quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Alberoni Lemos Filho





O BECO


Alberoni Lemos Filho .

O Beco tem cinco bares, uma sapataria, uma relojoaria, três ou quatro escritórios de representação comercial, duas lojas de passarinhos, um depósito de tomates, outro de frutas e um jornal. O Beco tem comerciantes, cambistas, corretores, meninas de todos os tipos para todos os gostos, cachaceiros, oficiais de justiça, agiotas e mais alguns. O Beco tem mais: tem caloteiros, tem filantes de cigarros e cachaça, jornalistas, operários, o Beco tem tudo – o Beco tem alma, tem vida.


Parece até que o Beco é uma entidade à parte, algo com vida independente, alheio ao drama comum dos mortais. Os dramas do Beco são só deles, sem nada a ver com o que se passa no resto da cidade. Assim também são suas alegrias, compartilhadas por todos, por toda essa irmandade que tem no Beco um segundo lar, ou quase isso - e quantos só tem como lar o próprio Beco?


Tristes dos que não conhecem o Beco. Tristes também daqueles que não conheceram os mais gloriosos dias desse pequeno trecho de rua, época em que reinavam figuras humanas do porte de Juraci, do Pedro Pereira de Sá (que alguns conhecem como Pedro Pombo), da Zelinda e até do Milady.


É bem verdade que ainda há muitos remanescentes. Freqüentadores fieis do Beco ainda aí estão, firmes fregueses do Tião, pioneiros do Beco. Temos Rui Taqui - Ema, o imortal Comandante, o onipresente João Candido, seu Cardoso, o Carrapeta, seu Moura, sem esquecer o Biá, o Jesus, o César, o Pinheiro, o coronel Heitor, também conhecido por Parente, tantos, tantos.


O Beco ainda é bom, embora lhe faltem certos ingredientes: cadê a Osmarina, fonte de intermináveis debates, pivô de fúrias e ciúmes? Sumiu a Osmarina, restam coisas outras que ainda fazem palpitar o Beco. Pois não temos seu Benedito dos tomates, fanático flamenguista? E o seu Sampaio, coração enorme pronto a arrebentar os dentes dos fregueses que abusam de sua paciência? E o Tião, homem de paciência infinita, a suportar bêbados e fiados?

Resta - nos irmãos, muito ainda do Beco.

E mais: os que chegaram agora e se maravilham com a alegria das pessoas do Beco, com o canto de mil e um pássaros que dão mais vida e colorido ao Beco. E bem pertinho, a presença da Justiça, materializada pelo Tribunal, e também o parque das crianças, que é o Parque da Bandeira, onde a inocência, longe de fazer contraste com o ambiente do Beco, dá-lhe mais vida ainda. Entre os que chegaram agora temos seu Eliseu dono do bar que hoje ocupa o precioso espaço da velha boate Senzala, de saudosa memória. Quem mais? Ora, seu Nonato. Tolo como tantos outros simpaticamente dão crédito à velha guarda do Beco.

Puxa. Não há jornal que agüente todas as pessoas do Beco. Imaginem as histórias.
Uma delas repetidas quase todos os dias: o comandante pede ao Tião o crédito de uma cachaça, o que é recusado. Inútil: a cachaça é servida, para nunca dos nunca ser paga.

Há histórias outras, muitas, envolvendo quase todos os nomes do Beco, mesmo aqueles que o abandonaram, como a Osmarina, já citada, Dr. Ribamar, o também doutor Victor Aguiar. Mas restam muitos dos antigos, aos quais se juntaram os novos, como o já citado seu Nonato, misto de quitandeiro e boêmio, e o também citado seu Eliseu, aborrecido com o cheiro de fuçuras deixadas na rua. Outros: a Marlene, simpática garçonete de seu Eliseu: o deputado Nogueira filho, dono do jornal, mas infelizmente ainda não contaminado pelo espírito do Beco: Vanderley Barbosa, já quase diplomado na escola que é o Beco.

Há mais E Menos.

Há mais histórias – histórias de brigas e amor, pintadas de cachaça, e cerveja sinuca e dominó. De menos, a presenças dos que abandonaram o Beco.

Conheça o Beco, irmão. Mas vá devagar, olhando apenas. Não se atreva a pedir fiado logo de saída. Nem olhe para as pessoas do Beco como gente de outro mundo. São pessoas comuns, que só querem viver em paz. E acima de tudo não olhe para o beco com os olhos de turista. O Beco, irmão, é apenas um lugar onde as pessoas são humanas.
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O Piauinauta, vez por outra dá pra topar com essas preciosidades. O Espaço Sideral tem desses mistérios.
Crônica de Alberoni Lemos Filho do arquivo litrário de Geraldo Borges.
Desenho: Alberoni by Arnaldo Albuquerque
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Alberoni foi um dos talentosos jornalistas do Piauí da Geração de 70. Como se pode perceber nesta belíssima crônica, estilo impecável, descrição limabarretiana da urbana Teresina de então. Morreu jovem, vítima de ser avançado no seu tempo. Era um enorme prazer ouvi-lo, mesmo depois da voz enrolada por várias cachaças que nunca, testemunhei, atingiam a lucidez das idéias.
O Beco ficava por trás do Mercado Velho, numa rua em que se vendiam gaiolas e passarinhos. lembro do Bar do Tião, no qual tive um dia desses com Geraldo Borges, ouvindo Alberoni. Mais velho do que eu, na época, era muito parecido com o desenho feito pelo Arnaldo. (Edmar)

10 comentários:

Virgínia Lemos disse...

Conheço o Beco, infelizmente não conheci, de fato, foi o Alberoni. Mas fico feliz por conhecê-lo aos poucos, através da memória dos mais velhos que eu. Memórias que me deixam chaia de inveja e orgulho. Memórias que não permitem que seu nome caia no esquecimento. Memória... ai de mim, que nao me lembro, de fato, meu próprio pai.

Edmar Oliveira disse...

Virginia,
Para mim foi emocionante ler teu comentário. O Alberoni merece a nossa lembrança. O blog tem o interesse de lembrar o século vinte no Piaui. Moro no Rio, mas não consigo sair de minha aldeia. Você teve o pai maravilhoso como muitos daquela geração. Se você me mandar seu e-mail posso lhe comunicar sempre que atualizo o blog.De certa forma você tá ligada a mim.
Beijos
Edmar Oliveira

Virgínia Lemos disse...

vicalemos@yahoo.com.br

Procuro saber um pouco sobre ele através dos amigos que encontro por aí. Tenho algum contato com o Kenard, responsável por grande parte das coisas que sei a repeito do Alberoni. É bom conhecê-lo dessa forma, me deixa saudosa, mas me faz bem.
Obrigada.
Beijos,
Virgínia Lemos

Anônimo disse...

Greets dude!

It is my first time here. I just wanted to say hi!

Anônimo disse...

hiya


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carliane disse...

Oi minha linda !
aki é ha carliane do 1 ano comercio Ifpi...envia ha atividade p/ mim...
bjos
adoro vc virgínia

kaka melo disse...

Virgínia vc é uma pessoa encantadora..gostei muito de vc !
vc é muito simpatica ...adoro seu jeito de ser !
adoro vc minha florsinha...bjim
by: carliane

irene disse...

Agora que conheci esse blog,e espero que mais pessoas o conhecam tambem.E realmente certas coisas nunca hei de conhecer,nao nesse plano...

Anônimo disse...
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