domingo, 9 de agosto de 2015

A mulher do olho de vidro

(Geraldo Borges)

Eu estava à porta da rua, em minha  casa, olhando as poucas  pessoas que passavam, esperando que alguma coisa acontecesse Nesse momento alguém atravessou a rua, e subiu a minha calçada tropeando nos buracos, e se aproximou de mim. Era uma mulher ordinária, suja, desgrenhada, usando óculos escuros. Pensei  em entrar em casa e fechar a minha porta. Mas, movido pela curiosidade, fiquei. Ela dirigiu – se a mim dizendo que ia me contar uma história.

Quem não gosta de ouvir uma história?

Pois não.

Começou dizendo que tinha um namorado. E que no começo tudo era um mar de rosas. Depois veio a procela. E claro que não usou  essas  metáforas . Na  linguagem oral.sempre se é mais direto Chamou o namorado de traidor, bandido. Antes ele era o mocinho. Dava – lhe  abraços e beijos, e a levava ao cinema e a outros lugares.

Agora lhe dera um murro na cara, bem num olho e a deixara  meio cega.

Dito isso,  levou a mão ao rosto,tirou os óculos e em seguida arrancou da cara um olho de vidro, e me mostrou  com a maior naturalidade.

Mais que de repente eu deixei a mulher com o seu olho na mão falando sozinha, e tranquei a  minha porta atrás de mim.

Com certeza, ela deve a essa hora, está abordando mais alguém, ao pé de uma porta dessa mesma rua solitária. Talvez contando a mesma história, ou  uma versão diferente.






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