quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Superfície

Vivian Pizzinga

Naquele calor da tarde, olhou bem para sua mão. Era uma mão fina, branca, os dedos longos, mas algumas pessoas achavam-na pequena. Para ela, era uma mão longa. Olhou seus dedos. Cinco dedos. Em uma mão. Colocou a outra ao lado, agora somavam-se dez dedos. Mexeu-os, sentiu-os. Pareciam seus, pois os sentia, mas quando os via mexendo-se, pareciam outros, de outros, seres, bichos. Eles a incomodavam, agora que se mexiam. Não sentia como partes suas. Na verdade, sentia o calor da tarde aumentar pela simples presença daqueles dedos em contigüidade às suas duas mãos. Para que tantos?, pensou. Eram muitos e nem sempre necessários. Quanto maior a superfície da pele, mais problemas. Calores, frios, suores, coceiras, sujeiras... quanto mais superfície, mais possibilidade de sentir todas essas estranhas sensações. Mas era certo que escrever, tocar violão e pegar coisas, objetos quaisquer, podiam ser ações levadas a cabo graças àqueles cinco dedos da mão direita e aos cinco da mão esquerda. Sim, ela sabia que tinham uma função, porém o caso agora era ponderar se sua função trazia mais utilidade do que o incômodo de sua existência. Mexeu-os novamente para relembrar o que sentia. Sim, eram um incômodo, eram um estorvo. Mas não tê-los poderia ser prejudicial demais. Alguns daqueles dedos seriam necessários e, dando-se conta disso, começou a avaliar quais deveria possuir, quais eram indispensáveis, e quais nem tanto assim.

Olhou mais atentamente para o dedo mindinho de uma das mãos. Tão frágil e tão inexistente... era o que menos tinha a oferecer, mas, por outro lado, em termos de superfície a mais, era o que menos incomodava. Então, quanto mais útil, mais irritante também! Difícil decisão. Pois ela queria selecionar os dedos que deixaria na mão e aqueles dos quais se livraria, sem remorso nem apego. Cogitou: e quantas pessoas por conseguem viver anos a fio de suas existências sem ter os dedos, ou sem tê-los todos, ou sem tê-los completos? Por que ela não podia viver assim também? A perda de um dedo não significava para tais pessoas a perda da vida. Mas, com certeza, seria uma existência diferente. A existência de quem não tem um dedo ou de quem não tem alguns dedos, ou, enfim, de quem deixa de ter quase que a totalidade dos dedos. De qualquer modo, cada existência é diferente da outra, ela pensou, satisfeita com suas reflexões. A existência de uma mulher com orelha furada é, na certa, diferente daquela que não a tem, ou que não o tem, a ele, o furo, e menos ainda aos brincos, ou os têm, mas de pressão. A sensação de ter um brinco de pressão muda toda uma vida e determina toda uma rotina. Pois assim é também com pessoas calvas e com cabelo. Poder fazer um rabo de cavalo ou se incomodar com o calor no pescoço, isso era determinante de uma vida! E os dedos? Sua ausência também determinaria algumas coisas, mas não necessariamente piores do que aquelas determinadas por uma franja que tapa metade da visão ou que faz cosquinha no sobrolho. Em tempos de computador e internet, a ausência dos dedos faria uma certa falta. Talvez mais falta do que o furo na orelha, ou do que brincos na orelha, ou do que franja no sobrolho. Entretanto, e ainda assim, quantas e quantas pessoas não tinham o que fazer com os dedos, por não terem teclados à disposição, ou, então, quantas e quantas pessoas são capazes de usar o teclado dos computadores com apenas dois dedos? Sim, chegou à conclusão, então, de que ao menos dois dedos deveria deixar. Pois até morrer, haveria muitos botões a apertar e nem sempre isso seria fácil de fazer com o cotovelo. Ou com a ponta do nariz. Embora houvesse tais opções. Além de tudo, havia as coceiras. Estas surgiriam menos, uma vez que não sentiria nunca mais coceiras nos dedos, porém, se precisasse coçar alguma outra parte do corpo, ter um dedo, ou pelo menos dois, faria uma grande diferença e poderia salvar uma vida!

Agora... que dedos tirar? Ela os olhou novamente e mexeu-os. E novamente, a sensação de incômodo. Incômodo por vê-los ali, mexendo, e o desconforto era por senti-los como outros, embora estivessem executando o movimento porque ela, de alguma forma obscura e incerta, comandava silenciosamente. Mas, quando os via mexendo, tinha a sensação muito clara de serem bichos, ou outros seres, que estavam em continuidade à mão, eram prolongamentos inacessíveis de seu próprio corpo e que quase ganhavam autonomia. Não, não se sentia bem com aquilo, e mais do que certo era que os cortaria fora, pelo menos alguns deles. Pois, mesmo se os que sobrassem ainda mantivessem a estranha sensação de seres intrusos em seu corpo, não formariam um grupo. Isso traria maior alívio, maior segurança. Porque quando via os dez dedos mexendo-se, de alguma forma percebia que eles tinham força, pela união que vinha do grupo. Sim, eram um grupo, e nisso ganhavam em vigor! Sentia-se então fraca perante aquele conjunto de dedos, seres prolongados de sua mão, seres outros em sua mão, intrusos do corpo em seu corpo. Mas, se fossem apenas um em cada mão, seriam solitários e distantes entre si. Ou, se deixasse dois em cada mão, ainda sim teriam um quê de abandono. Mais ainda: poderia deixar três em uma mão e uma em outra. Não seria nada mau essa falta de simetria!

Levantou-se então, sentindo uma gota de suor escorrer de seu pescoço pelo fio da coluna. Superfície do corpo! Que incômodo! Tinha então de sentir aquilo: todo aquele calor e mais o percurso da gota incerta. Intrusa estranha, mas fraca, pois se desfazia em algum lugar e não formava grupo.

Dirigiu-se até a cozinha, acendeu a luz, começava o lusco-fusco. Olhou ao redor. A geladeira. A parede. O fogão. A pia. Alguns copos secando. Um pano de chão amarfanhado. Alguma sujeira, sim. O teto. A janela mais adiante. Superfícies. Ao seu redor, coisas. Prolongamentos do mundo. Matéria feita de forma e bem acabada. Para que tudo aquilo? Para que os dedos? Estendeu a mão para a gaveta dos talheres e rapidamente retirou uma faca, dessas grandes, bem afiadas, de cortar carne. De cortar dedo. De cortar osso. De cortar veias, tendões talvez. Hesitou. Haveria dor, mas o objetivo compensava. Era destra. A mão direita era mais necessária. Porém, quanto mais necessário, maior o desconforto: lembrou do dedo mindinhomeio mole, meio inexistente, meio fraco, mas com pouca superfície. Olhou os dedos, as mãos, mexeu-os, e a faca estava em uma delas. Um prolongamento estático, que não se mexia, e que não era parte de sua pele. Um instrumento que brilhava, e os dedos, esses sim, formando um grupo que segura. Tinham poder. Botou a mão esquerda sobre a mesa, espalmando-a bem, separando os dedos. A lâmina encostou no dedo indicador, o mais sábio, o mais em riste. Começou a cortar.

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Publico o conto de Vivian Pizzinga por merecimento. A autora é competente. Conheci Vivian sensível com a psicose, por isso acho-a em talento na sensibilidade literária. O conto é grande, não é formato para essa rapidez da internet, mas aposte na dica! (Edmar)

Um comentário:

Ana Cecília disse...

Escrita de delicados dedos... muito bom e eu já conhecia!

Queremos mais!

bj

Ana