quinta-feira, 20 de março de 2008

Em Defesa do Soneto

Geraldo Borges

O soneto vem de longe, começou antes mesmo da Renascença. O
Grand Dictionaire Universel, de Pedro Larouse, se expressa assim no verbete soneto.

“O soneto veio-nos da Itália. Considera-se geralmente que nasceu na Sicília, no século XIII. Há, em todo caso, quem tenha Petrarca como o seu inventor, ao passo que outros fazem remontar a sua invenção aos nossos trovadores. Em verdade, entre estes a palavra sône não significava soneto; aplicava-se ao contrário, a diversas poesias, com o sentido de canto.”

Vista a informação constata-se que o soneto não é de hoje, tem história e solidez na literatura ocidental. O movimento modernista, que quis botar abaixo tudo que existia de expressão romântica, parnasiana simbolista, declarou, de certa forma, guerra ao soneto. Depois que as águas da revolta baixaram, o soneto tomou de novo o seu lugar dentro da tradição poética do Ocidente. O soneto queiram ou não queiram os neo-modernos, ou mesmo os pós-modernos, voltou à tona.

Todos os grandes poetas modernos, os ícones da nossa literatura tiveram seu namoro com o soneto. Quem não conhece os belos sonetos de Drummond, Bandeira, Quintana,.Vinicius. Mesmo o concretismo, experimentado e elaborado pelos irmãos Campos, Pignatary, Ferreira Gullart, acabaram com o soneto. Quem não conhece os belos sonetos de Mario Faustino, com seus sonetos ele deu um salto de qualidade a literatura brasileira. O soneto é um gênero clássico e nunca envelhece. O melhor da poesia de Da Costa e Silva se expressa na excelência de seus sonetos. Qual o estudante piauiense que não conhece o soneto – Saudade? Seu livro Sangue, editado recentemente pela Oficina da Palavra, editor Cineas Santos, é composto quase inteiramente de sonetos...

Já ouvi alguém dizer que particularmente não gosta de soneto. Muito bem. Mais vale um gosto que seis tostões. Para o amigo eu respondo. Talvez não tenha tido a curiosidade de ler sonetos na infância, tempo hábil para o nosso cérebro se impressionar melhor com a magia da arte. Mas se alguém talentoso transformar alguns sonetos em uma composição de versos livres? Você vai gostar? É apenas uma questão de forma e conteúdo. Podemos transformar um romance em uma peça de teatro. Um exemplo. O autor piauiense Francisco Pereira da Silva transformou Memórias de um Sargento de Milícia, num belo texto teatral. Eu já li uma tradução do Corvo de Poe feita pelo poeta Jeir Campos em forma de sonetos.

Machado de Assis escreveu sonetos que jamais serão esquecidos, por exemplo: Carolina, O Circulo Vicioso. E os sonetos de Camões, de Bocage, Antonio Nobre? Eu particularmente adoro soneto. Existem muitas pessoas que gostam de decorar letras de musica, eu decoro sonetos. Pois eu fui apresentado a literatura brasileira mediante o soneto. Ora, (direis) ouvir estrelas, certo, perdeste o senso. A poesia não é para quem tem juízo. A prosa tudo bem.

Quem conheceria o Albatroz do Baudelaire, se não fosse pela composição de seu famoso soneto, o qual inspirou o poeta Carlos Pena Filho, que morreu tão novo a fazer o que segue.

A Charles Baudelaire

Carlos também
Embora sem
Flores nem aves
Vinhos nem naves

Eu te remeto
Este soneto
Para saberes
Se acaso leres,

Que existe alguém
No mundo,cem
Anos após

Que não vaiou
E nem magoou
Teu albatroz.

Um movimento pela maior reabilitação do soneto seria bem – vindo. Na poesia brasileira o soneto tem seu leito próprio e flui bem. Graciliano Ramos aprimorou seu estilo fazendo sonetos na juventude, só que nunca os publicou, por modéstia, talvez. Euclides da Cunha também fez sonetos. E dos bons. Um dos poetas mais lido no Brasil é Augusto dos Anjos, grande sonetista. A poesia Brasileira nasceu sob o signo do soneto. É só remontarmos a Bahia e nos darmos ao deleite de ler Gregório de Matos. Com o fim do barroco e o deslocamento da cultura brasileira para Vila Rica o soneto passou a ser cultivado pelos árcades mineiros, sobreviveu ao romantismo, ao parnasianismo, ao simbolismo, ao modernismo e continua sendo uma força de expressão em nossa literatura...
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Geraldo, o Borges, eremita do Pantanal, nos brinda com uma ode ao soneto. Certo que ele faz dos melhores, como "O Parnaiba", publicado na última edição deste blog. Mas hoje ele apresenta uma homenagem ao Lima, o Barreto.
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Lima Barreto




Geraldo Borges




Afonso Henriques de Lima Barreto
Este é o nome completo do escritor
Pra ele estou fazendo este soneto
Como prova de estima e de louvor.

Afonso Henriques de Lima Barreto
Este é o nome de um autor completo
E ao terminar de compor este quarteto.
Mais uma vez reafirmo o meu afeto.

Afonso Henriques de Lima Barreto
Nem todos gostavam de ouvir teu nome
A Academia muito menos o Itamaraty

Afonso Henriques de Lima Barreto
Mesmo assim alcançastes renome
Vamos então brindar parabéns para ti..

Um comentário:

Anônimo disse...

geraldo borges, meu caro, você deixou de dizer que a literatura brasileira de expressão piauiense teve inicou em forma de soneto, com poemas, do parnaibano ovídio saraiva, publicado em coimbra, em 1808. tirando isso, belo texto o seu. e, como você, sou vidrado em soneto. não se deixe de mim. beijos kenardianos.