domingo, 27 de maio de 2012

A PROFESSORA E A MINHOCA


Luíz Horácio
                         para Maria Lina P.R.A.

Dia de prova. As fileiras de carteiras estão bem alinhadas, ninguém conversa, poucos se mexem, a professora espiona. Detesto esses dias, tenho pavor do silêncio. E quando tem alguém vigiando o silêncio, tudo fica ainda mais sem graça.

Não consigo me concentrar…não gosto de silêncio. Vou jogar meu estojo no chão. Pronto. Agora arrasto a cadeira para afastar. Antes de juntar o estojo derrubo a caneta. Caiu mais longe, preciso levantar. Esbarro no braço da Marina, ela reclama. Todos olham. Risos. Gostei.

A prova é fácil, muito fácil e sem graça como costumam ser as coisas fáceis.

Vou terminar e pedir para ir ao banheiro. No banheiro conversarei comigo mesma. Eu gosto, apesar de às vezes discutir durante um bom tempo.

Não gosto dessa professora, sei que ela me caguetoou ara minha mãe. Não me importo, tanto faz, ela é só uma professora. Não é da minha família, não é minha amiga, nunca nos visitou lá em casa. Não gosta de mim, é claro, ninguém pode gostar de tantos ao mesmo tempo. Nesta sala somos vinte e oito. Também não gosto dela. Ela é só uma professora. Tenho que enfrentá-la do mesmo jeito que enfrento minha dentista. Se bem que lá tem anestesia. Aqui é a seco. Merda! Essa aí, como a grande maioria dos professores o que mais gosta de dizer é: “crianças, por favor, vamos fazer silêncio."

Do mesmo jeito se comportava a professora dela, a professora  da mãe dela também agia dessa maneira. É preciso tomar cuidado com os professores. Eu tomo. Quem me avisou foi meu tio, aquele que é professor e escritor. Ele costuma dizer que professor é alguém  autorizado a ser chato vinte e quatro horas por dia. Todos os dias. Ele disse também que os professores são assassinos, eles matam a criatividade das crianças.

Tenho dez anos, nasci em 08 de junho, nesse tantas coisas mudaram, menos os professores. Como pode evoluir uma criatura que precisa do silêncio? As minhocas evoluiram por acaso?

Gosto de música, toco violão e canto. Dia desses minha mãe me ajudou a falar com o professor, ele queria me ensinar do jeito dele. Mas eu que devo aprender do jeito que eu quero. Agora estamos nos dando bem. Ele me deixa fazer coisas que não estão nas lições. Assim vale a pena, ora!

Bem, vou voltar pra sala. Para entrar vou empurrar a porta com toda força, desse jeito ela se chocará com a parede e “bum”.

Bateu. A professora disse: “nossa Maria, pra que tanta força?”

Olhei e não falei nada, sem desculpas, fiz e tá feito.

Vou dormir? Não consigo. Como dormir no silêncio? E essa turma de mortos momentâneos a minha volta?

Vou perguntar se ela deixa eu escutar meu ipod. “Você trouxe esse aparelhinho de novo? Pode guardar”.

Esses dias tirei zero numa prova e ela chamou minha mãe. Mas tirei zero porque eu quis. Tiro outro a hora que eu bem entender. Então ela chamou minha mãe pra conversar, lá pelas tantas ela disse: “segundo Piaget......”e eu pensei que pena que meu tio não está aqui. Ele diria: Piaget é o caralho!

Professor de criança vive falando em Piaget, um outro gostky não sei o quê. Meu tio disse que uma coisa não pode servir pra todo mundo do mesmo jeito. Mas professor trata todo mundo do mesmo jeito. Piaget, gotsky, vigstki, é o caralho.

Pra mim não basta querer ser professor, a pessoa já nasce professor. Por isso quando chega a hora de dar aula, como essa aí, eles já parecem uns velhinhos cansados. Vou pedir pra ir embora. Quero tocar meu violão e depois ir pra aula de dança. Não sei qual dos dois me agrada mais.

“Tem que esperar sua mãe”.

Merda!

Mas por que ela não recolhe minha prova? Vou desenhar.

“Maria você está riscando sua prova?”

A bruxa quer silêncio de estátua pelo jeito.

Será que olhar pela janela eu posso? Lá tem movimento, mas o barulho não chega aqui, nono andar.

A Roberta terminou a prova dela. A professora é feia, cadê a cintura dela? Ela tem uma papada, parece  uma iguana que vi no zoológico.

Também é um bicho silencioso. Mas é bonito, tem uns verdes lindos. A professora é cinza.

Tenho um olho que é mais caído que o outro, por isso algumas pessoas dizem que sou triste. Posso até parecer, mas por dentro estou sempre alegre. Já o meu tio, o que é escritor, está sempre alegre, mas eu sei que por dentro ele é triste. Só que ele tem motivo pra isso, ele viu a filha dele morrer. Quase nunca ele está em silêncio, fala, fala, fala.... mas também sabe ouvir os outros. Silêncio só nos livros, mas nos dele tem barulho, sempre muita gente, e muita gente falando. Até bicho fala nos livros dele. Num livro dele tem uma personagem que sou eu. Tem o meu nome. Como é que eu sei que sou eu? Ele me disse: ora!

Tenho certeza que se ele fosse meu professor deixaria eu fazer prova ouvindo meu ipod. Mas essa aí.....

Eu tinha pensando na minhoca e agora me dou conta que o professor é um tipo de minhoca, mas uma minhoca perigosa, uma minhoca que quer fazer de todas as crianças minhocas que nem ela.

Vou pegar uma folha na minha mochila...

“Maria, o que você quer? Não pode consultar o material enquanto não entregar a prova.”

Faz de conta que não escutei. Arranquei a folha, fiz barulho, todo mundo olhou. Devolvi a mochila ao chão. Mais barulho.

“Maria, você vai levar um bilhetinho pra sua mãe.”

Vou pedir para o meu tio vir falar com essa bruxa. “Silêncio é o caralho”, ele vai dizer.

Agora vou começar a escrever uma história: A professora e a minhoca. A professora minhoca fica melhor? Mas essa aí é gorda.

Em casa eu decido.

Preciso telefonar pro meu tio. Será que ele virá pro meu aniversário?

Meu outro tio era professor, de educação física, mas quando eu nasci ele já tinha desistido. Ainda bem.  Tomara que o meu tio escritor seja sempre só escritor. Professor é um tipo muito triste, professor só gosta de liberdade da boca pra fora. Meu tio, o escritor, vive falando em liberdade. Até nos livros dele.

“Maria, o que tanto você escreve?”

Não vou falar. Ela pediu silêncio.

“Maria, me dá esse papel.”

Mas nem a pau. Guardei na mochila.

Agora vou embora.

“Onde você vai Maria?”

-Vou pra casa esperar meu tio. Cansei de não fazer nada, nesse tempo que fiquei parada, quieta, nesse tempo todo, será que dá pra saber a quantidade de terra que uma minhoca moveu? Uma minhoca.

-Maria...Maria...volte...o bilhete...o bilhete para sua mãe. Atenção crianças, olhem pra cá:  aqueles que já terminaram a nossa provinha cruzem os braços e permaneçam em silêncio.


4 comentários:

Anônimo disse...

Maravilhoso!

PauloTabaTinga disse...

muito criativo e barrulento.

Victor disse...

Esse tio, subvertendo nosso sistema educacional. Muito bom!

Ane disse...

Muuito Bom!