quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

progresso nordestino



Teresina cresceu pros rumos de Zé de Freitas. Plantaram uma "ruma"* de prédios na zona leste em nome do progresso. O Piauinauta tem saudade do tempo que o rio Poty não era o esgoto dos bacanas e se podia tomar um belo banho de rio ali por trás do Colégio Batista, ainda do lado de cá. Do lado de lá era desolação. E aí se plantaram esses prédios em nome do progresso nordestino, esse menino, já fez fama mundial...
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*ruma, significa um monte, um bocado, uma porção, que é muito, né esse poquim das porções do bares do sul. Entendeu, bichim?

OS RUIDOS DO AMOR



Edmar Oliveira

Esses cientistas são mesmos maravilhosos. E loucos. Imaginem agora a nova estratégia para enfrentar a epidemia de dengue. Descobriram (não me perguntem como) que, para o ato do acasalamento, o mosquito macho imprime às suas asas uma velocidade de mais de quatrocentos movimentos por segundo. O bater de asas nessa velocidade descoberta (não me perguntem como mediram) produz um ruído supersônico que atrai a fêmea para a cópula. E, ainda, que as fêmeas não são surdas como se pensara anteriormente (não me perguntem porque se pensou que eram surdas nem a descoberta dos ouvidos de mosquitas). Portanto planejou-se uma guerra contra o mosquito para acabar com o dengue. Modifiquem-se geneticamente os machos para que suas asas não atinjam aquela velocidade necessária para a corte nupcial. Simples, as fêmeas não se interessando pela corte dos machos, não há reprodução do agente que carrega o vírus do dengue.
Vamos ter mosquitos machos esbaforidos, tentando ligar as turbinas para disparar o movimento das asas e nada acontece. Já consigo imaginar um mosquito desolado, sentado na beira da cama e falando pra mosquita: - isso nunca me aconteceu antes!
Tenho aqui a impressão que esses cientistas e seus inventos maravilhosos são uns tarados que ficam bolando planos de vingança contra a natureza. Tem forma mais perversa de atacar os mosquitos? Logo na sexualidade? Não era mais fácil fazer uma modificação genética para que os mosquitos não tivessem ferrão ou que o ferrão fosse enfraquecido para não picar as vítimas. Eu, por escolha, não desejo que os mosquitos não trepem, não quero é que eles me piquem...

Monarquia & República

Geraldo Borges


Minha república já foi um império que durou quase um século. Nossa republica, sim, caro leitor. Mas a nostalgia do império até hoje tem produzido uma doença saudosista em muito dos nossos súditos. Diagnosticada por sua mania de grandezas, por um delírio por bandeiras e brasões.
Por incrível contradição, ironia da história, o nosso marechal Deodoro, era monarquista, já o Imperador, republicano. Nesse caso não haveria necessidade de proclamar a república. Mas o marechal proclamou sem ao menos se dá a delicadeza de consultar o povo. Talvez tenha ouvido uma meia dúzia de intelectuais intoxicado pelo positivismo da ordem e do progresso. O que aconteceu mesmo é que o marechal passou uma rasteira no imperador. Do contrario teríamos o terceiro reinado.
Joaquim Nabuco quando soube da proclamação da republica ficou surpreso. Estava em lua de mel em Paquetá. Em seguida fundou o Jornal do Brasil - “na esperança de restaurar a monarquia... ele teria sido o primeiro ministro ideal no terceiro reinado com a catolicissima d. Isabel.” As palavras entre aspas são de Antonio Carlos Villaça extraídas da crônica - A casa de Nabuco, do livro Degustação, José Olympio 1994. A casa de Nabuco foi demolida na rua Marques de Olinda, em Botafogo, no século dezenove.
O imperador foi embora e fez um grande favor a senhora republica. Sua filha proclamara de lei Áurea, livrando a bisonha republica desse vexame, o qual teria de enfrentar. A proclamação de imediato não apresentou nada de importante econômico e socialmente falando. Criou sim o tremendo escândalo religioso e rural com a guerra de Canudos, massacrando os camponeses deserdados do beato Antonio Conselheiro. Na verdade a república foi um golpe que até hoje estigmatiza o exercito brasileiro. Foi-se a monarquia. Estamos a mais de um século de seu grito. Pouco tempo. Meu avô, ainda de chapéu, nasceu na monarquia. E meu pai deve ter herdado alguma influencia do antigo regime. Como, por exemplo, jurar por um fio de barba.








A Europa, até hoje, em quase sua totalidade, continua monárquica. Se bem que a França, grávida de iluminismo mal digerido, dirigido, destronou o rei, decepou-lhe a cabeça na guilhotina. Mas lá vem Napoleão e restaura tudo com suas artilharias e seus cavalos. Cria um novo império e dividiu a Europa ao seu bel prazer com sua parentela de acordo com seus interesses políticos e familiares. E quem não se alinhasse com ele teria que sair correndo, pedindo penico, como foi o caso de Portugal. A Inglaterra deu cheque mate. Manteve sobranceira a sua monarquia, a sua libra esterlina, a sua torre de Londres. A Holanda continua uma monarquia com toda a beleza aveludada de suas tulipas, seus canais rodeados de diques, seus moinhos, sua liberdade para os vícios, como um direito democrático. A Espanha é monarquia. Perdeu seu rei por algum tempo, enfrentou o inferno de Franco. Mas terminou coroada novamente. Os três países são citados aqui como exemplos das grandes navegações. Foram de grande importância na colonização do Brasil. Poderíamos falar de muitas outras nações da Europa que continuam monarquia. E nem por isso deixaram de ser respeitadas. Uma das maiores economias do mundo, hoje, na Ásia, é monarquia, o Japão.
De monarquia em nosso país, restou apenas o folclore nostálgico, o gosto pela galanteria cortesã, pelas bandeiras, pelos brasões, pelo apego aos monumentos coloniais e imperiais, pela restauração das velhas ruínas, já que não foi possível restaurar o velho regime, se bem que algumas pessoas interessantes e interessadas tentaram logo depois da ditadura. Através do plebiscito. Não deu. Mas em compensação temos o rei Roberto Carlos, o imperador Adriano, a rainha Xuxa, o rei Pelé, o rei do gado, o rei da soja. Tivemos o príncipe dos poetas brasileiros, Olavo Bilac. E ainda podemos encontrar nas altas rodas elegantes condessas...
Talvez tenha me esquecido de algumas outras majestades. Os barões que perduraram depois da monarquia nem se conta. Demoramos a nos livrar dos coronéis da guarda nacional. A aristocracia rural ainda continua com a mentalidade do tempo do rei. E o nosso brasão nacional ainda continua sendo figurado por ramos de fumo e café, produto da nossa economia imperial exportadora. Sendo a nossa republica soberana por que muito tempo depois de ser gritada, proclamada ainda continuou com moedas e cédulas de contos de reis, com retratos respeitáveis de barbudos e ilustres monarquistas? Promiscuidade. O cruzeiro só veio depois de Getulio, que pode ser incluído como um dos proclamadores da republica. Pelo menos fez a revolução de 30.
Claro que se o Brasil tivesse continuado uma monarquia não seriamos mais bonitos nem mais feios. Mas o nosso turismo, com certeza, seria mais animado. E seriamos filhos de uma família real. Realmente.
A esta altura muitos estão dizendo: Eu não vou sustentar o luxo de uma família real, é muita mordomia. O pior é que algumas pessoas já estão contribuindo para o sustento da distinta família real. Vejamos: “A cidade de Petrópolis paga laudêmio de seus 774 606 km² exclusivamente para a Família Imperial Brasileira”. Bem que eles merecem. Petrópolis pertence aos descendentes de dom Pedro II. Esta figura de saudosa memória que deveria ter passado a coroa do reino para a princesa Isabel mulher do conde D’Eu. Com certeza os súditos brasileiros iriam adorar. Muita influencia francesa. Charme.
Melhor do que viver o tempo todo no limbo, entre ditadura e democracia, tentando acertar. E aí quem sabe um belo dia um garoto esperto vai e descobre que o rei está nu. Ai sim. Proclama-se a republica.

Fim de Feira

Vidal
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VIDAL – Sérgio Vidal da Rocha nasceu em 15 de janeiro de 1945. "Na pintura de Vidal o que me encanta é a sua fidelidade ao seu universo vivido: o flagrante realista dos seus companheiros e companheiras, nos bons (e raros e sofridos) instantes de folgas (que para eles não há lazer, palavra tão prestigiosa agora para uma certa sociologia, uma certa administração e uma certíssima ideologia da criação de ilusões e venda de seus produtos de consumo aliciado). Mas o trabalho, a carência e a solidariedade ali estão, na esperança de serem esperança, alegria e abundância: dia virá."Antonio Houaiss.

Mais Vidal na Casa de Lima Barreto ali embaixo.

O CAVALEIRO NEGRO PULAVA OU NÃO PULAVA PRECIPÍCIO?...





1000TON

Assunto, por demais polêmico, era discutido por jovens amigos lá pela década de 70, incluindo eu, leitores ávidos que éramos dos gibis de aventuras dos anos 50. Na época, aqui como nos EUA, nossos pais macarthistas achavam que era deseducativo esse tipo de leitura, torciam um pouco a cara quando pedíamos alguns trocados para torrar nessas bobagens, mas desde que fiquem quietos, entretidos, vá lá. Mas por que esses meninos não lêem um monteiro lobato, um hans staden?
Pior é que líamos, também, mas as historietas em quadrinhos nos facinavam bastante, Hopalong (Ropalôu, pra nós) Cassidy, Rock Lane, Roy Rogers, Zorro, e o nosso similar nacional: o grande “Cavaleiro Negro”, quer dizer, não tão nacional assim.
Anteriormente o Black Rider, da poderosa Marvel americana, era publicado aqui pela RGE (Rio Gráfica e Editora), desde 1949, na revista Gibi Mensal . Com o cancelamento da revista nos EUA, e aqui o sucesso era estrondoso, a RGE quis dar continuidade à publicação.
Chamaram, então, o desenhista Walmir Amaral de Oliveira para “recriar” o nosso Cavaleiro Negro. Só que: o nosso cavaleiro tupiniquim era redesenhado a partir do cawboy Gringo, uma publicação espanhola, ês muêle? (Google, Universo em HQ, Marcus Ramone, 08/09/2004).
Éramos colonizados e não sabíamos, porém éramos felizes... e sabíamos!
Claro que os índios eram bandidos, imagina! Mocinho é mocinho!... As roupas dos mocinhos eram maravilhosas, as mais atraentes tinham tachinhas nas calças e nas botas. E as cartucheiras duplas, ah! Bandido nenhum, nem um índio escapava, escapava, não !
Alguém já viu o chapéu do mocinho cair no chão? Numa luta, por mais ferrenha que fosse, isso nunca rolava.
Nos filmes não havia sangue nas perfurações de balas nos corpos, nem carnes dilaceradas, nem nada. Os bandidos mal encarados, baleados nos salúns, apenas se contorciam em espiral até atingir o chão, parecendo mais um balé bêbado.
Lá por essa época, dos meus doze anos, um filme, que não era de mocinho, mas me impressionou muito foi “O Cangaceiro”: estrelado pelo Milton Ribeiro (o malvado capitão Gaudino) e a bela Vanja Orico (Maria Clódia), e o Adoniran Barbosa trabalhava também. O filme era dirigido pelo Lima Barreto (Google,“Adoro Cinema Brasileiro”).
Por aquelas terras quentes do norte os homens da lei eram tão feinhos, coitados, e o bando de cangaceiros mais feiosos ainda! As roupas eram tão esquisitas, parecia fantasia de carnaval, e os soldados (macacos) ? Pra começar nem tinham cartucheiras duplas, muito menos botas bonitas, e os cangaceiros, que eram maus pra caramba, usavam sandálias, ora essa...ridículo !
Agora, em matéria de bandido, ninguém barrava os cangaceiros, até o nome metia medo, vade retro, Satan! Quando vi na revista “O Cruzeiro”, a cabeça arrancada, fora do corpo do temido cabra Lampião, eu pensei: foi crueldade muito grande, mas justiça foi feita! Só mais tarde percebi que bandido, bandido mesmo, eram os poderosos coronéis latifundiários assassinos, mas isso é outra estória.
E quem é o mocinho ou o bandido nessa velha nova guerra sangrenta na faixa de Gaza? Quanta violência! Ali jorra sangue pra valer! Como jorrou muito sangue pela caatinga nas batalhas contra Lampião.
Sangue empapou o solo americano nos massacres contra os índios cheyennes e sioux, protagonizado pelo General Custer, condecorado pelo governo americano, aquele que nos filmes e nas revistinhas de caubói, com um só tiro, matava uns três. Ainda bem que os chefes sioux Touro Sentado e Cavalo Louco deram cabo desse tinhoso e de toda a sua tropa (Wikipédia). Não vou falar nem dos nossos índios, nem dos nossos sem-terra, nem dos nossos favelados, quanto sangue, meu irmão, quanto sangue!...
Aí me dá vontade de chamar o velho cavaleiro negro pra pular o precipício, e ir parlamentar com os dois lados, e falar pra eles que essa guerra em Gaza não leva a nada e...
Peraí! Não vai dar certo isso, não! Até o Bobama, tá quietinho, pô!
Esse cavaleiro negro é oriundo lá da terra dos ianques, caubói de faroeste, pode ser é uma bush de canhão. Vai que de repente ele toma partido... e fica do lado dos israelenses. Além do mais, não cheguei a nenhuma conclusão, discutindo com os meus amigos, na época, se esse tal cavaleiro pulava precipício, ou não.
E se ele pular mesmo, vai ter que pular é um abismo!
Abismo cavado aos pés desses dois povos, dos quais um é sem-terra e o outro não.




imagens que dizem










Impressionante estas sequências fotográficas. À direita, judeus em sofrimento pela violência nazista. À esquerda, palestinos em sofrimento pela violência judia... O violentado de ontem é o carasco de hoje. E Freud tinha razão... Seria o retorno do recalcado?

Garimpado na internet por Guido Palmeira


DOR


Ana Cecília Salis

Eu entendo o corpo sobreviver
à materialidade da dor
das mil chibatadas
Entendo a coroa de espinhos
Entendendo ainda os pés furados
Mas não entendo o corpo sobreviver
à humilhação,
ao abandono,
ao desamor,
à imaterialidade
do puro conceito...

REFORMA ORTOPÉDICA

Edmar Oliveira

Passo um tempo enorme tentando aprender um pouco dessa complicada língua da mãe gentil e eis que me aparece uma reforma ortográfica, vez por outra, para aumentar o meu, já difícil, ofício de escrever. Aviso logo aqui que as regras desta nova reforma não serão obedecidas até meu editor de texto ser programado para tal. Se escrevo freqüentemente, já sem o trema, o computador corrige automaticamente para a forma antiga que é a que vigora. Assim como se eu tiver a idéia de tirar o acento da minha idéia, ele automaticamente acentua. Portanto, vos aviso que não vou ficar brigando com meu editor de texto para continuar escrevendo. Quando ele for reformado, me reformo. Mesmo para falar da atual reforma escrevo sem seguir suas regras ainda. Assim sendo, lá vamos nós, com o cacófato e tudo (prefiro este ao cacófago, embora escreva merda, vez em quando).
Primeiro vão acrescentar três letras que nunca saíram dos teclados. Estão lá k-w-y que não me deixam mentir. Tiraram o acendo dos vôos (voos), que já eram estreitos; o chapéu dos que crêem (creem), em sinal de respeito; o livrinho dos que lêem (leem), parece que para exercitar a leitura na tela do computador, onde não gosto de ler. Tive que voltar todas às vezes para tirar a acentuação gráfica. Por isso desisto daqui em diante.
O sinal que marcava o hiato com o ditongo anterior dançou na feiúra do Bocaiúva (tirem o sinal vocês, que meu computador não permite). A epopeia da jibóia e a ideia de assembléia foram suprimidas (neste caso, epopeia e ideia o computador me permitiu, embora sublinhasse em vermelho pra dizer que escrevi errado, mas jibóia e assembléia ele acentuou automaticamente, o que entendo ser um ninho de cobras).
Não há mais diferença entre para Pedro e Pedro para. A preposição do verbo não se difere mais (alguém duvida da confusão aqui?). Pelo, substantivo, passa pelo mesmo problema.
E o trema, completamente abolido, vai fazer as próximas gerações pronunciarem tran-QUI-lo e não mais tranqüilo, deixando argüida a pronúncia horrorosa. O pingüim não fica mais charmoso em cima da geladeira. O trema é chique, sem trema é brega, e é um pinguim qualquer (expressão nordestinha de pinguinho de merda).





O semiárido fica extraoficial sem hífen. O sub-humano continua super-homem, que ninguém teve coragem de tirar a barra forte do surper-herói. Aqui a confusão é completa e nem tenho esperança em aprender antes de outra reforma.


A fortuita dúvida fica no déficit ou deficit de clitóris ou clítoris. Compreenderam que nem só o hífen e o hímen são complacentes? Acho que não tenho mais idade pra me acostumar com essas esquisitices dessa reforma ortopédica, que me enfaixa os dedos com medo de escrever...

choque de ordem



Choque de ordem - "O Malho" - 1902

Ali começa a atual política do governo da corte.

(garimpado por Guido Palmeira)

O que é do Piauí e a gente nem vê*



João Cláudio Moreno**



Não é de relance ou de sopapo que olhamos o Piauí para enxergá-lo. É bom despir-se dos preconceitos, fincar os pés no chão e perceber bem o que escapa ao desavisado... Terra escondida. Longe. Sob um imenso apuro, mergulhada em silêncio, luminosa, mas escondida. Há na terra, no ar, no mar, na serra e no povo um compromisso de originalidade tão imperceptível quanto marcante.

Dois terços do lugar são caatinga que a gente chama de sertão. O resto é agreste, cerrados, campinas e até uma pontinha de mata atlântica úmida no meio da secura. Carnaubais, babaçuais, alagadiços planos e verdejantes como os de Campo Maior, uma paisagem de sonho.Derrama-se espremida entre 1.200 quilômetros de rio perene e a majestosa Serra da Ibiapaba. Depois do rio, o Maranhão; atrás da serra, o Ceará. A serra vem beijar a planície dos vaqueiros e o rio deságua no mar formando um delta inesquecível, o único das Américas. Em sua parte mais árida está o berço do homem americano. Cravadas nas pedras com tinta de sangue, as pinturas rupestres mais importantes do planeta são obras de arte da nossa pré-história.

O homem da terra está ligado ao Grande Rio por um cordão umbilical. Toda sua antropologia, sociologia e cultura corresponde a este vínculo. Sua colonização é muito original. Os vaqueiros reinaram construindo nas fazendas uma cultura tosca, rude e própria. Neste isolamento-longe até dele mesmo, minguado, diferente, resistente e forte, sob um céu tão azul que ofusca as outras cores, quando no mês de maio venta tanto, nem faz tanto calor-, o piauiense, acostumado a ser simples e bom, ri de si mesmo e para todos sua risada linda de acolhida como quem pergunta a quem vem de fora: "Que seria do nosso abraço se não fosse o nosso calor?"
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* Texto publicado originalmente na Agenda 2009 da Caixa Econômica Federal CEF

**João Cláudio Moreno-nascido em Piripiri(PI), tem 41 anos, é humorista, ator, jornalista e escritor, foi também Secretário de Cultura da cidade de Teresina(PI). Atualmente prepara um inventário de tipos humanos do Piauí que será adaptado para o teatro.
O Piauinauta agradece a gentileza e se oferece para a publicação de mais textos do Moreno João. Do espaço sideral escurecemos toda a terra e iluminamos o Piauí para realçar o show do João Cláudio.

Cinéas



resenha: AS CONFISSÕES DO HOMEM INVISIVEL





Luíz Horácio

As confissões do homem invisível corre o sério risco de servir de manual para outras leituras dada a quantidade de referências ali contidas. Este atrevido aprendiz não pretende buscar outras, mas sugere ao leitor um confronto pacífico com Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Invisibilidade e cegueira ,onde se aproximam, onde se afastam. Nos enredos abordados, até que ponto influem na condição humana?
A história de Alexandre Plosk tem início quando o protagonista descobre, numa fábrica de espelhos, que sua imagem não afeta mais esse objeto. Daí em diante tudo na vida do personagem leva à confusão e daí a tristeza basta um sopro. É o que acontece quando nos falta coragem para olhar para o fundo do poço escuro de nossa alma. Forçado a mergulhos inevitáveis e geralmente trágicos no seu passado guiado pelo oxigênio da lucidez, perceber que não soube amar. Vem daí o grande combustível para a tristeza e a confusão mental. Até...desaparecer! Então tenta voltar, refazer o caminho para a dor doer menos. Esquece que na ânsia de voltar pode se perder definitivamente. Uma amiga já morta dizia: “ quando decidimos voltar é por que estamos perdidos.”
A relação mal resolvida com Alice, que também se torna invisível e esconde um segredo, dá a entender que certos amores não reclamam soluções, necessitam de solidões. Exigem que permaneçam unidos, na dor. Na aflição da alma. A angústia que faz inventar. Outros homens, outras mulheres, outros dias. E assim a vida ergue seus prédios, seus monumentos, permitindo a possibilidade de que ali naquela próxima esquina venha a encontrar outras dúvidas.Quem sabe, tenha morrido? Alice, o irmão, teria morrido por sua (do protagonista) culpa, ou por acaso.De qualquer sorte, a morte será sempre um retrato. Quem sabe um espelho a refletir a ausência? Nada mais que um instante paralisado da vida dos que restaram. Morte não se resume a dor, tristeza, é falta de costume.

O protagonista não guarda saudades,alimenta a amargura fruto da incerteza; não sente vontade de saber de ninguém, o passado é um ladrão egoísta que lhe deu às costas. Também não chega a ser daqueles tipos sorumbáticos que perambulam por aí sob o peso das cicatrizes do sofrimento.
Assim como para Alice, também para ele o que conferia um significado especial à vida não era o visível mas sim o sentido. Nunca conseguiriam a união.
E por falar em espelhos, sua incansável apropriação pela literatura e a anteriormente citada quantidade de referências me obrigo a pensar na indigência intelectual que grassa em nosso país, a começar pelo bizarro presidente que supostamente nos comanda, e uma questão se impõem. O potencial criativo do escritor e o interpretativo do leitor. Até que ponto a formação, a intensidade e sutileza interpretativa, bem como a complexidade estética de ambos deve ter mais ou menos extensão semelhante? Do contrário a arte, no caso a literária, pode virar enigma, ou então refletir o território bizarro onde um Tarso ou um Genro ditará as regras. Creio que aí se justifique a presença da critica, com uma atuação isenta que ajude a ordenar as emoções. Nunca esquecendo que a critica é plenamente dispensável, a obra de arte não precisa dela para existir, a obra de arte permite inferir uma realidade criadora e um leitor que se relaciona com ela também de maneira criativa.
As confissões do homem invisível é uma arriscada investida do autor, homem de cinema, pelas veredas literárias. Se atualmente o que mais se vê é autor escrevendo na expectativa de adaptação para o cinema, Alexandre Plosk parece fazer o caminho inverso. As confissões do homem invisível não é um romance linear, muda o tempo, muda o narrador, muda o cenário,e se o roteirista foi por demais criativo, ao montador faltou talento e expôs o leitor/espectador a uma enxurrada de informações e caso não disponha dos coletes salva vidas nas cores, filosofia, cinema, literatura, mais precisamente Kafka, Lewis Carol, Joyce, na certa entregará os pontos e deixará se hipnotizar por Morfeu.
Fica um travo de trabalho acadêmico com orientador preguiçoso; várias possibilidades e nenhuma aproveitada em sua totalidade . Uma pena, pois Alexandre abriu várias frentes, todas riquíssimas, não precisava abarcar todas, a história principal não carece de tamanho labirinto. Ficou parecido com a série de TV, O homem invisível. O lúdico superou o literário. Importante ressaltar que aqui nesse espaço tratamos de literatura, as virtudes cinematográficas, se por ventura existirem, serão sempre secundárias. Não entendo como mérito dizer que o livro A é bom porque daria um bom filme, no universo precário deste aprendiz o livro é bom ou tem qualidades porque é bom ou tem qualidades como livro. E basta. Do mesmo modo que um livro ruim nas mãos de um grande realizador pode resultar num grande filme. O que não podemos fazer durante a análise de um livro é projetarmos seu futuro numa outra forma de expressão. Pretensão descabida. Feita a observação mais que necessária voltemos em busca do fio da meada. Pois bem, se na obra o autor cria uma realidade soberana, essa mesma realidade também é frágil. Está a mercê das carências, veleidades e opiniões daqueles que se acercam dela.
Como convencer determinado leitor da importância de tal obra se a opção estética da mesma não faz parte de seu mundo?
Certa vez um poeta jovem afirmou a respeito de Paul Celan, Lezama Lima e Ezra Poud, que “para desfrutar dos malabarismos, dos contorcionismos e os triplos saltos mortais, prefiro ir ao circo.”
Sem concordar com o jovem poeta, a frase serve como alerta: nenhuma obra está fora de perigo, nem sempre a qualidade se impõem por si , dependerá sempre do gosto e da formação do leitor. E aí que As confissões do homem invisível começam a correr perigo.
Contra as limitações do gosto individual nada se pode fazer, no entanto quanto a formação do leitor se pode debater, estudar, comentar, quem sabe criando novos paradigmas e movimentos estéticos. Talvez resida aí a grande contribuição de Alexandre Plosk, fazer um contraponto da figura do escritor culto,observador, atento a tudo que o cerca, com concepção intuitiva do trabalho literário.
O autor parece querer recuperar, ou quem sabe fundar uma harmonia existencial; unir a consciência ao Todo. Plosk aspira, com As confissões do homem invisível, a reconciliar-se com o mundo; mistura cultura judaica coma teoria do caos, a diluir a dor, a entender a distância e o vazio, a inventar uma maneira de fruir a plenitude onde convivam o desejo e a solidão, a frustração e as lembranças, os sonhos e a justiça. No entanto tamanho engenho acabará por deparar-se frente ao muro sólido da realidade. Então o Eu fragmentado assumirá o papel de Sisifo, e na busca da sua reconstrução renasce em seu sofrimento infindável, embora por vezes acredite tê-lo derrotado. No entanto, a vida não é feita só de alegrias, essa lição todos nós aprendemos muito cedo.Encontrar tristezas! Esse é o problema, encontrar o que não se procura, ninguém sabe onde pesquisar , mas também não é motivo para preocupação...ela vem...é uma coisa beirando a perfeição, a tristeza. Mas podia ser a paz. A paz está distante, muito distante da perfeição, para haver paz é necessário que exista um derrotado. A tristeza vem, você não inventa. Depois da tristeza e sofrimento o indivíduo só almeja uma coisa: liberdade. E liberdade implica em perder algumas coisas. Perder, exatamente isso, perder, é o que consegue o protagonista de As confissões do homem invisível. Detalhe importante; caberá a você, visível leitor, decidir se ele encontrou a felicidade.
As confissões do homem invisível não tem por objetivo a articulação lógica, a trama nasce exatamente na desarticulação lógica do protagonista; no entanto se aproxima da tentativa de causar impacto emocional quando um certo viés onírico atua como coadjuvante dos humores da consciência ou dos horrores e dos desejos.
Para concluir: As confissões do homem invisível é a imagem, no espelho de cada um, da luta entre o Eu fragmentado e a unidade, o impulso desde a dor até a eclosão de um novo tempo, sem trevas. A fragmentação existencial do protagonista gera a fragmentação da narrativa - a cisão entre o Eu e o Todo.
Não, não é uma leitura fácil, caso você, preguiçoso leitor, pretender ultrapassar os véus do lúdico que revestem a narrativa. No entanto, se eu fosse você, abandonaria o comodismo pois não se arrependerá, por que “viver é muito diferente de obstaculizar a morte e no amanhecer dos meus sapatos solitários escuto os passos de alguém igual a mim. Num outro país.”


TRECHO

Enquanto ele fala e fala, cada vez mais banhistas vêm acompanhar a conversa.Eles o incentivam, como se fosse um pastor. Dizem “amém”, “Deus seja louvado” a cada uma de suas brilhantes idéias. O mais incrível é que um grupo de animais vem pouco a pouco se aproximando. Primeiro um coelho, depois um burro, uma tartaruga, um gato, um cachorro...Todos eles parecem escutar suas palavras. Logicamente foram acostumados a isso.Imagino que, ao final, alguém lhes dê algo de comer.
Tio Charles tem um carinho especial pelo coelho. Ele o pega nos braços sem perder o ritmo.O coelho é engraçado.Ele me olha de vez em quando. Parece notar o quanto estou perdido diante de tantos conhecimentos.Tenho a nítida impressão de que está prendendo o riso por minha causa.
E por aí a coisa vai fluindo com Tio Charles encantando sua enorme platéia. Puro/Não-Puro. Rituais que tentam estabelecer diferenças. Deus. Homem. Eu. Outro. Imortalidade. Mortalidade. Construção de sentidos, enfim.
-Muito bem! Então, você entende o que é a Lógica. Ela faz sentido para você, não faz? Então, se a Lógica existe, isso só pode provar que existe também a sua contrapartida, certo?
Agora as coisas poderiam ficar complicadas.
-Lógica, Não-Lógica. Ah! Escolha o nome que quiser!
Consciente, Inconsciente, o que seja! Vamos, isso é moleza, rapaz!
Sigamos juntos: a Não-Lógica pressupõe a ausência total de Lógica, certo?
-Certo.
-Errado!A Não-Lógica é definida como “não-lógica” justamente porque neste universo não-lógico não cabe qualquer comparação com a Lógica. Portanto, a Não-Lógica jamais pode ser entendida através de uma mente lógica.




O AUTOR
Alexandre Plosk nasceu no Rio de Janeiro em 1968. Cursou publicidade e cinema.Além da literatura, trabalha com roteiro de cinema e televisão.Assinou a direção de curtas-metragens e escreveu o roteiro do longa Bellini e a Esfinge, prêmio de melhor filme do Festival do Rio. Em 2004, estreou na literatura com o romance Livro zero, As confissões do homem invisível é sua segunda obra literária.Atualmente, Plosk é roteirista da TV Globo.
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Luíz Horácio
Jornalista, escritor, autor dos romances Perciliana e o pássaro com alma de cão, ed.Conex e Nenhum pássaro no céu, ed. Fábrica de Leitura, professor de Língua Portuguesa e Literatura, mestrando em Letras.


Ilustração: "A piscina" pintura digital de João Werner, especial para o Piauinauta


ponto sombra

Lau Siqueira




porque
tenho fé e cumpro
a sina de andar pelos dias

caminho entre milhas
de distância e lugar nenhum

costumo limpar os sapatos
e a garganta antes de cada passo
ou grito


escrevo

ainda que
em algum momento apenas
anote a placa do verso que por mim passou voando
__________
Recebido de Cinéas se bonito leia-se. E é.

fantasia

Juarez Montenegro





Quem chega!...Minha leda fantasia,
levando-me ao maior encantamento,
em pleno sol a pino, ao meio dia –
emissária do afeto ao meu tormento.

Trazes à praia a canga luzidia;
ao mar, o teu fogoso envolvimento;
à luz, uma serpente fugidia
que sombreia, qual trança, o sentimento.

As ondas freiam quando tu derrapas,
os ventos só se esgueiram se solapas
a incrível vontade de te amar.

Sou um exausto náufrago que intenta
salvar-te dos chicotes da tormenta
e, banhada de fragas, te domar.



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Belo soneto de Juarez Montenegro feito neste verão em Praia Seca. Bom ficar aposentado assim, camarada, me provoca inveja. Mas a canga do mestre, na fantasia, se parece mais a nossa canga de bois nordestina, o que não perde nada em poesia, né mestre Jura? Ficamos encangados do mesmo jeito... (Edmar)

QUANDO DROGA ERA REMÉDIO



Drops de cocaína para dor de dente (1885) eram populares para crianças. Não apenas acabava com a dor, mas também melhorava o "humor" dos usuários.




Um frasco de heroína da Bayer. Entre 1890 a 1910 a heroína era divulgada como um substituto não viciante da morfina e remédio contra tosse para crianças.

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O Piauinauta numa dobra do tempo foi olhar as farmácias de antigamente um pouco. E como estarão as drogas da felicidade de hoje, no futuro?

Garimpado por Jander.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Lampião Jorge Guerreiro


o Piauinauta, vestido de JORGE LAMPIÃO, passeando na lua cheia na mão do Cristo Redentor. São Jorge Virgulino comemora um ano de permanência no espaço sideral. Neste segundo ano o blog tá de cara nova. No novo logo, ali em cima, o Piauinauta de chapéu de couro, vaquejando nos céus, em arte de Netto de Deus. Obrigado, cabra de Campo Maior. (montagem do Lampião no jegue na lua de Cristo: Edmar)


ANO NOVO?

Edmar Oliveira

Repetem-se sempre os acontecimentos do ano passado, as previsões pro ano que entra, a queima de fogos mundo adentro, destacando-se a nossa aqui vizinha em Copa
cabana, com duas mil pessoas numa faixa apertada de areia. Nunca fui nem desejo ir. Só se estiver morando lá. Porque aí também não se pode sair, se não sair antes. Não tenho saco para reler as besteiras que aconteceram no ano e nem acredito numa linha das previsões animadas ou catastróficas, que são elementos da mesma natureza. Também não creio nos votos sinceros de ano novo nem sou contagiado pela especialidade de um dia que me parece muito igual aos outros. Já viram que meu mau humor chegou até o último dia do ano...
Mas sempre notei, não tinha porque não notar, a emenda do calendário na última noite do ano. Não era só mudar o último número do ano, mas um novo ciclo, coincidentemente, se colocava quase sempre. Uma esperança nova, uma eleição que prometia, uma crise que se encerrava, uma guerra que se esperava tivesse fim. Vamos ser sinceros com a transformação do oito no nove: a única esperança parecia ser um negão que emudeceu quando Israel mata trezentos palestinos por ca
da judeu baleado. Nessa proporção a palestina acaba em breve. O negão tá calado. O mundo assiste a mesmice da violência de um povo que só se conforma em fazer o mesmo genocídio que sofreu no passado. E na passagem de ano para mostrar que nada de novo vai acontecer amanhã, já que o ano judaico não muda agora. A crise mundial do capitalismo mal começou e atravessará para o nove com a mesma promessa de desemprego no oito. E a eleição dos prefeitos foi de uma mesmice só, que os partidos estão muito iguais.


Mudamos de ano?

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fotos dos fogos de Copacabana que estouraram no mesmo momento do bombardeio de Israel à Faixa de Gaza.

Esperando o ano novo

Geraldo Borges


O ano novo ainda não passou lá em casa
Estou esperando-o desde o romper da aurora
Não tenho mais fogo para a minha brasa
E o ano velho cansado ainda não foi embora.

Não tenho pão e vinho para a minha ceia
A televisão continua com as mesmas manchetes
A vida está cada vez mais triste e mais feia
E a minha porta foi arrombada por pivetes.

Ano novo boas novas ainda não chegaram
E não adianta desejar votos de prosperidade
Por que por aqui estes ventos não passaram.

Por enquanto a minha graça é um calendário
Este arauto que todo dia promete a felicidade
Mas não tem nada de novo ou extraordinário.

Jenipapo+News




Então Golias avançou e David também avançou, enfrentando-o. Disfarçadamente, o pastorzinho tirou um seixo (pedra) do alforje, colocou-o na baladeira e atirou. A pedra voou e passou longe da testa do filisteu. Enfurecido, o atrevido guerreiro resolveu apelar para o que ele tinha de mais eficiente em se tratando de brinquedos de guerra. Para surpresa do Gigante Golias e dos seus soldados, a funda de atirar pedras era só um grão de areia perto do cardápio bélico que David começou a desembainhar:
Atrás da fronteira da faixa de Gaza, estavam 3 milhões de soldados isaraelenses armados com 500 tanques Mercara; 200 caças F-16; 300 caças adaptados do Mirage francês; mísseis Popeye-4 equipados com mira a laser e câmera embutida; 200 helicópteros das categorias Apaches, Black Hawk e Bell; e guardadas em local seguro, pra serem usadas se o Gigante Golias Hamas não desistisse dessa provocação, 200 bombas nucleares.
Assim, David, tendo por arma apenas um dos mais poderosos e bem treinado exército do mundo, matou o gigante, pôs em debandada o temível "grupo terrorista" filisteu, segundo o primeiro ministro Ehud Olmert. Então o povo de Israel saiu pelas ruas aclamando David, e as mulheres, tangendo instrumentos, cantavam: "Saul feriu os seus milhares, porém David os seus dez milhares.Mas não houve um final feliz. Ao voltar da guerra, a melhor recompensa que David esperava lhe foi negada: Merab. O rei Saul Ehud Olmert fizera casar com outro a formosa princesa com quem o oficial do exército sonhava. Além do que, o mui querido rei também não perdoou os impostos atrasados do intrépido guerreiro. Também em Israel, o "leão" dos impostos é mais forte e mais esfomeado do que o Leão de Judá.

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Subitraído de Jenipapo News, o blog do Netto de Deus.

TIRANIA



Ana Cecília Salis


Interrogo-te senhor de terras
De espigões escarlates
De monumentos ao nada
Árbitro da indigência
Cartunista de pretensões
Soberano na estupidez
Magistrado da ignorância
Semblante da indiferença

Tens sede de que?

Advirto-te senhor escarlate
Ergo-te à indigência
De minhas palavras
Atiro-te ao branco do papel
E converto-te ao calo nas mãos
Aos pés descalços
À poeira na boca
À cegueira dos olhos
À mutilação dos desejos

Se poeta, sou senhora
Se as palavras me pertencem
Se, com elas, decido sentidos
Faço-te escravo e louco

E agora, senhor
tens medo do que?

DEUSDITOR



Aderval Borges

Comum mandante por trás de quais estalos editoriais
E tais estilos eleitos
Demandados por eleitores deletérios e paus-mandados
Por gostos condizentes com os gastos mais ordinários
Comando tenha tu, Deusditor
Sobre nosso saber sem sabor
Que sucumbe esbaforido
Ante o desinteresse insalubre e postural dos que compram
Falo por todos os atados autortáurios
Que andam com os próprios cornos fincados nos corações carbonários
Responda qualquer coisa assim: são o que são porque não querem aceitação
Sem tento para os tais, portanto
Que achem as próprias achas nos becos da perdição
Espaço para poemas?
Oh, me deixem expressar um lema:
Já que se sentem tão originais, que suas obras permaneçam como tais
No futuro, se não houver interesse, serão incineradas
Ou recicladas
Para que à luz das brasas tenham alguma visibilidade
Ora, tomem um rumo, pretensiosos!
Sumam!
Naveguem ás vagas como vagas criaturas que são
Cadê tua obra, poeta? É só isso?!
Vá em busca do teu país sem honra, ô catso
Ou caia de barriga na briga com os demais escribas no round
O que pensa?
Trate de não vomitar no meu tapete, ô traste
Ninguém mais te atura
Limpe os pés, pô, etiqueta também é cultura
Eta! Nenhum dos que pensam como tu perdura
Não há como dissuadir o mercado
Este já está marcado a ferro e brasa
Pelas credenciais do bom gosto
Veja Saramago
É o tipo que satisfaz
A todos que lêem por ano algumas páginas
E adoram achar tudo muito bonito
Não reclame!
O mundo não carece de espaço para escreventes sem renome
Somenos, só publicamos o que o público quer:
Biografias, esoterismo, manuais sexuais
Receituários, roteiros de viagens, decoração
Dicas de bom comportamento e bem-estar
E clássicos, muitos clássicos
Quer um conselho:
Faça um (clássico), que teu dia há de chegar
Sobretudo quando estiver morto
E não houver mais o desconforto de ter de te pagar diretos autorais
Mas se quer reconhecimento imediato
Vá dar aula em faculdade
Esteja dito: você e seus amigos já não têm idade para lançar novidades
Não há glória à vossa espera
Portanto, não delire em ver teus calhamaços nas vitrines
Ouça meu conselho: baixe as calças e faça por merecer
Entenda que é preciso tirar as mãos dos bolsos
E mostrar se o teu ofício/orifíco é compensador a God Gold
Good?
Raro, caro e expedido a crédito
Conforme o despir do espanto
Pois só a grana faz com que um cão louco lata macio
Sem sentir nojo de obrar seus pudores para tantos
___________
Dervas, poeta da paulicéia.

Podando a mãe gentil



Geraldo Borges




Essa tal de reforma ortográfica feita por decreto vai mudar alguns acentos e juntar palavras antes separadas por hífens, e algumas coisas mais que eu não estou por dentro. Parece-me uma reforma semiótica que vai mexer em nosso desenho caligráfico, já tão bem familiarizado aos nossos olhos. Já pensou se os chineses dessem na telha mudar os seus milenares ideogramas. A língua é uma coisa orgânica, arqueológica, mesmo morta, continua viva, e não se muda da noite para o dia, até mesmo por causa da força do hábito. Uma nação que vive podando a sua língua, com certeza ainda não encontrou a sua identidade. Esta mudança me parece coisa da globalização Tem mais significado político do que lingüístico. Mudar a nossa ortografia vai servir apenas para facilitar a leitura dos textos das embaixadas, dos consulados, das nossas relações internacionais, dos relatórios da UNO. E para que serve os tradutores? E também por tabela será uma ótima oportunidade para os editores passarem uma rasteira na crise. Principalmente as editoras de livros didáticos e para didáticos. Novas edições de dicionários. Pelo que eu vi os jornais, a mídia, já estão certinho com a nova ortografia.
Eu de minha parte deixei claro que não vejo motivo sério para se mudar de ortografia. Podar a nossa frondosa árvore lingüística. Até mesmo por que o povo a maioria analfabeto, semi – analfabeto, já viu outras mudanças e continua na mesma, sem nenhuma ilustração. Pois o seu livro principal são os muros pichados, cheios de erros ortográficos. . Para o povo a mudança de ortografia não fede nem cheira. Pode ser que para as gerações futuras tenha outro significado Tirando os nossos acentos a nossa língua vai ficar mais parecida com o inglês OK. Mas eu prefiro o Francês. Nossa conquista cultural está visceralmente ligada aos franceses, um idioma que bate recorde em acentos, que generosidade, que sonoridade.
.
Mudar a ortografia de um povo por decreto, por lei, é no mínimo muito estranho. Principalmente no momento em que o nosso presidente não liga muito para este negócio de pureza da linguagem. O importante é se comunicar. E ele se comunica muito bem. Melhor do que fazer uma reforma ortográfica seria convidar o presidente Lula para fazer parte da Academia Brasileira de Letras. Ai sim. Ele popularizaria o nosso vocabulário. Desvelaria os eufemismos. Acabaria com o plural dos substantivos e dos adjetivos, por que, quer queriam ou não queiram o nosso presidente é um homem singular.
Mas o bom mesmo deste reforma ortografia é que todo mundo mete a colher. O confrade aqui não me deixa mentir. Não sei se falei sério até agora. Pois o Brasil é um país drôler. Alguém alto e bom tom ou bom som já disse que o Brasil não é um pais sério (sériieux) viu o acento. Já pensou os franceses tirando o acento da palavra sério. Não sei se o Brasil vai tirar acho que não. O problema são os ditongos abertos e acentos diferenciais como para preposição e pára do verbo parar... Tudo vai ficar uma coisa só.
Agora que estou no fim de minha crônica confesso que vou me esforçar para atender as novas regras, lendo com bastante atenção os jornais, até porque é uma maneira de recompor a minha atenção E sabe lá se nessa busca de novidade de repente não encontre alguma coisa interessante e descubra que o importante é que toda esta papagaiada não vai interferir na substancia mais cara da língua portuguesa no Brasil, que é sua literatura, que, com reformas ou sem reformas, cada vez cresce mais no cenário nacional e internacional. Se Machado de Assis ao menos sonhar quem está mexendo no seu texto, mandará Simão Bacamarte identificá-lo e colocá-lo na Casa Verde, assim como fez com a própria mulher que estava se enfeitando na frente do espelho, além da conta.

trëma







Como outros já fizeram, quero também me despedir do trema, cuja morte foi anunciada por decreto a partir de 1º de janeiro.













Não uma, mas cinqüenta e cinco vezes, quero me despedir desta acentuação antiqüíssima e usada com tanta freqüência.
Fomos argüidos a respeito?
Claro que não! Nossa capacidade de usá-lo foi seqüestrada para sempre.
Afinal, a ubiqüidade do trema nunca nos foi exigida.



Quem deve se beneficiar com esta tão inconseqüente medida? Creio que tão somente os alcagüetes, os delinqüentes e os que promovem a iniqüidade, justamente aqueles que não estão eqüidistantes, como nós, dos valores eqüiláteros da sociedade.



Vocês já se argüiram sobre as conseqüências do fim do trema para os pingüins, os sagüis e os eqüestres? Estes perderão uma identidade conquistada desde a antigüidade.
E o que dizer do nosso herói Anhangüera, que vivia tranqüilo com o seu nome indígena?
Com a liqüidação do trema, a pronúncia do seu nome não será mais exeqüível.



Os nossos papos de chopp nunca mais serão os mesmos, pois a tão freqüente lingüicinha acebolada vai ser adulterada.
O que vai acontecer com o grão de bico com gergilim, agora sem o liqüidificador para prepará-lo?
Ah, meu Deus! Tenha piedade de nós! Não sei se vou agüentar a perda da eloqüência, em termos de estilo literário, que o trema trazia à Última Flor do Lácio.
É preciso que averigüemos se haverá seqüelas futuras! E para onde vai a grandiloqüência dos lingüistas?
Haja ungüento para suportar tamanha dor!
O que podemos esperar em seqüência? Será que não se poderia esperar mais um qüinqüênio para que fossem melhor avaliados os líqüidos benefícios dessa mudança? Portanto, pela qüinqüagésima vez, a minha voz se une à dos bilíngües e trilíngües como eu, cuja
consangüinidade lingüística e contigüidade sintática se revolta ante tamanha iniqüidade.
Pedir que nos apazigüemos, para mim é inexeqüível, pois falta-nos tranqüilidade diante de tamanha delinqüência gramatical.



Portanto, é com dor no coração que lhe dou esse meu adeus desmilingüido.



Adeus, meu trema querido! Mas pelo menos uma coisa me apazigua, pois quando a saudade bater, sei que vou poder revê-lo quando estiver lendo alguma coisa em alemão.

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Circulando no território livre da Internet. Garimpado por Sacha.




Quanto a mim, posso testemunhar, o trëma foi o único argumento que me restou para que meu velho pai falasse tranqüilo e não tranquilo. Fiquei sem meu argumento...

resenha: NOS PENHASCOS DE MÁRMORE

Luíz Horácio




Vamos começar pelo aspecto imutável, Ernst Jünger foi militarista, apoiou , e não foi sem querer , a ascensão do nazismo, (participou da primeira e da segunda guerra mundial como militar e também tomou parte na ocupação de Paris pelos nazistas) mais tarde abraçaria um niilismo até certo ponto sofisticado. Importante lembrarmos sempre disso, não é o fato de escrever bem que o exime de culpa. Nazista regenerado talvez seja mais perigoso que nazista condenado. Não foi por acaso que no período em que Hitler esteve no poder quase todos escritores, atualmente de importância reconhecida, foram perseguidos. Exceto quem? Quem? Ernst Jünger. Não, ingênuo leitor, eu não entregaria meu cachorrinho para o Jünger dar uma volta com ele pelo quarteirão. Pois bem, Jünger é considerado gênio por muitos, de nós e dos outros. Andam lendo pouco, ou mal, o Graciliano Ramos, o Guimarães Rosa, o Erico Verissimo, o Campos de Carvalho, o Mário Araújo, por exemplo. E por falar em ingenuidade e genialidade, lembremos o que disse seu compatriota (dele Jünger) Schiler: "Todo gênio verdadeiro deve ser ingênuo. Somente sua ingenuidade o converte em gênio." É óbvio que a ingenuidade somente não faz um gênio, mas que o Jünger não tinha o menor traço de ingenuidade é indiscutível. Não desconheço o que disse Freud sobre a personalidade genial. Diz que o gênio vive sempre sob tensão e quando a tensão se torna exageradamente forte, quase insuportável, essa tensão migra para a obra. Entre vida e obra de Jünger percebo as contradições, e não consigo tomar partido a favor dos atenuantes. Se "Nos penhascos de mármore" é quase poesia, é quase fábula, é quase infanto-juvenil, é quase... Temos um menino que alimenta serpentes, ele bate no prato e elas se juntam a ele para beber leite, as mesmas serpentes se põem na vertical numa atitude pouco amistosa frente a inimigos. Como se pode notar, é quase infantil, mas certamente você, semiótico leitor, fará uma leitura extremamente culta do signo serpente e enviará para este tosco aprendiz o que isso quer dizer. Aguardo ansioso. Enfim, quase...
E como todo quase, não chega a impressionar.





Mas passemos a obra.





Nos penhascos de mármore





é uma de suas novelas mais conhecidas e serve também de emblema da contradição que orientou sua vida. De soldado de Hitler à suspeita de um catolicismo dado às imagens que pululam nessa narrativa, Ernst Jünger é a confirmação da tese que afirma ser o homem a causa e o efeito de todas as tragédias da história e alimentar a ira nacionalista como uma virtude é um equívoco vergonhoso. Uma obra literária por melhor que seja não terá poderes para limpar tamanha mancha. "Nos penhascos de mármore" é uma bela novela, como tantas que tantos escritores brasileiros escreveram e escrevem, embora isso não seja pouco também não vamos classificá-la como algo na ordem das obras excepcionais. Longe disso. Caso o leitor atento não se disponha a fazer inúmeras analogias e forçar a barra na intenção de ver o nazismo aqui e ali, "Nos penhascos de mármore" poderá ser encarado como uma competente literatura infanto-juvenil, sem esquecer a gama de valores arquetípicos representados pela variedade de personagens que pululam pelo convento de Padre Lampros, sem esquecer as lições de botânica e um longo esclarecimento sobre o comportamento das víboras, sem esquecer a fantasia, o fantástico, o maravilhoso...



Mas falta algo...


O protagonista (anônimo) da novela vive junto com o irmão, Otho num país próspero onde reina a felicidade. Da localidade que habitam vislumbram Marina, um lugar onde natureza, arte e ciência convivem em harmonia. A difícil combinação ideal do amor com o conhecimento. Mas é sempre assim; se está tudo bem não tardará a entrar em cena o vilão. E nesse caso, vem da Mauritânia o cruel ditador (alguns dizem ser a representação de Hitler, mas pode ser qualquer exemplar do autoritarismo) determinado a por um fim em tamanha felicidade e estabelecer seu reinado de violência. Como disse acima, muitos viram nisso uma denúncia do regime nazista. Se olharmos para o protagonista, um ser que transborda virtudes, sejam individuais, sejam coletivas; e creditarmos ao autor tais qualidades, ou admiração por tais aspectos, aí sim, com certa forçadinha de barra, pode-se dizer que se trata de uma demonstração de repúdio ao nazismo. Seguindo nessa linha temos um outro personagem, é praticamente dele o cap.14, um monge cristão, o padre Lampros, e ainda na esteira do pode-se dizer que tal afirmarmos que esse episódio representa o primeiro contato do autor com a igreja católica? E não foi dos mais amistosos como podemos ver no trecho que segue. "Quando nos aproximamos dele, fomos tomados por certa inquietação, pois a face e as mãos desse monge pareciam-nos insólitas e sinistra. Se assim posso me expressar, elas pareciam pertencer a um cadáver, e era difícil acreditar que nelas circulassem o sangue e a vida".

O sombrio Padre Lampros, (...Mas a alegria também não lhe era estranha) é a chave do enigma "Nos penhascos de mármore". Padre Lampros é um personagem que diz mais com seus silêncios que com suas palavras, seja em questões corriqueiras seja no campo cientifico, onde é respeitadíssimo, sábio evita tomar partido em debates entre escolas de diferentes orientações. Lampros guardava seu passado a sete chaves, restava-lhe um anel onde se via a asa de um grifo e as palavras "tem motivo a minha paciência". Numa edição espanhola lida por este aprendiz há décadas lia-se "espero en paz", me agrada bem mais. Como diz o narrador daí se explicam duas características de Lampros; orgulho e modéstia. Defendia o princípio de que "cada teoria significava na história natural uma contribuição à gênese das coisas, porque em cada época o espírito humano conceberia a criação de uma nova maneira, e em cada interpretação não existiria mais verdade do que na folha de uma planta, a qual se desenvolve para logo fenecer." Por essa razão nomeou a si mesmo Filóbio, "o que vive nas folhas." Deixando à mostra, novamente, as duas características; orgulho e modéstia.



O padre vivia recluso em seu mosteiro, voltado aos estudos, às orações e a atenção aos peregrinos; mesmo assim do mundo tudo sabia, era querido e respeitado não só por católicos, mas por todos, inclusive aqueles que elegiam deuses outros. Quando o perigo se ensaiava não disfarçava certa alegria e regozijo. "Ele, que vivia como em sonho atrás dos muros do mosteiro, era talvez o único dentre nós que enxergava a realidade por inteiro."

Longe de ser egoísta chegava a descuidar da própria segurança, no entanto não negligenciava quando se tratava da tranqüilidade do seu povo.



Mas falta algo...



Aspecto que não pode ser esquecido é o tom fabular de "Nos penhascos de mármore" capaz de alinhá-lo entre os grandes títulos do gênero, fazer analogias inclusive Pedro e o Lobo, Chapéuzinho Vermelho e Bambi, permitem. Inclusive sobre Harry Potter há um estudo relacionando com o período e práticas nazistas. Como diz o meu papagaio; "neguinho delira, neguinho delira."

Continuando com Lampros, seu mosteiro, seu vasto conhecimento e bom senso, permitem ao leitor desconfiar de uma certa cumplicidade entre ele o autor. Percebem-se no monge os valores defendidos por Jünger como o conhecimento, orgulho, autocontrole e a defesa de certos princípios como o dito aqui anteriormente. Pairam suspeitas de que Lampros seja fruto de algum contato do autor com o catolicismo. E pelo visto agradou.
Dizem também que a vida só tem transcendência quando somos capazes de salvar-nos como homens. Não sei se Jünger chegou lá.



Mas falta algo...



O narrador é um ser estranho, enigmático. Não se pode dizer que seja alguém que tenha uma relação com o mundo que o rodeia que vá além da observação de supostas leis. Sua moral não é das mais claras, talvez a que suscita o momento. Ao leitor fica a desconfiança de estar diante de alguém que ama a aventura, no entanto vários medos o impedem de vive-la em sua totalidade. Falta-lhe uma dose de Dom Quixote.




Mas falta algo a Nos penhascos de mármore. O quê?


-Faltam duendes, castelos e fadas.




TRECHO

Quando estamos felizes, as mais modestas dádivas deste mundo satisfazem os nossos sentidos.Desde sempre eu venerei o reino vegetal e, em muitos anos de peregrinação, investiguei os seus prodígios.Era-me familiar o momento em que o coração palpita, ao se pressentirem os segredos que cada grão de semente abriga em seu desenvolvimento. Contudo, o esplendor do crescimento nunca me fora algo tão próximo quanto o era nesse chão que exalava um cheiro de verde há muito fenecido.
Antes de me deitar eu perambulava um instante no estreito corredor central. Naquelas meias-noites eu pensava amiúde que jamais observara as plantas tão reluzentes e admiráveis. Sentia de longe o aroma dos vales espinhosos e constelados de brancura, que na primavera eu fruíra na Arabia Deserta, e o cheiro de baunilha que refresca o caminhante no calor sem sombras dos bosques de araucárias. Então, como páginas de um velho livro, emergiam novamente as lembranças de certas horas de indescritível abundância - de pântanos quentes nos quais floresce a vitória-régia e de vegetações marinhas que de longe se vêem arder, ao meio-dia, sobre suas pálidas pernas-de-pau, defronte a costas de palmeiras. Faltava-me, porém, o medo que nos assalta sempre que vislumbramos o crescimento demasiado, o qual, de modo semelhante à imagem divina, com mil braços nos atrai. Eu sentia como, por meio de nossos estudos, novas forças despontavam para resistir aos ardentes poderes anímicos e domá-luz, assim como os cavalos são conduzidos pela rédea.


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Luíz Horácio,Jornalista, escritor, autor dos romances "Perciliana e o pássaro com alma de cão", ed.Conex, e "Nenhum pássaro no céu", ed. Fábrica de Leitura, professor de Literatura, mestrando em Letras.

RECADO

Graça Vilhena



Não velarei teu sono

e nem serei o aguador

de tuas palavras vidrosas.

Creio nos galos

cantando até à grimpa

e nos cachorros

viralatindo as madrugada.



A noite não é silenciosa.

censura

1000TON
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UM ESQUECIMENTO INDEVIDO

Edmar Oliveira

Acompanhei, curioso, a série de reportagens de “O Globo” sobre os quarenta anos do famigerado AI-5. A cada edição rememoravam-se aqueles dias medonhos, onde todas as liberdades foram suprimidas, escancarando de vez a ditadura, mostrando que não tinha qualquer inocência o movimento militar de 64 saudado pela classe média reacionária em nome da “Tradição, Família e Propriedade”. O Estado Nacional sempre se torna fascista, a história já ensinava, quando se quer afastar o socialismo usando o ferro e fogo como instrumentos de defesa dos valores cristãos. Na medonha reunião do presidente com os poderes constituídos, para a assinatura do ato que liquidava de vez com quaisquer ares democráticos no país, é lembrada a fala de Jarbas Passarinho, ministro de governo: “às favas com os escrúpulos”. Desnudava a ditadura sem dó e piedade. Ao que se seguiu, quem viveu não esquece os horrores de um Estado violador das liberdades cidadãs.
As reportagens do jornal tentaram entender como um ato tão violento foi possível num governo que parecia ilegítimo. Não era bem assim. As matérias vão provando que o Judiciário não se contrapõe e membros influentes daquele poder referendaram o Ato Institucional imoral. A Ordem dos Advogados do Brasil, que mais tarde lutaria pelo fim da ditadura, deu apoio incondicional ao AI-5. A classe média não se incomodou tanto. Desde que a propriedade, a família e tradição não fossem assim reformuladas, pouca importância tinha o sacrifício de alguns de seus filhos rebeldes. Depois chorou, que a ditadura cortou a carne dos filhos da classe média de forma aterrorizante. O clero abençoou o dogma institucional como necessário à manutenção dos valores cristãos. E mais outras revelações de triste memória as reportagens trouxeram.
De repente parou. E eu me perguntava: “O Globo” não vai falar do apoio de “O Globo” à ditadura de então, ao Ato Institucional inclusive? O Dr. Roberto Marinho que fez seu império na sombra da ditadura e a seu favor, nada a declarar? Nem uma palavra. Como se pode esconder assim a história?
Eu, de minha memória, lembro de um ato falho do jornal. Nesta época o lema de “O Globo” era: “o jornal mais vendido do país”. Como pegava muito mal e mostrava na realidade a posição de “O Globo”, o bordão foi mudado para “o jornal de maior circulação do país”.
Mas não temos como esquecer do jornal “mais vendido” daqueles tempos...
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originalmente publicado na Casa Lima Barreto, site no pé do blog. Rara foto d'O Globo. Parece que todas foram confiscadas da internet.

A Noite dos Generais

felicidade fotográfica

Código do Itarareense-Andorinha



Silas Correa Leite (Poeta Silas)



01)-Itarareense não tem pais. Faz do Céu de Itararé e da Terra de Itararé, seus pais, sua família, seu lar terreal, e. em Itararé se sente dentro do seu próprio coração
02)-Itarareense não tem casa. Faz da aldeia Itararé o seu ninhal, a sua casa, e a leva na alma, na mente, no coração, como uma honra, um orgulho, uma bandeira
03)-Itarareense não tem poder divino. Faz de seu amor por Itararé, o seu poder divinal, com a graça de Deus
04)-Itarareense não tem pretensão. Faz da própria iluminura pessoal por Itararé, a verdadeira pretensão de amor e paz
05)-Itarareense não tem poderes mágicos. Faz de sua personalidade especial de ser Itarareense, os seus poderes mágicos, encantados pelo prazer de viver com humor e contenteza
06)-Itarareense não tem vida ou morte. Faz das duas umas, tem Itararé, de Itararé veio e para Itararé irá, então, essa é a sua maravilhosa vidamorte, pois sabe que abençoadamente será Itararé um dia
07)-Itarareense não tem visão. Faz da luz e do relâmpago que conecta o céu com a terra, a sua visão telúrica como um vôo para o celeiro cósmico, eterno, infinital
08)-Itarareense não tem audição. Faz da sua sensibilidade espiritual, seus ouvidos, pois Itararé é forfé, é letral, é harmonia, melodia e ritmo
09)-Itarareense não tem língua. Faz da prontidão para o diálogo boêmio, o rebite da dialética sobrevivencial, por intermédio de sua língua chã
10)-Itarareense não tem luz. Faz de Deus a sua defesa, e de sua fé o seu baluarte de salvação em seu rincão natal, o seu paraíso de paz e luz como santuário
11)-Itarareense não tem estratégia. Faz do direito à vida o seu dever de salvar vidas também, pelo direito sagrado de ser feliz como eixo norteador, sendo essa a sua magna estratégia e orquestração
12)-Itarareense não tem projetos. Faz do apelo à imaginação o seu sonho, o que torna sua espiritualidade rica, como um soma para um interativo projeto de construção de uma vida melhor, um mundo melhor, uma peregrina busca evolutiva de todos por todos, todos por um e o uno, razão e fim, é a Estância Boêmia de Itararé
13)-Itarareense não tem princípios. Faz da adaptação a todas as circunstâncias, o seu próprio princípio e conceito existencialista de conviver e viver com solidariedade e muito humor, inclusive etílico
14)-Itarareense não tem tática. Faz da aceitação da escassez e da abundância, uma coisa só, uma tática de semear constantemente, no amor e na dor, servir sempre, prosperar e enriquecer inclusive em conhecimento, conteúdo e ainda em filosofia, até porque, a magnífica grandeza de Deus usa os boêmios para confundir os sábios e os artistas na arte como libertação
15)-Itarareense não tem talentos. Faz de sua hilária imaginação fértil, um talento laborioso de edificar com graceza e prazeirança a suntuosa árvore da vida
16)-Itarareense não tem amigos. Faz de sua mente e de seu coração, sua arca vivencial por um humanismo de resultados, portanto sabe que toda vida na face da terra e do céu, é uma alma amiga
17)-Itarareense não tem inimigos. Os inimigos é que os têm
18)-Itarareense não tem armadura. Faz da benevolência, da caridade e da ética plural-comunitária, a sua armadura, e sabe que viver é lutar, então não foge à luta
19)-Itarareense não tem espírito. Faz do território pluridimensional de todas as vidas, o seu campo de lavanda, onde a perseverança é sua área de sobreviver, sua busca para dar frutos, dar flores, semear poemas, serestas e bebemorações
20)-Por fim, Itarareense não tem paraíso, até porque, Itararé não é um lugar, é uma terra da fantasia, uma terra do nunca (nunca a esqueceremos), Itararé é um lirial celeste aqui mesmo, Itararé é uma idéia, um triunfo, um estado de espírito. No campo de estrelas de Itararé, fazemos nosso céu, nosso abençoado chão, porque o que somos é a grande raiz de onde viemos, e para onde formos levamos quem amamos, então, se do céu de Itararé viemos, ao chão de Itararé voltaremos, esse é o perene Código Vital de todo Itarareense que é andorinha grande, andorinha sem breque, um verdadeiro Taperá!
-E quem for Itarareense que siga.

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Poeta Silas faz um manifesto código de Itararé, um dos bairros populares mais populossos de Teresina. Foto: vista aérea do Itararé (portal AZ).
Silas Correa Leite (Poetinha) -mail: poesilas@terra.com.br – Blogues: www.portas-lapsos.zip.net ou www.campodetrigocomcorvos.zip.net - Site: www.itarare.com.br/silas.htm

arco-íris

Edmar
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