discursos e fogos. Casso existisse a porção era tão mínima, que eles quase nada representavam para acrescentar valor na economia, a não ser a de subsistência. Mesmo assim a herança da escravidão continua sendo um dos maiores estigmas culturais que carregamos. Pois teimamos em disfarçar uma cor que pulsa em nosso sangue, já que grande parte dos filhos dos latifundiários tinha, como ama de leite filhas de escravos..

Já nos Estados Unidos a libertação dos escravos correu de modo diferente. A escravatura concentrava-se no sul dos EUA. Alguns romances de Mark Tawin e Faulkner mostram muito bem como foi a escravidão naquele país, principalmente às margens das cidades do rio Mississipe, a Cabana do Pai Tomas, de Harriet Beecher Stowe, publicado em 1852, é uma referencia importante para se conhecer o cenário humano da escravidão nos EUA. Lá que se saiba não foi a Inglaterra quem forçou a Abolição, o problema era mais da unidade interna do país.Os Estados Unidos do Norte queriam expandir sua economia, criar um forte mercado interno, e acabar com a classe dos aristocratas rurais do sul que viviam da exportação de tabaco e algodão principalmente, a custa da mão de obra escrava..Em represália os estados do Norte os sulistas ameaçaram criar os estados Confederados da América, isto foi o estopim da guerra. A leitura do romance, E O Vento Levou, contribui bastante para se entrar nas paginas da história do sul escravista.

O mais importante da Abolição da Escravatura nos EUA é que ela foi feita a partir da deflagração de uma guerra, comandada pelos brancos, claro que com a participação dos negros. Em 1859, um levante de escravos foi reprimido na Virginia e seu líder John Brow foi enforcado, transformado - se em mártir do movimento abolicionista...

Enquanto isso, em 1865 o Brasil estava lutando na Guerra do Paraguai como espoleta da Inglaterra, fazendo parte da Tríplice Aliança, junto com a Argentina e Uruguai. Nessa época o governo oferecia alforria aos negros que se alistassem para a guerra. Claro se voltasse vivos. Muitos deles eram obrigados a tomar o lugar de filhos de latifundiários, que eram recrutados. Uma boa parte da população negra foi dizimada.

Para resumir a diferença entre a luta pela Abolição da Escravatura nos EUA e no Brasil, é que, no Brasil o escravismo caiu de podre junto com o Segundo Reinado, após um refrigério aqui, outro acolá. E nos Estados Unidos, constitui-se em uma saga de bravura. Juntamente com a Abolição da Escravatura nos Estados Unidos procederam-se certos Atos importantes como a do Homestead Act que fornecia 160 acres de terra a todos aqueles que cultivassem a terra durante cinco anos, enquanto no Brasil existia uma lei estabelecendo que só poderia adquirir terra quem pudesse comprar.

Terminada a Guerra Civil Americana, Os Estados Unidos restabeleceu a sua unidade economia e territorial, e continuou se expandindo, Depois da guerra teve de lutar contra o preconceito racial avassalador preconizado pela Ku – Klux – Klan.

Hoje coroando a sua luta, apresenta ao mundo um presidente negro.

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Geraldo, o velho professor de História nos brinda com aula no dia de hoje.