quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Histórias do Consiliábulo III

Edmar Oliveira

Quem lê essa folha já sabe. Quando vou na terra passo no Conciliábulo para ouvir umas histórias e histórias do Conciliábulo e de Oeiras são as quentes. Porque histórias acontecidas em Oeiras já são engraçadas por natureza. Desta feita o Tadeu, oeirense ilustre, diz que nos anos sessenta já vinha uma briga de longe entre os Carvalhos e os Tapety, que perdura até hoje. O Valmor Carvalho se elegia a deputado estadual em mandatos consecutivos, graça a um diferencial de votos que tinha num povoado das redondezas. Porteira fechada, fazia o negócio com os votos, o que a oposição chama de curral eleitoral, dando uns agrados em dinheiro ao líder comunitário. Aquele curral era o diferencial que o elegia em mandatos consecutivos. Mas na eleição de que estamos tratando o Carvalho foi surpreendido por um pedido diferente do chefe comunitário. Dizia o caboclo ao nobre deputado que naquela eleição não queria dinheiro, mas um favor pessoal: estava para nascer seu primeiro filho e sua esposa queria que o presidente Kennedy fosse o padrinho. Carvalho se apavorou e pediu que o caboclo reconsiderasse, que o homem era o mais importante do mundo, vivia lá muito longe nas Américas e tava muito preocupado com a guerra do Vietnã e, portanto, era muito difícil atender o compadre. O caboclo olhou desconfiado para Carvalho, como quem diz que deputado pode tudo e aí tascou: “se não der, o Tapety passou por aqui e disse que faz...” Carvalho se desesperou, sem aqueles votos perdia a eleição e então pediu ao caboclo que esperasse, que ele ia ver o que podia fazer...

Saiu dali urdindo um plano. Tinha um primo dono do cartório de Oeiras e aí fez uma procuração falsa na qual John Kennedy passava plenos poderes para o Carvalho ser o padrinho no seu lugar, e uma carta dizia do aceite do presidente americano, que o afilhado recebesse uns presentes do padrinho que o Carvalho levava e logo, logo, que a guerra do Vietnã desse uma trégua viria até Oeiras vê com os olhos e pegar no colo o afilhado. O caboclo, em sendo assim, confiava no deputado e aceitou a proposta. Carvalho entregou um berço, uns brinquedos e até uma bicicleta nova pro moleque. Tempo que segue, o moleque nasceu e Carvalho ganhou de novo a eleição.

Quando assassinaram John Kennedy o caboclo ouviu no radinho de pilha e chamou o deputado que foi lá levar solidariedade, que o padrinho só não veio porque foi assassinado, que esses desalmados do Vietnã são comunistas impiedosos. O caboclo ficou cabisbaixo e a comadre do Kennedy desandou a chorar um pranto inconsolável. Carvalho argumentou que a comadre parasse disso, afinal ela nem conhecera o homem que morreu lá do outro lado do mundo e já tava enterrado. A comadre chorando ainda se explicou pro compadre Carvalho: “eu tô chorando é de pena da comadre Jaqueline ficar sozinha nesse meio de mundo, largada e com duas crianças pra criar...”

3 comentários:

Paulo Tabatinga disse...

Edmar, essa é ótima. me faz lembrar da maravilhosa ingenuidade nordestina - coisa que a gente quase não vê mais.

angela disse...

Deliciosa essa história.
Estou pensando em postar o poema que seu Haikai inspirou e gostaria de publicar tudo junto, a foto seu poema e meu comentário, com os devidos creditos , é claro. Estou pedindo seu consentimento para faze-lo. Caso não tenha objeção poderia me avisar pelo meu e-mail:
dimunnoangela@gmail.com.
beijos

alexandrecarvalhoalex disse...

Caro Edmar,
Adorei a viagem do trem fantasma. Por falar em Campos Sales, foi lá que nasci. No meu livro "Fogoió D'água Doce" a chamo de Avenida da Alegria. Hoje é a via das tormentas. Transito insurpotável, assaltos, muito comércio e quase não tem mais residencias.Mesmo assim, minha adorada mâe com 88 anos ainda teima em viver por lá.
Foi muito bom conhecer seu blog. Vou ficar freguês.
Abraços...Alexandre Carvalho...