domingo, 20 de novembro de 2011

Delírio de um hóspede de von Meduna

Geraldo Borges

Ora, ora, aqui na  minha casa – de - orates, não estou entendendo nada, nada mesmo do que está acontecendo em redor de meu recinto, do meu reino que conquistei, há muito anos, desde o tempo em que aportei por aqui e finquei a minha âncora de coral, com a idade de trinca e cinco anos, no meio do caminho de minha vida, de nossa vida, como diz o poeta, nostra vita. Aqui, no meio desses muros brancos esverdeados de hera, passei a vida inteira lendo Dante, aquele homem de feições severas, nariz adunco, passeando com ele pelos círculos e labirinto do inferno, purgatório, paraíso, acompanhado de Virgílio, às vezes, de Beatriz, terminei misturando tudo, o texto e a realidade e elegi para mim o meu paraíso, no meio dos meus colegas loucos prenhes de fantasias.

            Agora começo a ouvir uma história muita estranha. Espiões entraram sorrateiramente, como ladrões na calada da noite nos aposentos do meu reino, nos escaninhos de meus segredos e estão planejando uma estratégia para me colocar fora de minha estação, do meu castelo, da minha fortaleza. O plano deles é acabar com a minha dinastia. O pior é que já estou sozinho segurando os fiapos de meus fantasmas marionetes da minha própria pessoa. Os homens de branco estão desaparecendo à sombra das árvores com os seus medicamentos. Meus colegas foram embora.

            Eu vou ter que resistir até o fim. Olhando aqui do meu mirante, pela luz opaca de minha clarabóia, vejo no rubro horizonte nuvens vultosas que se aproximam como vândalos para saquear o meu castelo, o meu mosteiro.

 O que se fala do lado de lá dos muros é que o meu castelo precisa desmoronar, vir abaixo, pois é inoperante, mesmo a despeito de toda a sua história  de glória e de loucura. Só servia para fazer doido, foi construído por um. E aqui é minha estalagem, meu castelo, é aqui que me deleito com o meu Dom Quixote, com os meus moinhos de vento, e, também, com o meu Dante seguindo os labirintos e círculos do inferno, purgatório e paraíso. Os vultos que se aproximam feito nuvens no horizonte querem me surrupiar tudo em nome de uma  liberdade provisória.

            Mas, eu só me retiro daqui morto. Pois eu faço parte do Von Meduna. Considero-me um tijolo de suas paredes, um só não. Talvez eu seja uma parede inteira. O que eles querem fazer do meu reino? Um cavalo-de-batalha. Se Napoleão não tivesse ido embora daqui para a Ilha de Elba cavalgando o seu cavalo branco, com certeza iria me ajudar na resistência ao assalto a minha fortaleza, assim como  Átila, Calígula e outros doidos afamados que nos visitavam aqui no sanatório.

            Cada vez mais os meus supostos inimigos se aproximam, estão chegando mais perto das muralhas de minha fortaleza, já sinto o seu cheiro de óleo e vísceras se decompondo, com certeza estão acompanhados de muitos malucos que deviam estar aqui comigo, de meu lado, vestidos de branco, sorrindo para a sombra das arvores. Eu olho para um lado e para outro e não vejo ninguém para quem eu possa dar uma ordem. Uma ordenança. Vou ter que dar ordem às velhas árvores para que elas me protejam contra as ordens dos meus inimigos que estão chegando.

            Finalmente, eles chegaram, ou, melhor declinando, infelizmente. E entraram sem o menor pudor no meu santuário, no meu sanatório. Tinham a chave do meu reino. Só não tinham a fechadura. Com certeza arranjaram a copia com algum espião. Com um leve estalo tomaram de conta de minha fortaleza e me meteram em uma camisa de força, engessaram o meu corpo, mas a minha mente continuou elástica como uma paisagem se desdobrando à luz da madrugada. Eles estão me levando como se leva um espantalho não sei para onde talvez para espantar os pardais buliçosos.

            Absurdo o que estão fazendo comigo. Por que não me deixam in pace no meu reino de loucura? Se eles ao menos soubessem que eu já fui Napoleão, Julio Cesar, eles não me expulsariam de minha casa branca, teriam medo dos gritos dos gansos. Pergunto para onde estão me levando. Não respondem Dizem apenas que eu estou livre. E me mostram a rua, e acrescentam que no lugar onde está erguido o meu sanatório será edificado um grande shopping para as pessoas normais se divertirem com os seus brinquedos. Ora, ora,  orate frates.
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ilustração: Paulo Moura

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