domingo, 22 de fevereiro de 2015

Alegoria Carnavalesca


(Edmar Oliveira)

A Beija-Flor escancarou a sujeira do dinheiro banhado em sangue para ganhar o carnaval desse ano. Foi um desfile de exaltação à riqueza imaginária dos africanos homenageados, financiado por um ditador de um país onde 95% da população vivem na miséria. Juan Ávila, escritor e dissidente da Guiné Equatorial, se diz incrédulo com a quantia anunciada, revelando que esse valor é impronunciável na desvalorizada moeda local.

Mas a Beija-Flor mostrou uma Guiné-Equatorial exuberante, tirando a nota máxima até no enredo fantasioso. O ditador ficou contente. Seu filho – e vice-presidente – alugou dois camarotes na Sapucaí por 120 mil, onde serviu paella de Bacalhau e Champanhe dom Pèrignon para 40 convidados em ambiente com decoração africana. Antes e depois da folia relaxou em uma das sete suítes do Copacabana Palace, reservadas para sua comitiva. E viva o carnaval com a riqueza esbanjada pelo novo rei do Rio, Teodorín Obliang, tão bem executada pela escola de Nilópolis na avenida, campeã do carnaval deste ano.

O país africano tem a maior renda per-capta do continente africano – pela produção petrolífera –, mas distribuída apenas entre os cinco por cento da população que têm negócios ou são parentes do ditador. Nem a metade da população tem água potável, 20% das crianças morrem antes de completarem cinco anos, tem o IDH na 144ª posição. A ditadura de Obliang-pai controla a imprensa, não permite manifestações oposicionistas e mantém sua população sob controle. Segundo "US Trafficking in Persons Report", o tráfico de pessoas é um problema e   "a Guiné Equatorial é uma fonte e destino para mulheres e crianças vítimas de trabalho forçado e tráfico de sexo."

Aqui na terra a gente brinca o carnaval e faz de conta que tudo vai muito bem.

Sinceramente acho que a Beija-Flor prestou um serviço ao desfile das escolas de samba. Mostrou o quanto o maior espetáculo da terra é financiado por uma lavagem do dinheiro sujo de sangue. Hipocritamente há uma associação do dinheiro público com o dinheiro do submundo do crime. Todo mundo sabe que as escolas de samba do Rio são financiadas por contraventores ligados ao crime organizado, milicianos e bandidos que costumam frequentar as páginas policiais. Entretanto no carnaval desfilam na avenida em companhia de políticos e governantes como se tivessem brincando num bloco de sujos no Carnaval. Alegoria carnavalesca.

Se a multidão delira na passagem de sua escola, a maioria dos cariocas se vangloria de ter desfilado num carnaval na Sapucaí, pagando por sua fantasia a culpa de participar do “maior espetáculo da terra”, minimizando o congraçamento carnavalesco com o crime organizado.

Todo mundo foi Beija-Flor um dia, apesar de ser Portela, Salgueiro, Imperatriz...


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desenho: Gervásio






Beija Flor Escola



A Beija-Flor de Antônio Máximo e uma Escola de Guiné Equatorial, que não desfilou na Sapucaí


Uma reportagem


(Geraldo Borges)

Certa vez fiz uma viagem até a Barragem  da Boa Esperança, em face de construção, para fazer uma reportagem. Tomei o ônibus na rodoviária de Teresina. Desci em Floriano, meio dia, para comer alguma coisa. Entrei em um bar restaurante. Uma moça que vinha no mesmo ônibus, ao meu lado, desceu comigo. Quando eu me sentei ela me pediu para me fazer companhia.

- Pois não, eu disse.

A moça era bonita, loura de olhos verdes e sobrancelhas cerradas, parecendo pente fino, cabelos caindo por cima dos ombros  redondos. Quando ria fazia uma covinha graciosa na face. Eu imaginava que ao reiniciarmos  a nossa viagem poderíamos conversar bastante. E eu lhe  ofereceria  a minha janela caso ela gostasse de olhar para fora do ônibus.

Chamei o garçom e pedimos o nosso lanche. Ela pediu a mesma coisa.

Quando já estávamos comendo ela me perguntou de boca cheia, a queima roupa, se eu era engenheiro, e estava indo ajudar  na construção da barragem. Eu poderia ter dito, sim. Seu engenheiro. Não custava nada.   Era isso que ela queria que eu fosse. Andava atrás de um engenheiro. Mas, a minha musa, falou mais alto. E eu disse

- Eu não sou engenheiro, sou poeta.
  
            
Ela que estava mastigando, quando ouviu a palavra poeta, quase se engasgou, como se algo estivesse atravessado a sua garganta. Pediu licença para ir ao banheiro e foi embora.

Terminei de comer e paguei a nossa conta. Eu não sei como ela vai  me encarar quando voltarmos para o nosso assento no ônibus. Mesmo assim vou lhe oferecer a minha janela. Quem sabe não vislumbrará alguma poesia na paisagem: uma vaca ruminando no pasto com um passarinho no seu lombo, picando carrapato.

Surpresa. O lugar dela estava vazio. Havia desistido de sentar ao meu lado. Eu  a avistei no fundo do ônibus. Ri para ela. Não correspondeu o meu riso. A covinha do rosto tinha desaparecido. Era como se ela não quisesse saber de prosa. Muito menos de poesia.

Acomodei-me, sozinho, no meu banco e continuei na janela penando que já havia encontrado um tema para a minha reportagem.