domingo, 23 de junho de 2013

Infância afogada



(Edmar Oliveira)
 
Deu no Diário Oficial do Piauí: o IBAMA concedeu licença para a construção da barragem de Castelhano no Rio Parnaíba. Já tem construtora licitada e prazo de três anos e poucos meses para a obra. Recebi a notícia impactado. Significa que grande parte de minha Palmeirais, da vizinha Amarante e até de Parnarama, no Maranhão, serão inundadas pelo lago da barragem.

Castelhano é um povoado onde fica a casa de meu tio-avô Valmir Soares, que nasceu naquele lugar e ali passou toda sua existência. O lugar mais longe que já foi foi a Teresina e só ia no centro de Palmeirais quando ainda tinha visão. Já cego, beirando aos cem anos, deseja ser enterrado naquele pedaço de chão onde habitou. Pensei cá comigo: ele tem muito pouco tempo para morrer e realizar o desejo. Se insistir em ficar vivo será retirado com sua família e mais 555 outras, segundo o Diário Oficial, para a construção da barragem que deve ser erguida na sua porta onde param os viajantes da estrada.

Destino também trágico tem o povoado de Riacho dos Negros, que será completamente inundado e desaparecerá no lago. O nome do riacho foi firmado na existência de um quilombo que habita aquelas terras por séculos sem fim e será tangido que nem boi para lá se sabe onde!

A notícia não informa que parte de Amarante será atingida, mas temo pelo afogamento de nosso poeta maior, Da Costa e Silva, que premonitoriamente cantou:
 
“(...) As águas crescem de repente / Avolumadas pela enchente.

Caudaloso, / Rumoroso, / Sem repouso, / Rolando as águas / Se arrasta o rio, rolando o peito / Nas areias e seixos do seu leito, / Talvez num desabafo insatisfeito / De incontidas paixões e recônditas mágoas...

Rugindo o rio repentinamente / Avulta, inchando, na expansão da enchente.

E ei-lo a correr, as margens distendendo / De quando em quando, / No seu contínuo e célere percurso, / Num conflito tremendo, / O solo a solapar, como querendo / Desviar o próprio curso, / Transbordando, / Inundando, / Avassalando...

(...) E o acento emocional, grandíloquo, eloquente / Da alma do rio vem ecoar na alma da gente, / Tumultuariamente, impetuosamente, / No horríssono rumor das águas pela enchente...”[1] 

Lendo o poeta sinto o trágico das águas represadas em que serão afogadas minhas lembranças e memórias de uma terna infância. É incômodo pensar que em pouco tempo, se até lá me permitir viver os Deuses, as minhas lembranças e afetos estarão no fundo de um lago em que se transformará meu rio, minha vida, meus guardados. E a minha cidade só existirá na memória... 

“A minha terra é um céu, se há um céu sobre a terra: / É um céu sobre outro céu tão límpido e tão brando, / Que eterno sonho azul parece estar sonhando / Sobre o vale natal, que o seio da luz descerra...”[2]




[1]Fragmentos do poema “Enchente” do livro “Zodíaco” (Oficina Tipográfica Apolo, Rio de Janeiro, 1917)
[2] Da Costa e Silva, poema Amarante,  no mesmo Zodíaco, seção Minha Terra.
Desenho luxuoso de Gervásio Castro

klöZ na peixaria por 1000TON


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(Edmar Oliveira)
 
Aconteceu. Vinte centavos foi o preço que levou multidões às ruas. Mesmo quem marcha junto com a garotada tem dificuldade de entender o que aconteceu. Muitos procuram as razões que fez a gota d’água transbordar. Não é só pelos vinte centavos, concordamos. Então se procura pelas razões da marcha desenfreada que tomou conta das ruas com palavras de ordem para todos os gostos. Acho que a mais simbólica foi a cartolina de uma garota que dizia: “desculpem os transtornos, estamos mudando o Brasil”. Mudar o quê. Que querem esses moços? Ah, esses moços que eu fui!

O troco! Parece até a briga daquela música do Gonzaga: “Eu lhe dei vinte mil réis pra tirar três e trezentos, você tem que me voltar dezessete e setecentos”. É. Os meninos, como o velho Gonzaga, querem mais do que o troco de dezesseis e seiscentos dos réis de ontem ou dos vinte centavos dos reais de hoje. Mas o quê?

O Brasil cresceu, é respeitado em todo o mundo, melhorou a distribuição de renda, uma nova classe média apareceu, o desemprego diminuiu, então o que eles querem, perguntam os governantes atônitos.

Melhor seria entender o que eles não querem. Não querem só que o troco seja devolvido, como também não querem esse jeito de governar. A democracia se encerra nas eleições. Os eleitos acham que podem fazer o que quiserem sem consultar os cidadãos. E eles querem o exercício da cidadania. E o cidadão não quer aceitar que se faça o que se quiser em nome do povo sem falar com ele. A prova de que o país cresceu é que se faz uma Copa de primeiro mundo. Mas o cidadão tem transporte, segurança, saúde e educação da nação antiga subdesenvolvida. O que era para ser orgulho, os estádios da copa, virou escárnio. Afrontaram o cidadão sem consultar e parece que ele não queria assim. A Copa das Confederações perdeu público para as manifestações. As remoções de massas urbanas para que a nação desenvolvida se instale se faz sem ouvir o cidadão que é empurrado para longe da cidadania. A reforma agrária não pode levantar a voz para não atrapalhar o agronegócio do país exportador. Os índios são empurrados pelas hidrelétricas que geram o progresso do Brasil em obras. Até vão alagar a minha Palmeirais sem negociar onde fica a barragem para deixar os quilombolas e minhas lembranças em paz. Nos estádios de futebol a gente tem que torcer como os europeus, sem gritar palavrões e querem me colocar do lado de um flamenguista ou vascaíno, misturando os nossos espaços de fanatismo. Proibiram nossas bandeiras e nossas charangas. Os pedágios tomaram contas das estradas e no Rio de Janeiro tem um pedágio urbano para dificultar o suburbano chegar na Barra, num claro impedimento do ir e vir sem consultar os usuários. Um político evangélico e homofóbico se tornou presidente da Comissão de Direitos Humanos, propôs a cura gay e a Câmara Federal aprova a internação compulsória de usuários de drogas na contramão do mundo civilizado. Para construir aqui um país de primeiro mundo se faz alianças com políticos ladrões e reacionários fundamentalistas ferindo o estado laico. Perdem-se anéis para conservar os dedos no poder. E isso parece que quem está na rua não quer.

Enfim, as cidades são administradas como empresas que só favorece o morador que produz lucro. O poder público não se importa muito com o bem comum, com a cidadania de todos. Os governos estadual e federal aprofundam essa forma empresarial de governar numa ânsia de colocar a nação no primeiro mundo. As negociatas são feitas por políticos e empresários à luz do dia enriquecendo os dois lados tirando do cidadão parte preciosa dos seus impostos, num roubo praticado por uma classe intocável em seus privilégios. Vale tudo para que o desenvolvimento brote. Esquecem de que partiram o país e que a sua maior parte não usufrui desse progresso e desse primeiro mundo. E mesmo que queira participar do progresso tem que aceitar as condições dadas. Como, a gota d’água, aumentar as passagens além da inflação de um transporte insuficiente, precário e sucateado para o maior lucro do Brasil rico. E é isso que eu acho que eles não querem, que eu também não quero, e que as manifestações vão engrossar até que os governantes e os que almejam ser eleitos descubram que o cidadão precisa de cidadania e por isso não aceita todo esse estado de coisas e também não aceita pagar mais esses vinte centavos. E quer agora mais que esse troco seja devolvido. O saco encheu. 

Como se trata de uma reação meio que de forma espontânea, corre-se o risco de algum aventureiro meter a mão. Estamos todos confusos ainda com o que está acontecendo. Um amigo botafoguense lembrou o Carlito Rocha: "quem não está confuso, não está bem informado".

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Minha amiga Lelê Fernandes traduz esse sentimento na sua poesia:

 Revolta justa
Qualquer parecer
ainda é cedo
Pra onde vai
um vento sem direção?

       LelêEmoji