quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Nós que sonhávamos com a volta do irmão do Henfil.

Wellington Dias




Em 1984, a ditadura militar que se instalara há 20 anos no Brasil, estava em fase agonizante, graças a Deus. Naquele mesmo ano, em Teresina, políticos da esquerda aberta e clandestina, intelectuais de espírito libertário, a boemia culta, artistas, sindicalistas, jornalistas, professores e estudantes universitários corriam na contramão do regime moribundo, sendo subitamente presenteados com um lugar que lhes possibilitava a comunhão dos sonhos de independência, cultura irrestrita, vida plena e alegria: o Nós e Elis.






Um bar. Uma casa de shows. Um refúgio para a juventude de então que fazia da noite diária da capital um brinde à libertação que se prenunciava sem qualquer sinal de dúvida. Felizmente, consta nos autos de minha militância sindical, universitária e partidária um sem número de noitadas ali vividas, bebidas, discutidas e amadas.







O ambiente multicultural do Nós e Elis era de notável familiaridade para nossa assídua tribo de bons vivedores. E a vida boa não estava em nossos bolsos, mas na capacidade de sonhar e apreciar aquele universo que se oferecia para nós e para a memória da Elis que havia precocemente nos deixado há dois anos, naquele 1984.






No decorrer daquela década, nas quase obrigatórias incursões noturnas entre o antigo Clube dos Economiários (atual APCEF), CUT, Sindicato dos Bancários e o Nós e Elis, percorríamos um trajeto miúdo e cercado de palpites. Quem estaria naquele inesquecível palco, tocando indispensavelmente a vanguarda musical do momento?






Com o passar dos anos de mudanças profundas, nas imediações daquela casa de conhecimentos mil, ao longe, dava para descobrir quais artistas tinham ido para onde o povo estava. Os acordes precisos de uma guitarra executando peças de jazz, blues ou bossa nova, nos faziam prever a figura de um Geraldo Brito cercado de luzes multicoloridas, com a admirável e eterna mansidão de carro correndo em marcha à .







Quando o ritmo descambava pras notas mais pulsantes do rock, podia-se ir no tablado conferir a presença do Edvaldo Nascimento ou, quem sabe, do Jabuti. Música regional teresinense, piauiense, nordestina e brasileira era o sinal indiscutível das apresentações magnetizantes de Aurélio Melo, Nonato, Paulo Aquino e Netinho da Flauta na luminosidade mágica do Candeia. E quando outro sopro flautista invadia nossos ouvidos, ali estava o Rodrigues. Nessa química preciosa de talentos piauienses, também estavam Cruz Neto, Rubeni Miranda, Rubens Lima e Gilvan Santos.







A pianola do Garibaldi ao lado da Ana Miranda é outro quadro que se imortalizou na memória de quem foi feliz no Nós e Elis. As vozes femininas também enchiam os ares daquela inspirada e seleta confraria, emanadas das palavras cantadas de Laurenice França, Janete Dias, Gabi, irmãs Fonteles, Rosinha, Solange Leal e Fátima Lima. Ali,, músicas piauienses como “Teresina” (do Aurélio e Rodrigues) ou Morena (do Naeno) tinham um gosto de hino para nós e dava grande impulso à nossa autoestima de piauienses. Simultaneamente, canções nacionais também mereciam a atenção de nossos artistas. Não me sai da cabeça a lembrança de que foi no Nós e Elis onde escutei pela primeira vezPapel Marché” ( do João Bosco) e “Vai Passar” (do Chico Buarque) – sempre cantada com coro da platéia entusiasmada pelo tom político daquele samba que diagnosticava de vez a morte do Estado de chumbo.









Igualmente prendiam minha atenção os jograis poéticos orquestrados pelas declamações de gente performática como Chico Castro, Vera Leite, William, Ramsés. Enquanto verbos cantados e recitados se alteravam no palco, as mesas encobertas por fumaças de cigarros e aroma de líquidos bebíveis se atinham às línguas do Albert Piauí, Dodó Macedo, do Arnaldo Albuquerque ou do Paulo Moura se articulando em torno do que acontecia nas artes gráficas no Piauí e no Brasil. Era a sátira talentosa da agonia da repressão militar e do próprio dia-a-dia da terra piauiense



Aliados nesta convicção política estavam por ali sempre os jornalistas Luiz Brandão, Gilberto Melo. Kenard Kruel, Paulo de Tarso. Ainda lembro desta gente interagindo com o público em torno das pautas polêmicas e ainda combatidas pelos generais. Até o que se consumia e se discutia sobre a literatura de então catalisava nosso sentimento de coragem e ousadia. Quem não se orgulhava de chegar ao Nós e Elis, ostentando os recém lançados livros Feliz Ano Velho (do Marcelo Rubem Paiva), Olga (do Fernando Morais), Diretas (do Henfil) ou o bombástico Brasil Nunca Mais (organizado por Dom Paulo Evaristo Arns).






Eu, por minha vez, havia me aventurado no mundo literário e com incipiente convicção, posava de escritor depois de ter concluído minha primeira brochura, Macambira, premiada em 1980 e publicada como livro somente em 1995. Naquelas andanças iniciais pelo Nós e Elis, também trazia no meu currículo de ficcionista o conto Maria Valei-me, destacado e condecorado pela Secretaria de Cultura do Estado no mesmo ano que aquele espaço cultural veio ao mundo teresinense. Ali estava, portanto, o ambiente perfeito para um jovem interiorano, recém chegado de Paes Landim, sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes, mas, trazendo na cabeça o gosto pela literatura, música e política.







A política estava no grito de todas as tribos que ali se incorporavam na dança de um fogo cheio de aspirações. As faíscas eram comumente desprendidas do próprio cacique do Nós e Elis, o Elias Prado Júnior. Polêmico defensor da abertura, o dono do bar alimentava constantes discussões entre os militantes do PC do B e do jovem PT daquelas noitadas. Os engalfinhamentos envolviam calorosas discordâncias entre camaradas e companheiros que, nos dias de hoje, são convergentes em sua incessante manutenção da democracia que enfim nos acudiu.







Entretanto, naquelas pelejas entre 84 e o final da década, o duelo entre estrelas, foices e martelos, por vezes, davam a impressão de que um ringue iria se montar a qualquer instante. Ainda posso ouvir as exaltações que saltavam das goelas de amigos daquele tempo, de hoje e de sempre. Ali estavam Olavo Rebelo, Antônio Neto , Antônio José Medeiros, Regina Sousa, Fonseca Neto, Wellington Soares, Osmar Júnior, Manoel Domingos, Puskas e o iniciante João Cláudio que misturava com talento suas idéias comunistas, música e fino humor.








Ali se provou do fascínio de lutar contra a ditadura, de fermentar partidos políticos e forças de oposição que iriam defender sindicatos e associações. Ali se absorveu o bom gosto pelo bom gosto nas artes e na cultura. Ali se festejou a juventude que, além das convicções sociais e metodológicas, trazia no vigor físico dos vinte e poucos anos, grande disposição para aquele estoque inesgotável da festa. Em meio a tudo isso, temperávamos nossas alegrias com a estimulante adega e cozinha da casa. A cerveja, a cuba, os escoceses e seus parentes brasileiros, compartilhados com torresmos, dobradinhas, caldinhos de feijão e tripinhas...foi que meu paladar se refinou ao primeiro frango a passarinho nunca antes saboreado. Neste banquete dos sentidos, o coração também caía na folia em arrepiantes piscadelas diante das musas engajadas e cobiçadas que se sucederam em flertes e namoros, hoje, guardados em refinados cantinhos de minha memória.







Liberdade...talvez essa seja a mais expressiva palavra para definir o que foi e o que é nossa recordação do Nós e Elis. Um brinde à fascinação e ao sorriso que ali nos irmanou no solo do Brasil.





_______________






À vera: esse é um artigo do Governador do Piauí, Wellington Dias, para um livro organizado por Joca Oeira, o Anjo Andarilho, sobre o Nós e Elis (bar que marcou uma geração no Piauí). Publico aquí por dois motivos nobres: primeiro mostrar que o atual Governador do Piauí é um de nós e daquela geração, gente da gente. Segundo para antecipar o sucesso que será "Nós e Elis", organização do anjo Joca Oeiras, que todos esperamos ansiosamente.



(fotos: W. Dias, Auréilo e Grupo Candeia no Nós e Elis, Joca Oeiras entrevista Geraldo Brito para o livro).

Um comentário:

João de Deus Netto disse...

E terceiro, porque mostra que tem intimidade, também, com as palavras, coisa mais difícil (que diga eu) do que tratar com políticos. É vera, Edmar, do governador, a população ("bem informada") só tinha lembrança como ativista de esquerda. Quero ver se ele é bom de decorar frases de efeitos do Almanaque Biotônico ou da Coleção do Readers Digest. Ah, eu vou pagar pra ver! Isso não é pra qualquer um não.