domingo, 24 de janeiro de 2016

AQUECIMENTO GLOBAL NO PIAUÍ

desenho:  Izânio Façanha
em: http://izaniocharges.blogspot.com.br/search?updated-max=2011-10-02T10:36:00-03:00&max-results=7&start=7&by-date=false

(Edmar Oliveira)

Com a elevação da temperatura no globo terrestre, cientistas avaliam que, em breve, algumas regiões da face da terra serão impróprias à vida humana. Uma dessas faixas pegaria a savana africana, próxima ao deserto do Saara, já ele inabitável – a não ser por beduínos nômades, que encontram aqui e ali um oásis onde podem recompor energias.

Eu me pergunto é quando Teresina entrará para essas faixas inabitáveis. Toda vez que eu volto à terra, sinto um calor maior. E não parece que estou inventando. O calor domina, cada vez mais, a reclamação de todos, que só minora em goles inevitáveis de uma cerveja bem gelada, que só é gelada assim nos botequins de Teresina. As cervejas que têm me socorrido, cada vez mais com maior frequência, são empoadas ou passadas na farinha, como se diz por lá. E parece que o calor, cada vez também mais, ajuda no choque térmico que proíbe a cerveja supergelada de congelar. Precisa só da habilidade do quitandeiro fazer uns movimentos ritmados, que impedem o congelamento. E isso cada um faz melhor do que o outro.

Mas me preocupo com o tempo em que o excessivo calor proíba a ida das pessoas aos bares. Tem um prefeito que adora derrubar árvores para que a cidade seja reconhecida como a mais quente do Brasil. Os planos para ampliar as pistas de rolamento da Avenida Frei Serafim pode dar fim a árvores centenárias que amenizam o clima. Não sei como está a situação de uma praça arborizada no Parque Piauí, que o prefeito queria fazer uma estação rodoviária – derrubando as árvores, claro!

Nesse ritmo, o prefeito da serra elétrica promete antecipar o período de calor que inviabiliza a vida humana na cidade. O “efeito Dubai” para os mais ricos salvará apenas uma minoria endinheirada. Mas os cidadãos dos subúrbios não resistirão.

Chamo aqui de “efeito Dubai” a cidade de prédios refrigerados e carrões idem no chifre da África. Quase não se ver pedestres em Dubai, no seu calor de deserto. A parte da cidade nova em Teresina também é assim. Prédios e escritórios refrigerados e carrões também. O “efeito Dubai” não permite sentir o calor real. Preocupo-me com os ciclistas da cidade velha que pedalam dos subúrbios ao Mercado Velho. Ou com os viajantes de ônibus, que a câmara de vereadores acabou de proibir a refrigeração dos coletivos. Os edis querem o povo no quentão. Preocupo-me com os pedestres que insistem em andar no centro da cidade, onde até os casarões cinquentões e refrescantes foram transformados em estacionamentos sob o sol inclemente do equador.

Até a mangueira que fazia sombra na porta da minha antiga casa, na Campos Sales, não existe mais. E as mangueiras e oitizeiros do bar do Pernambuco no Mafuá, já estão deixando o sol interromper a sonolência depois de uma mão de vaca ou panelada na temperatura da gordura não congelar. A comida tem de ser bem quente, fria é a cerveja.

Não sei por quanto tempo a cerveja gelada nos salvará de habitar a amada cidade, que esquenta a olhos vistos e ao suor sentido. 













Um comentário:

Paulo José Araújo da Cunha disse...

O nome desse troço é P-R-O-G-R-E-S-S-O
Paulo José Cunha

Outro dia encontrei um colega, também piauiense, num café aqui na Asa Norte, em Brasília. Entre um gole e outro, falamos sobre o calor de Teresina. Lembrei que Carlos Castello Branco, o Castelinho, de quem fui colega na sucursal do Jornal do Brasil, dizia não se lembrar de sentir calor na Teresina do tempo dele. Eu também não. Só fui sentir calor em Teresina anos depois de me mudar para Brasília, quando ia passar férias por lá e o asfalto já recobria o calçamento. O amigo observou que a arquitetura moderna da cidade favorece o calor, em vez de evitá-lo. E explicava: "Eles entraram nessa onda idiota dos prédios cheios de vidraças, como que "chamando" o sol para dentro das casas e escritórios. Aí o sol entra e torra tudo. Os governos vêm substituindo paulatinamente os calçamentos de paralelepípedos pelo asfalto, que eleva violentamente a temperatura. E haja ar-condicionado. E haja conta alta de energia. E haja calor nas ruas". Comentei com ele que fui amigo de um grande historiador de Brasília, o professor Paulo Bertran, que comprou uma fazendinha na estrada para Pirenópolis em cuja casa a gente simplesmente não sentia calor nem frio em nenhuma época do ano. Equilíbrio térmico perfeito. O segredo? Paredes grossas, de adobe (material esnobado pelos arquitetos e engenheiros modernosos). E casas de pé direito alto, construídas em sintonia com o regime dos ventos e da posição do sol, favorecendo a permanente refrigeração dos ambientes.

Mas adianta pouco saber disso. Legal é imitar Dallas e espelhar tudo, inclusive matando dezenas de passarinhos encandeados pelas vidraças espelhadas. O hoje senador Cristovam Buarque me contou uma vez que, em Manaus, cidade onde impera o forte e abafado calor amazônico, pegou um táxi que tinha ar-condicionado. Na rua, cruzaram com outro táxi que ia com os vidros fechados e embaçados. Intrigado, Cristovam perguntou ao motorista por que o outro carro seguia com os vidros fechados naquele calor dos diabos. E veio a explicação: - Ele fecha os vidros para a gente acreditar que ele tem ar-condicionado!

Lamento informar que Teresina é que nem aquele táxi sem ar-condicionado mas com os vidros fechados. Querem nos fazer acreditar que estamos numa cidade moderna, embora, simplesmente, estejam nos empurrando, ao derrubar os velhos sobrados, as casinhas de deliciosa arquitetura, e recobrindo o bucolismo dos paralelepípedos - que serviam inclusive como redutor natural de velocidade - para a sucursal do inferno de onde brota, em ondas, um calor que nos cozinha os bagos e os juízos. Ah, sim. Pra completar a insanidade, dizem que o nome desse troço é P-R-O-G-R-E-S-S-O.