domingo, 29 de agosto de 2010
Filosofia em Piauiês
Edmar Oliveira
Tenho ido vez em quando na terra. Nos terrais de Teresina. Nos quintais. Nos bares. A cerveja continua a mais gelada do Brasil. Só tem “empoada”. Na farinha, dizem outros. O diabo vem engarrafado numa nuvem de gelo e névoa, que o garçom (todos tem a mesma técnica) sacode pra cima e pra baixo, assopra no fundo, não congela, e tem o melhor gosto de cerveja gelada do planeta.
Mas se a cerveja continua gelada, o calor da cidade vai aumentando. Da última vez que fui, desesperei-me. Sem ter companhia e nada a fazer (minhas referências estão esmaecendo, quase já não as tenho) fui a um restaurante tomar uma, como se diz por aqui. Com tira-gosto de panelada, que ninguém é de ferro, sorvia a bicha (o trocadilho é por conta da parada gay que aqui se faz também e acontecia). Ao pagar a conta para continua a beber noutras paragens (que aqui só se faz isso), caminhei na rua sem saber que antes estava num ar condicionado. Sem nada a condicionar o diabo da rua vermelhidou. A sensação térmica dos meteorologistas estava nuns quarenta e tantos. Eu nunca tinha sentido tanto calor. E arreparem que sou da terra, dos quintais. Criado com o sol do equador, suas filhas, tudo em cima de mim. Mas não me agüentava. Fervia e a sensação de estar perto do inferno foi aumentando. Me perguntava o que podia esquentar Teresina tanto assim!
Sorte que encontrei logo ali no bar do Esdras (no Clube dos Diários, na Pedro II) o poeta, fotógrafo e filósofo Paulo Tabatinga. Comentando a situação de Teresina esquentar mais a cada ano, Tabatinga filosofou: “culpa das mulheres e da televisão. Pra ter mais tempo de ver TV, as mulheres não querem mais perder tempo em varrer os quintais. E elas são fofoqueiras! Se a vizinha não varrer seu quintal cai na boca da outra. Então – filosofou o mestre – para não ter folhas nos quintais elas mandam cortar as árvores. Aí o sol se esquenta mais. Só isso. Culpa das mulheres, da fofoca e da televisão!”.
Faz sentido...
A nudez de Simone de Beauvoir
Eu sonhei com Simone de Bouvoir , nua, em preto e branco. Pena que não foi de frente. Ela estava de costas para mim olhando para um espelho, penteando os cabelos, vi seu pescoço macio. Mas de que adiantava tocá-lo, se não era verdadeiro. Apenas uma fotografia. Fui baixando os olhos para as curvas dos ombros, para as costas, para a cintura, a bunda, as coxas, e as pernas bem fornidas..Ela se virou e caminhou como uma sonâmbula para os meus braços. Depois acordou e me beijou, e sabe mais o quê. Existencialista que era com toda a razão não ia me negar o prazer de seu corpo tatuado de letras e filosofia. Eu prometeria a ela que leria todos os seus livros, aliás, faria uma releitura, e me dedicaria dali em diante até o fim de minha vida a sua obra. Via-me em Paris, num bulevard, beira do rio Sena, nós de braços dados. Eu ela e Jean Paul Sartre.
O filosofo me entregou sua amante na bandeja. Um pobre brasileiro em Paris, sem lenço nem documento, comendo uma das maiores escritoras francesa, gozando a pele macia de uma feminista. Naufragando em seus olhos aguados. Quem diria?
Simone está aqui em minha frente, nua. Nem ao menos pressentiu a minha presença. Vou pega-la por trás. Não importa o susto que eu possa lhe dar. Mas o que adianta se ela já esta morta. A única coisa que posso fazer agora é pegar uma tesoura , recortar a foto e guardá-la dentro do romance a Convidada . Recorto a fotografia e acordo. Mas quando a procuro para botar dentro do romance não a encontro.