domingo, 8 de fevereiro de 2015

A guerra da água

(Edmar Oliveira)

Chegamos ao estágio em que o estado representa as corporações, sua elite que orbita as empresas e nada tem a oferecer ao distinto público, que quanto mais periférico habita as cidades, mais sofre com os serviços oferecidos.

Tomemos o caso da água em São Paulo, para a localização do problema, mas vai acontecer no Rio ou em qualquer parte do planeta.

É certo que tivemos uma estiagem grande, prejudicando o nível dos reservatórios e que a população vem aumentando exponencialmente, enquanto a água é ofertada na mesma quantidade. Falhou São Pedro, e não tendo programação alternativa de captação, é certo a seca.

Mas quem vai sofrer com a falta d’água? Não se pode mais esconder que 70 a 80% do consumo de água são destinados ao agronegócio. Produzir soja, carne e outras commodities para exportação tem um custo de lavagem n’água excepcional. Um hectare de soja consome 4,6 milhões de litros de água, por exemplo. Um quilo de carne “custa” 200 litros de água. A indústria fica em torno de 20 a 30% do gasto da água. Para o comércio e os habitantes de uma cidade esse gasto fica em torno de 10%. Portanto não é o banho demorado o culpado pela falta d’água.

Foi criada uma culpa coletiva para que se economize água na residência de cada um. A madame do Morumbi vai ter que desativar uns quatro dos seis banheiros da mansão. A SUV não vai ser lavada toda semana. A piscina não vai ter água trocada com o costume de sempre. Os jardins não podem ser regados com mangueira. Um dia ou dois a água pode ser racionada, mas a caixa d’água da mansão sustenta madame sem que falte água na torneira. Afinal ela tem de economizar, pois a empresa da família não pode parar e o país está numa situação de crise “que essa gente do PT criou”.

O Zé Mané da periferia também tá economizando água. Não lava mais a calçada, não deixa as crianças brincarem com a torneira aberta, baldes e latas guardam um pouco d’água para um vaso sem descarga. Mas mesmo assim o seu chuveiro vai parar de pingar, sua torneira da cozinha deu um nó e a louça suja faz um monte. O calor tá de matar. Se no racionamento do Morumbi a água falta dois dias e volta nos outros, na periferia pinga num dia, quando pinga.

O Zé não sabe o que é agronegócio, não tem empresa, mas é o mais sacrificado na falta d’água. Não é de se espantar se uns pneus forem queimados na rua, que é a única maneira do Zé Mané dizer, pra ser ouvido, que falta alguma coisa. A guerra por água vai começar. E nunca se sabe por que as guerras começam...


______________________
desenho do Gervásio
gráfico do Zé Maria do PSTU, que dessa vez tá certo.

Um comentário:

Antonio Cabral Filho disse...

Parabens Edmar Oliveira. O PIAUINAUTA TA D+ !