domingo, 24 de abril de 2011

Minha leitura de von Meduna

Geraldo Borges

"É muito bom tornar um leitor escritor de nossas próprias escrituras" – Wilson Bueno.
            O livro de Edmar Oliveira – A Incrível História  Von Meduna e a Filha do Sol do Equador, confirma que o processo de leitura  não é apenas  recreativo, reflexivo, é também criativo, e faz do leitor atento um autor. Por isso mesmo vou  falar de como a  leitura de seu livro me impressionou. Primeiro vem a emoção. Depois nos chega à reflexão. A minha abordagem é apenas lúdica, impressionista. Quero falar do profundo efeito e afeto que o livro me suscitou Recordações. Familiaridade, como se eu fosse um personagem, um  figurante, que, menino, pelas ruas esburacadas e cheias de piçarra da velha Teresina   viu muitas coisas que o Edmar Oliveira também viu. Pois ele  diz no seu livro:  “ descubro,absolutamente surpreso, que vou me misturando nessa história, assumindo  além do papel de narrador, um personagem que na primeira pessoa fala dos acontecimentos presentes e passados.”

 O livro me deu a  impressão que eu estava ouvindo, em certos momentos,  uma musica de câmara, em outro, uma alucinante opera, uma verdadeira loucura.Volver os olhos por suas paginas era como se tivesse fazendo uma viagem a  cidade de Teresina, andando pelo bairro do Porenqanto, que ficou, por enquanto,  toda a vida,  quando  ia ser apenas um desvio, chegando até a colina ou penhasco, onde fica o prédio do sanatório Meduna. Aquele prédio,  me chamava muita atenção, pois estava ligado  a figura do doutor Clidenor de Freitas Santos, que era uma espécie de ícone, lá em casa, pelo fato de ter curado o meu pai de um esgotamento nervoso, fazendo com que ele voltasse ao seu trabalho, nos idos de 1943,ainda no Asilo Areolino de Abreu, que ficava no Campo de Marte.

 Meu pai ficou muito grato ao  seu médico. E toda vez que vinha a Teresina trazia-lhe de presente um capão bem cevado. Havia dessas singelezas naquele tempo, trocas de amabilidade e gratidão, entre médico e paciente, quando o lucro ainda não afetava a medicina, quer dizer, os médicos. Clidenor de Freitas Santos, que colecionava edições de Don Quixote  está tão bem inserido no von Meduna que se constitui  o personagem principal, com  começo meio e fim. Pois ele encarna o próprio nome do livro. A carta que ele escreve aos seus filhos é um a apelo à esperança e que pode ser renovado

 Outras lembranças me visitaram durante a leitura de von Meduna:  a do desconhecido poeta Deusdete Gomes Pinho,  tipografo, meu amigo, que foi internado  no Asilo Areolino de Abreu, e lá mesmo, depois de muito sofrimento, faleceu, o Lucimar Ochoa, pintor, parente do Albert Piauí, também  morreu no Asilo. Algumas vezes  visitei o meu primo Tersandro, e, também, primo do Edmar  Oliveira,  no tempo em que eu era menino, e fiquei impressionado com o nosso encontro, até porque parecia mais à vontade do que eu, talvez rindo da minha normalidade.

Em Teresina, em quase todos os bairros  havia um louco; qual a família que não tem o seu louco descendentes do sangue de Oeiras?

Quando cheguei a Teresina vindo do Maranhão para estudar, na idade de oito anos, minha mãe me apresentou a um tio. Depois de me observar um pouco, disse: este aí é doido manso. Talvez estivesse certo. A manada está dividida em loucos mansos e loucos agitados: uns atrás dos muros, outros  do lado de fora.

            O livro de Edmar Oliveira ressuscita fantasmas e aviva  urgentes problemas sociais  concernente a saúde, e que são rabos de lagartixas,  frases de Lampadusa, mas isto não invalida a vontade de continuar em frente, sempre acenando para o possível.

O que eu pude observar na minha leitura do seu livro é que, o mesmo, se bifurca em duas  vertentes. A primeira se expressa de forma dissertativa,  um relatório técnico, com nomes científicos, mas tudo bem explicado. A segunda vertente é narrativa, epocal,  ambas correm paralelas, mas, às vezes, se encontram. Nesta última vertente, Edmar Oliveira  se expressa mais como poeta do que como médico.  Se bem que, médico, poeta e louco, todos nos somos um pouco.

            A minha  leitura de von Meduna , em  parte, foi uma experiência de ficção , um romance  repleto de fantasmas.Pois todo mundo que morre, e entra para a história, vira ficção. Nicinha com sua capacidade de estar sempre alegre, e enfeitada. Avião que representava as fitas  que ele assistia no Teatro e no Rex, e o Bibelô, que, se travestia em uma roupa de mulher, com  a singeleza de um menino que estivesse pagando uma promessa.Ficaram na rua; eram doidos mansos,  com suas almas encantadas;  simplesmente apêndice, como diz bem Edmar Oliveira.

                        O livro von Meduna me impressionou e me deleitou, não apenas pela sua mensagem de esperança, mas, sobretudo, pelo seu toque poético ao evocar as lembranças da  terra querida, filha do sol do Equador Quanto às reflexões sobre o livro,  é o que não vai faltar, por parte, principalmente , dos leitores mais ligados ao problema da psiquiatria. Pois este não é um livro para um só publico, como bem observou a autora do prefácio.

A Mídia e o Medo

Edmar Oliveira


Quando estive em Teresina da última vez reparei que um fenômeno, que já vinha acontecendo de tempos antes, agora está exacerbado. Os prédios se empinando no rumo das nuvens, todo mundo querendo morar atrepado, desvalorização das casas de rua, com os muros ficando mais alto, escondendo as bonitas residências de antes. E as cercas elétricas estendidas no alto dos muros lembrando presídios e campos de concentração. E um medo de assalto, um medo dos mais pobres e pretos muito maior que antigamente.

E, assunto de todos, o aumento da violência na cidade. O medo das pessoas bem maior do que o medo que se tem no Rio de Janeiro. E a pergunta insistente de como é que alguém pode morar no Rio de Janeiro com a violência transmitida pela televisão. Fiquei encasquetado com aquilo.

E matutei aqui comigo: primeiro a televisão tirou de Teresina as cadeiras na calçada à noitinha, quando se ficava a esperar “o vento que vinha de Parnaíba”, numa prosa com os vizinhos. Eu vi essa passagem. Quando a televisão transmitiu a copa de 70 foi com uma imagem trazida do Ceará, que mais chuviscava do que se viam os jogadores correndo atrás da bola. Depois o sonho do Valter Alencar trazendo a TV na canção da Wanderléia: “vem aí a TV/Rádio Club pra você” (alguém lembra aí da música?). Aí as cadeiras saíram das calçadas para prestar atenção nas novelas da TV. Que modelou os costumes, o modo de vestir de todo mundo. A jaqueta Lee fez moda num sol de quarenta graus.

Agora a TV diz todo dia dos assaltos e da violência do Rio. Claro que tem lugares violentos. Toda cidade grande tem. Mas tem muitos lugares em que se pode viver em paz com uma taxa de violência aceitável. No Rio, na Cidade do México, em Tóquio. Não em Teresina. Além de acharem que eu vivo entre rajadas de tiros e assaltos a cada esquina, acham também que essa violência da mídia chegou a Teresina. E deve ter chegado mesmo, mas não em todo lugar. A mídia não ensina direito a geografia e muitos me ligaram para saber como eu estava sobrevivendo às enchentes que aconteciam na Região Serrana a uns 70 ou 100 quilômetros de distância da minha casa. Tipo em Altos e Campo Maior para quem mora em Teresina. Mas a violência de Teresina, dizem, está em toda parte. Andei como de costume e não a encontrei. Sorte minha.

Posso estar errado. A violência chegou a Teresina, como chega a qualquer cidade que cresce assustadoramente, tirando os moradores nativos do lugar. Quando todo mundo se conhece se rouba galinhas. Quando ninguém se conhece a violência campeia. Mas não em toda parte.

Queria estar errado. Mas acho que a mídia ajuda a disseminar um medo sem limites e, geralmente, um medo dos pobres, dos pretos, dos desvalidos...

______________

Foto da Ponte Estaiada contrastando com o Morro do Urubú (agora eufemisticamente rebatizado de Morro da Esperança) de Paulo Tabatinga.
Foto de cadeiras na calçada, em Oeiras, de Moisés Oliveira Filho.

von Meduna

von Meduna já pode ser encontrado em todo o país:
nas Livrarias SARAIVA e SICILIANO
encomende já o seu.


Também pode ser encontrado

Rio de Janeiro:
LIVRARIA GALÁXIA
Rua México, 31 loja A (em frente ao Consulado Americano)
Centro
Tel: 21-2240-0926

São Paulo:
PARA TODOS Distribuidora e Livraria
Rua Nossa Senhora do Livramento, 4
Pq Monteiro Soares
Tel: 11-2507-4749

Teresina:
TOCCATA Livraria e CDs
Rua Angélica, 1464
Jóquei
Tel: 086-3233-5181


Brasília:
Lançamento na Semana do Piauí, em breve

Pode ser adquirido com o autor por e-mail:
edmardasoliveiras@gmail.com
comprovante de depósito bancário (R$ 35,00 - frete incluso)
banco 001
agência 0101-5
conta corrente 45604-7

Edmar Oliveira
Tel 21-8884-4284
End: Rua Pinheiro Machado, 25 Apto. 602
Laranjeiras - Rio de Janeiro - RJ 

verso lívido 2

ROMÂNTICA LOUCURA

dei de buscar você
em toda janela aberta
dei de chamar por você
em plena rua deserta

procurei por você
numa estação vazia
e pude enxergar você
onde você não havia

(Climério Ferreira)

circunstâncias

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Graça Vilhena
 
 
a mulher grávida tece seu casulo
e caminha entre as fogueiras
que aquecem os renegados
 
homens que um dia
envoltos em silêncios
foram também príncipes esperados
 
a mulher grávida e seu fruto de carne
predestinadamente sujo
de sua própria vida

9.2


Lilia Diniz

Entre nós um viaduto
e meu desejo na contramão

Avanço o farol intermitente dos teus olhos
para cair na marginal
das tuas vias de acesso

Me estilhaço no precipício do teu sorriso
sigo sem rumo
sem direção
                   no acostamento do teu beijo

romance

E cruzam-se as linhas
no fino tear do destino
Tuas mãos nas minhas
(Guilherme de Almeida)

_____________________
o Cinéas brinda seus amigos de caixa postal, toda semana, com uma poesia escolhida. Essa é dez...

hoje tem goiabada


Hoje tem goiabada, tem sim senhor!

Hoje tem marmelada, tem sim senhor!

E o palhaço, o que é?

É ladrão de mulher!



                          E LADRÃO DE VOTO, TAMBÉM !



      Não no sentido de roubar alguém, mas, sim, no sentido de “tirar” de algum candidato concorrente e eleger-se com votos legítimos. Votos de eleitores, legalmente conquistados. Insignificantes 1,3 milhões de votos...

      Ah! Tem muita gente que votou de sacanagem, votou no “palhaço” de gozação, votou de zoação, esculhambou com a eleição. Porque não tinha nenhum candidato para votar, ou nenhum deles prestava para ser votado? Ou, pra que votar?    

      Consideremos este fato, vamos lá (acho mesmo que o voto nem deveria ser obrigatório, mas isso é outra história):

      E que fosse um voto “jogado fora”, argumento que até mereceria ser analisado. Tudo bem, por que razão não escolheria esse eleitor outro candidato para jogar o voto fora? Porque escolheu “o palhaço”? E por quê não votou em branco, ou não anulou o seu voto? 

      O ato de depositar tal voto na urna passa a adquirir outra dimensão, creio. Estamos diante de um fato interessante: pode-se reverter a expectativa da intenção desse determinado voto e contra argumentar: o palhaço MERECEU, isso sim, o voto do eleitor.

      Esse voto pode ser considerado um voto de protesto, por que não? Não sabemos que existem muitos deputados que ludibriaram descaradamente o eleitor, locupletando-se com todo o tipo de falcatrua que o mau uso do cargo pode lhes proporcionar?

     Elegendo não o cidadão profissional palhaço (ou humorista), mas, sim, “um palhaço” não estarão xingando, menosprezando ou mandando um recado, “vocês se merecem”, para certos parlamentares? Ou até mesmo para o Congresso por inteiro, já que essa mensagem poderá ter, no seu conteúdo, o todo, entendido como completamente contaminado?   

     Achincalhe, deboche, desprezo. Os “probos” só se prestaram ao papel de ridicularizá-lo, de humilhá-lo, de reduzí-lo à mais torpe das criaturas por ter “ousado”, vejam bem, ousado, eleger-se como um representante do povo brasileiro no Congresso Nacional.  O nosso molusco presidente sofreu no lombo, durante os 8 anos do seu mandato, esse pesado despeito, ou melhor, esse execrável desrespeito, massacrado que foi pelas elites e pelos veículos midiáticos a serviço dessa mesma casta.      

     Referendando aqui a posse do Senhor FRANCISCO EVERALDO OLIVEIRA  SILVA, como cristalina e legítima, espero estar contribuindo com a parte que me é legada neste momento, reafirmar e respeitar sempre o voto do eleitor, em suma, do povo. Respeito à Constituição.

     Não conheço pessoalmente o Sr. Tiririca e aqui, nesse prosaico artiguinho de minha lavra, não me presto a defender  sua nova missão como deputado. Não se trata disso.

      Bem claro, desejo, que aqui fique o seguinte: estou defendendo , sim, o direito desse cidadão candidatar-se, ou de qualquer outro cidadão brasileiro, receber votos de quem quer que seja, e, como consequência, tendo recebido o número de votos necessários para tal, obviamente, eleger-se deputado federal, no caso do Palhaço Tiririca, por São Paulo. Simples assim.

      Quem sabe, no dia em que os “iluminados” conseguirem maioria bem folgada no parlamento, para jamais acontecer um descalabro deste jaez, ou seja, termos que aturar durante 8 longos anos um despreparado e analfabeto presidente, além de tudo um pau-de-arara “Silva” (sobrenomezinho vulgar, esse, não? Ainda se fosse um “Cardoso”, ou um “Franco”, um “Serra” ou um “de Mello”...), ainda temos que engolir um palhaço, também um “Silva” Tiririca (pasmem, um outro pau-de-arara! Argh!), consiga-se mudar a Constituição visando as eleições a cargos eletivos, principalmente ao de Presidente da República?

     De que maneira? Vejamos:

     No Legislativo e no Executivo seriam admitidos candidatos por Concurso Público? Que tal? Heim? Heim? Não seria Fantástico? Aí sim, teríamos digníssimos e realmente preparados representantes, uma linhagem à altura de cargos de tamanha importância, não é mesmo?

     Sim, e esse Concurso Público teria uma competente e irreprochável banca examinadora, composta por grandes nomes, com todos os poderes para selecionar e designar os melhores candidatos para exercer os respectivos cargos. E como seria composta essa egrégia banca?

      Ora, podemos começar pelos ex-presidentes: FHC, Itamar Franco, Collor de Melo, Sarney, Serra. O quê? O Serra não foi presidente? Ah! Mas devia! Ele era, com certeza, o MAIS PREPARADO! Ou não era? Outro membro da banca deveria ser um militar de muitas medalhas e muitas estrelas, de preferência que não fosse tão burro (diziam) como o Costa e Silva. E pena que o Gal. Sílvio Frota já morreu ... e daí? O Bolsonaro está vivinho da Silva e mandando uma brasa, mora! Chama ele!

     Como representante dos jornalistas a parada é duríssima, quem convidar?

Seria o Dr. Merval Pereira, jornalista premiado nos EUA, competentíssimo e imparcial? O sóbrio William Waack, trazer o Diogo Mainardi de volta? O portento Alexandre Garcia? O Magnoli, o Márcio Aith, representando a ilibada revista “Veja”?   

      Esqueci das mulheres, peço perdão, minhas queridas... A Cantanhede? A Mônica Bérgamo, ou a Regina Duarte? A Maitê Proença? Pode ser, talvez, a Dora Kramer? O Boris Casoy, O Joelmir Beting? Ih! Que distração a minha ... Peço mil desculpas! Coloquei esses dois últimos no rol indevido (no meio das meninas) Ui!... 

     E que tal convidarmos também o Itagiba, um césar ou um rodriguinho maia, ou outro dessa laia, quem sabe, convocar um legítimo representante da mais pura raça brasileira como os ‘borhausens’? O Demóstenes Torres, um heráclito fortes, ou aquele parlamentar que queria dar porrada no Lula? Enfim, tem muita gente boa, de ilibados dotes morais, para compor a mesa, não dá para mencionar todos, infelizmente.

     Ah! Para atuar como primeiro-secretário designaríamos o provecto Jabour, como segundo-secretário, vejamos, que dúvida cruel, meu Deus! A Lúcia Hipólito ou a Miriam Leitão? Sim, mas como representante do Judiciário ninguém melhor do que Ele! O Magnânimo! Estou me referindo ao Gilmar Mendes, é claro! 2 HC’s em menos de 48 horas, para o Dantas! Vai para o trono, ou não vai? Aliás, por falar em trono, este probo dos probos deveria era presidir a mesa, não acham? Ninguém chega aos seus pés, digo, aos seus sacrossantos sapatos! Amém!

     Desrespeitar as urnas e os eleitos é argumento de quem quer eleger governos para representar 20 milhões de brasileiros, apenas. O Brasil chegará muito breve a 200 milhões de habitantes, podendo ter, rapidamente, mais de 150 milhões de eleitores. Hoje, segundo o portal da Justiça Eleitoral, somos 133.249.485 cidadãos aptos para votar.  Os votos computados, tanto para o executivo como para o legislativo, servirão para compor um governo para todos, e não para uma minoria, como querem alguns privilegiados.

     Tiririca pode se sair bem, como pode se sair mal, ou muito mal. Pode se aproveitar da corrupção, pode ser lobista de interesses escusos, pode receber propina dos contumazes canalhas que rondam Brasília, pode exercer o seu mandato exclusivamente em causa própria, enfim pode, como tantos outros parlamentares (podem e agem dessa forma hedionda), muitos até bastante conhecidos. Claro que pode.

     Ou não. A minha questão não é absolutamente essa.

     Se quisermos, por outro lado, analisar o aspecto da necessária e urgente reforma política e eleitoral, dos ganhos dos parlamentares, da representatividade dos partidos, dos fichas-sujas, salários  e mordomias dessa gente, quantidade e salários de assessores e “aspones”, apartamentos de luxo em áreas nobres de Brasília, prestação real de gastos, respeito com o erário público, o troca-troca por mera conveniência das legendas, as coligações espúrias, do financiamento de campanhas, caixa dois, do voto distrital ou distrital-misto, ou até mesmo do voto obrigatório (é praticamente impossível, infelizmente), este sim, é um debate importantíssimo (e assaz acalorado).

      A eleição do palhaço Tiririca ou de outro qualquer palhaço, melhor dizendo, parlamentar, não é o principal foco.  Eles são apenas coadjuvantes. Poderão estar representando uma peça num palco, ou se digladiando numa arena, ou fazendo graça num picadeiro, como queiram, exclusivamente reservados para aqueles que foram colocados lá pelo voto, sobretudo por causa disso.

     Exigir que cada parlamentar cumpra o seu verdadeiro papel, cobrar, fiscalizar, protestar, cada vez mais pensar em construir um Brasil mais digno para todos os seus filhos, compete a nós, é nobre tarefa de eleitor-cidadão consciente.

     E, depois, minha gente, pensa bem... Há quem possa odiar o Tiririca, eu entendo.  Mas ter que aturar o relinchar de um pangaré bolsonaro não é muito pior?...

     Ora bolas, querem saber? Deixem o pobre do Tiririca em paz! Dediquem-se a uma causa mais “nobre”: lançar vitupérios sobre os tais 300 picaretas lá do congresso!...

(Luiz Inácio falou/Luiz Inácio avisou/São 300 picaretas com anel de doutor)



                                                                                                        1000TON

       


malabarismo

Dom, que...


Ana Cecília Salis


Descobriu que
Dulcinéia era uma invenção...

Que os Dragões eram moinhos...



Que Sancho... Jamais foi seu amigo.



E Dom, se viu normal
Mente só...

Um Dom, que virou Quixote
Xote
Ote
Te

E...

Morreu...

-HISTÓRIA DA LITERATURA. DA CARTA DE CAMINHA AOS CONTEMPORÂNEOS - LIVRO DE CABECEIRA

Luiz Horácio


Todos sabem da existência das inúmeras maneiras de se contar uma história. Factual ou ficcional, pouco importa, ambas permitem a adição e subtração de elementos. Significativos ou não, dependerá de quem receber a história.

Exemplo atual: História da literatura brasileira. Da carta de Caminha aos contemporâneos. Natural a estranheza de um leitor acadêmico frente ao pouco didático livro de Carlos Nejar. Então fujamos da academia, do âmbito universitário, façamos uma incursão pelo ensino médio, talvez a estranheza se torne ainda maior, visto que Carlos Nejar dispensa maior atenção aos autores em detrimentos das escolas a que pertencem.

Carlos Nejar escreveu a sua história da literatura brasileira e ao coro dos descontentes aumentado pela presença da horda de invejosos não faltará lacuna por onde poderão expressar suas insatisfações.

Comecemos pelos saudosistas ou conservadores, aqueles que preferem a história deste ou daquele outro autor,  a de Afrânio Coutinho,   a de Antônio Candido  mais centrada na história da formação do Brasil, a hsitória de Massaud Moisés e seu didatismo que ainda acompanha e entedia nossos estudantes, sem esquecer a também didática e convencional história de Alfredo Bósi, e ainda a subestimada, porém elogiável, História da Literatura Brasileira: do descobrimento aos dias atuais, de Luciana Stegagno Picchio. Entendê-las assim ou assado é uma questão de recepção da obra, e muitas vezes de necessidade daquele que a buscou, não vai aqui juízo de valor, visto que todas Histórias da literatura brasileira têm sua importância, por mais que encontremos lacunas aqui ou ali. E elas sempre existirão.

História da literatura brasileira. Da carta de Caminha aos contemporâneos, escapa ao modelo do gênero, estava na hora.

E o historiador, cita o filósofo Richard Rorty: “A literatura não faz progresso por tornar-se mais rigorosa, porém, por tornar-se mais criativa”

Nejar privilegia os escritores, escolas em segundo plano, emite juizos e foge a uma norma vigente em seu território natal, separa, segundo sua percepção, o joio do trigo. Reside aí um dos aspectos a comprovar a identidade dessa obra, a presença da opinião, do ponto de vista de quem está dentro desse tempo, de quem colaborou para a construção desse tempo. Assim o autor consegue avaliar o peso da parte que lhe tocou e certas filigranas que alguns colegas utilizaram e hoje se vangloriam da luxuosa colaboração. Colaboração no mais das vezes supervalorizada por nós resenhistas supostos conhecedores e críticos da obras e do tempo. Carlos Nejar dá justos puxões de orelha em muitos de seus colegas, mas o maior, o mais dolorido coube a nós, os críticos, os que deveriam separar o joio do trigo. E separamos, geralmente preferimos o joio. Infelizmente para a literatura, que Nejar tanto respeita, ama e homenageia de forma jamais vista por estas plagas.

O autor adverte: “Não existe imparcialidade: existe julgamento, em que os fatores internos ou externos influem, ou vice-versa.”



O leitor perceberá ao longo das 1018 páginas a doce severidade de um autor, perceberá não estar diante do “livro das boas intenções”, da ata de uma ação entre amigos; exemplo, ao discorrer sobre a obra de  Ariano Suassuna: “Sim, essa prosa heráldica é nevoenta e esgota a possível razão do pachorrento leitor.E o mais curioso é como um autor que defende as origens populares da cultura faz dessas origens tamanho emaranhado de miragens à cata do simbólico e monárquico, ou de humosas águas medievais, ou do turbilhão de sonhos em torno do Rei  S. Sebastião, ou do posterior advento de Sinésio, o Alumioso.Não, não há claridade no delírio.Embora haja certo delírio na claridade.”

O leitor da História, de Nejar, encontrará várias outras  características identitárias ao longo da obra. Uma delas é bastante  significativas  por abordar os escritores canônicos e  também trazer à luz alguns  escritores esquecidos como o poeta gaúcho Carlos Heitor Saldanha, relegado a um segundo plano devido a notoriedade do contemporâneo Mario Quintana. Enquanto este mantinha  a coluna semanal Caderno H no jornal Correio do Povo,o que garantia a visibilidade, sem compromisso social, àquele se mantinha solitário e produzindo uma poesia de cunho social. De seu poema Galerias escuras, retrato de sua preocupação com os trabalhadores de Minas do Butiá e São Jerônimo, Nejar destaca o fragmento; “Te levanta, Severiano! Façam luz nas galerias!/ E o carro de Severiano rolava como um trovão.”

Diz Nejar, na introdução de sua História, “a prosa é o voo da arte”, e seguindo essa  prosa cativante o leitor se embrenhará em medo pelas veredas de nossa história literária. Obra de referência de nossa literatura embora os protestos oriundos de todos os quadrantes reclamando que fulano recebeu espaço maior que sicrano, mas cá entre nós, o que uma obra dessas deve suscitar de inveja!

___________________________________________
Luíz Horácio, escritor, autor de Pássaros grandes não cantam, ed. Global, entre outros.


Elogio à Preguiça


Juvenal Antunes

Bendita sejas tu, Preguiça amada,
o consentes que eu me ocupe em nada!

Mas queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras,
ei de dizer, em versos, quatro asneiras.

Não permuto por toda a humana ciência
Esta minha honestíssima indolência.

Lá esta, na Bíblia, esta doutrina sã:
-Não te importes com o dia de amanhã.

Para mim, já é grande sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício.

Ó sábios , daí à luz um novo invento:
A nutrição ser feita pelo vento!

Todo trabalho humano, em que se encerra?
Em na paz, preparar a luta, a guerra!

Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões!

Juristas, que queimais vossas pestanas,
Tudo que legislais dá em pantanas.

Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas...

Cresce o teu filho? É belo? É forte? É loiro?
- Mas uma rês votada ao matadouro! ...

Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz,

Que arda, depressa , a colossal fogueira
E morra assada, a humanidade inteira!

Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar, fosse indolente?

Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?

Queres riquezas, glórias e poder? ...
Para que, se amanhã tens de morrer?

Qual mais feliz? O mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro,

Ou seus antepassados que, selvagens,
Viviam, livremente, nas pastagens?

Do Trabalho por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas!

Talvez o sejam mais, vivendo em larvas,
As preguiçosas, pálidas cigarras!

Ó Laura, tu te queixas que eu, farcista,
Ontem faltei, à hora da entrevista,

E, que ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor - por outro amor...

Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal.

Que me não faças mais essa injustiça! ...
Se ontem não fui te ver - foi por preguiça.

Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir... sonhar ...


_____________________________
 Juvenal Antunes nasceu no Ceará-Mirim em 1883 e morreu em 1941, em Manaus. Foi personagem da Mini-série Global "Amazônia", de Gloria Peres.
Juvenal Antunes, o poeta de bronze do Acre. Ele foi homenageado com uma estátua de bronze (Igual à do F. Pessoa, à mesinha de bar...). Nascido no Ceará foi para o Acre ser Promotor de Justiça , mas o negócio dele era mesmo a boemia. A seu respeito consta que vivia metido num robe, feliz da vida, na porta do hotel Madrid, onde morava, em Rio Branco. Um boêmio inveterado, sempre bebendo cerveja, fazendo versos e proclamando seu amor à LAURA, uma mulher casada. E dizem as más línguas, que ele não abandonava o hotel nem pra receber o ordenado, o ordenado é que vinha à suas mãos por /exercícios findos/!
(Mas a foto acima deu origem a estátua ao lado)


Este poema que lhe trouxe a fama definitiva.
 
Enviado por e-mail ao Piauinauta por Roxane.

Sedução

Juarez Motenegro


Amei-a como pude!... Por critério,
deixei-me às soltas para as fantasias,
ao balouço das minhas poesias,
aos encantos fulgentes do sidéreo.

Inflado pelo tom das sinfonias,
senti-me livre, lépido e etéreo...
as letras levitavam do sumério,
assim as notas para as melodias...

Agora sei... Apraz-me desvendá-lo:
sortilégio do sósia, e seu regalo –
a mandingueira Dama das Camélias!

Fui seduzido!... A sedução é trama!
Só a mulher seduz quando se ama...
Os homens cantam loas às Amélias!

pauta


Eu queria fazer um poema
assim métrico,
tenso como um fio elétrico
para que todas as manhãs
os pássaros viessem pousar e cantar.
Eu queria fazer uma música
na pauta tensa da rua,
para , todas as noites, a lua
tocar nela e rebrilhar.
                   *
(José Nazareno Batista da Rocha - Naeno)
_________________
enviado por Cinéas por e-mail

A Lenda do Beijo



O cine era o Olímpia, em Teresina.
Década de 1930. Eu menino.
Filme mudo, preto e branco, exibido durante a Semana Santa:
"Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo".
Uma das músicas que tocavam na vitrola, fora da trilha:

A Lenda do Beijo (de Reveriano Soutullo & Vert)

_______________________
e-mail de José Tabatinga para Paulo. Mas a música, José, andou pelos anos 40, 50 e chegou aos meus ouvidos nos anos 60. No Teatro 4 de Setembro ou no Rex, no mesmo filme mudo da Paixão de Cristo...

domingo, 10 de abril de 2011

Tiros em Realengo

Edmar Oliveira

A globalização fez ecoar os tiros de Colombine em Realengo. Um comportamento que não era da nossa tradição alcançou o subúrbio carioca vitimando
crianças inocentes nas salas de aula. Imitação da loucura americana que se repete de tempos em tempos. Aqui pouco importa se estamos falando de um psicopata, um psicótico, um traumatizado. Wellington destilou seu ódio aprendendo a habilidade de manejar armas, que um malfadado estatuto do desarmamento deixa circular. Fabricamos e exportamos armas que voltam pela fronteira em contrabando para ceifar vidas na violência nossa de cada dia. E uma arma, comprada legalmente por um morador da zona sul foi parar nas mãos de Wellington, depois de ter sido roubada. As armas sempre vão encontrar as mãos do criminoso. Mas esse inexplicável comportamento monstruoso nos pegou de surpresa.



Ninguém falava com Wellington. Nem se falava dele. Era um invisível na sua vida imperceptível, sem amigos, sem família, torturado pela lembrança da mãe que o deixara cedo. Premeditou sua ação. Ninguém falava com ele ou dele. Não existia. Ensimesmado dentro de um computador pesquisava sua ação. Não faltam sites de incentivo à violência. Preparou a sua atuação monstruosa.


Numa manhã, que escolheu como a que marcaria com sangue de inocentes a sua insana vingança contra o mundo, acordou cedo. Com duas armas e bastante munição numa sacola saiu da distante Sepetiba para Realengo. Entrou tranquilamente na escola. Ninguém falava com ele. Era invisível. Só uma professora antiga lembrava-se dele, mas pediu que a aguardasse. Beijou-a na testa e saiu. Subiu as escadas para as salas onde estudara no passado. O seu ódio, acumulado no tempo, misturou as crianças do presente com a criança que fora no passado. Virou um monstro no ódio incontido e atirou, com a firme disposição de matar. Recarregou a arma com perícia e atirou por um tempo infinito de quinze minutos. A fera abatia inocentes indefesos. Nossas crianças que procuravam o futuro na escola ficaram sem ele na ação injustificável de um monstro assassino. Um policial pensou ter detido sua sanha homicida ferindo-o no abdômen. Ainda teve tempo de cometer sua imolação suicida com um tiro na cabeça para que sua carta fosse lida. A carta anunciava que estaria morto. Sua atuação para a mídia não podia falhar no planejado. O invisível se tornou visível.


E ele preparou a sua visibilidade dialogando com a mídia. Ninguém falava com ele, ele se sentia invisível, mas sabia que a mídia, ansiosa por notícias mórbidas, o tornaria visível. Premeditou sua ação para aparecer nos jornais, na televisão que passava imagens quase em tempo real. Ele sabia que a mídia o faria aparecer. O monstro sanguinário virou o personagem principal do dia, ofuscando até um novo terremoto no Japão. Esse terremoto de sangue era mais vendável. E Wellington sabia disso.


Não sem razão, Cho Seung-hui, o homicida do massacre de Virginia Tech, há quase quatro anos atrás, deixou um vídeo gravado, que foi destaque nas TVs, com uma frase, que os comentaristas de então acharam enigmática: “vocês me levaram a fazer isso”.


Wellington atuou, de forma monstruosa, para a mídia. Sabia que ela o tornaria visível. Colombine é aqui, assim como o Haiti. A globalização também é trágica...

von Meduna

von Meduna já pode ser encontrado nos seguintes endereços:

Rio de Janeiro:
LIVRARIA GALÁXIA
Rua México, 31 loja A (em frente ao Consulado Americano)
Centro
Tel: 21-2240-0926

São Paulo:
PARA TODOS Distribuidora e Livraria
Rua Nossa Senhora do Livramento, 4
Pq Monteiro Soares
Tel: 11-2507-4749

Teresina:
TOCCATA Livraria e CDs
Rua Angélica, 1464
Jóquei
Tel: 086-3233-5181

Natal:
Lançamento na Livraria Siciliano dia 15 de abril

Brasília:
Lançamento na Semana do Piauí, em breve

Pode ser adquirido com o autor por e-mail:
edmardasoliveiras@gmail.com
comprovante de depósito bancário (R$ 35,00 - frete incluso)
banco 001
agência 0101-5
conta corrente 45604-7

Edmar Oliveira
Tel 21-8884-4284
End: Rua Pinheiro Machado, 25 Apto. 602
Laranjeiras - Rio de Janeiro - RJ

o desenho de um Guarda-Chuvas

Geraldo Borges

O guarda–chuva que eu estou contemplando não está completamente fechado. Daqui de cima da minha cama vejo que o seu tecido não está esticado, nem bem enrolado em torno das suas hastes. Está meio amarfanhado. No primeiro olhar; achei-o parecido com um corvo, o seu cabo encurvado, adunco, criou em minha imaginação a imagem de um bico. Eu quase me assustei pensando que tinha acordado com um pássaro heráldico, de asas encolhidas, no canto do meu quarto. E até hesitei, na dúvida se estava acordado ou, ainda, dormindo. Mas, aos pouco com a suavidade nítida da luz que entrava pela janela, o guarda–chuva foi se tornando preciso no ângulo de minha visão.



Confesso que este objeto de varetas de aço, pano, madeira, fez com que eu me demorasse a levantar. Passei alguns momentos apreciando a sua textura, o seu relevo. Talvez a negrura de seu tecido me fizesse prestar mais atenção no seu volume. E aí comecei a me lembrar de quantos guarda–chuvas eu perdi durante os invernos de minha vida.


Mesmo chovendo pouco em minha terra eu nunca abdiquei de um guarda–chuva. Quando ia ao mercado, a mais simples feira do subúrbio. Quando ia à igreja usava um guarda–chuva, Quando ia ao cemitério levava outro guarda–chuva. O anterior já havia sumido, perdido em algum lugar. Meu guarda–chuva era uma peça importante do meu guarda–roupa. Se o tempo estava bonito para chover, o guarda chuva estava ali, à mão. Eu era como o meu primo Borges, uma dessas pessoas que nunca ia à parte alguma sem o seu termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda–chuva. Dizem que o texto de Borges é apócrifo. Não sei. Não conheço suas obras completas.


Costuma acontecer grandes secas no Nordeste. Durante estas secas os nossos guarda–chuvas ficam jogados pelos cantos da casa, nos armadores das paredes. Poucos servem de chapéu de sol. As pessoas usam apenas chapéu. Até mesmo porque o chapéu fica quieto na cabeça do sertanejo. E o chapéu de sol você tem de tirar, desarmar, onde entra. Coloca em algum local. E termina esquecendo quando vai embora.


Quantos guarda-chuvas eu perdi por aí, vida afora. Com certeza, eram semelhantes a este, que enche a minha vista ao despertar dessa manhã. Um simples objeto feito em série em alguma fábrica de São Paulo, ou em alguma longínqua e longeva província da China; e vendido por uma risonha comerciaria, em alguma loja de variedades.


Relanço meus olhos pela segunda vez, antes de me levantar, para o meu guarda–chuva. E não sei bem por qual motivo me vem à mente o vulto de Carlito, pelas ruas pobres de Paris, brincando com a sua bengala.


Eu não sei desenhar. Se soubesse o meu guarda-chuva nunca mais seria o mesmo, depois que eu acordei bem disposto, essa manhã, e meus olhos caíram sobre ele. Se eu fosse um pintor eu o faria desabrochar como uma flor dentro da luz diáfana dessa manhã para vê-lo não apenas como um objeto útil, mas um ser alado, que, de repente, me transportou para dimensões estéticas que eu nunca havia percebido.


Levanto. Começa a chover. Tenho de ir à padaria. Tomo banho, mudo de roupa, e pego o meu guarda–chuva. Abro a porta da rua, e, em seguida, o meu guarda–chuva. Ele infla as asas negras, rugindo. E como um estranho cogumelo aflora debaixo d’água. Reparo que agora ele não tem nada a ver com o objeto anterior que tanto me chamou à atenção, jogado no canto de meu quarto. Está em plena atividade. Acordou.