domingo, 22 de março de 2015

Olha, mamãe, sem os óculos!

(Edmar Oliveira)

Lembro bem. Primeiros anos da segunda metade do século passado. Éramos um bando de garotos na sombra de uma mangueira na porta da minha casa (Rua Campos Sales, 1898) tentando adivinhar o que tinha acontecido no Brasil na data correspondente ao número da casa em frente, do outro lado da rua. Um número próximo ao da minha casa. Se era o ano da Lei Áurea, da Proclamação da República ou da Batalha Naval do Riachuelo. Eu sabia todas as datas, bom aluno de história que sempre fui. Mas tinha um grande problema para resolver. Não via a placa da casa em frente, só um borrão azul com algo escrito em branco que não tinha qualquer nitidez. Ali descobria porque assistia aula na primeira fila e via filmes perto da tela. Eu era um deficiente visual. Fui levado ao oculista e descobriram que eu tinha miopia. Passei a usar óculos daí em diante. Meus inseparáveis óculos para o resto da vida, disse o doutor.

E nunca tive problemas com meu assessório, de modos que não entendi a revolta do Herbert Vianna com a música “eu não nasci de óculos” para justificar uma cirurgia que corrigiu sua miopia. Não me interessei, gostava dos meus óculos. Às vezes até me descobria tomando banho com eles.

Fiquei incomodado quando passei a ter que tirar os óculos para ler. Perguntei o motivo a um oftalmologista amigo meu, já que eu sempre li com meus óculos de míope. “Depois de uma certa idade” – respondeu o meu irônico amigo – “só quem fica duro é o cristalino”. Entendi que o cristalino tinha uma flexibilidade de adaptar o foco para a leitura que ele estava perdendo, embora eu ainda não precisasse de comprimidos azuis aventados na hipótese irônica do meu amigo. Mas entendi também que a flexibilidade ia diminuindo e a rigidez aumentando quando tive que usar óculos para leitura. Nunca me adaptei aos multifocais, de modo que tinha de carregar óculos para perto e outro para longe.

Contudo a minha visão foi amarelando, precisando de mais graus e o minha atual oftalmologista indicou uma cirurgia de cartara. Tira-se o velho cristalino opacificado que é substituído por uma lente artificial e flexível. A cirurgia é simples, quase ambulatorial e você vai para casa menos de uma hora depois. Segue-se um pós-operatório complicado com uma série de movimentos que você não pode fazer. Mas tirando o tempo de se fazer nos dois olhos em períodos diferentes, é uma operação simples.

Fantástico é você descobrir que não precisa mais de óculos. As lentes levam os graus como se fossem óculos embutidos nos seus olhos. Velho, redescubro a alegria da visão sem precisar de óculos. Como um menino saí por aí vendo o realçar das cores e das formas que já tinha perdido. Tenho até que pedir ao Gervásio um novo desenho para o Piauinauta. Leio livros, vejo filmes, trabalho no computador sem problemas.


O problema são as manias de velho. Vez por outra me pego procurando um óculos que não mais preciso. Ou pior, tento tirar um óculos que não existe quando vou dormir...   



___________________
Crônica dedicada a Durvalino e Chicão, companheiros da aventura de estar no mundo.





O QUE DIZ E CALA O POEMA


o poema em alvoroço
diz com ironia e graça:
quem está no fundo poço

do fundo não passa
o poema fica mudo
ante a ideia que lança
a quem perdeu tudo
ainda resta a esperança

(Climério Ferreira)
___________________________
desenho: Arnaldo Albuquerque para capa do Gramma






RIO DE JANEIRO, MARÇO DE 1964/51 anos depois

(Edmar Oliveira)
desenho de 1000TON

Tenho o privilégio de viver o Rio de Janeiro em dois seguimentos extremos. Trabalho numa comunidade carente, onde a bolsa-família é a possibilidade de vida de algumas famílias miseráveis; o seguro-desemprego é bastante usado por trabalhadores desqualificados e efêmeros; os precários apartamentos da “Minha Casa, Minha Vida” o sonho da moradia definitiva de muitas famílias; o crack e a loló circulam na desesperança dos desenganados; a UPP, um policiamento odiento que sempre está contra os moradores da comunidade. 

Por outro lado resido na zona sul convivendo com a elite desta cidade, que apresenta um comportamento odiento contra o governo; tem no PT o bando de canalhas que roubaram o país e que é a desgraça da crise em que vivemos; o impeachment da presidente é pedido em todos os bares entre canecas de chope; a violência tem de ser contida com mais polícia e pena de morte para os excluídos; “só nesse país se aguenta tamanho absurdo”, declaram na esperança de uma marcha que mobilizou um milhão contra os desmandos; falam mal do Brasil por tudo e se comportam no exterior com o rabo entre as pernas num claro complexo de vira-lata.

Me preocupo com os desvalidos nos cortes que o governo faz nos programas sociais e não gosto dos ajustes, sendo por isso um crítico de um governo que acho inoperante e incompetente. Me preocupa nos segundos a arquitetura de um golpe como a elite civil apoiou em 64.

Os primeiros são os mesmo para quem as reformas de base não vieram em 64. Os segundos a representação do udenismo golpista, que apesar de não ser maioria tenta impor suas ideias no grito, a golpe e a galope. Tem um Lacerda em cada bar da zona sul. Outro dia, uns espécimes desta fauna comemoravam a greve dos camioneiros para tirar “essa gente” do poder. Eu, que sou crítico da apropriação dos esquemas de corrupção pelo PT, fico surpreendido com o ódio dirigido a “essa gente” como se eles tivessem a “ousadia” de roubar como as elites sempre fizeram. Mas a companhia d”essa gente” nos esquemas que sempre foram usuais lhes é insuportável. Não defendo nenhum ladrão e acho que todos devem pagar na justiça o crime  cometido e no caso de desvio do dinheiro público defendo que devia ser considerado crime hediondo. Mas arrisco a pensar, que para essa elite, há um preconceito de classe com os ladrões. Eles (essa gente petralhas e sindicalista) foram muito longe. E, impressionante!, quando vem a calmaria, entre chopes se confessa o suborno a um policial como a coisa mais natural do mundo. Acho que foi criado o mesmo pensamento que derrubou Jango.

Hoje a diferença é que não há qualquer ator competente para assumir a insatisfação (porque há e é legítima) com o governo Dilma. Os militares parecem que não querem montar neste cavalo selado, ainda ressabiados com a queda da ditadura de cinquenta anos atrás. Há impaciência com o processo democrático seguir o seu curso. Já vivi governos bem piores que o atual.  

Mas os Lacerdas estão dominando o discurso atual na cidade partida, sem se importar com os desvalidos e mais: acham que quem está em programa social não tem direito a voto, como se recontando os votos (excluindo os assistidos) o Aécio seria declarado presidente deles.

Tomara que seja só um revoar de corvos...
____________________________



foto de Marcelo de Franceschini