domingo, 5 de abril de 2015

Sombras na esquina de um bar


(Geraldo Borges)

Ontem em me encontrei com Oscar Wilde em uma esquina de minha cidade. Perguntei o que ele estava fazendo por essas bandas. Reconheci que era Oscar Wilde, por causa de seu traje típico, aquele que a gente vê dentro das brochuras de seus livros. Ele me disse que tinha fugido da prisão de Reading. Notei que estava com um livro debaixo do braço, Era o De Profundis e a Balada do Cárcere de Reading.

Oscar Wilde estava pálido, e não parecia mais aquele homem tão conversador e elegante que animava os salões literários  de Londres. Não foi  fácil acreditar que estava conversando com o próprio escritor irlandês. A maioria  dos escritores da língua inglesa  é de origem irlandesa.  Para me garantir que estava conversando com Oscar Wilde lhe perguntei se ele conhecia o conto: o rouxinol e a rosa.

Yes. Yes,  fui eu que o escrevi.

Falei-lhe, então que o rouxinol e a rosa foi um dos primeiros contos que me deslumbrou na minha adolescência, que o seu enredo é doloroso, deixa  a gente muito triste.  Aí comecei a lhe recitar o começo do conto.

Ela disse que dançaria comigo se eu lhe levasse uma rosa vermelha, mas não há nem uma rosa vermelha no meu jardim. O rouxinol ouvindo esta historia  começou a cantar toda a noite  com um espinho cravado no coração até que lhe surgiu do peito ensanguentado uma rosa vermelha.  O estudante  levou-a para a moça, ela não quis  mais. Já tinha outro pretendente.

O estudante jogou a sua flor na lama. Uma carroça, que vinha na mesma direção,   passou por cima.

Oscar Wilde sorriu, amargurado, tirou a sua flor da lapela e me ofereceu. Aceitei-a. Ai ele me perguntou se eu conheci o Retrato de Dorian Gray. Disse que sim. E que o seu enredo me impressionou muito. E que considero o seu romance uma das obras primas da literatura ocidental.  Mas a sua obra que mais mexe comigo é  De Profundis e a Balada do Cárcere de Reading  que me parecem completamente diferente do plano do resto de sua obra.

Sim. Sim. Foi feito num novo período de minha vida, quando eu mergulhei no inferno do cárcere  e conheci outras experiências, outros homens. Na verdade a minha obra anterior é bastante cerebral, feita com inteligência e vaidade; resultado de muita leitura, repleta de artifícios, sem o sangue da realidade, sem o sangue do rouxinol. No Retrato de Dorian Gray eu apenas olhava para mim mesmo, era o meu retrato.
                             
Não precisamos entrar no bar, sentamos em cadeiras  distribuídas  na calçada. E começamos a beber. Foi quando chegou  Lima Barreto, maltrapilho e com a botas sujas de lama, cigarro no bico. Pediu uma dose de parati  e disse como vai Oscar Wilde.


A esta altura eu já estava bêbado e resolvi ir embora. No meu do caminho  lembrei-me que tinha esquecido a flor da lapela do poeta em cima da  nossa mesa. Voltei para pegá-la. Chegando lá   encontrei a  fossilizada no  asfalto junto com tampinhas de cerveja. As portas do bar já estavam fechadas.



2 comentários:

PauloTabaTinga disse...

Q viagem legal!

Anônimo disse...

Eu já imaginei um encontro como o seu, também assim, de repente, numa esquina, só que com o Mario Quintana e ele me dava flores, margaridas. Imaginei tanto, que minha gêmea fez uma foto montagem desse delírio, hum...mas acho que ficaria atordoada, sem saber o que falar...ou o surpreenderia...aí já não sei, só sonhei até aí.
Adorei o seu texto!
Lelê