quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

REFORMA ORTOPÉDICA

Edmar Oliveira

Passo um tempo enorme tentando aprender um pouco dessa complicada língua da mãe gentil e eis que me aparece uma reforma ortográfica, vez por outra, para aumentar o meu, já difícil, ofício de escrever. Aviso logo aqui que as regras desta nova reforma não serão obedecidas até meu editor de texto ser programado para tal. Se escrevo freqüentemente, já sem o trema, o computador corrige automaticamente para a forma antiga que é a que vigora. Assim como se eu tiver a idéia de tirar o acento da minha idéia, ele automaticamente acentua. Portanto, vos aviso que não vou ficar brigando com meu editor de texto para continuar escrevendo. Quando ele for reformado, me reformo. Mesmo para falar da atual reforma escrevo sem seguir suas regras ainda. Assim sendo, lá vamos nós, com o cacófato e tudo (prefiro este ao cacófago, embora escreva merda, vez em quando).
Primeiro vão acrescentar três letras que nunca saíram dos teclados. Estão lá k-w-y que não me deixam mentir. Tiraram o acendo dos vôos (voos), que já eram estreitos; o chapéu dos que crêem (creem), em sinal de respeito; o livrinho dos que lêem (leem), parece que para exercitar a leitura na tela do computador, onde não gosto de ler. Tive que voltar todas às vezes para tirar a acentuação gráfica. Por isso desisto daqui em diante.
O sinal que marcava o hiato com o ditongo anterior dançou na feiúra do Bocaiúva (tirem o sinal vocês, que meu computador não permite). A epopeia da jibóia e a ideia de assembléia foram suprimidas (neste caso, epopeia e ideia o computador me permitiu, embora sublinhasse em vermelho pra dizer que escrevi errado, mas jibóia e assembléia ele acentuou automaticamente, o que entendo ser um ninho de cobras).
Não há mais diferença entre para Pedro e Pedro para. A preposição do verbo não se difere mais (alguém duvida da confusão aqui?). Pelo, substantivo, passa pelo mesmo problema.
E o trema, completamente abolido, vai fazer as próximas gerações pronunciarem tran-QUI-lo e não mais tranqüilo, deixando argüida a pronúncia horrorosa. O pingüim não fica mais charmoso em cima da geladeira. O trema é chique, sem trema é brega, e é um pinguim qualquer (expressão nordestinha de pinguinho de merda).





O semiárido fica extraoficial sem hífen. O sub-humano continua super-homem, que ninguém teve coragem de tirar a barra forte do surper-herói. Aqui a confusão é completa e nem tenho esperança em aprender antes de outra reforma.


A fortuita dúvida fica no déficit ou deficit de clitóris ou clítoris. Compreenderam que nem só o hífen e o hímen são complacentes? Acho que não tenho mais idade pra me acostumar com essas esquisitices dessa reforma ortopédica, que me enfaixa os dedos com medo de escrever...

Um comentário:

Ana Cecília disse...

bom, como dinossaura, só posso concordar e assumir minha mais que futura ignorância...
Me lendo, quem me ler, no mínimo, vai saber que um dia soube alguma coisa escrever!