quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

piauinauta


Na já famosa foto de Pedro Ivo, que mostra Teresina à noite sob uma lua cheia assombrosa, foi detectado o Piauinauta no céu da Cidade Verde. Foi um vendedor de picolé, na madrugada quente, que olhou pro céu e deu o alarme: "Um piauinauta no espaço sideral!!!"

E atenção, gente nova no pedaço, se quiser entender clique: Piauinauta, a origem.

Garincha e Nicinha


Já que é carnaval...
Tem algo mais Teresina do que esta foto? Ozias, piauinauta paulista, me mandou. Diz que tirou do portal az, de uma coluna do Garrincha. A foto é do carnaval de l988, no tempo de bons carnavais. Agora está aqui. No espaço sideral acontece dessas coisas. Nicinha parece mostrar a Garrincha um astronauta lá em cima. Ela via o piauinauta... Não tem indicação de autoria da foto por absoluta ignorância. Se alguém souber me conte... (Edmar)
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Para quem não é do planeta: Deusdeth Nunes (nosso querido Garrincha, pela semelhança com o verdadeiro) é jornalista, escritor, figura popular conhecida por toda Teresina. Nicinha, já habitando o infinito, era uma figura tal e qual conhecida: sempre aparecia nos eventos importantes, vestida de forma extravagante, e palpitando sobre tudo. Sem ela Teresina já não é a mesma. Nicinha habitou a nossa infância e juventude...

Razões da Violência

Edmar Oliveira

Quem provocou foi o Luiz Fernando Veríssimo. Numa crônica de Natal em que dizia ter recebido uma carta de Papai Noel, respondendo a um pedido seu de 1942, falou do presente ganho naquele ano: um revólver de brinquedo que simulava tiros disparando espoletas. Pois se o mestre diz que brincava de ser o Vingador com seu revólver, tomei coragem para contar das minhas brincadeiras de “cowboy”. Confesso que tive um revólver, reluzente, imitando prata, com cabo parecendo madrepérola. Tal qual o do Zorro, aquele amigo do Tonto. Com uma cartucheira que permitia o saque rápido e, esse era todo o diferencial, uma serpentina de espoletas que faziam tiros seqüenciais em números parecidos aos tiros dados pelos mocinhos nas telas de cinema: quase sem fim. E lá ia eu, montado no meu cavalo de pau da carnaúba, atirando a esmo, mas acertando em todos os índios e bandidos da minha imaginação, envolto na fumaça dos sonhos e cheiro de pólvora do quebrar intermitente das espoletas que pipocavam como tiros das telas do cinema. Em alguns momentos adentrava no “saloon” imaginário, pedia meu copo de leite, e desafiava o malfeitor para um duelo, no qual era necessário ser muito rápido no saque e atirar em continuidade para matar um bandido feito visão retirada da memória do cinema.

E quantas vezes fui Rocky Lane, Hopalong Cassidy, Roy Rogers, Durango Kid ou Kid Colt em várias aventuras que saiam de dentro da minha cabeça. E nestas aventuras, meu revólver disparou mais tiros do que nos filmes que assisti. E quando acordei deste sonho infantil as serpentinas de espoletas não funcionavam mais e o revólver não era de prata com cabo de madrepérola. Fiquei gritando pelo Shane, que saia de dentro de mim para nunca mais voltar, como na cena final de “Da Terra Nascem os Homens”.


E fui crescendo e esquecendo aquelas cenas que habitaram minha infância. Sempre soube que os tiros eram de festim e nunca consegui colocar uma arma de verdade na minha mão. Tenho medo das armas de verdade na mesma intensidade do fascínio pelos tiros de mentira da minha meninice. Sempre pensei que os brinquedos da infância não determinam o comportamento do adulto. Quando ouvi o Veríssimo dizer que foi o Vingador com seu revólver, sem que isso pareça lhe causar danos, me atrevi a escrever sobre uma brincadeira infantil que hoje não é considerada “politicamente correta”. Pois lhes garanto: não me fez mal nenhum.

Entretanto, lendo “Falcões: os meninos do tráfico”, de MV Bill e Celso Ataíde, vemos que as brincadeiras dos meninos nas comunidades carentes de agora retratam a violência da guerra que ali acontece de verdade. E que a crueza das brincadeiras está muito próxima da realidade e quase que a produzindo. A narração de cenas infantis descreve a tortura e a violência que lemos nos jornais com um realismo mágico antecipatório e não no gênero literário. E que estas brincadeiras infantis de agora quase que preparam o caráter do jovem de amanhã.
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O que teria mudado no tempo? Mudamos nós ou mudaram as brincadeiras? Arrisco um palpite: o meu revólver prateado de cabo de madrepérola fazia parte de uma indumentária do herói imaginário. Claro que o chapéu e as roupas do Hopalong, se não eram imitadas de verdade, se imaginava tal e qual a fantasia do cartaz de cinema. Já os meninos das brincadeiras de agora imitam os irmãos, conhecidos e invasores reais de sua comunidade. E a guerra real acontece na rua ao lado, embaixo ou acima. Ontem nós brincávamos com a imaginação. Hoje a brincadeira é com a realidade...



No alto William Boyd "Hopalong Cassidy" em cartaz de cinema "A Volta de Hopalong". Acima divulgação de "Tropa de Elite"

Cisma de um Príncipe Regente

Geraldo Borges

Ela estava dizendo para corremos, senão iriam pensar que estávamos fugindo, que lucidez. No entanto ela é uma louca, a minha mãe. Maria, a louca. Na verdade estamos fugindo. Mas para melhor colorir a nossa história, esta fuga é chamada de transmigração da família real de Portugal para o Brasil. Realmente. E assim fomos obrigados a atravessar o Atlântico Norte em alguns barcos que quase nos levaram a pique, tal a situação precária em que se encontravam. Além do mais escoltados pela armada inglesa . Malditos ingleses. Mas sem a sua colaboração teria sido pior. Melhor dizer, maldito Napoleon. Este sim era o nosso pior inimigo. Mas quem nos tira da merda nem sempre quer o nosso bem.

Napoleon colocou Junot em nosso encalço. Não tinha outro jeito. Tivemos que por sebo nas canelas. Nunca pensei em colocar Carlota Joaquina nessa situação. Ela parece que estava adivinhando isso quando mordeu a minha orelha a primeira vez que me viu. Minha mulher detesta os trópicos, muita exuberância, muita chuva, muito mosquito, o fedor do povo, que aliás não passa de uma figura de linguagem, uma metáfora, pois num regime de escravidão não existe povo.

A chegada foi horrível. O povo, pasmado, nos olhando, as mulheres, os homens todos de cabeças rapadas, por causa dos piolhos que se alastraram dentro dos navios mal cuidados. Já mão agüentávamos mais as nossas roupas surradas, puídas de maresia, caindo aos pedaços. Os ratos roendo tudo. E agora como vai ser a acomodação para tanta gente? Meu Deus. Uma corte inteira de covardes. Foi preciso desalojar as casas de meus súditos. Na verdade foi uma invasão. Aconteceu em cima da hora a toque de caixa. O expediente para arranjar acomodações foi colocar na porta das casas escolhidas as iniciais PR. Príncipe Regente. Eu, o príncipe regente. Minha mãe como já disse, estava louca. Mas tenho certeza que se estivesse no governo teria ficado em Portugal enfrentando os soldados de Napoleon, juntamente ao lado do povo. Mas falar em povo, a população do Rio de Janeiro dava uma leitura zombeteira para as letras PR. Traduzia assim: ponha –se na rua... Era isso mesmo. Napoleon invadindo Portugal e nós invadindo a nossa colônia.

Ocupamos quase todo o Rio de Janeiro. Era muita gente Precisávamos de muito espaço para colocar toda a tralha que trouxemos .

O tempo foi passando. O Rio agora era o meu reino. Mas o meu maior problema era Carlota Joaquina, que de uma hora para outra fazia a minha orelha arder. Vivia conspirando contra mim a favor de seu filho dom Miguel. Dizem que me corneava, pode ser, tudo bem, isto acontece até mesmo na família real inglesa, os nossos protetores. Este clima aqui muito luxurioso, amolece o caráter, aumenta a gula. Só no jantar eu como mais de três capões com farofa.

O povo português reagiu a invasão francesa, estão lutado, os ingleses estão dando uma ajuda militar. O certo, é que eu não devia ter vindo para tão longe. Fui vitima de uma conjuntura história em que na verdade a diplomacia do meu país decidiu por mim juntamente com os ingleses. Os franceses estão recuando, um dia vamos ter que voltar para a nossa terra. O Brasil agora é um reino. Reino do Brasil Portugal e Algarve. E eu comando tudo isso, ou penso que comando. Deram-me noticias que Napoleon está preso e a Europa vai redefinir o seu mapa político. No Brasil a classe dos aristocratas rurais, alguns barões não querem mais volta a posição de colônia de novo. Correu ma noticia de que não devemos mais voltar. A diplomacia na Europa acha que devemos perder Portugal, abrir mão dele para a Espanha, em troca da província do Uruguai. Isto não vai dar certo, eu quero o meu Portugal, a beira mar plantado.

A revolução liberal em Lisboa me chama. Eu tenho de voltar, ou, então, perco tudo, até mesmo o Brasil. Vou embora. Dom Pedro, este menino peralta fica aqui. Melhor do que deixar este pais na mão de algum aventureiro. Se bem que a grande aventura foi nossa.

Estou de volta a Lisboa. Na hora da partida Carlota Joaquina é quem estava mais alegre. Tirou os seus sapatos e bateu o pó da terra que ia deixar. Não queria levar nem um pingo de vestígio da terra do Brasil. Chegamos. Aqui está pior do que nos tempos dos generais de Napoleon, os ventos do liberalismo estão rugindo com força... Não sei avaliar como seria a situação hoje se eu não tivesse abandonado Portugal. A história é feita por linhas tortas... Talvez eu fosse mais respeitado ou estivesse morto, ou virando uma lenda como dom Sebastião.

Olho o cais à margem do Tejo e me recordo agora da minha fuga para o Brasil, e reflito. Não é possível, mas aconteceu..Os portugueses personagens aguerridos dos Lusíadas, que disseram cesse tudo que a musa antiga canta que outro valor mais alto se alevanta, saímos fugindo de Napoleon, entregando o Reino as favas. Não era só a minha mãe que estava louca, era toda a corte. Que foi escoltada pela Inglaterra que sabia o que queria, tanto que colocou Napoleon em Santa Helena e deu um novo destino para a Europa no jogo de xadrez da história, no qual somos hoje uma peça muita insignificante..

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Borges, o Imperador do pantanal, baixa o espírito do Príncipe Regente e resolve a parada histórica...

Briga de Gato e Rato

Edmar Oliveira

Desta vez os cientistas foram longe demais. Se meteram em briga de gato e rato. Segundo entendi, no meu vício de fuçar abobrinhas nos jornais, conseguiram inibir substâncias ou conexões, não lembro bem, que permite a associação do cheiro do gato ao significado “predador do rato”. Tal experimento deixa o rato sem medo do gato. Para que o gato, que não tinha sido submetido a nenhuma experiência, não abocanhasse a preciosa presa mutante, foi usado um expediente menos científico, mas extremamente eficaz: alimentaram o gato até a exaustão. Assim, com um gato que não corre atrás do rato e um rato sem medo de ser comida de gato, os jornais publicaram uma foto inusitada dos antes inimigos: parecia propaganda daqueles filmes de Tom e Jerry onde eles são amigos. (Lembram disso? Eu só gostava do desenho em que eles eram inimigos).

Me preocupam estas intervenções da ciência para mudar comportamento que a Natureza levou um tempo enorme para consolidar. Sou daqueles que não querem saber o sexo dos bebês antes. Tenho paciência para esperar os nove meses. Mais ainda, tenho bastante preocupação com experiências cujo objetivo principal parece ser brincar de Deus. Pra que serve um rato sem medo de gato? Não vejo qualquer aplicação na espécie humana: bandido já não tem medo de polícia, ladrão não tem medo do castigo, político não tem medo da justiça, justiça não tem medo do ridículo...


Vamos combinar? Esta experiência tá mal contada. Tá parecendo invencionices para falta de notícias. Como foi feita a fotografia não dá pra saber se, de fato, o experimento pretendido foi eficaz. Pro lado do rato. Pro lado do gato não tenha dúvida: qual gato empanturrado vai correr atrás de comida? E, assim sendo, que rato, mutante ou não, vai ter medo de um gato bundão? A Natureza preparou a briga entre espécies para a sobrevivência darwiniana. Gato criado com ração vai esquecer de correr atrás de rato. E o Jerry tem que chutar muito o traseiro de Tom moderno, balofo e fofo, para provocar uma briga...

Poetas Trágicos

Mario Faustino

Geraldo Borges

Meu primo poeta Mario Faustino
Morreu em um desastre de avião
Eu nunca imaginei que seu destino
Seria se iluminar em uma explosão.

Estilhaços de vitrais de sua poesia
Está nos olhos da minha geração
Que os lê cada vez mais se extasia
Bebendo de seu vinho e de seu pão.

Mario Faustino um anjo um albatroz
Que voou para o céu do meu sertão
E borrifou seus versos sobre nós.

Como lamina de fogo fênix alada
Mario Faustino não morreu em vão
E rompeu no horizonte a madrugada




Torquato Neto


Geraldo Borges

Nasceu na rua da Pacatuba
Hoje chamada rua São João
Corria rua abaixo rua arriba
Menino não sabia a sua paixão.

Jovem foi embora de sua terra
Lá fora viu um mundo diferente
Era um convite pra entrar na guerra
Desafiando o coro dos contente.

Virou poeta artista tropical
Na confraria de outros companheiros
Compôs dançou sua geléia geral.

E de repente ao mundo pediu trégua
Num gesto extraordinário e sobranceiro
Resolveu quebrar compasso e régua.

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Geraldo Borges. o piauinauta pantaneiro, ataca de dois poemas para grandes poetas piauienses (como já tinha feito com Dobal - procure arquivo mês de dezembro aqui no blog). "Poemas na via láctea dos poetas" (sou eu que me atrevo nomear) parece ser um estudo de Geraldinho. Se assim sesse é fabuloso... (Edmar)

O título foi tirado do livro do Zózimo, do qual falo abaixo. Esses dois estão lá.

Lucídio Freitas

Aos manutendores de relações afetivas com a terra,
queridos conterrâneos,

Em janeiro de 2006 estive no planeta. Açaí, como sempre, dono de uma gentilidade dos gentios me presenteou com vários livros e discos que rolaram na minha ausência. Topei com um livreto miúdo de Zózimo chamado "Sociedade dos Poetas Trágicos" e, dentro dele, com este poema que reproduzo abaixo. Foi assustador pra mim, que estou longe, a Teresina se esvaecendo na morte do poeta... Muito trágico, mas belo! Imagine um piauinauta dando de cara com Lucídio no infinito. É como se nos afastássemos da nave mãe do sertão com o risco de não voltar... (Edmar)



Teresina apagou-se na distância,
Ficou longe de mim, adormecida,
Guardando a alma de sol da minha infância

E o minuto melhor da minha vida.

E eu sigo, e eu vou para a perpétua lida.
Espera-me, distante, em outra estância...
É a parada da luta indefinida,
É a febre, minha dor, minha ânsia...

Como são infinitos os caminhos!
E como agora estou tão diferente,
Carregado de angústias e de espinhos!...

Tudo me desconhece. Ingrata é a terra.
O céu é feio. E eu sigo para a frente
Como quem vai seguindo para a guerra...


Lucídio Freitas, 1921, ano da morte do poeta aos 27 anos

crepúsculo

h dobal



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Mestre Dobal num poema "paideuma" poundiano. Precisa mais?
foto: edmar: da Ilha do Fundão pegando um pôr do sol sobre a igreja da Penha (Rio)

O Avarento

(à moda de H. Dobal)

Paulo José Cunha


Coronel Chico Belarmino
sua burra de sela
suas esporas de prata
seu rifle papo amarelo

Coronel Chico Belarmino
conhecido do Alto Longá
aos sertões de Beneditinos
nunca mandou matar ninguém

(por medida de economia
ele mesmo fazia este tipo de serviço)

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Paulo José Cunha, piauinauta candango, homenageia Dobal. Quem há de?

Desencontro

Cinéas Santos

Se eu disser mais do que convém,esqueça.
Se eu disser menos do que deva,acresça.


É que, em matéria de amor, eu sou assim:
um pouco mais
um muito menos...
eu nunca sei o ponto certo,
principalmente se você está por perto.


Serra da Capivara (PI)
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O nosso menestrel estava de férias na serra da Capivara. Captou mensagens do espaço sideral de que poemas estavam rolando no infinito. Não se fez de rogado. Emendou um aboio que acordou a Niéde Guidon e ecocou no infinito. É do espaço sideral que publicamos o vaqueiro professor de nós todos, que se intitula Ancião. Sabedoria... (edmar)

Luz e Lumière


Rolou na internet umas fotos coloridas produzidas pelos irmãos Lumière, do início do século passado. Um piauinauta achou esta um primor de sensualidade. Clicou lá do espaço e guardou.



1000ton


quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Loucura Suburbana 2008


video

Samba Enredo do Bloco "Loucura Suburbana", que abre o carnaval do Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. O bloco é uma organização dos pacientes e servidores do Instituto Municipal Nise da Silveira, antigo Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, e a comunidade de moradores dos bairros adjacentes. O desfile deste ano, 8º ano consecutivo, será dia 31 de janeiro a partir das 16 horas, com concentração no Instituto: Rua Ramiro Magalhães, 521.
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A primeira vez que você abrir o vídeo deixe baixando e continue fazendo outra coisa. Só numa segunda passagem ele passa direto. Depois fica na memória do computador e você pode ver rápido.

domingo, 13 de janeiro de 2008

PIAUINAUTA, a origem do blog








De madrugada o piauinauta pode ser visto sobrevoando o Rio Poty. Os grandes edifícios na sua margem ajudam a matar o velho rio...

VIZINHO GLOBAL

Geraldo Borges

Moro no centro de Campo Grande, na vila cidade, rua Barão de Melgaço. Todo sábado antes de ir ao sebo Hamurabi vou à loja de carne do Arildo, que fica aqui bem perto, a um quarteirão da minha residência. Um dia chego lá e vejo por detrás do balcão de atendimento, pendurado na parede uma foto bem grande, maior do que essas que a gente vê nos cartazes de cinema: nela brilhava o meu vizinho Arildo e o presidente Bush. Estavam de mãos dadas, se cumprimentando. Não sei dizer quem primeiro estendeu a mão. Os dois sorriam. Era a política da boa vizinhança. Bush apertar a mão de alguém não deixa de ser um gesto político. Para Arildo foi um gesto histórico e cordial que enriqueceu o seu cotidiano, que fez crescer a sua biografia para penhascos nunca dantes sonhados, tanto que ele mandou ampliar a foto e deixou a vista dos fregueses. Nada mais natural e humano, faz parte dos pecados capitais.

A foto me deixou surpreso. Olhei o Arildo, ali detrás de seu balcão, conferi sua presença, a figura real. Era ele mesmo, simpático, de carne e osso, ali em minha frente me passando o troco do preço da carne. Era como se ele disse. Está vendo aí, o homem mais poderoso do mundo me cumprimentando. Disfarcei. Pensei em fazer um comentário sobre o fato. Zombar da situação. Mas não me cabia este direito. Foi -se o tempo em que eu fazia passeata e queimava bandeiras do EUA.

Mas é preciso que o leitor saiba por que aquela foto foi parar na loja de carne do Arildo.Tudo começou quando o presidente Bush veio ao Brasil, precisamente a Brasília, comer um churrasco com o presidente Lula. Arildo conhecido e reconhecido como um bom entendedor na arte de fazer churrasco foi convidado pelo presidente Lula para garantir o sucesso da comilança.Aí se deu a apresentação. E, por conseguinte, como já vimos, apareceu a foto e sua exposição, como uma verdadeira obra de arte na loja.

Passou-se o tempo. E a foto continuou brilhando na loja do Arildo para surpresas de seus fregueses, que foram se acostumando com a nova arrumação do ambiente.

Um dia cheguei na loja. Olhei para a parede, como de costume, e não vi mais a foto. Não vi também o Arildo, em carne e osso. Por onde andaria o Arildo? Perguntei ao seu filho que estava ali no lugar de seu pai atendendo no balcão. ele me disse que o Arildo estava trabalhando na produção, no frigorífico. Pensei em perguntar por que tinham tirado a foto da parede. Mas contive a minha expressão de indelicadeza. teriam tirado por fastio, ou por que teriam atingido um novo nível de consciência política? Não sei.

O que sei mesmo é que um dia desses fui à loja de carne do Arildo, e lá o encontrei. Fazia um bocado de tempo que eu não o via. Dei-lhe bom dia. e nos cumprimentamos. Senti o aperto forte de sua mão. Ele me chamou de mestre. Seu simples freguês, comprador de rabada, alcatra, e outras peças anatômicas do boi. Foi justo neste momento que alguém falou dentro de mim: como este mundo é pequeno. E não sei porque arte de algum espírito zombeteiro me senti deveras importante, importantíssimo, por que tinha apertado a mão de um vizinho que tinha apertado a mão do presidente de um vasto império. E tudo isto aconteceu nos limites do terreiro da minha casa.
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Geraldo Borges, o piauinauta pantaneiro, recebe os cumprimentos do Imperador Bush II no açougue do Arildo, em Campo Grande. Quem manda morar numa aldeia global?

O TERCEIRO REINADO

Edmar Oliveira

Tem acontecimentos históricos que a gente não entende. Nunca me conformei com aquela história de D. Pedro II, no momento em que se arquitetava a República, ter ficado em Petrópolis alheio a todos os acontecimentos da corte. Meus livros de história diziam que ele lia poesia, se preocupava com coisas da ciência da época, mas não sabia de nada que estava acontecendo sob suas barbas brancas.

“O Príncipe Maldito” (Del Piore, Mary, ed. Objetiva, RJ, 2006) lança luzes sobre este período obscuro, pelo menos pra mim. Primorosa biografia de Pedro Augusto, filho de Leopoldina, neto de Pedro II, e aspirante a Pedro III. Acontece que a Princesa Isabel não teve filhos logo, por problemas de saúde. Pedro Augusto, cuja mãe morreu jovem, sempre sonhou com a coroa (não a tia, mas o trono) e aspirava até mesmo uma precoce abdicação da tia em seu favor, já que a regente interina não gostava das coisas da política e sim das coisas do reino dos céus. Mas vamos deixar o enredo para a leitura do livro a quem interessar. O que nos interessa aqui é a elucidação daquela explicação que ficou incompreendida há muito tempo.


Bisneto de Maria, a Louca, Pedro II fez sua última viagem à Europa, como imperador, para tratar de uma melancolia. È durante esta viagem que Isabel, pressionada pelos abolicionistas e, mais importante pra ela, pela Igreja, assina a lei conhecida como “Áurea”. Durante a viagem o Imperador é visto por vários médicos europeus e tem duas consultas com Charcot, o eminente professor francês que usava a hipnose, e fez Freud se interessar pela psicanálise. Charcot prescreve para o retorno do imperador ao Brasil: “dois meses de férias, leituras brandas, medicação metódica, nada de emoções” (pg. 142). É seguindo esta prescrição médica que Pedro II fica alheio aos acontecimentos em Petrópolis. E não foi avisado das tramas da República só por razões da enfermidade. Os monarquistas se dividiam entre os que queriam a substituição do velho imperador pela Princesa Isabel ou por Pedro Augusto (num golpe monarquista na sucessão sanguínea). Isabel não tinha interesses políticos, mas o conde D’Eu, seu consorte que já tinha herdeiros, ambicionava o trono. Segundo a pesquisadora essas intrigas foram mais Republicanas que a ação dos militares. Deodoro era monarquista, mas estava insatisfeito com uma transferência para Goiás. De sorte que a seqüência dos acontecimentos colocou a República no seu colo em data antecipada. E até o cavalo imponente da pintura que retrata o ato foi emprestado de um auxiliar, por acaso, para permitir a Proclamação.


Esclarecido o acontecimento, fica-se sabendo de algumas fofocas históricas também interessantes. É que a história sem as fofocas, os bilhetinhos, as indiscrições, perde a graça.
Pedro Augusto, perdendo o sonho de ser imperador, banido com a família imperial pelos republicanos, tem o primeiro surto de loucura a bordo do navio rumo a Europa. Como sua doença continuasse em Codisburgo, terra de seu pai, foi visto por um jovem médico vienense mandado por Charcot. Sigmund Freud afasta um diagnóstico de “monomania e excitação descontrolada” e parece ver uma “depressão e profunda tristeza” (pg.275). Mas além do diagnóstico não consta um tratamento feito pelo jovem que elaborava a psicanálise. E como o quadro se agrava, o jovem Pedro Augusto é internado e exerce o Terceiro Reinado num manicômio, aonde vem a falecer depois de 41 anos de internação...

NATAL: três notas tristes

Cinéas Santos

I


Devo ser um cavalo (naquela acepção umbandista do termo) tão ordinário que nem o espírito do Natal baixa em mim. Ainda assim, como qualquer "cristão civilizado", recebo e retribuo mensagens natalinas. Uma irmãzinha querida me mandou um e-mail com fotografias translumbrantes da gigantesca árvore de Natal que resplandece nas águas poluídas da Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. No final, uma pergunta-queixa: - Por que não fazemos algo grandioso e belo aqui também? Por falta de melhor resposta, arrisquei: a cidade tem muitas necessidades e os recursos devem ser escassos. Na verdade, eu deveria ter dito que árvores de Natal, por maiores e mais resplandecentes que sejam, não me fascinam. Bicho miúdo, eu já ficaria feliz se pudesse ver cada teresinense cuidando da árvore do seu quintal, pobres árvores que ainda resistem apesar das parasitas (erva-de-passarinho) que as ameaçam. Nenhuma árvore de Natal, nem mesmo a de Nova Iorque, possui a nobreza de uma mangueira copada ou a beleza de um caneleiro florido. Quanto às "arvorezinhas" de garrafas pet que "embelezam" as praças e avenidas de Teresina, apenas uma queixa: fincaram uma delas em cima de um ipê branco que, a duras penas, plantei no balão das avenidas Petrônio Portela com Raul Lopes. Literalmente, asfixiaram a arvorezinha com garrafas de plástico e lâmpadas coloridas, que lhe queimam as folhas. Fazer o quê? Queixar-me a quem? Infelizmente, sensibilidade ainda não é "mercadoria" que se encontre à venda nem mesmo no imenso bazar em que se transformou o Natal.


II



No ano passado, eu e a cantora Luíza Miranda assumimos o compromisso de lançar uma campanha, em 2007, pela iluminação da velha ponte metálica, mais conhecida como "a ponte dos pobres". Foram tantas as labutas e atribulações que não cumprimos a promessa, e a ponte João Luís Ferreira, mais uma vez, em pleno Natal, permanece mergulhada no breu. Curiosamente, trata-se do "cartão-postal" oficial de Teresina e símbolo da administração do Dr. Sílvio Mendes. Por oportuno, vale lembrar que sua irmã gêmea, a ponte Hercílio Luz, em Florianópolis, feericamente iluminada, é tratada como a "jóia preciosa" de Floripa. Por que a nossa permanece entregue à ferrugem? É simples: aquele sítio, o mais belo da cidade, tornou-se reduto de pobres, passagem de pobres, paisagem de pobres. Como hoje, no mundo, só existem consumidores e não consumidores, quem não consome não conta. Mais claro, impossível.



III



Enquanto os brasileiros entulham as residências com árvores de plástico recobertas com "neve" de algodão, a desembargadora federal Maria Selene de Almeida que, seguramente, não sabe onde fica o Piauí, concedeu liminar à JB Cabron para continuar o projeto"energia verde"(?) que reduzirá a carvão a cobertura vegetal da Serra Vermelha. Paradoxo à parte, esse crime ecológico traz as impressões digitais muitos políticos piauienses. Anote o nome deles em sua agenda e, no ano que se inicia, conceda-lhes merecidas férias. Assim seja.



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Mestre Cinéas comparece em janeiro falando do natal. Duas notas explicativas: no espaço sideral acontece destas coisas. Sendo as distâncias relativas, pode acontecer do natal cair no carnaval. Sem problemas. A outra é que o mestre está brabo: desanca o espírito natalino; queixa-se do espírito de porco que não ilumina a ponte João Luís Ferreira, símbolo inequívoco de Teresina; e mete o pau em quem desmata a Serra Vermelha. Portanto foi melhor ter passado o natal...

A CURA DA ALMA

José Blaya


O que serve para curar a alma,
O gesto, a calma, um fonema,
Cabe no vértice de um poema,
Serve aos motivos da paixão.

O que serve e cura a alma
É um pouco da tua fala
E, se calas, o teu segredo.
É mandar o medo embora,
É teu riso inesperado e
O cheiro do teu cangote.

Serve sentar no chão, os pés
Descalços, um rio para se nadar.
Serve canto de roda, vôo de pandorga
Um terreno baldio e misterioso.
Alma sofre do que foi fora e não devia:
Ímã, bicicleta, cheiro de madressilva
Grito, cuspe e nome feio.
Um cachorro que se gostou.

O que pode curar a alma, e cura,
É um avô contando histórias,
São memórias, sorvete de chocolate
Toda sorte de coisa inútil
Que as pessoas jogaram, sem pensar,
Pela cerca dos fundos do quintal.

De tudo se cura a alma - e de nada
Se nada for o que faltar.

Namorada faz bem para a alma
Uma canção que fale de amor.
O calor, um poema, uma carta.
Andar de mãos dadas serve,

Esse mar que me olha
E respira, cheio e vazio
Vazio e cheio... o mar.

O que serve para curar a alma
Não cabe em qualquer receita
Alma se cura de tudo – e nada:
De um pouco da tua fala
E, se calas, o teu segredo
Do que foi fora e não devia
Toda sorte de coisa inútil.

Esse mar que me olha e
Respira, vazio e cheio
Cheio e vazio, um rio
Para se nadar, o mar
Que me olha e respira.

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José Blaya Perez Filho, escritor e psiquiatra gaúcho, da geração dos perdidos da década de 1970, já falecido, nos fala da cura da alma neste poema que me mandou a amiga Ruth Mylius Rocha. (Edmar)

COMUNICADO ESPACIAL

Júlio César Régis Dantas, o Julinho, foi um astronauta sergipano que ficou em órbita de uma terra tomada pelos desatinos das ditaduras que assombraram esta América Latina. Da escotilha da nave mãe contemplávamos Aracajú e Teresina fazendo planos que não se realizaram. Algumas vezes brindávamos efusivamente em comemoração a nossa vocação de astronauta.
No dia 26 de dezembro, após o nascimento de Cristo, a nave de Julinho deixou de fazer contato com a terra. E nem nós, os astronautas, conseguimos localiza-lo. Julinho deve ter passado para outra dimensão ao se aproximar de um buraco negro.
No sítio da Associação Brasileira de Imprensa achamos esta nota escrita por seu amigo, Anselmo Góis, que reproduzimos abaixo:


Em texto especial para o Site da ABI, o jornalista Ancelmo Góis evocou com emoção e carinho seu amigo Júlio César Régis Dantas, o Julinho, seu companheiro desde as lutas da mocidade em Sergipe. Julinho morreu em 26 de dezembro, aos 58 anos. O texto de Ancelmo, intitulado "Julinho partiu", é o seguinte:

"O ano de 1968, aquele que não terminou na definição de mestre Zuenir Ventura, foi marcado por manifestações estudantis em todo o mundo. Na pequena Aracaju não foi diferente. Lá, os estudantes saíram às ruas, mais de uma vez, caminhando, cantando e lutando contra o regime militar. Em Sergipe, a luta dos estudantes era liderada pelo pessoal do Diretório da Faculdade de Direito da UFS, tendo à frente Wellington Mangueira Marques, o "Boquinha". Em torno dele e do PCB se formou um grupo de jovens combatentes contra a ditadura, entre eles Júlio César Régis Dantas, aluno da Faculdade de Serviço Social.
Julinho, depois do Ato Institucional n° 5, que sufocou os protestos que vinham das ruas, partiu clandestinamente para Moscou, em pleno regime soviético, onde, por um ano, fez um curso de formação política marxista na escola do Komsomol. Nos anos 70, já no Rio, participou da luta pela retomada do Sindicato dos Jornalistas ­— que estava em poder de pelegos — e atuou na ABI num momento particularmente histórico da entidade, na linha de frente pela redemocratização do País. Nos anos 80 Julinho se aliou ao Partido Democrático Trabalhista (PDT) e ajudou a lançar o jornal brizolista "Tribuna Socialista". Trabalhou como repórter nos jornais O Globo, Tribuna da Imprensa, Jornal do Commercio e Diário do Comércio e Indústria. Trabalhou ainda na assessoria de imprensa da Bolsa de Valores e da Prefeitura do Rio. Julinho, 58 anos, morreu dia 26 de dezembro, vítima de choque séptico no Hospital da Ordem do Carmo, no Rio. Deixa a viúva, Esther, dois filhos e muita saudades nos que o conheceram."

Casa Lima Barreto



Ontem eu tive na Casa de Lima Barreto. O pessoal se reúne todo segundo sábado do mês. Rua Gomes Freire com rua do Senado. Bar Senado. A casa tem uma roda de samba com recitais de poesia.
Nas fotos, Flávio Oliveira solta seu vozeirão na roda de samba e José Vicente faz um recital. Alem da reunião mensal, você pode visitar a Casa de Lima Barreto no site: http://www.casalimabarreto.com/index.htm

O Samba Enredo da Unidos da Tijuca em 1982 foi sobre Lima Barreto e é de autoria de Adriano do Borel, que virou hino da Casa e tivemos o privilégio de ouvir. Divido a letra com vocês:

Vamos recordar Lima Barreto
Mulato pobre, jornalista e escritor.
Figura destacada do romance social
Que hoje laureamos nesse carnaval.
O mestiço que nasceu nesta cidade
Traz tanta saudade em nossos corações,
Seus pensamentos, seus livros
Suas idéias liberais
Impressionante brado de amor pelos humildes
Lutou contra a pobreza e a discriminação
Admirável criador, ô, ô, ô, ô
De personagens imortais
Mesmo sendo excelente escritorInocente,
Barreto não sabia
Que o talento banhado pela cor
Não pisava o chão da Academia
Vencido pela dor de uma tragédia
Que cobria de tristeza a sua vida
Entregou-se à bebida
Aumentando seu sofrer
Sem amor, sem carinho

Esquecido morreu na solidão
Lima Barreto
Este seu povo quer falar só de você
A sua vida, sua obra, é o nosso enredo
E agora canta em louvor e gratidão.
(quanta emoção)

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

PIAUINAUTA




o piauinauta passou o ano novo em órbita do Redentor e do Delta do Parnaíba...

PRODUTO INTERNO BURRO

Edmar Oliveira


Nas pajelanças econômicas de final de ano, que sempre são acompanhadas de previsões de pais de santo para o próximo ano, acaba de ser divulgado o campeonato de Produto Interno Bruto (PIB) por cidade. Já sem ser novidade, São Paulo ocupa, como sempre, o primeiro lugar com um PIB de mais de 260 bilhões, superior ao do Chile, país. O último lugar na colocação muda de cidade, mas não de Estado. Novamente o Piauí aparece com Santo Antônio dos Milagres substituindo Guaribas. Como sou um curioso, descubro que este milagre de Santo Antônio aconteceu de um desdobramento do município de São Gonçalo do Piauí em 1995. E que fica perto de Angical e Regeneração, pertencendo então à região metropolitana da Grande Palmeirais, cidade que me colocou no mundo. E aí tudo muda de figura. Não conhecendo a cidade nova do milagre do santo, me obrigo a ser palpiteiro pela proximidade sentimental e, talvez, de parentesco.


E já que Santo Antônio foi parar nas páginas de economia dos jornais do sul maravilha, vamos aproveitar este momento de glória, para entender o que é ser a cidade mais pobre do país.

Todas as somas dos bens produzidos pelo milagre de Santo Antônio não compram uma casa nos Jardins Paulista ou num condomínio da Barra da Tijuca. Tudo que há no município de Santo Antônio não chega à quantia de três milhões de reais. Como o município tem duas mil almas, cada criatura tem um patrimônio, economicamente falando, de mil e quinhentos reais. Se estes números são assustadores, imagine para quem conhece a realidade do interior do Piauí. Eu não conheço Santo Antônio, mas há alguns anos estive em Palmeirais. Se esta, relativamente, é uma cidade de melhor qualidade de vida posso imaginar o que seja o milagre do santo. E qual o interesse de se fazer um município num lugarejo de dois mil habitantes. E duvido que se ache entre os munícipes mais de cinqüenta famílias que tenha bens da média do PIB per capta pra cima. Não é difícil entender que parte do PIB foi embora, apropriado por quem manda no município. E que parte deste produto interno ficou líquido noutras paragens. E quem ficou vivendo ali no sertão tem o seu produto interno evaporando na terra seca para a liquidez de poucos.

Vamos examinar o milagre do santo econômico: se existem duas galinhas pra nós dois, temos uma galinha per capta. Nem que você fique com as duas galinhas e eu sem nenhuma. Você fica com o Produto Interno Bruto e eu com o Produto Interno Burro. Tendo a achar que este último é o PIB dos meus conterrâneos. O que é muito pior do que o jornal anuncia. As previsões dos adivinhos de fim de ano fazem menos mal que a economia...

SUASSUNA por 1000ton

1000ton é um cartunista amigo meu. (Tem melhor qualificação que esta?) Não sei se é um mineiro caído aqui pra baixo, no sul maravilha. Só sei que se tivesse subido um pouquinho estaria no Piauí. Pode crer, ele é um bom piauinauta. Participa de festivais mundo afora e até já foi publicado num catálogo russo. Isto não tem importância. Importante são os traços com que captou mestre Suassuna, o Ariano. 1000ton é pedra do reino. (Edmar)


IMAGENS DO PRECONCEITO

Edmar Oliveira

Notícia pavorosa do canto de sereia científico da pós-modernidade do século XXI: cientistas gaúchos vão submeter delinqüentes juvenis a um mapeamento cerebral para correlacionar condutas anti-sociais as neuroimagens. Mas esta idéia não é tão nova como faz crer o alienista contemporâneo.

No século XIX, Cesare Lombroso conduziu estudos “científicos” para caracterizar o que ele chamava de “criminoso nato”. Como os instrumentos científicos de então ainda não permitiam o mapeamento interior, Lombroso descreve características somáticas para antever indivíduos com propensão ao crime. Assim, as características físicas da pessoa, geralmente não muito bem apresentável para os padrões de estética da época, denunciavam o criminoso em potencial. Interessante é que, dentre as medidas profiláticas para conter a delinqüência, receitava reeducação, iluminação pública e policiamento ostensivo. Como as características físicas descritas por Lombroso incidiam nas classes menos favorecidas, teorias “científicas” como a degenerescência orgânica justificava a não ascensão destes indivíduos na escala social.

O conhecimento acumulado na modernidade ofereceu pistas de que o homem não vem pronto ao mundo, mas tem no seu desenvolvimento a constituição de se fazer igual e diferente a todos os outros. Portanto, precisamos do século XX para desacreditar o alienista extemporâneo do século anterior, que sobreviveu com as teorias eugênicas até ser derrotado na Segunda Guerra. Mas, por que o alienista contemporâneo ressuscita o extemporâneo?

Não divido com Lombroso sua crença no Espiritismo, portanto vou afastar a reencarnação. Apesar de que Cesare fez estudos “científicos” sobre a mediunidade e a doutrina espírita, talvez preparando a sua volta em tempos pós-modernos. Mas isto é lá crença dele, não minha. Não vou entrar nesta discussão, apesar da similitude dos métodos: antes, mapeava-se o exterior para correlacionar com o tipo de delinqüência. Hoje, a ciência pós-moderna mapeia imagens cerebrais com o mesmo objetivo. Santa Barbaridade!, como diria aquele super-herói adolescente que usava máscara de baile de carnaval. Isto é que é revirar os estudos de Lombroso pelo avesso. As neuroimagens cerebrais são lidas como antes se liam caroços e protuberâncias no corpo da vítima para correlacionar com o grau ou tipo de delinqüência.

O alienista contemporâneo repete o extemporâneo numa concepção darwinista-lombrosiana apressada. De que a evolução acontece moldada por padrões de comportamento governados por preceitos morais. E que estes desvios de conduta devem ter uma inscrição que os justifiquem. Antes, na deformação aparente. Agora, escondidos em impulsos físico-químicos captados pela neuroimagem cerebral.

Desconfio que esta pesquisa atual no Rio Grande teria o mesmo valor de correlacionar neuroimagens com o comportamento sexual dos gaúchos, ou com a vocação de nós nordestinos, que somos predestinados a ser porteiro de prédio ou servente de obra. Ou seja, penso que quaisquer imagens, mapeadas por geringonças tecnológicas, associadas a fatores de compreensão no campo das ciências humanas revelam apenas a imagem do preconceito.

Das enfermidades que não tive

Cineas Santos


Sou de um tempo de doenças conhecidas, remédios baratos e curas duvidosas. É certo que se morria bem mais cedo, mas, em compensação, sem tantas diluições, vivia-se cada segundo da existência com muito mais intensidade. Com o progresso científico e os avanços da medicina moderna, ocorreu um fenômeno curioso: descobriram-se mais doenças do que remédios para as já existentes. Um exemplo: o que fez a medicina, além de uma vacina de efeitos discutíveis, para evitar ou curar a gripe? Absolutamente nada. Os médicos, por seu turno, tornaram-se mais espertos: quando não conseguem diagnosticar uma enfermidade, por mais banal que seja, nem titubeiam: “Trata-se de uma virose”. È como se dissessem: é a vontade de Deus.


Menino, no sertão do Caracol, fui acometido de todas as doenças, até então, conhecidas. Com mezinhas, chás e rezas fortes, sobrevivi a tudo e aqui estou para contar a história. Peço permissão aos meus três leitores para nomear as enfermidades mais comuns e os remédios de que dispúnhamos para curá-las. Para cicatrizar o corte do cordão umbilical, sarro de cachimbo era tiro e queda; para apressar o endurecimento da moleira, usava-se gema de ovo aquecida; dordói (conjuntivite), curava-se com sumo de fedegoso; para frieira, nada mais eficiente do que folha de cabaceira aquecida; combatiam-se as impingens com sumo de limão e pólvora; curavam-se as verminoses com mastruço , melão-de-são-caetano ou semente de abóbora; tosse-braba (coqueluche), aliviava-se com leite de jumenta preta; as crises de asma eram amenizadas com mel de cupira , caldo de cauã ou cigarro de flor de zabumba ; prisão de ventre curava-se com óleo de rícino; aliviavam-se as crises de enxaquecas com chá de imburana-de-cheiro; para os desarranjos intestinais, nada melhor que casca de pau-de-rato; para caxumba (papeira) , barro de casa de parantonha umedecido com cuspe; para o sarampo “sair” , chá de merda de cachorro;para estancar sangria desatada, pó de café ou bosta de jumento; para quebranto, mau-olhado e espinhela caída, o remédio era reza forte com galho de arruda. As demais enfermidades eram combatidas com aguardente alemã, remédio que não podia faltar na casa de cristão nenhum. É escusado afirmar que havia, como ainda há, doenças incuráveis: feiúra, preguiça, sem-vergonhice, dor-de-corno...


Por que me lembrei disso agora? É que, dia desses, um amigo me ligou extremamente apreensivo: descobriu que sofre de transtorno bipolar, ou seja, é capaz de passar da euforia à depressão num piscar de olhos . Não bastasse isso, o infeliz sofre também de úlcera de origem nervosa, rinite, pressão alta , insônia e estresse. A despeito disso (ou talvez por isso), ainda está vivo e faz muito sucesso como artista. Ganha um picolé caseiro quem adivinhar o nome dele.

Diante de um quadro como o descrito acima, sinto-me um privilegiado. Sofro apenas de feiúra crônica, dureza galopante e envelhecimento irreversível, enfermidades que só se fazem sentir diante do espelho ou quando os cobradores batem à porta. Conversando com um médico amigo sobre o assunto, ele me explicou que sofre de uma doença rara, mas preocupante: workaholic. Ante o meu espanto, explicou-me que se trata de obsessão pelo trabalho ou “vício do trabalho”, como a denominam os americanos. Por via das dúvidas, resolvi dedicar-me à releitura de Da preguiça como método de trabalho, do impagável Quintana. É melhor morrer de nada do que de tudo. Assim seja.
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Novamente chegando no espaço o Imperador de Caracol. Sua magestade da cabeça branca e zói galego fala com sabença das doenças que acometeram os piauinautas desde a meninice.

LEONARDO MOTA

Meu irmão Maioba, lá de Teresina, encontrou esta preciosidade e me mandou. Meu primeiro contacto com o Leonardo Mota se deu folheando seus três livros de prosa e poesia que meu velho tinha em casa. E ressoa os versos de Leonardo na boca de meu pai nas manhãs domingueiras antes de embarcamos na vemaguete para visitar as casas dos tios e tias. Em cada casa uma cachaça e tome prosa e verso leonardiano.Fui crescendo e me esquecendo.
Relendo este texto, verdadeira poesia em prosa, redescubro a arte de escrever do velho Mota. Não sei se em vocês o texto vai fazer o estrago que fez dentro de mim. Mas que o rebuliço emotivo foi grande, foi... (Edmar)



Leonardo Mota

Em 1928, o folclorista cearense Leonardo Mota, publicou um livro intitulado "Sertão Alegre" em que registra em uma de suas páginas a imponência da economia parnaibana contemplada por um matuto que escreveu para a mãe depois de visitar a cidade. A carta intitulou-se "Parnaíba como ela é", e diz o seguinte:


"Mamãe, Parnaíba é uma cidade monarca de grande. De manhãnzinha se alvoroça tanta gente na beira do rio que parece formiga arredor de lagartixa morta e quase tudo é trabaiadô caçando ganho. O mercado é outro despotismo: se arreune mais povo do que na desobriga, quando o padre diz missa na capela dos morros, da dona Chiquinha.

Tudo se vende, de tudo se faz dinheiro: fiquei besta de ispiá gente comprando maxixe, quiabo, limão azedo, folha de joão-gome e inté taiada de girimum. O passadio daqui é bom. Todo dia eu como o pão da cidade com manteiga do reino.

Mamãe, as coisa aqui são muito deferente e adeversa daí. As casa são apregada uma nas outra que nem casa de marimbondo de parede. E é quase tudo de telha e ati-jolada. E tem umas delas calçada e forrada de tauba por riba, que nem gaiola de xexéu e que chama sobrado. Gente rica aqui é em demasia. Inda onte numa loja eu vi uma ruma de dinnheiro de cobre no chão que parecia juá, quando se ajunta mode dá pra bode em chiquêro.

Mamãe, a ingreja faz até sobroço de grande e alta. Cabe dentro dela todos os morador de Barra das Laje, do Bom Princípio, da Fazenda Nova e ainda se adiquere lugar pra mais de cem vivente. O povo daqui tem um cestro muito ingraçado: não diz "ô de casa", não! quando chega nas casa alêia, batem palma como quem estuma cachorro mode acuá tatu em buraco.

Mamãe, a luz daqui é feita num tal de gazômi. Não precisa pavio, nem trucida de algodão mode acender: é só distrocer uma torneira como quem tira cachaça de ancoreta e riscar um fosco que a luz acende biata-mente e tão quilara que faz é gosto! Se o cristão não acender mais que dipressa, ispaia um chêro de cibola podi danada, diz que pru via de um tal de carbureto.

Mamãe, aqui tem um jogo chamado biá, que não hai diabo que intenda, mas porém só joga nele gente de famia: é arredó duma mesa grande, forrada cum pano, como baú de pregaria, e os jogadô sigurando umas vara mode impurrá umas bola que é vê ovo de ema. Quando estão jogando, dê pur visto dois mexedor de farinha num forno de barro, ajeitando os rodo, mode não dismanchar os bejú.

Mamãe, aqui tem também um latejo invisive que é um tal de ci-nema. É só a musga tocar, aparece umas figura de gente, de animal e de rua, tudo prefeito, mesmim como se tivesse vivo e bulino. O cinema é um pano esticado, parecido com vela de embarcação e é a coisa mais bunita e mais encantada que eu já vi.

Mamãe, cheguei ontem da Tutóia. Fui nas barca da Cumpanhia Busse mode trabaiá no vapô inguilês, ganhando dois minrréis por dia e quatro por noite. Na Tutóia a gente vê o mar até onde ele incosta nas parede do céu. As barca sacode agente chega faz dor de is-tambo e vontade de gumitar que nem urubu novo, tudo isso pru via do disassuçêgo do mar.

O vapor inguilês é um pai dégua de grande, maior do que a vasante de fumo do cum-pade Domingo Preto e mais alta do que o pé de tamarina da porta lá de casa. Os purão de botá carga são tão fundo que escurece a vista dos cristão que ispia. O pessoal que mora no vapor são tudo branco rosalgá, ôi azul e os cabelo vermêio.

A fala deles só pudiabo, não hai quem intenda: é uma imbruiada como de priquito em roça de mio novo. São danado por papagai e por cachaça: dão inté ropa de gazimira novinha por um papagai ou por uma garrafa de geribita. Quando os inguilês fala uns cos outro é uma trapaiada direitinha a de tia Damiana, adispois que teve a mulesta do ar.

Mamãe, pr'eu lhe contar tudo direitamente como é esta Parnaíba não hai papé que chegue. Vou acabar pruquê já me dói as buneca dos dedo de eu tanto iscrevê. Sua bença."

A caça e o caçador


Geraldo Borges


Era uma família que gostava muito de comer tatu. O pai era um grande caçador de tatu e morava nas brenhas do Maranhão, nas matas do Norte. Os filhos foram criados comendo tatu. O filho mais velho já ajudava o pai na caça do tatu, juntamente com dois cachorros: o Tá e o Tu, que acuavam o tatu no buraco. Aí pai e filho, cachorro e companhia, cavavam e tiravam o bicho de dentro da toca. Ás vezes mais de um. Banquete: cozido de tatu, era quase todo dia.

A vida continuava. Tatu nascendo, tatu morrendo. Até que um dia o dono da família já bastante velho morreu. Foi enterrado no cemitério da propriedade da família. Aliás, inaugurou o campo santo, com a primeira cova e a primeira cruz.

No dia de visita de cova a família foi a sepultura rezar pela alma do chefe. E viram dois buracos no monte de terra e dois tatus saindo de lá de dentro. Ficaram perplexos, olhando uns para os outros, sem acreditar. Mas, logo, voltaram a si.

Quem primeiro reagiu fui o filho mais velho, que resolveu dar cabo dos dois tatus e levá-los para casa. Nesse mesmo dia a mãe da família preparou um apimentado cozido e fizeram um lauto banquete. Pena o pai não está presente para participar da festa. Mas em espírito ele se encontrava ali oferecendo aos filhos o seu espírito de caçador.

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Geraldo Borges, o piauinauta em órbita do pantanal, nos brinda com este conto mínimo antropofágico.
Pedimos licença da grande Niéde Guidon para a publicação e a ilustração do conto. Mas esta história de tatus, da caça e do caçador, contribui para a preservação da alma humana e não da extinção dos tatus. (Edmar)