quinta-feira, 27 de agosto de 2009

HISTÓRIA DE MIL E UM AMORES





Cinéas Santos


Ao poeta Paulo Machado






Permitam-me iniciar esta arenga parafraseando Quintana: quem ama reinventa, a cada instante, a coisa amada. Só assim, o amor se faz “infinito enquanto dure”... Gosto de reinventar Teresina, imaginando-a uma colcha de retalhos costurada, carinhosamente, por milhares de mãos, mãos de todas as cores e procedência. A mão fidalga de José Antônio Saraiva assinando o decreto de transferência da capital da província dos ermos sertões de dentro para a esplanada da Chapada do Corisco; a mão firme de mestre Isidoro França traçando o quadrilátero inicial, sob um rústico teto de palhas; as mãos suaves do vigário Mamede Antônio de Lima abençoando a pedra fundamental da igreja do Amparo; as mãos ásperas de centenas de escravos sulcando a terra para plantar nela sonhos que não eram seus... Reinvento uma cidade luminosa brotando do chão da chapada, sob o inclemente sol de agosto, para tornar-se maternal e acolhedora.





Mas essa história já foi contada e recontada por historiadores, poetas e cronistas de reconhecido brilho. Nada tenho a acrescentar. Falemos, pois, do menino velho que, numa esplendente manhã de maio do ano de 65, foi despejado na Praça Saraiva onde ninguém o esperava. Falemos do sujo das estradas grudado nas retinas e do medo vazando por todos os poros. Falemos da cidade hostil onde mil esfinges gritavam em uníssono: “Decifra-me ou te devoro”. E o menino atônito, indefeso e só, ajoelha-se, no adro da igreja de N. S. das Dores, à espera do golpe fatal que, felizmente, não veio. Em vez do cutelo, a cidade lhe ofereceu colo...





É possível que essa história nunca tenha acontecido; que não passe de “ficção da memória” de alguém que, bêbado de luz e encharcado de bem-querer, tenha perdido a noção do que efetivamente aconteceu e do que poderia ter acontecido. Pouco importa: é preciso que se reinvente incessantemente a própria história para conferir-lhe alguma poesia.





Mas deixemos o menino velho em suas deambulações e falemos, ao sabor das lembranças, de algumas figuras notáveis que deram um perfil e uma identidade a Teresina. Falemos, pois, de: A. Tito Filho, o cronista da “Cidade Amada”, com aquele amor possessivo, quase passional, capaz de inventar, para uso próprio, o verbo teresinar; de D. Avelar Brandão Vilela, o pastor de voz reconhecível que apascentava o rebanho da urbe com a “Oração por um dia feliz”; de Mons. Chaves, responsável pela imponência da Igreja do Amparo, o historiador que deu voz ao povo do Piauí; do Prof. Camilo Filho, a melhor tradução da cidade, com seu sorriso farto e a indeclinável vocação para o diálogo; de mestre Odilon Nunes, silencioso, encurvado sobre alfarrábios, na Casa Anísio Brito, colhendo pérolas que seriam lançadas aos próceres; de Wall Ferraz, o prefeito durão, com vocação para donatário; de Marcílio Flávio de Rangel Farias, o “forasteiro” que, ao descobrir que aqui jorrava água potável das torneiras, fez-se o mais apaixonado dos teresinenses: amava a cidade melhorando-a; de mestre Manoel Luciano, autor da mais bela toada que já se fez para a cidade: “Teresina parece um laço de fita/ ou uma moça bonita /outra igual eu nunca vi/ É a cidade que a gente necessita/ é a sala de visita do Estado do Piauí”. Impossível, em espaço tão curto, falar de todos os que amaram e amam esta cidade, reinventando-a incessantemente.





Esqueçamos, de vez, o menino velho com sua arenga interminável. Passemos a palavra ao poeta Moura Rego, de saudosa memória: “Não quero flor nem brilhante/ Quero carinhos de amante/ Para o mais fino louvor./ A quem já nasceu prendada/ A ti, minha namorada,/ Teresina, meu amor”.





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