terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Estação Teresina



Geraldo Borges


Estou dentro de um trem, ao lado de uma janela, é um trem fantasma, que se dirige para a estação Teresina . Venho de volta de outro mundo, agora é para ficar, quando desço a estação não vejo ninguém me esperando, quem havia de me esperar... se eu não tinha combinado com viva alma. O trem resfolegava seus últimos estertores, as rodas estridentes ruíam os trilhos, comendo faíscas. Parece que tudo se esfumou.
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Resolvo sair do vagão de passageiros, coloco os pés na plataforma. São quatro horas da madrugada. A estação está deserta. Olho em volta. Parece que sou a única pessoas ali. Começo a andar para sair da estação, que tem teto bastante alto e janelas gótica. Mas para aonde vou? Meus pais estão mortos. Nossa casa já não existe mais, desmoronou. Bom. Nesse caso vou me refugiar em uma pensão, uma modesta hospedagem.
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Enquanto ia pensando cheguei perto de um táxi, que estava estacionando em fila ao pé da calçada; foi aí que me dei conta de que estava com as mãos abanando. Havia esquecido a minha mala no trem. Ouvi um passageiro, que saiu do nada, dizer. Gente, ele viaja sem bagagem. Tomei um susto. Onde estava a minha bagagem?
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Dei meia volta. Entrei no meu vagão. Procurei a mala em todas as prateleiras, debaixo do meu assento. No colo de um fantasma que tinha estado ao meu lado. Não a encontrei. A mala vinha cheia de presentes para os meus irmãos e velhos amigos.
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Começou a chover. Agora estou dentro do táxi ao lado do motorista, que dá marcha no carro, arranca, e liga o para – brisa.
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No espelho que vai se clareando eu me vejo correndo na rua Campo Sales, atrás de uma bola de meia, jogando peteca, empinando papagaio, pegando passarinho De repente a adolescência,a descoberta do corpo feminino, os dezoitos anos, o exercito, a vida dura da caserna, a continência, olhar a esquerda, a direita, a volta a ávida civil, as viagens pelo mundo, pois o Brasil é um mundo, os desencontros, as cartas esquecidas, sem respostas, os endereços perdidos,a volta à terra natal.
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Esqueci de dizer ao motorista qual era o meu destino Na verdade estava ainda sem saber para onde ia. Onde o senhor vai ficar, o endereço, ele perguntou. Leve-me a uma pensão modesta, Já não conheço mais a cidade. Está com mais de quarenta anos que não venho aqui. Uma pensão modesta de preferência, desta em que se hospedam caixeiros viajantes, na beira do rio Parnaíba. O motorista disse. Temos hotéis cinco estrelas na beira do rio Poty. Não. Prefiro o rio Parnaíba. O motorista riu. Só riu. E rodou comigo um bom tempo pela cidade que eu não conheço mais, debaixo de chuva corisco e trovoada.
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A chuva parou de repente. Notei que a cidade estava cheia de arranha – céus e asfalto, e se escancarava luminosa como uma dama da noite no meio das lâmpadas do Natal. O motorista me perguntou se eu era filho da terra, daqui da cidade. Sim. Respondi. Estou voltando para sempre. E a minha última estação. Seja bem vindo, ele disse.
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O motorista parou à porta de uma pensão na rua Paissandu. Desembarquei. E como nos filmes americanos não precisei pagar a conta do táxi. O taxista me deu boa noite e desapareceu, sem tirar a minha bagagem do porta - mala. O dia estava amanhecendo. A dona da pensão não me recolheu, não arranjou um aposento para mim. Observou-me de alto a baixo, desconfiada. Perguntou-me pela minha mala. Esqueci no trem, desapareceu. Ela disse, conte esta história direito. Em Teresina não existe mais trem. Fiquei andando pela cidade até que o dia amanheceu. Aí acordei e vi que tudo não passara de um sonho em busca de uma cidade perdida que jamais se dará ao prazer de ser redescoberta a não ser pelo própria decida aos abismos de suas ruínas.

2 comentários:

requiem for hering disse...

você poderia até transformar esse texto em uma música daria um "blues" f.......


abraço

Paulo Tabatinga disse...

Poxa, que viagem transcendental.