domingo, 14 de dezembro de 2014

Antes dos nazistas, Ceará tinha campo de concentração para pobres do sertão



Wilson Ibiapina

No começo do século XX, o Ceará criou campos de concentração para segurar os flagelados da seca para que não invadissem Fortaleza. O jornalista polaco Eduardo Mamcasz, que ouvia o pai dele falar de Auschwitz-Birkenau, uma rede de campos de concentração no sul da Polonia,  anexado pela Alemanha nazista, tomou um susto quando leu na Folha de São Paulo. Foi ele quem me chamou a atenção.  Será que os nazistas se inspiraram no Ceará?    
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Quando a lama virou pedra
E Mandacaru secou
Quando a ribaçã de sede 
Bateu asa e voou...”
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Foi aí, nos anos 30,  que os cearenses  abandonaram suas casas rumo a Fortaleza. Levas e mais levas de sertanejos  perambulando pelas estradas rumo à capital. Uns pegavam o trem, mas a maioria seguia a pé. Todos, com fome, com sede. Os mais fracos ficavam pelo caminho. A Folha de São Paulo dedicou  duas páginas para contar como foi que o Ceará criou campos de concentração no começo dos anos 30 para segurar os retirantes. Os cercados para confinar milhares de cearenses  e outros sertanejos de estados vizinhos, famintos, ficavam em seis municípios: Crato Quixeramobim, Senador Pompeu, Carius, Ipu e Fortaleza.  Os foragidos da seca eram colocados em currais cercados com  varas e arame farpado, próximos à estrada de ferro. Ali ficavam homens, mulheres, velhos e crianças, todos de cabeça raspada para evitar piolho. Alguns vestidos em sacos de farinha, com buracos para enfiar a cabeça e os braços.  A historiadora Kênia Sousa Rios conta no livro “Campos de Concentração no Ceará” que os cercados da capital viraram atração turística: “os visitantes doavam uma certa quantia em dinheiro aos enjaulados e dali saíam com a sensação de dever cumprido”.
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Fomos pioneiros
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O primeiro campo de concentração nazista -Dachau- foi criado em março de 1933 pelo governo de Hitler. Ficava numa fábrica abandonada próxima à parte nordeste da cidade de Dachau, a 15 quilômetros de Munique, no sul da Alemanha. Em 1932, um ano antes, em pleno governo de Getúlio Vargas,o Ceará  criava seus campos de concentração.
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Naquela época, Fortaleza via inaugurar o hotel Excelsior, um prédio que até hoje é considerado o maior em alvenaria do Norte e Nordeste. A cidade vivia momentos de progresso. O risco de ter a cidade invadida por miseráveis famintos e doentes enchia a elite de  pavor. A historiadora Kênia Sousa, escreveu num artigo que “a situação trágica mereceu uma atenção especial da burguesia caridosa e civilizada” Lembrando da invasão ocorrida na seca de 1877, o governo redobrou esforços para que a invasão bárbara jamais se repetisse. 
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Os alemães é que não sabem que essa história de campo de concentração é antiga no Ceará. O médico e escritor José Maria Leitão lembra que os primeiros campos de  concentração, no Alagadiço, em Fortaleza, Ceará, datam do fim do século XIX, coincidente com a famosa seca de 77 (1877), repetindo-se ao longo dos anos seguintes do mesmo século e entrando no XX.
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Rodolfo Teófilo conta na “Seca de 1915” que o campo pioneiro do Alagadiço, serviria de  piloto para os campos de 1930: “Era  um quadrilátero de 500 metros onde estavam encurralados sete mil retirantes”. A comida lá era rezes magras que morriam de fome ou de peste.
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Naquele inicio do século XX era praticamente proibido ser pobre no Ceará, principalmente em Fortaleza. O jornal católico O Nordeste anunciava o dia 17 de fevereiro de 1923 como o Dia das Extinção da Mendicância. A partir daquela data ser mendigo seria contra a lei. As ruas e praças da cidade não podiam ficar expostas a graves perigos de ordem moral. Os infratores seriam enviados ao Dispensário dos Pobres, sob a patrocínio da Liga das Senhoras Católicas Brasileiras.  Quem  lembra disso?


Um comentário:

Daniel Melo disse...

Excelente, cada vez mais sou apaixonado pela história do meu Estado.
Obrigado por compartilhar.