domingo, 16 de dezembro de 2007

A VACA VAI PRO BREJO

Edmar Oliveira


A Parada das Vacas é um fenômeno desta tal da globalização. Desde o início do século vinte e um começou em New Jersey e se espalhou pelas cidades do hemisfério norte. Só no ano passado chegou a Buenos Aires, Cidade do México, Belo Horizonte e São Paulo, aqui do lado de baixo do equador. Porque coisas da globalização vêm até nós, também, aqui embaixo. Pelo menos nas cidades que a globalização acha mais ligadas ao hemisfério superior. Agora chegou a vez do Rio de Janeiro. E a cidade foi tomada por vacas, feitas em fibra de vidro, decoradas por artistas nativos, com motivos muito afeitos aos cariocas. Sucesso absoluto de crítica e de público. No último fim de semana aconteceram filas para que as pessoas tirassem fotos ao lado de sua vaca predileta.
A partir de esculturas de Pascal Knapp, artista plástico suíço que fez as primeiras vacas em vibra de vidro, vez por outras elas chegam às cidades, enfeitadas com motivos temáticos de artistas locais, invadindo a urbe. Se estou tecendo estes comentários sobre a já famosa Parada das Vacas, ou, como dizem os globalizados - CowParade -, é apenas para revelar minha suprema ignorância. Passei por algumas delas e não senti emoção alguma. Não fui contagiado pelo espírito artístico que emana das criaturas modernas. Talvez por não entender muito da modernidade artística. São simpáticas, posso admitir, mas convenhamos que é muito pouco para descrever emoções da minha relação com os trabalhos artísticos. Entretanto, volto a afirmar minha ignorância no assunto. As vacas da parada não são agressivas como o touro de Wall Street, que é o guardião do vigor capitalista. Não fazem parte daquela manada. A única sensação que senti é que elas estavam indo pro brejo! Mesmo a vaca deitada na praia ou a que toma água de coco. E me pareceram levar toda a cidade pro brejo. Esta cidade, que não suporta a quantidade de problemas que tem de enfrentar, parece não achar solução que não seja o brejo. As vacas ilustraram a inviabilidade da cidade na minha imaginação. E se a maioria delas não alcançaram em mim outro sentimento, além da simpatia, pelo menos de duas eu não gostei. A literalidade da “mão-de-vaca” – uma mão gigante abarca uma vaca em tamanho natural – não corresponde ao significado da usura, nem ao saboroso prato nordestino que, certamente, o artista não conhece. E a “vaca-leitora” – sentada no banco em Copacabana ao lado do Drummond – também não me agradou. Parece avacalhar o poeta. Mas a “vaca-atolada” - iguaria mineira - ainda não achei. Esta deve mesmo já estar no brejo...



(OBS) Este texto foi escrito em outubro. Agora, as vacas já foram leiloadas, doadas à caridade e sairam da paisagem. Mas fica a impressão...

Nenhum comentário: