quinta-feira, 10 de setembro de 2009

HISTÓRIAS DO CONCILIÁBULO II

Edmar Oliveira





Da ultima vez que estive na terra (por três dias, a trabalho) arranjei um tempinho (como sempre) para ir ao Conciliábulo. Aquela confraria de contadores de histórias que se reúne todo sábado e domingo no bar do Chicão, ali na Coelho de Rezende.




Desta feita tinha uma bonita jovem senhora, vestindo a camisa da confraria, pedindo ingresso naquele antro masculino que vem dos tempos do Clube do Bolinha (a revista mesmo). A negativa estava estampada na maioria dos confrades (dentre os de acordo estava o Garrincha, com a surrada camisa do Botafogo, já se engraçando pros lados da moça). Me juntei aos que queriam a presença da moça no recinto. Depois de um burburinho foi proposta uma decisão democrática entre os confrades. Eu, “saliente” como se diz na terra, me ofereci para defender a entrada feminina no Conciliábulo. Hermeto se propôs defender contra.



Enquanto discursava achava que eu estava deitando e rolando nos argumentos: a confraria devia rever a proibição (1) em nome da beleza; (2) em nome da modernidade; (3) renegando essa “viadagem” de só beber homem com homem; (4,5,6...) etc. etc. etc..., e concluía meu discurso, já inflamado e achando fácil ganhar, dizendo que se minha proposta fosse recusada eu não voltaria mais ao Conciliábulo pela burra teimosia de recusar a presença das mulheres. Silêncio no recinto, cada um refletindo os argumentos usados por mim. E pela cara dos confrades achava eu já ter ganhado a parada.




Hermeto esperou por um silêncio que lhe concentrou as atenções para começar a vociferar em sua voz metálica naquele homenzarrão: “Primeiro, pergunto: quem aqui faz questão que o Edmar volte? Segundo, os argumentos dele ficam fáceis porque a mulher dele ta lá no Rio de Janeiro. Terceiro, trago aos senhores uma reflexão – e olhando nos olhos de cada um – se ela for aceita a minha mulher vai querer vir. A tua também. A sua também. E ficaremos todos aqui com nossas mulheres em volta desta mesa. E digo mais: isso não vai ser mais o nosso bar onde a gente vem falar de política, religião, mulher e sacanagem, que é tudo a mesma coisa. Vai ficar parecendo um encontro de casais e aí é melhor a gente ir pra igreja do que vir pra cá! Tenho dito!”



Foi aplaudido de pé por unanimidade. Na votação “pro forma” até eu votei na proposta de Hermeto do clube continuar no seu machismo arrogante. E mostrando generosidade o Hermeto propôs que, naquele dia, eu e a moça fôssemos aceito na roda. Só naquele dia!

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Foto: três cabras feios no Conciliábulo: Paulo José, Edmar e Assaí.

Um comentário:

Tânia Maria Martins Santos disse...

Fiquei a sorrir ao ler a história contada pelo o Edmar sobre o radicalismo dos "demônios" dos Conciliábulo, em não aceitar mulheres no clube. Como esposa de um dos "diabinho" de lá, defendo a presença das mulheres e pelo o mesmo motivo que eles têm para frerquentar o espaço, ou seja, conversar, falar de política, literatura, sobre a vida da cidade. O problema ali é que a maioria deles pensa como na época da inquisição. Tem nada, os último ainda há de ser os primeiros