domingo, 26 de maio de 2013

Marcação Genética


Edmar Oliveira
 
Fiquei meio encucado com a notícia de que Angelina Jolie retirou as duas mamas para prevenir um "provável câncer", já que a o exame de seu genoma apontava para 87% de probabilidade, com o agravante de sua mãe ter falecido prematuramente com esse tipo de câncer. Pensei nos 13% de possibilidade dela ter uma mama saudável até a morte por outra causa e me lembrei do Darci Ribeiro. O professor estava no exílio na Europa quando lhe diagnosticaram um câncer de pulmão com a possibilidade de lhe matar em 80% no prazo de um ano. Darci, talvez acreditando num xamã indígena, decretou com convicção que a sua sobrevida estava nos 20% da aposta, e teve bastante tempo para voltar do exílio e ainda prestar grandes serviços à nação por muitos e muitos anos. Lembro ainda de uma pergunta provocativa sobre os malefícios do cigarro, apontado como responsável por seu mal. O mestre respondeu ironicamente dizendo que cigarro era bom, ruim era o câncer.

Mas já se foi o tempo de Darci e da ignorância genética. Hoje os tempos são das certezas de Angelina na marcação genética. Por ela certamente Stephen Hawking, o genial físico engembrado numa cadeira de rodas não teria nascido. Certo também que a humanidade perderia muito pouco com o meu aborto por aconselhamento genético, se Dona Águeda fosse mapeada nos Palmeirais do passado, e eu não estaria escrevendo estas tolices. As doenças seriam evitadas e o mundo seria desta gente bronzeada mostrando seu valor. Confesso que seria muito absurdo não me deixarem pelo menos ver essas moças bonitas e saudáveis do calçadão de Copacabana, mesmo com meu raquitismo deformado e com as crises asmáticas da genética doentia.

Mas continuo encucado com essas percentagens genéticas. Li também a notícia de que um Europeu tirou sua próstata sadia porque a marcação genética apontava para um câncer difícil de evitar. Estou apavorado com esse surto de se evitar o destino por antecipação genética. Não sei se falo em causa própria de quem nem deveria estar aqui. Mas achei muita graça da piada de que um português amputou o pênis porque o risco de ficar “broxa” era muito grande. Quiá, quá, quá!!!!


 

Banhos no riacho da Bacaba

Geraldo Borges
 
O riacho corria bordando o fundo do cercado  da casa de fazenda do meu pai. Tinha um pequeno lago e uma cachoeira chamada de Pedra de Amolar e o lugar onde se despejava no rio era conhecido como Boca da Barra. Era o lugar mais fundo do riacho, onde a gente pescava piaus.

Relembro um pouco o caminho que percorríamos para chegar ao local onde tomávamos banho. Logo na saída da porta de casa havia um florido pé de bogari, uma espécie de jasmim, que ainda  hoje cheira nas minhas recordações. Este caminho não existe mais, pois foi abandonado. O tempo comeu seu curso e suas  beiradas e o mato o sepultou.

Com menos de dez minutos estávamos no riacho, mesmo levando em conta as brincadeiras que fazíamos ao longo do caminho. Espantar uma rolinha, correr atrás de um  calango que, se escondia, rapidamente,  detrás de uma moita, jogar  pedras em um cameleão  que dormia  sossegado tomando banho de sol.

               Hoje tento reconstruir no papel o riacho da minha infância, ilusão. Lembro-me que ele nascia no brejo. Meu pai falava em sua cabeceira, a nascente, que para mim era um mistério. Pois eu nunca  tinha estado lá. Eu sabia que a sua água cristalina vinha de longe, era com ela que, doméstica, dentro de um pote, dentro de uma cabaça, matávamos a nossa sede. Era com ela que lavávamos os nossos cavalos.

Vejo—me chegando o riacho, tirando a roupa e tomando banho nu, éramos criança. Tibungo. A água fria  fortalecia o corpo e fazia a gente tremer o queixo nos primeiros mergulhos. A criançada inteira dava cangapé dentro d’água. Durante os invernos rigorosos o riacho transbordava e cantava alto acordando a gente de madrugada, tínhamos que deixar estiar um pouco para o riacho baixar o leito e dar condições para que pudéssemos voltar de novo a nossa alegria de ficarmos nus dentro d’água, tiritando de frio.

Hoje o riacho não é o mesmo, digo isso por que lhe fiz uma visita. Desgastou-se com a exploração de madeira  em seu entorno, e nas suas margens, com as queimadas para fazer roças. Antigamente era necessário uma  pinguela de madeira para atravessá-lo de uma margem para outra no caminho  que dividia a fazenda do meu pai com a do meu tio, hoje se passa a vau, com a água nos calcanhares. Além de não precisar de mais pinguela  tem agora uma roda d’água, tempos modernos, instalada no local do lago e da Pedra de Amolar, sem duvida o novo proprietário canaliza água para a sua moradia. Ninguém precisa mais usar lata d’água na cabeça.

Acredito que o meu riacho   continua  correndo   em minha veias, fecundando a semente das frutas silvestres que eu saboreei, às suas margens, substantivando os peixes que me alimentaram. Dando- me alegria de sentir o puxão firme no anzol. Hoje bebo água, encanada, tratada, cheia de cloro. E vivo longe do riacho de minha infância que, às vezes, me aparece em sonho, rugindo depois de uma noite de inverno em que ele toma corpo. Mas é apenas sonho, hoje ele não passa de um filete de água rasa, onde a Pedra de Amolar já não tem mais esse nome, já não existe cachoeira, e a Boca da Barra quase já não despeja água no rio Parnaíba. 
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desenho: Peder Mork Monsted, "Paisagem com ponte de tronco" em: http://joserosarioart.blogspot.com.br/2010/12/peder-mork-monsted.html

POBRE ESCRITOR É PRISIONEIRO DA MALHA FINA DA RECEITA FEDERAL


Edmar Oliveira
 
Recebi uma intimação da Receita Federal. Fiquei com a orelha em pé e o bolso de resguardo. Esse é o país da impunidade com duas honrosas exceções: Pensão Alimentícia e Sonegação à Receita. A primeira honra leva o sujeito à cadeia sem direito a apelação. No segundo crime você é inscrito na Dívida Ativa da União, tendo quaisquer bens bloqueados para pagar essa dívida, atingindo inclusive aos possíveis herdeiros. Em alguns casos a única herança é a dívida. Nunca tive motivo para infringir as honrosas exceções que implicam em implacáveis punições. Por isso fiquei assustado com a intimação.

Não tinha quaisquer motivos para cair nas malhas da Receita. Meus rendimentos são frutos amargos do meu trabalho assalariado como servidor público. Algumas vezes prestei assessorias às Prefeituras e Estados, mas nunca deixei de declarar, até porque é burrice sonegar um rendimento público. Sei que a Receita cruza essas informações e a sonegação pública é passível de demissão. Tão cuidadoso assim, porque diabos fui intimado? Que crimes teria cometido para comprometer meu patrimônio, parco e esfarrapado?

Longa espera nos corredores enormes e desertos da Receita Federal do Rio de Janeiro. A funcionária burocrática me acusava de não ter declarado aluguéis e parte de um dinheiro que a Prefeitura me pagou atrasado. O dinheiro da Prefeitura eu tinha como explicar, pois tive que abrir um processo para receber meus direitos que foram pagos em dois exercícios. Erro da informação da Prefeitura. Mas aluguéis eu até já paguei, nunca recebi. Não me consta alugar o imóvel que eu moro. A burocrata fuçou pra lá e pra cá dentro do computador e disse que havia um erro ali que fora mal compreendido. Eu estava sonegando era royalties. Aí eu não entendi: nunca tive poços de petróleo! A moça disse que não podia me explicar mais e mandou falar com o diretor do departamento.

Dificuldade de achar a sala do homem naquele ambiente amplo e escuro. Quando fui recebido o homem pediu meu CPF e abriu toda a minha vida fiscal no seu computador. Disse que eu tinha que pagar sobre royalties recebido da Vieira & Lent. Ora, Vieira & Lent é a editora de meu livro “Ouvindo Vozes” de quem, a título de direitos autorais, eu recebo míseros R$ 2,80 por cada livro vendido. E o homem tava ali, firme, afirmando que direitos autorais tinha que pagar imposto de renda. No ano em que me “pegaram” eu só recebi R$ 508,00 sobre os quais incidia a facada da Receita Federal. Aí ele viu lá pra trás também e juntou tudo que eu recebi desde a edição em 2009. Caí na malha fina e com as multas talvez fique devendo meus direitos autorais.

Aprendi, na prática, que é inviável escrever livros neste país em que ninguém lê. E o governo ainda bota o leão da Receita Federal para morder o que o escritor nem ganhou. Surreal!!!!!!!!!!!