domingo, 9 de janeiro de 2011

Calango






Edmar Oliveira
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Outro dia entrei no diabo duma teima com uma amiga minha. A moça talvez tenha se impressionado com meus (poucos) atributos “raciocinantes” em contraste com meus deficientes atributos físicos (se é que aqui eu tenha alguma coisa a ser chamada de atributo. Talvez o correto fosse distibutos - se existisse a palavra). Tentei chamar atenção de que o que talvez a impressionasse fosse apenas o efeito do contraste, porque também se eu tivesse um distributo mental, melhor seria nascer feito um pé de alface. Pelo menos seria comível pela moça que faz dieta.




Voltando a teima, a moça insistia que eu tinha um equipamento mental privilegiado, como se isso me distinguisse do calango, como carinhosamente preconceituosa ela me tratava. Acho até que a tese fazia parte de um preconceito maior de se achar exótico um calango pensar.




Discordava no meu humilde raciocínio “calanguístico” (balançando a cabeça nervosamente) de que o meu azar era não ter um atributo “mentalísco”, mas apenas sabia encher o meu pobre e roto balaio pensante com informações culturais que me interessavam e que, às vezes, nem tinham qualquer serventia. Ela insistia num diferencial em mim, espantada que aquele “bicho feio” fosse capaz de discordar com razoável argumentação de um ser superior.




Insistia num DNA familiar. Eu olhando minha árvore genealógica, que se parece a um mandacaru cheio de espinhos e dois ou três ramos (certo que as vezes tem uma flor maravilhosa), não via galhos de inteligência que justificasse o meu raciocínio herdado, que mais insiste em teimar do que opinar positivamente sobre alguma coisa.




Até porque acho, como já disse o filho de um amigo meu, que a genética transmite é doença e não talento, o que também não adquiri, apesar do esforço usando meu atributo pouco desenvolvido. E teimando digo, balançando a cabeça como uma labigó: não difiro em nada dos meus conterrâneos. Talvez um pouco mais pretensioso de se atrever a discutir com a moça. Mas somos todos calangos. E calango teima, tem opiniões e insiste em existir como um ser pensante no ambiente hostil em que o preconceito nos reserva. E Paraíba é o rio que corre na vossa terra, quem nasce na Paraíba é paraibano e eu sou piauiense. Dito, balanço a cabeça, sacudo o rabo e desapareço entre as pedras do desentendimento.

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desenho calanguistico: Gervásio

3 comentários:

Netto, de Deus disse...

Meu carambolo(em Campo Maior, é)preferido, tá bunito pra carai(Ancião) este PIAUÍNAUTA!!!!
Ih, me empolguei tanto que nem me dei conta de que se trata mesmo é duma TIJUBINA, rapaz!!!! O Gerva, mais uma vez, arrebentou por ter feito o genial desenho lá da "blogosfera da Estação Espacial - dêxe jeito, até eu e o fotógrafo japonês que passou por riba do Piauí e não tirou retrato das coroas do que restou do Velho Monge....Quááá, Paulo!

Patricia disse...

Nossa, como ficou bonito o layou novo!!!

Anônimo disse...

Mais uma vez concordo com o meu conterrâneo limabarretense Simão Curuca, existem blogs e bostas. O Piauinauta está na frente.
Chico Salles.