domingo, 30 de maio de 2010

A MULHER QUE CHORA

Luís Horácio

Tanto a lenda quanto a parábola costumam ser subestimadas, relegadas ao universo infantil na maioria das vezes, sem compromisso com a realidade. Operam no terreno da fantasia, do absurdo, nada além. Infelizmente vigora essa idéia. No entanto um autor chinês, Su Tong, ao reescrever uma lenda cria uma parábola que permite reflexões acerca do amor, do poder,do individualismo, da resistência...

Su Tong em A mulher que chora recria a milenar lenda de Binu. Na história original as lágrimas de uma mulher fazem desmoronar a Grande Muralha, o otimismo vence a tristeza. O mesmo não acontece em A mulher que chora , tristeza, dor, humilhação e uma pitada do absurdo de Kafka, dão o tom a narrativa de Su Tong. Binu, a protagonista da história, vive na Aldeia do Pêssego, lugar onde as mulheres são proibidas de chorar. Até hoje, os aldeões do sopé da montanha do Norte não se atrevem a derramar uma lágrima por causa da dor da morte. O marido de Binu, Qiliang , de repente desaparece, mais tarda ela descobre que fora recrutado para trabalhar na construção da Grande Muralha da China. O tal canteiro de obras não é o que se poderia chamar de lugar tranqüilo com boas condições de trabalho. A construção teria consumido número em torno dos duzentos e cinqüenta mil homens.

Pois foi para esse lugar que levaram Qiliang, o marido de Binu. A mulher assustada com os rigores do inverno que se aproxima, resolve levar roupas apropriadas ao marido que trabalha no trecho batizado de montanha da Grande Andorinha. A montanha dista mil li , segundo fui informado isso quer dizer milhares de quilômetros, da Aldeia do Pêssego, e Binu parte carregando uma trouxa na cabeça. Se eu tiver um cavalo, irei a cavalo.Se tiver um jumento,irei montada nele. Se não tiver nenhum dos dois, irei a pé.Um animal é capaz de percorrer essa distância. Nós não somos superiores aos animais? Quem disse que eu não posso andar mil li?

Convém estar preparado, sensível leitor, pois assim que Binu parte a história se enche de honra, piedade, sentimentalismo, fé, idealismo desmedido e obsessão. São valores eternos, você pode argumentar, erudito leitor, mas todos na mesma taça torna a bebida um tanto ácida em demasia.

A seguir, um exemplo. O recrutamento para trabalhar na construção da Grande Muralha trazia implícito o passaporte para a eternidade. Fugir era impossível, um carroceiro conseguiu.

Binu encontrou o tal carroceiro e ao perceber que lhe faltavam as mãos...

O carroceiro exibiu demoradamente os cotos sem mãos, primeiro o esquerdo, depois o direito. “Por que tanto interesse nisto aqui? Está pensando em se casar comigo?” Riu, ameaçador. “Quem cortou? Adivinhe. Vou lhe dizer uma coisa, pode tentar até o fim dos tempos, mas nunca vai adivinhar.Eu mesmo fiz isso comigo para evitar que me levassem para a montanha da Grande Andorinha! Primeiro cortei a mão esquerda, mas o convocador disse que não ter a mão esquerda não fazia diferença, já que eu ainda podia carregar pedras com a direita.Então pedi ajuda a meu pai para cortar a direita.

São personagens perdidos entre a miséria, a opressão, a fome, toda sorte de desgraça, perdem a guerra da sobrevivência para eles mesmos, sufocam a liberdade em seu interior.

A viagem de Binu é farta em sofrimentos, Su Tong divide em estações a narrativa, a medida que avança, narrativa e caminhada, os requintes de humilhação a que a mulher é submetida vão se sucedendo, enquanto isso o narrador deixa o leitor com suspeitas de um certo sadismo, também em crescimento.

Binu tem um papel na trama, sofrer. Sofre sozinha. Não encontra a menor solidariedade ao longo das 249 páginas de A mulher que chora.

É justamente o choro que permitirá a Binu um certo alívio de seu sofrimento. Às mulheres da Aldeia do Pêssego não é permitido chorar pelos olhos, aprenderam a chorar pelos pés, seios, cabelos, mãos. Suas lágrimas não são lágrimas quaisquer, são poderosas, capazes de curar doenças e mexer com a natureza.

Binu não pára, não descansa, decidida a levar as roupas de lã ao marido, não dá importância aos avisos acerca da estupidez de tal empreitada. É sabido que o conformismo impede mudanças, mas determinados exageros no concerne ao movimento, a atividade, ao idealismo, chegam a beirar o grotesco. Os personagens de A mulher que chora respiram os ares do absurdo e da verdade. Paradoxal? Nem tanto. Quer ver?

Os operários são recrutados sem explicações, sabem que trabalharão na construção da Muralha, não sabem ao certo onde nem as razões para tal construção. Muitos morrerão. Não resistem, não podem fazê-lo. Uma mulher resiste. Resiste chorando. Muda algo? Minimamente sim.

Com potente lupa o leitor perceberá uma amostra da mediocridade humana, das condições sociais e políticas da China daquela época, e das atrocidades que o poder costuma perpetrar independente do cenário.

No frigir dos ovos Su Tong trabalhou no limite entre a dor e a tragédia, e no entender deste aprendiz o limite já é excesso.

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O autor Su Tong, o mesmo de Lanternas Vermelhas (1991), que virou filme, nasceu em Suzhou, na China, em 1963, e vive em Beijing. Escreveu sete romances e mais de duzentos contos. Teve obras traduzidas para o inglês, o francês, o alemão e o italiano. Em 2009, venceu o Man Asian Literary Prize, a versão asiática do Booker Prize, com o livro O barco para a redenção.

2 comentários:

Ana Cecília disse...

Eis a prespectiva "masculina"...

Os homens, podem não ter tido a mínima idéia do porquê dessa obediência servil a um "senhor".

Mas a "mulher que chora', chora. Porque sabe... intue, muito bem o que vale a travessia...

é, simplemente,o seu desejo por manter "aquecido" qualquer sentido que valha a dignidade da alma!

Ana Cecília disse...

EM TEMPO:

"PERSPECTIVA" E "INTUI".