domingo, 18 de outubro de 2015

RITUAIS MACABROS E UMA INFÂNCIA BANAL DE UM PREDADOR


(Edmar Oliveira)

Uma amiga minha jura que não come caranguejo pela forma cruel como os bichos são mortos. Estava tentando convencer a ela que existe método menos cruento de matar o bicho, para satisfazer o meu apetite por caranguejos, quando me veio a inspiração para essa crônica.

De certo, os matadores de caranguejos são cruéis. Uma afirmação culinária garante que eles só servem para a nossa apreciação se cozinhados vivos ou mortos imediatamente antes de despejados em água fervente! Mas nunca tinha me deixado impressionar, pois o meu desejo de bater neles, mesmo depois de mortos, pra apreciar sua minguada carne me fazia esquecer a crueldade, acho.

Minha amiga tocou num ponto sensível. Aí lembrei que tenho uma filha que herdou meu apetite pervertido para martelar mais do que comer a deliciosa iguaria. Ela tinha-me contado que aprendera com uma fazedora de caranguejos que se eles forem colocados no gelo adormecem como se anestesiados e não sentem a morte no cozimento. Não sei se a garantia de minha filha é apenas uma desculpa para continuarmos nosso ritual macabro sem culpa.

Mas eu tentava convencer minha amiga de outro ritual que fazemos para esquecermos que somos predadores. Atualmente os cortes de carne, frangos e peixes, expostos nos supermercados parecem que veem de uma fábrica asséptica de alimentos. Aquele ambiente é feito para evitar que imaginemos como os animais são mortos. (Tem um vídeo rolando na internet, que aconselho aos mais sensíveis de nunca verem para não se tornarem imediatamente vegetarianos).

Tenho a convicção que a culinária é desenvolvida e fica cada vez mais sofisticada para esquecermos o nosso passado de predadores comedores de carne. A primeira matança de bois que vi numa fazenda, em Palmeirais, jamais esqueci. Tinha menos de cinco anos. Mas assistia aos bois entrarem num corredor sem saída para a machada pesada e o sangramento final. Fiquei como hipnotizado vendo os bois mansamente irem ao matadouro sem nenhuma revolta, apesar de eu achar que eles estavam com os olhos tristes e sabiam o final que os aguardava.

Meu avô era um matador de bodes. E aprendi com ele o significado de “bom cabrito não berra”. A ovelha morre mansamente, o cabrito esperneia. Não mais que o porco. Esse grita, quase como falando e pedindo socorro. Os magarefes italianos imobilizavam porcos com choque elétrico e Cerletti, o inventor do eletrochoque na psiquiatria, se inspirou na matança de porcos. Não me perguntem a relação que ele viu entre porcos e doidos (esta historinha está no meu “von Meduna”).

Sei que o assunto está ficando pesado para os que não tiveram infância no campo. Isso era absolutamente normal e não conheço nenhum de nós traumatizados por essas historinhas que eram fatos banais e corriqueiros nas nossas vidas. Criávamos porcos, bodes, galinhas nos quintais. E elas nos alimentavam no dia a dia. Acho que apenas nos aprofundávamos mais na consciência de que somos predadores, o que hoje passa batido na educação na cidade.

Mas o mais inusitado ainda está por vir, se é que ainda tem alguém acompanhando este assunto que pode parecer macabro. Macabro pode ser pra vocês. Pra mim, apenas lembranças infantis de evocam saudades e afetos.

Minha avó matava porcos e galinhas para fazer o nosso almoço. Vi muito ela sangrar uma galinha e colher o sangue no vinagre para fazer um frango ao molho pardo, que até hoje adoro. Pois bem, uma vez a velha foi fundo demais e cortou – sem querer – o pescoço da galinha, tirando sua cabeça fora. A galinha saiu andando sem cabeça caindo mais à frente e eu e minha avó ríamos muito! Quanta mudança para esses tempos politicamente corretos de agora. Fácil, quando não somos nós que matamos os animais para a nossa necessária alimentação.

Depois eu conto a história da minha avó sangrando porco sem eletrochoque! Mas queria que os mais novos não esquecessem de que ainda somos um predador sobre a terra.



PS1 – O primeiro cara que inventou de comer um caranguejo, ou estava com uma fome sem tamanho, ou foi sacanagem de quem já tinha bebido.

PS1 – aos meus amigos vegetarianos: as plantas sofrem! Imagine uma alface cortada ainda viva no nosso prato. Não ouvimos os seus gritos porque ela é muda, mas sente quase tudo que grita um porco ou esperneia um caranguejo numa panela de água fervendo.








  


  


Apenas um sonho



(Geraldo Borges)

            Tive um sonho, mas não gostaria de contar. Sonho ás vezes é profecia; ainda bem que as profecias nem sempre acontecem. Mas, seguindo a linha do texto, já devo ter aguçado a curiosidade do leitor. Existe sonhos simbólicos  que precisam ser interpretados. O meu foi claro. Mas, de minha parte o considerei um pesadelo. Não vou resumir de uma pancada só o que eu vi dormindo. Sei também que os meus leitores não gostariam de sonhar o que sonhei. O diabo é que o cristão não escolhe os seus sonhos, e quando escolhem, geralmente viram pesadelos.

            Vamos a mais um parágrafo de meu sonho. Ainda não contei por que, se contar logo, a crônica acaba e eu acordo.

O que estava acontecendo? Engenheiros, arquitetos, mestre de obras, operários, restauravam a cidade. Recriavam casarões antigos, sobrados de varanda e janelas persianas, mais ou menos, dentro do perímetro que hoje poderíamos chamar de Cidade Velha, que sai do cais do Parnaíba e chegava até o Alto da Moderação e o Alto da Jurubeba.

De repente eu vi toda a Cidade Velha, de ruas antigas, como qualquer habitante do tempo passado poderia ver a capital com seus monumentos de origem, os quais, garantiam  autenticidade a cidade verde.. No sonho tudo voltava  ao normal, a origem. Os habitantes da cidade estavam contentes. Vinham turistas de toda parte para ver a cidade velha, caminhar nas ruas sem asfalto, ver os acendedores  de lampiões das ruas, curtir a província rediviva.que ante estava submersa. Ver os barcos  a vapor ancorado no cais, visitar os cabarés da Paissandu, sentar a boca da noite em cadeiras nas calçadas, e ficar conversando até soprar a brisa marinha di litoral.A cidade não estava  como no livro de Paulo Tabatinga, completamente deformada e monstruosa... Sitiada.



            Todo sonho termina de repente, como um filme que quebra a fita, e o melhor ou pior acontece. Engenheiros e arquitetos e outras autoridades resolveram  num lance de vaidade adornar a cidade com um monumental Arco do Triunfo.E tomaram a liberdade, ali mesmo, na Praça de Liberdade, de fazerem um projeto, que teria como foco derrubar a Igreja São Benedito, esta foi a parte do sonho que considero um pesadelo. Escutei os notáveis, o alcaide, os  conselheiros municipais, confabulando  tudo. A minha vontade era dizer não. Não. Isto é um sacrilégio. Mas a minha língua estava presa. Eu queria acordar, ficar livre do pesadelo. E como não podia dizer nada fiquei pensando: tudo pode acontecer. Mas, caso aconteça Frei Serafim de Catânia, o missionário católico  vai se revirar dentro do tumulo, e São Benedito vai ficar pálido de espanto. Mesmo assim desculparão a desfaçatez dos notáveis da cidade. E pedirão desculpas aos escravos e flagelados que construíram  com suor e lagrima esse monumento  da cultura  cristã, e que na entrada para a nave já tem o seu  arco triunfal.

            Acredite leitor que o sonho mexeu com a minha cabeça. Ao acordar de manhã cedo, a primeira coisa que fiz foi tomar um banho, beber café, E pegar um ônibus, até a Avenida  Frei Serafim. Fui ver a Igreja. Estava lá, imponente, com seu relógio e suas torres. As pessoas vinham chagando para a missa e entravam na igreja com o entusiasmo de sua fé, e, com certeza, jamais sonharia o sonho que eu sonhei.







NISE - o coração da loucura


(Edmar Oliveira)

Fui à pré-estreia de “Nise – o Coração da Loucura”. Foi uma noite emocionante. Ainda lá fora, o encontro com os colegas com quem trabalhei no velho Engenho de Dentro. Roberto Berliner veio me abraçar depois de tanto tempo. A ideia do filme começou a ser discutida quando eu ainda era diretor da instituição. Na sala cheia tive a sorte de abraçar alguns pacientes que participaram da película. Mais a emoção maior ficou por conta da arte do Berlinger.

Roberto pegou apenas um recorte da intensa vida da Psiquiatra Rebelde para mostrar a emoção de lidar da velha mestra. O filme começa quando Nise volta de longo exílio, após a prisão na ditadura de Vargas, para terminar na exposição dos artistas do Engenho de Dentro, promovida pelo crítico de arte Mário Pedrosa (Charles Fricks). Um curto período, mas onde condensou toda a emoção da velha guerreira para impor seus métodos à antiga e prepotente psiquiatria (pena que esteja voltando travestida de moderna neurociência). E ela teve que se socorrer da arte para romper o isolamento que a cercava.

Berlinger põe na boca de Nise (a excelente Glória Pires), com toda propriedade, uma frase de Antonin Artaud. Mostrando sua discordância com os cruentos métodos dos médicos, dirige-se a um deles: “Vocês só têm sobre eles a força” (Artaud falou “sobre nós”). E quando compara sua técnica (que os médicos procuravam ridicularizar a terapêutica ocupacional como se fosse uma “ocupação sem importância”) ela vocifera: “eu tenho os pincéis e vocês o furador de gelo” (”instrumento” usado na lobotomia). Frase que tanto poderia ser de Nise ou de Artaud. Uma guerra que ainda hoje continua entre os que defendem um “serviço substitutivo” contra os trogloditas que ainda nos dias de hoje defendem o manicômio, o choque elétrico (com o inútil suporte da anestesia) ou a lobotomia (com o disfarce da psicocirurgia).

O filme parece um documentário quando acompanha os artistas que seriam revelados pelo Mário Pedrosa: Fernando Diniz (Fabrício Boliveira), Emígio (Cláudio Jamborandy), Carlos Petuis (Júlio Adrião), Lúcio (Roney Villela), Otávio (Flávio Bauraqui), Raphael (Bernardo Marinho) e Adelina (Simone Mazzer). A composição que cada ator dá ao seu personagem é espetacular! Cada um deles é um documento riquíssimo. Imagino com é difícil compor personagens mortos, onde se acham apenas algumas pontas de filme antigo, e num deles (Lúcio) só um retrato três por quatro do prontuário.

Conheci três deles muito bem, apesar de já idosos. O Fernando do Boliveira é muito perto do Diniz que conheci. O acompanhei de perto quando lhe demos uma casa de verdade para morar (morou pouco tempo antes de falecer). O Lúcio eu conheci depois da lobotomia que o tornou uma ameba. Mas eu sabia muito das histórias dos rompantes agressivos do Lúcio e posso dizer para o Roney que, no filme, chorei porque conhecia o futuro do seu afetivo personagem depois da lobotomia. E a Adelina que eu conheci era a própria personagem que a Simone Mazzer criou. Disse a ela que nunca tinha ficado tão emocionado na criação de um personagem, quanto fiquei na Adelina que a grande atriz deu vida. Simplesmente um sopro como se a própria Adelina ressuscitasse. Maravilha! 
   
Nise de Máximo

Depois do filme um debate com o diretor e atores. Berlinger apresenta o colaborador Jairo, com quem convivi quando trabalhei no Engenho de Dentro. Jairo hoje é a representação dos clientes onde Nise buscou os laços afetivos (que a psiquiatria tradicional garante não existir nos esquizofrênicos). Jairo escapou do manicômio para frequentar um serviço substitutivo e lá foi trabalhada sua autonomia e autoestima, baseados nos ensinamentos da mestra. Jairo pede a palavra apenas para dizer que não poderia ficar para o debate, pois tinha que pegar sua namorada no trabalho e já estava atrasado. Foi aplaudido pela plateia e significou o refazer dos laços afetivos que a Nise buscava nos seus clientes (como ela achava que devíamos chamar os pacientes).

E Jairo representou também a importância do filme de Berlinger. O filme é muito necessário no momento em que assistimos os tradicionais doutores psiquiatras apresentados na tela invadirem a realidade ignorando os ensinamentos de Nise da Silveira.  


PS 1 - o autor do texto foi por quase dez anos diretor do Hospital de Engenho de Dentro.

PS 2 - o filme deve entrar em circuito nacional agora que o festival Rio acabou.