domingo, 24 de novembro de 2013

Minha irmã

(Edmar Oliveira)

Quem me ver assim mal acabado, meio torto, empenado, sempre fracote não faz conta que fui um dos treze filhos de mãe que vingaram. Eu e meus sete irmãos somos dos fortes. Pelo menos os mais velhos, pois os mais novos já tiveram a ajuda da medicina da capital. Teve eu de um primeiro parto no sertão, às beiras do Parnaíba. Depois de mim, um perdido. Meu irmão e minha irmã mais velha, mas separada de mim por quatro anos. Depois vieram outros quatro que vingaram, entremeados de uns tantos perdidos ou abortados antes de serem anjos.

Mas depois de mim e o Edivaldo, minha irmã Eliane eu lembro bem lá nos tempos de Codó, no Maranhão. Uma menina magrinha, branquela, mas com uns cabelos alourados e cacheados que a transformavam em cópia, para os meninos da rua,  de uma estrela do cine São Luiz. Eu e meu irmão tínhamos o dever de protegê-la e nos orgulhávamos da tarefa. Fomos crescendo feito uma escadinha em cujos degraus ali no Maranhão chegou meu irmão Maioba. Edinha, a única de nós genuinamente maranhense, voltou muito pequena para Teresina, onde Moisés e Ana chegaram bem separados de nós no tempo.

Mas de todos, eu e minha irmã éramos os mais magros, os dois que herdaram os ossos fracos da família, mas não éramos assim tão doentes. Tínhamos a convicção que éramos parte dos que vingaram. Minha irmã nunca se queixou de nada. Começou a trabalhar cedo, casou e foram morar uns tempos no litoral, na Parnaíba. Eu vim embora pro sul maravilha. O nosso contato ficou por conta das férias e de nossos filhos que têm a mesma idade e conformação. E passamos algumas férias juntos unidos pelos filhos. 

Soube que ela teve uma tuberculose vencida como os fortes são capazes de fazer para manter a vida no sertão.

Depois soube da aventura que a família de minha irmã empreendeu num fusquinha, cortando o Brasil no cumprido, vindo fixar residência numa cidade do Rio Grande do Sul.

As notícias escassearam, ficamos meio distantes, embora eu tenha ido uma vez lá e ela tenha vido aqui certa feita. Mas hoje eu choro por mais contato nesta vida que é muito curta, mesmo para os fortes. E me arrependo de não ter tido mais tempo perto da minha irmã. Quando ela ficou doente agora fui visitá-la, encontrei-a em coma num hospital com os melhores padrões da medicina brasileira. Sei que ela está bem cuidada, mas temi pela gravidade do quadro. Naquele instante, na beira do seu leito de hospital, só consegui dizer – meio com raiva – que ela estava furando a fila. Tinha dois irmãos que deveriam morrer antes dela pela lei de chegada na terra. A minha dor foi muito grande. Era como se tivéssemos nos desgarrando para sempre...   

   

Um comentário:

Marina Oliveira Tabosa disse...

Que palavras!
Minha mãe tem sido a inspiração de tantos textos, mensagens e homenagens nos últimos dias. Cada vez mais, me dou conta de que foi um prazer, um privilégio e, acima de tudo, uma honra conviver com ela pelo tempo que me foi permitido.
Obrigada, meu tio.
Marina Oliveira Tabosa.