quinta-feira, 19 de março de 2009

Velhos no Parlamento




Geraldo Borges

Quando o corpo se abate ao peso dos anos, e as molas da máquina estão usadas, oblitera-se a inteligência, obscurece-se o espírito, delira a língua. Lucrécio.


Mesmo assim o pior da velhice não é o cidadão ficar velho, é envilecer, é não sair do palco na hora conveniente, com muita discrição, em busca de novas digressões . Podemos, biblicamente falando, alcançar a velhice a partir dos setenta anos, idade em que muitas nações concedem aposentadoria aos seus servidores.
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Por falar nisso os papas não se aposentam, seu cargo é vitalício. Eles ficam benzendo de sua janela no Vaticano por muito tempo. Estão cheios de graça. Os padres nas suas paróquias, dioceses, e em outros serviços da Igreja possivelmente aposentam-se aos setenta anos de idade. Não tenho certeza. Celebrar missa é dureza, o discurso é muito repetitivo, e o vinho vai ficando envinagrado... E, além disso, a Igreja precisa renovar os seus padres.
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De padres vamos saltar para políticos de carreira, velhas raposas. Aqueles que dizem a Nossa Casa, e jamais abrem a boca para dizer a Casa do Povo, e colocam fosso na entrada da Casa, com medo da plebe. Eles deviam se compenetrar, que, além de agentes políticos, são também agentes públicos. Mas não se satisfazem de mamar nas tetas da viúva, de participarem das politicagens e picaretagens. Envelheceram com este comportamento. E nem se dão conta que já deviam ter pedido o chapéu e saído do palco.
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Muitos deles estão tropeçando no tapete, gaguejando, falando com tremeliques. Não se convencem de sua decrepitude. De sua senilidade... Alguns borram o rosto e o cabelo com muita maquiagem; mas a pele não agüenta tinta. E logo se estorrica de novo.
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Fala-se muito em idoso, neste país tão jovem. A Câmara e o Senado está cheios de idosos. Pena que não sejam velhos sábios... Um velho político, que Deus o tenha, e perdoe nuas malvadezas, ficou no Senado até morrer. Tinha filho político. Agora tem neto. Nunca quis se aposentar. Era um velho turrão. A velhice parece que piora os nossos políticos, enquanto mais velhos mais finórios. O pior de tudo é ser um político velho e velhaco...
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Por que eles não se aposentam aos setenta anos de idade para não serem flagrado dormindo, babando, no plenário? Que miséria. Mas já se acostumaram. Pensam que estão na Casa deles. Se fossem velhos sábios pediriam o boné e deixariam o palco. Podiam até fazer um bonito discurso de despedida. Muita gente iria gostar e bater palmas, até soltar foguetes
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Muitos deles continuam ao lado dos filhos num contraste de gerações, velhas múmias da ditadura, que nada mudaram. Os filhos vão envelhecer imitando os pais. Velhos caciques da aristocracia rural. Jamais terão a coragem cívica para dizer: meu pai já chega, a sua hora chegou, sai daqui, pegue o seu pijama, sua preguiçosa, seu cachimbo, e descanse na varanda de seu castelo. O senhor já tem muita mordomia. Se o pai ouvisse este discurso, cairia na gargalhada. E diria, seja mais esperto, meu filho. Quando você ficar mais velho você vai entender melhor e fará tudo para nunca perder o seu mandato. Como é legal a volúpia do poder; se fosse possível sermos senador vitalício. deputado vitalício, ou biônico, como nos velhos tempos.
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Ilustração: Humberto para o Jornal do Commercio de Recife

Um comentário:

Sandra Chaves disse...

Muito bom o texto, fantástica a ilustração.
Aliás,no que li até aqui, não vejo nada de repetitivo...A não ser o que o é mesmo. A vida e a História o são .
Bj, Sandra.