quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O Mistério do Tempo



Edmar Oliveira

Sabe daqueles dias que você fica em dúvida se teve uma idéia genial ou idiota? Tive um dia desses. Ou melhor, uma noite. Foi insone que esta idéia assustadora me veio à cabeça. Não ousei comentá-la com ninguém por muito tempo, até que numa mesa de bar, falando dela, meio sem graça, achei um parceiro que acreditava na idéia que tive. Pior, veio nele com as mesmas características da minha. E nem mesmo concordando, conversando muito sobre ela, deixamos de ter a sensação se aquela idéia - agora pelo menos comum de dois - era genial ou idiota. Nem mesmo consumindo bastante álcool, que é um veículo transformador de falsos argumentos em verdades absolutas. Continuamos na dúvida.




Vou enrolar um pouco antes de revelá-la, para evitar que você me ache um perfeito idiota e suspenda a leitura assustado. Na verdade, eu quero é a possibilidade de ter um terceiro ou quarto membro comum na dúvida, para que esta idéia possa circular mais um pouco e não seja destruída precocemente. E tenho minhas razões.




Me lembro, agora, que nas minhas aulas de catecismo, quando duvidei que Matusalém tivesse vivido quatrocentos anos, o padre argumentou com a relatividade do calendário para não desmentir as sagradas escrituras. Segundo o padre Anselmo, naquela época, o ano poderia ter menos dias que o ano juliano atual. Achei a explicação meio “Mandrake”, mas considerei que o padre tinha que defender sua crença e seu emprego de forma muito firme. Naquele momento, firmei a convicção que para ter fé era necessário inventar explicações para vários fatos contraditórios no livro santo. Minha fé foi se desmanchando entre fornecer a outra face para o agressor no novo testamento ou “o dente por dente” do livro antigo. Eu nunca tive tanta fé que me fizesse ir inventando argumentos ao sabor de histórias inverossímeis de Daniel na toca dos leões, dos sonhos adivinhatórios de José do Egito - que certamente explicariam os palpites do jogo do bicho - ou de andar sobre as águas, que no outro livro foram divididas ao meio por Moisés. Por vários destes exemplos - até os delírios expressos no Apocalipse - achei a história dos judeus inconciliável com os adeptos do Cristo. Mas isto já são outros quinhentos, como gosta de argumentar um contador de histórias, para com a mesma história fabricar outras. Mas porque fui me lembrar agora do argumento do velho padre Anselmo?




Porque acho que ele chegou perto da explicação, pois a idéia que me intrigava no presente já podia ter ocorrido no passado. Se ele concordasse com a minha idéia agora diria a frase que corrige os erros dos que tem fé: Deus escreve certo por linhas tortas...




Muito se tem louvado a ciência para a longevidade dos seres humanos. Antigamente quem tinha cinqüenta anos já estava velho. Terceira idade nem existia. Ela foi inventada agora porque a quantidade de pessoas com mais de sessenta e cinco aumentou assustadoramente, inclusive ameaçando de falência os regimes previdenciários. E estes senhores de sessenta e poucos (ou muitos) estão aparentando mais jovialidade que os cinqüentões de outrora.




Pois bem, se cada dia corresponde à rotação da terra em torno de si própria e o ano corresponde à volta completa da Terra em torno do Sol, quem não me garante que estas velocidades estão aumentando? E em vez da humanidade estar vivendo mais, não seria a rapidez da passagem do dia que relativamente aumentasse a idade dos mortais? Estou convencido que de um tempo pra cá os anos estão diminuindo de tamanho. Este ano, que começou agorinha, já embalou sua rotação e daqui a pouco já é Natal, quando nem acabamos de festejar o São João. Desconfio que Antônio, Pedro e João, já, já, são santos que acontecerão no mesmo dia...




Se a maioria das pessoas começar a rir, chegando até aqui, pode ajudar a destruir esta idéia, antes que ela se cristalize como delírio. É que eu já estou caminhando, a passos largos, rumo aos sessenta e fico torcendo para ir vivendo, nem que ao preço de encurtar a relatividade do dia. Pode ser que o tempo vá encurtando só pra quem vai ficando mais velho, pelo medo de chegar aonde não quer. Mas que o tempo é um mistério, lá isto é verdade...

3 comentários:

Paulo Tabatinga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Tabatinga disse...

Edmar, concordo, e já havia pensado nisso. pode me incluir como a terceira pessoa, principalmente, nas últimas parágrafos do texto. também, eu, tenho a sensação de que o ano, agora, é somente a metade do de outrora.
Abraços apressados - antes que o tempo acabe.

Paulo Tabatinga

Sandra Chaves disse...

Primeiro você me fez lembrar de um trava línguas que todo mundo sabe:
"O tempo perguntou pro tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu pro tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem."

Como acontece comigo também, essa sensação é maior nos "entre 50/70"
Sensação ou não,melhor vivê-lo,tentar acompanhar seu compasso.
"Porque o tempo é uma invenção da morte:não o conhece a vida - a verdadeira - em que basta um momento de poesia para nos dar a eternidade inteira."
Mário Quintana