domingo, 20 de março de 2016

Lembranças redescobertas



(Geraldo Borges)

 O futebol fez parte da minha infância. Joguei futebol na Esplanada, terreno que ficava no fundo da estação ferroviária, ali, o chão era duro. Não tinha grama, puro lajedo, onde as lagartixas tomavam banho de sol. E como jogávamos descalços  queimávamos os solados de nossos pés. Mas a gente só sentia depois que acabava o jogo. Jogávamos no campo da Fiação, uma fabrica de tecido que existiu em Teresina e que ficava perto do rio Parnaíba. Jogávamos na Praça do Liceu. Tinha bastante grama, era uma baixada. As pessoas levavam os seus animais para pastar por ali; o logradouro era conhecido como Baixa da Égua. Jogávamos na Praça do Marquês, onde, às vezes, levantavam a lona de um circo para a alegria da meninada O cimento ainda não havia coberto o largo. Todas as praças de Teresina que não eram ainda urbanizadas serviam  de campo de futebol. Jogamos na Praça João Luis Ferreira, no tempo em que os pés de figueiras não passam da altura da gente, hoje estão ruídos de cupim e outros parasitas. Jogamos também na Rua Palmerinha no cruzamento com a Avenida Miguel Rosa, o trecho era tranqüilo, não havia asfalto, nem sinais de trânsito. Também jogamos futebol no estádio Lindolfo Monteiro, a nossa velha praça de esporte, que não tem a soberba de um Albertão, mas funciona até hoje. E é o verdadeiro símbolo social e arquitetônico da historia do futebol piauiense.  Jogávamos também no 25 BC. Alguns colegas eram filhos de militares.

Onde mais jogávamos futebol? 

Sim. Lembrei-me. Joguei, jogávamos  no campo do colégio Domicio Magalhães.Uma vez no final do jogo fiz um gol de cabeça, e o nosso lado venceu de um a zero. Fui aplaudido e tive meus momentos de fama. Joguei, jogamos, com bola de meia, bola de borracha de maniçoba, e com bola de couro. Para enchermos  a bola de couro usávamos a bomba de encher pneu de bicicleta.Torcíamos notadamente pelos times do Rio de Janeiro: Fluminense, Vasco, Botafogo, Flamengo. Eu torcia pelo Fluminense. Ouvíamos o jogo pelo radio do vizinho, que era doido por futebol. Pela voz do narrador imaginávamos as pegadas dos goleiros, os passos dos volantes, e todo  desenrolar do jogo.

Disputávamos campeonatos com os nossos  times de botões. O goleiro era uma caixa de fósforos  bem colocado no meio da trave. O jogo era uma brincadeira que preenchia boa parte de nosso tempo, e fazia com que os meninos da Rua Arlindo Nogueira e da Rua Palmerinha se aproximassem da gente de uma maneira mais amistosa. As vezes disputávamos corridas, rodeando quarteirões; o vencedor ganhava uma lata de goiabada, e o aplauso da turma.

  Tomávamos banho no rio Poti. Alertavam que banhar no Poti era muito perigoso, por causa do esporão de arraias enterradas na lama. Mas não ligávamos para isso.

 Naquele tempo a cidade de Teresina  era apenas um província limitada entre o rio Poti e o Parnaíba, com seus aspectos rurais e urbanos. Todo mundo conhecia todo mundo, e o nome dos  malucos da cidade que faziam ponto nas esquinas das praças, e discursos  ridicularizando políticos importantes. Era assim que eles se divertiam e faziam parte do jogo.

Para ser sincero não estou sabendo como  terminar esta crônica. Continuar jogando não dar mais. O jogo hoje é outro.  Acabou-se a brincadeira.





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