domingo, 2 de maio de 2010

Vamos ouvir o planeta?


Edmar Oliveira

Desde o terremoto do Haiti a terra se remexeu no Chile, na China, na Islândia. E um vulcão adormecido, de nome impronunciável com muitas letras e explosões, reviveu e manchou os céus de fumaça espessa, carregada de pedaços de vidro da sílica incandescente na pressão vulcânica, cobrindo o continente europeu em ameaça clara ao trânsito aéreo. Impedido de voar por alguns dias o mundo entrou em colapso, como se as pessoas dessa aldeia global fossem privadas do seu direito de ir e vir, afetando o movimento econômico e a justa movimentação do planeta. Céus não há. E terra e mar são lentos demais para a navegação deste frenesi inquieto de se estar aqui e ali quase ao mesmo tempo.

Não é de se pensar que estávamos rápidos demais em volta do planeta? Com todo o equipamento tecnológico de videoconferências, Internet e celulares instantâneos, por que temos que deslocar os nossos corpos com a rapidez supersônica em volta da terra?

As companhias aéreas, contabilizando um prejuízo monumental com as aeronaves paradas, pressionam as autoridades para a reabertura do espaço aéreo. Propõem deixar as altitudes de cruzeiro tomadas pela nuvem vulcânica e voar baixo onde os radares e equipamentos eletrônicos não funcionam. Os passageiros parados nos aeroportos acionam judicialmente as empresas por seus prejuízos. Os interesses econômicos teimam em voar, mesmo sendo real os perigos dessa vida.

Temo que, se a gente não se aquietar um pouco para observar os sinais que o planeta nos emite no seu ruminar inconformado com nossa atitude, a tragédia anunciada pode ser precipitada. É hora de se pensar num passo atrás nesse inquietante movimento dos tempos modernos. Porque não diminuir o ritmo frenético das nossas aflições? Acho que o planeta tá falando e a gente tem que escutar um pouco, senão...

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publicado primeiro na Casa Lima Barreto no link ali em baixo

Um comentário:

Dalva Maria Ferreira disse...

Lembrei do Jacinto, o morador da metrópole no livro "A cidade e as Serras", para quem o homem só era superiormente feliz quando fosse superiormente civilizado. Baita mentira!Estamos aí, em pleno século xxi, nos borrando de medo do fumacê expelido lá pelo "asdfglkjh"