Como no próximo dia 13 é o aniversário de 100 anos de Gonzaga, o
Piauinauta traz para comemorar com seus leitores uma das maiores homenagens
nesta data. Gereba gravou “Luas de Gonzaga” onde apresenta velhas valsas e
choros do mestre, letrados especialmente para este disco, por letristas
contemporâneos. Aqui temos a primeira faixa, letrada por Gil, e apresentando a
proposta de Gereba. Vale a pena adquirir o disco...
domingo, 9 de dezembro de 2012
Crônica publicada em 14/08/2011
arroz.com saudade
Edmar
Oliveira
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Dizem que o arroz foi cultivado primeiro na Ásia e só chegou à península ibérica
com os mouros. Mas apesar de ter atravessado o Atlântico com os portugueses,
estes encontraram um arroz nativo, tupi-guarani, plantado na Bahia e Maranhão.
Bem se dizia na minha infância que o Maranhão inventou o arroz. Papa-arroz, como
os caras redondas e sem pescoço eram conhecidos no interior. O certo é que,
enquanto a América espanhola come batatas, a base da alimentação brasileira é o
arroz nosso de cada dia, que faz muita falta quando vamos à América em volta ou
à Europa. E, junto aos paises asiáticos o Brasil é um dos grandes produtores de
arroz, agora cultivado em mais intensidade no sul do
país.
Mas o arroz ganhou um sotaque
regional com as misturas nativas. Parecidos a um bom risoto italiano. Enquanto o
sul espalha o “arroz de carreteiro”, os goianos misturam arroz na galinhada com
pequi, os paraibanos fazem o delicioso arroz de leite. Com folhas dos índios, os
paraenses fazem o mágico arroz de jambú, enquanto os maranhenses inventaram o
arroz de cuxá. A mistura do arroz com feijão faz os diferentes baiões-de-dois de
cada Estado nordestino.
Com certeza não é uma exclusividade,
mas tem sabor da minha terra o arroz de pequi, a Maria Isabel e o arroz doce com
canela. E minha terra fica na confluência dos interiores de Maranhão e Piauí, de
um lado e outro do velho monge. O rio Parnaíba faz a espinha dorsal do
meio-norte, serpenteando desde a confluência com Goiás até o delta no oceano
Atlântico. E foi ali pela região lombar desse espinhaço que se fez a minha
pátria.
E o pequi da minha terra é muito
diferente do pequi dos Goiás. Lá ele é miúdo, amarelo açafrão, com pouca carne.
Na minha terra é bem maior, muito mais pálido e com uma polpa macia de se fazer
um caminho com os dentes incisivos, típicos dos roedores. O cheiro que ele deixa
ao se cozinhar no arroz é característico. Odiado ou amado. Eu sempre fui
apaixonado. Pequi ou não se come ou se come muito. Não tem meio termo. No arroz
ou no feijão se cozinha pequi como se fosse uma iguaria que valoriza o arroz
simples ou o feijão pobre. E quando faço essa descrição, sinto o cheiro e a boca
enche d’água, porque a saudade de um gosto é
encrenqueira.
A Maria Isabel é um risoto de carne
de sol sem a umidade do prato italiano (já se faz uma Maria Isabel molhadinha
nos restaurantes nordestinos, para agradar o paladar globalizado). Mas a nossa
Maria Isabel tem um arroz moreno herdado da fritura da carne de sol, só que bem
soltinho. A gente pode até molhar a nossa Maria Isabel. Mas é com a gema mole de
um ovo frito. Aí o sabor fica uma coisa de enlouquecer. Água na boca,
novamente.
O Arroz Doce é um prato típico do
São João. Uma variante do arroz de leite dos paraibanos, só que com açúcar e/ou
leite condensado. Serve-se frio, como a canjica, e também com canela por cima.
Tem um gosto de festa junina. E uma saudade das tardes mornas de um sol
preguiçoso que se demora para que o gosto fique mais na lembrança...
Crônica publicada em 24/10/2010
ARRE, ÉGUA!
Edmar Oliveira
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Edmar Oliveira
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Mais uma vez fui à Teresina pelo entroncamento de
Brasília. Aquele aeroporto parece a Estaca Zero da canção do poeta. Jogaram a
gente por um portão A, onde um ônibus nos levava taxiando pela pista comprida
até a aeronave estacionada. Cheguei com os primeiros passageiros e aí começou o
martírio. Esperamos quase uma hora pelo embarque de outros ônibus, que chegavam
conforme o tempo da conexão de São Paulo, Goiânia, Campo Grande e de outras
paragens.
Dentro do avião as caras conhecidas dos
conterrâneos e o sotaque inconfundível, além do falar alto e fazer graça com
tudo, transformou a espera num perfeito mercado do Mafuá. A aeromoça distribuía
um panfleto convocando a um Concurso Cultural chamado “Meu Amigo Golfinho”.
Solicitava um texto, sugestão de nomes para o bebê golfinho e premiava com uma
viagem a Orlando. Meu vizinho de cadeira reclamou da temática, sugerindo que se
fizesse um concurso “Meu Amigo Calango”, que era a possibilidade dos
conterrâneos participarem. Quando a moça distribuiu umas balas, outro reclamou
que na vinda deram um bom-bom mais pretinho e não esse amarelado que parecia um
cearense. A moça perguntou se a outra bala era petit gateau.” Era esse francês
afrescalhado mesmo” – respondeu o
passageiro.
Finalmente os ônibus chegados lotaram a aeronave e
a decolagem se fez. Quando começaram a servir o pobre lanche das viagens de
hoje, outro conterrâneo comentou que quando começou a viajar nem tinha coragem
de falar com a aeromoça, tão arrumada que a moça era, e que serviam o “de comer”
numa bacia de inox. “Agora era aquela porcaria de sanduba que parecia o pão
massa fina da garapa do Caçula”.
Tinha um vaqueiro do sertão vestido de texano e
falando um inglês com sotaque de São Raimundo Nonato. Seu interlocutor só falava
“hã-hã”, me parecendo não entender a língua de filme americano cantada pelo
outro.
Uma senhorinha, de um metro e meio, cabelo ondulado
e brilhante, parecendo penteado com azeite de mamona, foi na casinha do avião e
se esqueceu de passar a tramela na porta. Um outro conterrâneo interrompeu os
afazeres da tia e falou alto que não era aquela a intenção. Típica desculpa de
piauiense.
O comandante anunciou o tempo de vôo e a
temperatura esperada pra Teresina já
quase à meia-noite: 30º C.! Todo mundo começou a imaginar o sol nascendo e a
temperatura subindo, devendo chegar aos quarenta e poucos pelo meio dia. “Arre
égua!” – um conterrâneo interjeitou por todos nós...
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