domingo, 10 de janeiro de 2016

TROQUE SEU SMARTPHONE POR UM BEBÊ

ilustração: 1000TON


(Edmar Oliveira) 


A humanidade começou a se desinteressar por sua continuidade. O alarme veio do Japão. Aquela terra tão miúda, que nos meus tempos de juventude preocupava era a quantidade de gente que havia por lá.

Pois bem, as folhas noticiam que o governo japonês está criando espaços públicos para namoros coletivos. Os espaços visariam facilitar o encontro de jovens para que uma relação estável possa acontecer e com isso promover um acasalamento. Apostam que os afetos promovidos nesse acasalamento possam gerar filhos. Uma coisa que acontecia normalmente com tanta frequência, que levou os chineses a limitarem um filho por casal. Essa proibição chinesa também já foi abolida – talvez acompanhando o que acontece no Japão.

O que os japoneses descobriram é que a taxa de natalidade vem caindo assustadoramente. O modo de vida moderno tende ao individualismo e às relações virtuais através dos aparelhos interativos que foram impostos à vida moderna. Basta um indivíduo e um smartphone para uma relação digital com o mundo. Com isso o contato entre dois humanos, de forma analógica – digamos assim – caiu vertiginosamente. As relações entre duas pessoas são efêmeras e necessárias às relações sexuais – cada vez mais bissexuais também – desprovidas de interesses mais profundos necessários à geração de outros humanos. Hoje, no Japão, um quarto da população já tem mais de sessenta anos. Estima-se que em cinquenta anos – mantido o ritmo atual de natalidade – essa relação ultrapasse os cinquenta por cento. E certamente isso inviabilizará a economia e os programas sociais para sustentar os velhos.

Assustadoramente poderíamos viver a solução preconizada em um antigo filme de ficção, cujo nome não me lembro agora. No filme, a terra no futuro estava devastada não permitindo a agricultura e pecuária. Então, os velhos – chegada à idade estabelecida, como naquele também antigo desenho dos dinossauros – eram levados a uma sala de cinema, com lindas imagens do que a terra fora um dia, para morrerem lentamente e sem dor – recordando o belo passado que a humanidade foi um dia. Eram então processados industrialmente para alimentar os mais jovens que viviam até o momento de virar a própria comida. Este era o segredo do filme, para nós espectadores. No filme matavam-se os velhos para alimentar aos vivos. Na vida real podemos ter que matá-los para alimentar a economia.

Parece que os japoneses estão preocupados com a ideia da solução final que talvez seja aplicada aos nossos velhos que teimam em viver além do que permite a economia.

(Seria melhor algo diferente do que ocorre aqui entre nós no combalido sistema de saúde sem o aporte de verbas suficientes. Com menos sofrimento, pelo menos).

E eles identificaram o problema na relação doentia entre os jovens e suas máquinas digitais. Oxalá as casas de encontro públicas, que os japoneses estão criando para resolver o problema de aumentar a taxa de natalidade entre os jovens, deem resultado que evitem uma tragédia na terceira idade. O problema não é só do Japão, mas de toda a porção “civilizada” do planeta.
Certamente você já viu um casal num restaurante, que ao invés de estar num agarra-agarra ou mesmo conversando, estão com dedos e olhos nos smartphones maravilhosos, preferindo os encontros digitais aos, digamos, analógicos. E, se os japas estiverem certos, teremos menos nascimentos mundo afora, ameaçando a própria humanidade.

Curioso, se não hilário, foi o indicador econômico que disparou a desconfiança dos japoneses de que estavam nascendo menos crianças do que a quantidade de velhos que teimam em viver: a quantidade de vendas das fraldas geriátricas passou a ser maior do que a venda de fraldas para bebês. Uma merda de indicador econômico, mas eficiente.  


Talvez um aviso como o do cartaz “Não temos wi-fi, conversem entre vocês”, colocado nos ambientes em que não é permitido fumar, tenha a mesma eficiência do que as casas de encontro japonesas. Ah!, e poderia ter um adendo: “é permitido fumar para quem estiver num relacionamento sério com o parceiro do lado”. 




Um comentário:

Célia Amin disse...

Adorei o seu Texto Edmar. Parabéns!