domingo, 8 de outubro de 2017



Agora é a vez de Teresina, a cidade sitiada pela Coluna Prestes entre o Natal e o Ano Novo de 1925. SITIADO é um romance que acontece antes e depois deste cerco, onde o autor 
"serve-se do episódio da passagem da Coluna por terras mafrenses para desenvolver sua ficção histórica. Mas uma ficção histórica diferente. Nela, a trajetória e as características físicas e psicológicas dos personagens são menos importantes do que a relevância do painel multifacetado de referências fundadoras do imaginário do povo piauiense exibidas em cada linha do texto". (no texto de Paulo José Cunha).

Dia 27 de outubro, sexta feira, na Entrelivros da Avenida Dom Severino, às 19 horas. 

O Piauinauta convida os conterrâneos para esta passagem da Coluna Prestes por terras mafrenses, acompanhada de Carlo Magno e seus Pares de França, na fabulosa epopeia da península ibérica, que Leandro Gomes de Barros traz para o sertão!


***

O livro pode ser comprado pela internet no site:



Um romance em que o imaginário é o principal personagem

                           
   Paulo José Cunha, jornalista, professor e escritor

À primeira mirada, Sitiado (Edmar Oliveira, Chiado Editora, 2017) parece uma obra de ficção, como diz a contracapa, baseada na passagem da Coluna Prestes pelo nordeste do Brasil na primeira metade do século XX, onde ocorreu o único cerco a uma capital brasileira – Teresina, no Piauí.

Isso até que é verdade. Mas tratá-lo assim é praticar uma redução injusta, porque o livro é mais, bem mais.   

Na obra, Edmar Oliveira revira o histórico da Coluna e do próprio Piauí. Ele, que já havia feito uma primeira e bem sucedida incursão pela história piauiense em Terra do Fogo (Vieira e Lent, RJ, 2013),  -  seu romance de estréia, -  serve-se do episódio da passagem da Coluna por terras mafrenses para desenvolver sua ficção histórica. Mas uma ficção histórica diferente. Nela, a trajetória e as características físicas e psicológicas dos personagens são menos importantes do que a relevância do painel multifacetado de referências fundadoras do imaginário do povo piauiense exibidas em cada linha do texto. Em Terra do Fogo ele já havia tangenciado esse formato intrigante de desenvolver uma trama para desvelar aspectos constitutivos do imaginário piauiense. Em Sitiado, desnuda por inteiro a intenção de abordar os marcos fundadores da história e sua importância na formação do povo do Piauí utilizando-se de personagens que têm a única finalidade de ajudá-lo nessa tarefa. Ou seja, o livro não é, definitivamente, um thriller. Dele não se espere grandes momentos de ação, rompantes heróicos, arroubos cívicos. A viagem que Oliveira propõe é de outra ordem.

Um rápido parênteses: a colonização das terras piauienses recebeu influência decisiva dos migrantes sírio-libaneses, que se entregaram no território semi-virgem desde o final do século XIX aos dias de hoje à atividade milenar em que são mestres: o comércio. Desde muito tempo, os nativos do Piauí se acostumaram a conviver com sobrenomes como Adad, Bichara, Bucar, Caddah, Chaib, Cury, Hidd, Kalume, Ommati, Sady, Said, Tajra e tantos outros. O jornalista e escritor Higino Cunha documentou a chegada dos primeiros árabes mascates ao Piauí: “De 1985, começaram a chegar ao Piauí os primeiros sírios, estacionados de preferência nas cidades ribeirinhas do rio Parnaíba e entregando-se ao comércio de modas e fantasias. É uma gente honesta, laboriosa e econômica. Todos sabem ler e escrever na língua árabe e têm muita facilidade de aprender e falar o português” (História das Religiões no Piauí, Teresina, 1924).

Edmar Oliveira homenageia e distingue a presença decisiva dos migrantes sírio-libaneses na formação econômica no imaginário do povo piauiense no personagem Abdon, mascate que se fascinaria pelas figuras emblemáticas e corajosas que empreenderam a grande marcha liderada pela figura heráldica de Luiz Carlos Prestes. E mais não conto de Abdon  para não fazer o leitor perder o interesse pelo desenrolar do enredo.

Os integrantes da Coluna são pintados no romance como heróis valentes e românticos daqueles tempos áridos, o que de certa forma transporta obrigatoriamente a narrativa para o cenário dos dias difíceis do Brasil de hoje: “O movimento revolucionário propunha um outro Brasil, livre da corrupção, da exploração e dos desmandos dos opressores, que ainda possuíam a lei e os cartórios para a defesa de seus interesses”.

Entremeando o texto e o entrecho, Oliveira envolve o leitor nas referências do imaginário mágico dos heróis da literatura de cordel, como o imperador Carlos Magno e seus Doze Pares de França, personagens do cordel mítico de Leandro Gomes de Barros. Trechos daquele livrinho vendido e declamado nas feiras, que embalou os sonhos dos nordestinos delirantes por tantas e tantas décadas funcionam como epígrafes/preâmbulos aos capítulos do livro. Com isso, a própria narrativa se encharca da epopéia dos heróis e vilões  medievais, item obrigatório de exame a quantos freuds e jungs  se atrevam a estudar os arquétipos do imaginário nordestino.

Com a precisão do pesquisador dedicado, que vasculhou cuidadosamente os compêndios que relatam a história nordestina e piauiense, o autor ambienta seus personagens nos marcos fundadores dessa história. E faz com que o leitor dialogue e se envolva com a realidade social da época. Teresina, a capital sitiada, é apresentada na inteireza de um tempo que o progresso engoliu. Como se tomasse o leitor pela mão, Edmar Oliveira o conduz pelas ruas e avenidas de barro batido daquele tempo, quando as vias ostentavam os nomes ingênuos e poéticos com que foram batizadas, antes que fossem trocados pelos nomes sem graça das autoridades de ocasião.
O livro é leve, e se mais não me aprofundo no enredo, como disse, é para não privar o leitor do prazer da viagem.

Reza a lenda, entre os críticos de literatura histórica que, depois de A Guerra do Fim do Mundo, de Vargas Llosa, que mergulhou nas profundezas da epopéia dos beatos de Canudos (que já tinha sido retratada sem retoques romanescos no antropológico/sociológico Os Sertões, de Euclides da Cunha), qualquer pretensão de ficção histórica no Brasil já nasce frustrada. Pois Edmar Oliveira frustrou a lenda. E, de quebra, ainda ofereceu ao povo brasileiro e sobretudo ao povo do seu Piauí, tão carente de referências que alavanquem sua auto-estima, um retrato romanceado e épico de um momento único de sua história.

A boa literatura brasileira só tem a agradecer ao autor por esse belo presente.           

   

A BATALHA DE OLIVEIROS COM FERRABRÁS


Trecho de SITIADO:

Os heróis atravessaram o rio que separava as
terras já conquistadas pelos cristãos e as terras dos infiéis
do Maranhão. Nas terras de Mormionda a muralha dos
castelos dos infiéis tremia sob os cascos dos cavalos do
exército de Carlo Magno e seus Doze Pares de França.
A batalha derradeira aconteceria na tomada do castelo
defendido por Ferrabrás. Catapultas do exército de Carlo
Magno ativavam bolas de fogos sobre as muralhas do
castelo. Gigantes aríetes eras arrastados por fortes homens
e a cabeça do carneiro, desenhada na ponta da gigantesca
árvore, facilmente colocava abaixo a porta do castelo.
Homens armados de elmos e espadas invadiram o castelo
e travavam sangrentas batalhas de corpo a corpo contra
os infiéis. Roldão se encarregou de travar combate com
o temível Ferrabás, o filho do almirante Balão. Oliveiros
combatia bravamente, ao mesmo tempo, contra todo um
pelotão do exército dos infiéis. Teodoro se esgueirava entre
as ruelas do interior do castelo e via homens de turbantes
tomados de bexigas da varíola, perdendo membros
destroçados pela peste. Um pestilento tombou por cima de
Teodoro e sussurrou que ele estava na trincheira errada.
Enquanto tinha medo de contrair a varíola do pestilento que
estava por cima do seu corpo e já sem vida, Teodoro assistia
a luta heroica de Roldão e sua espada Durindanda contra
Ferrabrás nos seus trajes sarracenos. Ao mesmo tempo que
Oliveiros brandia sua espada Alta Clara contra o pelotão
de infiéis que morriam atravessados pela lança do bravo
cavaleiro. Enquanto o pelotão mouro sucumbia aos golpes
de Oliveiros, Roldão obrigava Ferrabrás a converter-se à
fé cristã. Os gritos dos mouros que habitavam o Maranhão
eram ensurdecedores. Os infiéis zombavam dos cristãos.
Um maranhense com sotaque de carcamano gritava: “seus
ceroulas, a batalha está perdida”. Não sabia quem ia
ganhar aquela guerra.

O TECIDO DA HISTÓRIA


Leo Almeida, escritor, professor de literatura, músico

De que tecido é composta a História? Qual a matéria que forma os ídolos, os grandes eventos, as lendas? Enfim, de quantas pequenas e grandes mentiras é feita a verdade da História?  Em “Sitiado” (Editora Chiado, 2017, 210 p.), o escritor Edmar Oliveira toca nessas questões com grande elegância, criatividade e humor. Seu romance constitui-se de uma urdidura ficcional que permeia os fatos históricos que marcam a passagem, pelo Nordeste, da Coluna Prestes. Na verdade, o romance focaliza o cerco empreendido pelos colunistas à capital do Piauí, Teresina, cidade onde formou-se o escritor. A estratégia narrativa privilegia os diversos pontos de vistas dos personagens/testemunhas do evento histórico, pondo em destaque aqueles que sempre são meros coadjuvantes, pequenas engrenagens do carro da História. O olhar quixotesco de Teodoro, um pequeno proletário cheio de sonhos e fantasias, que, enviesado, confunde as histórias dos Pares de França, do clássico texto de cordel, com a situação histórica da qual participa ativamente. É pelo olhar de Teodoro que o autor se permite desarmar a versão oficial, abrindo possibilidades outras para a explicação de determinados eventos históricos. Nesse sentido, guardadas as devidas proporções, “Sitiado” é um texto irmão de “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro. O intertexto, ferramenta fundamental na construção de “Sitiado”, configura-se na adoção, por analogia, das narrativas de cordel de autoria de Leandro Gomes de Barros, especialmente a história de Carlos Magno e “A história da donzela Teodora”, de onde o autor extrai as epígrafes de cada capítulo. As narrativas populares encontram eco na visão de mundo do matuto Teodoro e tornam a leitura de “Sitiado” num pequeno jogo de aproximações. Depreende-se dessa leitura que, no fim das contas, não existem fatos, mas versões de fatos. A História, podemos entender, é uma espécie de literatura de ficção que se quer absolutamente verdadeira, sem poder sê-la, pois a visão do historiador é sempre um recorte da realidade, assim como a versão das testemunhas trazem sempre seu ponto de vista. Se para Teodoro, o cidadão piauiense, suas leituras demandam o intertexto de cordel, outro personagem importante na narrativa, o imigrante de origem libanesa Abdon, incorpora os contos/causos do popular personagem turco Nasrudin. Em contraponto às diversas situações por que se depara o personagem, as narrativas do quase folclórico Nasrudin costuram humor e crítica refinados. Abdon, assim como Teodoro, ingressa na Coluna Prestes cheio de sonhos. O primeiro, pragmaticamente, vê-se colunista como forma de resolver um problema financeiro com o patrão. Julgando-se explorado, acredita que a Coluna trará um mundo melhor e aposta nessa possibilidade, ingressando em suas fileiras. Teodoro por sua vez, contaminado pelas fantasias cavaleirescas e pela sincera intenção de mudar sua situação de vida, abandona a farda e segue ao encontro de seu Carlos Magno. Esses dois personagens poderiam sustentar, sozinhos, toda a trama, e o fazem com coerência e substância a partir da construção literária empreendida por Edmar Oliveira que, não se contentando com isso, ainda nos traz a figura emblemática do Lenine do Maranhão, figura interessantíssima que, por si só, seria capaz de compor uma grande história. O personagem, baseado numa figura histórica real, atravessa a narrativa como um relâmpago. De revolucionário político torna-se ao final da vida um místico, cumprindo uma trajetória no mínimo peculiar de alguém que parte de Lênin para tornar-se Antonio Conselheiro. Curioso lembrar que sua vida nos remete à lembrança do processo de mudança em Tolstói que também, na velhice, abandona sua vida mundana e foge para a morte em seu misticismo. A galeria de personagens nos traz a figura de Geraldo, articulador político silencioso. Os personagens femininos são construções que ideologicamente se afastam: por um lado, Donana, mulher empreendedora e romântica, paradoxo que se resolve com a sua decisão de mudar de cidade por sugestão de um novo amor. Do outro lado, Ceiça, humilde e simplória. A primeira, dona de uma pensão, apaixonada pelo libanês Abdon, persegue seu desejo. A segunda, parideira, submissa ao marido, Teodoro, segue sua sina de parir filhos e sofrer ao lado do marido. Ceiça tem um quê de Sinhá Vitória, mas não tem a garra do personagem de Graciliano.


Os personagens Históricos se apresentam na narrativa a partir dos pontos de vistas dos personagens construídos por Edmar Oliveira. Assim, Juarez Távora surge como o prisioneiro garboso e poderoso que se entrega às forças legalistas e Prestes, como um fantasma, atravessa o texto sempre em fuga. “Sitiado” é uma grande coluna arrastando-se em nossas retinas, levando de roldão as gentes que fazem a História, mesmo quando dela não participam.



PREFÁCIO DE SITIADO

                              
                                     

             SITIADO é a segunda obra na linha ficcional de Edmar Oliveira. Esse notável piauiense de Palmeirais, radicado no Rio de Janeiro. Tal como a primeira, “Terra do Fogo”, foi alicerçada em fato histórico. Antes de abraçar, ou ser abraçado pela literatura, o autor exerceu a psiquiatria com competência e louvor. Dela extraiu algumas experiências e situações utilizadas nos livros “Ouvindo Vozes”, em 2009, e “von Meduna” em 2011.  

              Agora, servindo-se de outro fato histórico, a Coluna Revolucionária Miguel Costa- Prestes, criou este romance. Escrito na terceira pessoa e de atmosfera, às vezes lírica, às vezes trágica. Também de passagens e personagens epopeicos. O livro é composto de 21 capítulos. Todos epigrafados com versos do cordel, que se estendem, adequadamente, ao longo do texto ficcional. E que funcionam como uma espécie de trilha sonora. Muito mais do que reforço à narrativa. Por sinal, atraente e emocionante.   

            O texto inicia-se nas trincheiras dos soldados piauienses, montadas nos arredores da cidade de Teresina, quando esta se viu cercada pela Coluna, nos últimos dias do ano de 1925. A única capital do País sitiada por aquele movimento. A partir daí, a ficção mistura-se, envolve-se e se imbrica, mutuamente, com a realidade histórica.

             A própria Coluna que, normalmente apareceria como pano de fundo, surge com o ímpeto de uma personagem autônoma e vigorosa. Além de divisor do espaço e do tempo. A ela se juntam os protagonistas: o soldado Teodoro; o mascate libanês Abdon;  o comerciante coxo Geraldo;  e Bernardino - o “Lenine da Mata”,  introdutor do espiritismo na região central do Maranhão. Figuras emblemáticas que vão sendo reveladas ao longo do texto.

                          A Coluna, após percorrer por 13 estados (Do Rio Grande do Sul a Bahia) acabou com seus chefes exilados na Bolívia. E utilizava uma estratégia defensiva, como explicaria Luís Carlos Prestes: “O nosso intuito (...) era o de manter a revolução, esperando que, nas capitais, alguma eventualidade nos proporcionasse o ensejo para o golpe decisivo sobre a tirania opressora. Por isso, evitamos choques. Não nos interessava o combate decisivo”. (“A Coluna Prestes”, p. 189, de Anita L. Prestes, 4ª Ed., Paz e Terra). 
 
             Como a capital piauiense estava fortemente protegida não proporcionou a eventualidade almejada e, por consequência, não foi invadida. Ao contrário, ainda, prenderam um dos líderes revoltosos, o tenente Juarez Távora que, curiosamente, não esboçou  a  reação esperada de um oficial revolucionário. Aqui, Edmar Oliveira deixa à mostra a famosa dúvida histórica: de que ele já estava cansado e convicto da “falência da empreitada” e por isso se deixou prender. Pode ter sido, mas isso fica a cargo da História. Tanto quanto o insucesso da Coluna na cidade paraibana de Piancó, que fixou o começo do fim do movimento.  
        
             Edmar Oliveira descreve Teresina do meado da década de 20 com toda fidelidade, inclusive citando os nomes originais dos logradouros e o surgimento dos sobrados e mansões que foram ocupando seus espaços vazios. E, com muita sensibilidade, o drama dos moradores durante o cerco. 
  
           Outra descrição que ressalta pela força e vigor é a da paisagem do sertão baiano, comum a todo Nordeste. Vale transcrevê-la: “A vegetação ia se estreitando pelo caminho, apertando a passagem da tropa. Eram mandacarus, veleiros, chiques-chiques, unha de gato, facheiros, macambiras, coroas-de-frade, todos eles eriçados em grandes e duros espinhos (...)  Era a Estrada do Cruel e o nome rezava, conforme o desatino de quem fazia aquela passagem. Quanto mais iam em frente, mais a mata de espinho rasgava a carne das pernas e dos braços. Também as mãos que protegiam os rostos ficavam lanhadas e não conseguiam desviar os espinhos que marcaram as faces daqueles homens”.  
 
                SITIADO não acaba com a Coluna. Continua. E deixo o desfecho para o leitor, porque não sou estraga-prazer. De uma coisa posso assegurar: terá boas surpresas. Pois, trata-se de um livro muito bem escrito, feito com garra, imaginação e talento.

  
JOSÉ RIBAMAR GARCIA
-  advogado e escritor –
Membro da Academia Piauiense de Letras
                                                                               

A PRISÃO DE OLIVEIROS



Trecho de SITIADO:

Notou que sua espada era curva como as sarracenas
e que o exército a que pertencia não tinha nos uniformes e
nos escudos a cruz de Cristo. O major que conduzia a tropa,
reparando bem, tinha um turbante árabe e procurava, na
estrada da beira do rio, o exército inimigo. De repente o
céu tremeu num trovão e o relâmpago cegou seu exército.
Ficaram como encantados. Quando o encantamento
passou, viram um nobre cavaleiro, num magnífico cavalo,
em armadura de um grande guerreiro cristão, com um
escudo com a cruz cristã, viseira com penacho, uma grande
lança na mão direita e na esquerda dava para reconhecer a
famosa espada “Alta Clara”, característica de um dos Doze
Pares de França. O exército sarraceno estava perplexo e
caiu de joelhos diante do cavaleiro cristão. Este tirou a
viseira e mostrou a tez morena, os olhos duros, o semblante
pétreo. Jogou as armas e o escudo no chão e falou em voz
firme: “Sou Oliveiros e entrego-me prisioneiro”. O chefe
sarraceno pediu que não atirassem, mas quem teria coragem
de enfrentar, mesmo desarmado, aquele cavaleiro? O chefe do
exército sarraceno balbuciou: “Capitão Oliveiros, não?”,
ao que Oliveiros respondeu: “Não sou capitão, não pertenço
mais a este exército, sou Oliveiros, general do exército
cristão e um dos Doze Pares de França do imperador Carlo
Magno, e agora seu prisioneiro de guerra”. Oliveiros e seu
cavalo andavam na frente com o exército que o capturou
atrás, como se o seguisse e não como o batalhão que o tivesse
capturado. De volta para a cidade, parecia que o prisioneiro
conduzia seus captores. O cavaleiro fazia da espada que lhe
fora devolvida, uma cruz e conduzia todo o exército como se
fosse uma procissão. E Teodoro sentiu que ele e mais quatro
companheiros haviam sido convertidos pela fé do cavaleiro.
Chegando diante do castelo do almirante Balão, Teodoro
ouviu em claro e bom som: “E, naquela multidão / Levando
os prisioneiros,/ Entregou os cavaleiros / Ao almirante
Balão. / Ele lá, como um leão, / Em desesperos fatais. /
Igualmente a Satanás / No dia que o céu perdeu, / Disse: –
Desses, quem venceu / O meu filho Ferrabrás?”

impressões

           


"Uma das estratégias aplaudida na carpintaria do romance de Edmar Oliveira é a que o autor utiliza para estruturar a trama da historia: o contraponto. Ou melhor, um triangulo narrativo: a história da Coluna, personagens históricos, heróis nacionais, uma historia antiga e já bem surrada, didática, espalhada por ai em teses acadêmicas. Vem depois a eixo da narração que está centrado na vida cotidiana de um povo, personagens que se sugestionam com as escaramuças da Coluna e até tomam partido, uns contra, outros a favor. O autor mostra com clareza como uma revolta pode mexer com os sentimentos de um povo simples e tocar no seu juízo; o terceiro lado do triangulo são os delírios de alguns personagens que incorporam a subjetividade do romance de cordel dos Doze Pares de França; esse último lado do triangulo e o mais impressionante para que o romance fique de pé E o lado subjetivo da profecia que todo bom romance tem como ingrediente. E a parte profética da história. E o delírio". 

(Geraldo Borges, escritor)

A DONZELA TEODORA


Trecho de SITIADO:

As folhas de carnaúba apareciam no
clarão dos tiros. Um estrondo maior fez tremer a terra em
que estava deitado. Parecia tiro de canhão. Após o estrondo,
os gritos lancinantes vinham da escuridão. Lembrou de uma
adivinhação da Donzela Teodora:

“...Donzela, o que é a vida?
diz ela: um mar de torpeza
o que pode assemelhar-se
à vela que está acesa
às vezes está tão formosa
e se apaga de surpresa”

A guerra continuava ao longe e um tropel de cavalos
chamou sua atenção para o outro lado. Mesmo na pouca
luz da lua, pôde distinguir perfeitamente os cavaleiros. Sem
dúvidas, Roldão e sua espada “Durindana” batiam-se ao
cavaleiro Oliveiros. A espada “Alta Clara” e a “Durindana”
tintilavam no cruzar dos movimentos dos cavaleiros. Aquela
batalha não estava nos livros de cordel que sabia de cor.
Os Pares de França travavam uma luta entre os iguais,
os cavalos relinchavam, mas era possível ver nitidamente
a cruz cristã na armadura de cada cavaleiro.

dia 27 de outubro na Entrelivros, às 19 horas, em Teresina




Na internet pode ser adquirido pelo site: