quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Nordeste


Geraldo Borges


O nordeste é o nordeste é o nordeste, um roseiral, mas não é apenas o nordeste é muito mais do que um simples mapa geográfico, é vento áspero, sereno, brisa marítima, camarão, cavalo marinho, pé na estrada, pó na estrada, cavalo do cão, cabra da peste. É deus e o diabo na terra do sol. É menino barrigudo cheio de lobriga frieira coçando no pé até ficar em carne viva, é carrapato, mutuca, berne, pés rachado de retirantes; E vidas secas, Fabiano Sinhá vitoria. O menino mais novo, o menino mais velho, a cachorra baleia., pitomba,açude,soldado de policia e muito mais.


É sertão de Euclides da Cunha, lampião que ganhou uma estatua em uma praça dos nossos rincões. O nordeste é piolho de cobra, cascavel, gavião, carcará, cobra coral, escorpião, sapo cururu na beira do rio, gravatá, macambira, onça pintada. capoeira. boi de carro, vazante. Cana caiana, cachaça, pistoleiro que reza pela alma de sua vitima antes de arrebentá-la com um tiro. E mandá-lo para as profundas dos infernos. Nordeste pevide de galinha, carrapato, fracos do juízo que se dizem Napoleão e cultivam a sua ilha particular contando histórias imaginárias, figuras exóticas de cavalhadas antigas que viram lendas na boca do povo. O nordeste tem de tudo, e cada dia é mais descoberto e inventado, padres valentes, beatos mulherengos, políticos finórios.


O nordeste é o nordeste com cerca de arame farpado, grileiros , SUDENE com as águas turvas do rio São Francisco, do Parnaíba, com carrancas, com o cabeça de cuia, com procissão para chover, com bicho de pé, com vaqueiro curando bicheira pelo rastro da rês, com o filho da casa grande levando a mulata para dentro do mato. Nordeste, nordeste quantos nós górdios vos tereis que desamarrar com faca de ponta canivete, tesoura, martelo, foice, enxada, e mais outras ferramentas.


Nordeste bica chuviscando, cacimba, cisterna, latrina no fundo do quintal, menino vendendo pirulito, azeite de mamona no pixaim das mulatas, óleo de rícino como purgante para pessoas empachadas, roupas no varal secando ao sol, quinais com pés de bananeira dando filhos ao vento. Nordeste chapéu de couro chapéu de palha, bode de pele de primeira esfolado de cabeça para baixo, pendurado no caibro do pátio sangrando, buchada, sarapatel, nordeste da molesta, virgem Maria mão de Deus, oratórios nas alcovas, caritó, rezas para moças velhas se casarem. O nordeste, é assim e assado, pegando fogo; coivaras, aceiros, roça florindo, casa de farinha, dedos calosos de mulheres debulhando o rosário, formigas criando asas no céu para o prazer dos bem ti vis, avoante, carne seca, calango, tanajura. O nordeste é inventivo, e é muito mais do que o leitor imagina. Pode ser encontrado nos romances de cordel, nas xilogravuras que ilustram suas capas. O nordeste é uma metáfora ambulante está em todo lugar nas favelas de todo o Brasil nas cercas elétricas por cima dos muros das mansões na alça de mira da fuzis dos marginais.


Nordeste, nordeste, quantas vezes repito o teu nome e agora torno a repetir como um menino faminto pedindo pão, estudo, família. E o que vejo são minhas irmãs perdendo o cabaço antes mesmo de sair da puberdade pegando carona com motorista nas auto – estradas da vida pelo nordeste afora. O nordeste é um só porém existe o nordeste baiano com seu berimbau o nordeste do Piauí e do Maranhão com seu bumba meu boi o nordeste de Pernambuco com seu maracatu e outros nordestes que ensinam a língua do ABC de Luiz Gonzaga e com o zabumba a sanfona e o triangulo fazem a festa...


Você já foi ao nordeste? Se não foi não está perdendo nada, o nordeste também é Brasil e está em todo lugar do país. Mas se está a fim de ir não perca temo, vá antes do mar virar sertão. Tem gente que vai e não volta mais, principalmente o europeu. Se apaixona pelo sol e pelo céu. Mas o nordeste não é apenas nosso nordeste de cartões postais vendido para turista ver nordeste do IBGE de dados estatísticos e gráficos sobre o desenvolvimento. O nordeste é o nordeste é o nordeste transfigurado num sentimento místico e mítico de que ali o Brasil foi descoberto e inventado as margens de um porto seguro.

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foto de Marcos Michael, que pede créditos e eu desculpa (edmar)

Abusada

Keula Araújo


Para Dalton Trevisan


.


Claro que tenho que encontrar


mil defeitos em ti


E acusar-te sempre que possível


Não que isso seja o que mais percebo


Não que isso seja o mais evidente


Mas seria surreal demais


Se sempre que me chamasses


De encrenqueira e abusada


Eu sussurrasse em teu ouvido:


Meu puta gostoso!!!

Vício ao Contrário

1000TON


Diante dessa mixórdia que virou a grande imprensa do sul maravilha, comecei a sentir uns arroubos incontroláveis do que passei a denominar de “vício ao contrário”. Perguntarão vocês: mas como vício ao contrário? O vício é uma sensação pessoal e intransferível, na maioria

das vezes inconfessável, a não ser aqueles

que viraram viciozinhos corriqueiros , muitos deles confundidos com superstição, como bater na madeira, não passar embaixo de escadas ou coisas assim. Outros são aqueles hábitos que, mesmo trazendo malefícios à saúde, são consumidos pela sociedade como as bebidas alcoólicas, o cigarro e as drogas chamadas mais pesadas. Como se o tabaco e o álcool, vendidos legalmente em qualquer esquina, não o fossem também. Droga é bom! Senão não haveria tanta gente boa atrás delas. E, por isso mesmo, ela é muito perigosa!

Mais eu não estou aqui tergiversando, nem tentando falar sobre a discriminalização do uso de drogas (assunto esse, aliás, muito importante de s

er discutido), nem cortar o barato de ninguém, nem o meu próprio. Cada um sabe onde vai pendurar o seu chapéu, não é mesmo? Eu, por exemplo, sou um ex-fumante e tem coisas absurdamente agressivas que vejo acontecer recentemente na caça aos consumidores de tabaco, principalmente em São Paulo. O governador de lá, um cara que não sai da moita e também não dá lugar, e tem pretensões sérias de ser presidente desse país, resolveu que só limitar o espaço para fumantes (até aí nada demais) não seria suficiente. Resolveu proibir, por lei, o estabelecimento comercial de receber um tabagista. E o que é pior, qualquer um que se sentir incomodado pode chamar a radiopatrulha e exigir que o infeliz seja autuado...Quer dizer, o pascácio governante tira o dele da reta, estimula o denuncismo, os incautos burgueses metropolitanos e a grande imprensa apoiam a medida, e acham que isso vai melhorar a qualidade de vida da cidade mais poluída (ar, água e solo) da América Latina. Os comparsas elitistas partidários desse Senhor governam São Paulo há mais de 15 anos e, a cada mandato, o dia-a-dia do cidadão paulista, principalmente a do trabalhador da periferia das grandes cidades, se deteriora cada vez mais.

Gente, eu estou disfarçando um pouco, mas o assunto é pertinente. Vou entrar no vício ao contrário agora. Falei lá em cima dos jornais safados, aqueles de maior circulação que todos nós conhecemos, pois é... Não sou mais eu quem lê o jornal, é “ele” quem me “lê”. É ele quem me saca, sacou? E aí vem o pior desse vício ao contrário: é que eu sei disso!... Notem bem, eu não estou falando do vício de pegar no jornal, sentir o papel e o leve cheirinho de tinta (já foi bem mais forte), ouvir o

barulhinho do folhear de páginas, que, não nego, tudo isso me traz uma sensação boa (apesar do meu hábito diário de procurar opiniões bem mais abalizadas nos excelentes blogs informativos que a internet me oferece, e de graça). Eu estou falando de uma coisa muito grave, estou falando de um distúrbio mental, e eu não sei se tem cura.

Vou descrever uma cena do meu cotidiano: todo o santo dia eu me digladio com aquele calhamaço inútil de folhas. No que eu abro a porta para pegar o “cara”, já dou uma olhada, de soslaio, na manchete principal e nas chamadas menores. Só essa primeira lambida do meu olhar já dá para perceber, tanto nas notícias, quanto nos temas escolhidos pelos miquinhos colunistas amestrados, as matérias mal intencionadas, incongruentes, caluniosas e tendenciosas. Tento jogar num canto da estante, aquele catatau de informações. Mas o desgraçado me pega, me gruda nas mãos, quer me devorar. Quem lê tanta notícia ? Eu vou... sem lenço, sem documento, nada no bolso, só com o meu jornal na mão. No trajeto até o banheiro antevejo os dissabores que tomarão conta de mim, num confronto inevitável a ser travado com “ele”, ou seja, me subjugo a ler, já sentado no vaso (sinto falta de ler qualquer coisa quando estou obrando, nem que seja bula de remédio ou até mesmo coluna de jogo de bridge), tudo aquilo que me despertará raiva, deboche,

desprezo ou empáfia. Para não “sofrer” tanto, passo a desenvolver uma leitura dinâmica, que eu próprio inventei, tentando me livrar logo da minha espinhosa missão, ter que ler aquelas hodiernas páginas... Luto bravamente, vai nessa Miltão, vai, leva fé, continua... quatro linhas pra acabar, agora é rapidinho, faltam só duas linhas...está chegando a faixa final, digo, o ponto final, você vai conseg......................................Qual nada!... Ao sair do banheiro, derrotado, em frangalhos, ele me obriga a ler tudo que eu fingi que não li, o meu carrasco já me conhece de priscas eras, esse maldito. Envergonhado e humilhado, leio tudo, agora, de cabo a rabo. Pronto! O que você quer mais de mim, seu canalha?

Triste sina. Eu sei muito bem do espírito do cramunhão que baixa toda a manhã no meu quintal... É o nosso Cidadão Kane tupiniquim. Ou, melhor traduzindo, o nosso cidadão Kano, ou Cano, tanto faz. Pode ser a mira de umcano de fuzil, ou um cano de esgoto, para o qual “ele” sempre tenta nos empurrar.

Vocês sabem de quem estou falando, não sabem? Daquele espírito de porco, de um dos maiores pulhas senhores de veículos de comunicação do mundo todo, tão poderoso que chegou a mandar no nosso país, e que hoje deve estar vivendo nas profundezas do reino do tinhoso, e não mais habita o nosso globo terrestre.

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