domingo, 26 de março de 2017

Salgado Maranhão

A imagem pode conter: comida
desenho: Amaral

COMO UM RIO 9

Trouxeram-nos até aqui
à pilha da usura --
com louvores e degolas
laureadas;

trouxeram-nos até aqui
(a guindaste) para brotar
nos caules secos:

o vento cáustico e a razão
muscular inaugurando
a dor;

o longo acervo de auroras
para guardar constelações
de mármore.

E o lavrar do braço
que arrima a luz
e as flores(o braço
açoite e capuz).

Então durmo sobre a fenda
aberta à radiação
dos séculos,

e sigo com os que perderam
a caravana de volta:

o que ainda não sou
me acena o penhasco.

Quem ergueu esse trapézio
com as cordas rotas?

Quem semeou esse pomar
de nuvens?

O poema pede silêncio
para sonhar.

(SALGADO MARANHÃO)






domingo, 12 de março de 2017

Coisas de momento

  Nenhum texto alternativo automático disponível.
Ouso sonhar

Apesar dos dias de pavor em que vivemos

E mirando fixamente os rostos

Dos meus dessemelhantes à minha volta


Ouso pensar

Que o meu país será feliz



(Climério Ferreira)
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desenho: Amaral

domingo, 29 de janeiro de 2017

O Campo e a Cidade

Desenho: Amaral

(Geraldo Borges)
                                                                                                            
Está no DNA a visceral inclinação para voltarmos para  o campo. E claro que saímos do campo. E quem vai volta. E a lei do retorno. No principio fomos todo camponeses. Depois, com o desenvolvimento do comercio e o aparecimento das cidades, a corrida para as metrópoles se acentuou. Na cidade você tinha uma sensação de maior liberdade. Não via o patrão. Mesmo assim não esquecia o interior. A nossa literatura romântica e moderna cheia de louvação a natureza. Descrição de lindos por do sol. Na poesia nem se fala. Na verdade, o Brasil durante o período romântico era uma vasta fazenda com seu engenhos e plantações de café.

A nossa literatura vai marcando no seu texto como uma espécie de rodapé cronológico   todos as etapas da evolução da nossa vida no campo e a ponte para a cidade.

Vidas Secas, por exemplo, termina com a família de Fabiano chegando a cidade, na esperança de ter uma vida melhor. Em Angustia, o personagem principal, Luís da Silva, veio do campo. O romance quase todo gira em torno da angustiante lembrança do seu tempo de menino na fazenda de seus avos.  O personagem tem uma experiência da vida na cidade, vivendo com um salário miserável, cheio de dividas, e uma vida sentimental destruída. Voltar ao campo não podia mais A cidade já tratara de degenerá-lo a ponto de tornar-se um assassino. Matou um representante do Poder.

Hoje não se distingue mais o campo da cidade. Tudo que está no campo está na cidade. A tecnologia é onipresente. Quem tem um pedaço de terra aqui no Nordeste, chama-o de sitio. Lugar na beira a estrada, ou dentro do mato, onde você pode chegar por uma estrada vicinal. Geralmente o sitio tem riacho ou poço, até mesmo piscina, televisão, geladeira, bar. E ali se ritualiza os mesmos prazeres da cidade. Muito churrasco e cerveja, mulheres bonitas, e o mesmo papo superficial de sempre. O sitio é para fim de semana. Nele não existe nenhuma unidade de produção, a não ser fruta silvestres que muitas vezes apodrecem ou são comidas por passarinhos. Para se manter um sítio tem que se contratar um caseiro, Segurança. Mas o caseiro termina sendo experto. E o dono do sitio sente-se lesado. No começo tudo é uma beleza. Convidam-se os amigos. Bebe-se muita cachaça. Tudo isso passa rápido. E me faz recordar um amigo meu que caiu nessa de comprar um sitio depois vendeu. Ele dizia.


Só tem dois dias felizes para o dono de um sitio: o dia que comprou e o dia em que vendeu. Vendi o meu. E se um dia tiver de voltar para o campo, voltarei para o campo santo ou para a cidade dos pés juntos, o que é tudo a mesma coisa.