domingo, 14 de maio de 2017

é desse jeito, meu chapa! (12)





O nosso arrependimento vem nos jaculatórios e nas rezas do sertão. Bendita sois entre as mulheres na nossa religião mariana que elegeu o cântico da cova de Iria no treze de maio para louvar o rosário de Fátima. Fomos criados no sertão caminhando em procissões que rezavam “a treze de maio, na cova de Iria, no céu aparece a Virgem Maria, Avé, Avé, Avé Maria”. Lembras da cantilena? O que achavas o que era a cova de Iria e onde ficava esse local que os três pastorinhos viram a Virgem? Assim como o vovô da cartilha viu a uva – que nós nunca tínhamos visto, só no desenho da cartilha – acreditávamos que os meninos viram a virgem na gruta da Iria. É o que dá achar que o português daqui – o que nos originou – é o mesmo que falamos por lá. Em Portugal cova pode designar uma extensão de terra numa baixada. Cova de Iria era a designação das terras pertencentes aos pais de Lúcia, a pastorinha maior que foi induzida a sustentar a história das aparições até depois de grande, quando virou freira e serviu a Salazar na propaganda anticomunista necessária a Portugal. Os segredos de Fátima, lembras deles? Eram uma vez três pastorinhos. Lúcia, Francisco e Jacinto. Segundo o padre Mário de Oliveira, aqui de Lisboa, que comprou uma briga om o Vaticano, os três foram usados pela a igreja para afirmar uma aparição, que no seu entender foi uma visão. Mais grave ainda, o padre Mário afirma que a igreja na época construiu a lenda de Fátima e, depois da morte dos irmãos Francisco e Jacinta – de pneumonia, frisa o padre negando o milagre – Lucia foi ser freira e re-significou as visões atendendo aos interesses políticos de uma igreja aliada a Salazar. Mas vamos falar baixo, que é bem capaz de um português ouvir a heresia que falo de ouvir da boca do padre e zangar-se imensamente com um dogma de fé português que colocou a peregrinação de Fátima no calendário religioso mundial. E aposto contigo quem defende os milagres de Fátima com mais fé: se o português ou o sertanejo que acha que a cova de Iria é um buraco na pedra na árida caatinga sertaneja e os pastorinhos são filhos de um vaqueiro que se perderam em algum lugar para verem a aparição da santa virgem. Até porque dos milagres de Fátima no sertão deve ter um que faça chover ou promessa para achar uma rês desgarrada antes que o carcará dê cabo da cria. Nos apropriamos da santa portuguesa com uma fé tão grande quanto a deles, me entendes? O sertanejo é tão agarrado no rosário de Fátima quanto os filhos de portugueses que enricaram no Brasil e adornam seus carros com as contas do rosário, como que agradecendo a santa por ter um carro novo. Aqui, na religiosidade portuguesa, que fundou um país na expulsão dos árabes, é dogma inquestionável, embora o padre Mário tenha escrito um livro chamado Fátima S. A. para demonstrar a exploração da fé como a indústria religiosa mais rendosa que o Vaticano. E antes que imagines a cova de Iria como a imaginação sertaneja nos desenhou, é bom que saibas que as aparições da virgem foi numa azinheira, essa árvore sagrada portuguesa protegida por decreto. Da azinheira, onde se deu as aparições da santa, não resta a sombra, que os romeiros levaram pra casa na esperança do raminho propiciar um milagre pastoril. E no sertão, onde nunca nasceu uma azinheira, ficava esquisito a aparição da santa ser em riba de um pé de pau, entendes? Melhor traduzirmos a cova daqui para uma loca na pedra que foi desenhada até nos nossos livros de catecismo e no oratório da minha avó. E quais o segredo da santa? Lúcia – a sobrevivente dos visionários pastores – entrou na ordem das Carmelitas Descalças e só em 1941 – vinte e quatro anos depois – revelou duas partes do segredo: a primeira parte é a descrição do inferno mais medonho do que o de Dante. Foi tão horrível a visão que Lúcia confessa que só escapou de morrer pela promessa da santa em levá-la aos céus. Na segunda parte conta que para salvar a humanidade do martírio da primeira parte é necessária a devoção ao coração de Maria. E para a guerra acabar seria necessária a conversão da Rússia, senão a guerra acabaria e viria outra pior. Na localização política da revelação do milagre, saibamos que a santa apareceu em 1917 – no meio da primeira guerra e da proclamação das repúblicas soviéticas. Na sua divulgação já estávamos na segunda guerra e – na opinião de Salazar – a Rússia era a culpada de nova eclosão da guerra por falta de conversão e adoração ao coração de Maria. A terceira parte foi escrita em 1944 e só revelada em 2000. Deixem a pena de Lúcia escrever com a ordem do bispo de Leria: “E vimos numa luz imensa, que é Deus, algo semelhante a como se vêm as pessoas no espelho, quando lhe diante passa um bispo vestido de branco. Tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre. Vimos vários outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande cruz, de tronco tosco, como se fora de sobreiro como a casca. O Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade, meio em ruínas e meio trémulo, com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena. Ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho”. Mesmo que a posteriori, essa parte foi interpretada como o atentado ao Papa João Paulo II em 1981. Mas há interpretações mais ligadas à geopolítica que dizem que a revelação deste sinal fez a igreja reagir e por interações divinas a União das Repúblicas Soviéticas é destruída dez anos depois, atribuindo-se ao segredo de Fátima a manutenção desse mundo de Deus católico livre do comunismo. O certo é que no sertão isso não tem a menor importância e continuamos a cantar que a treze de maio na cova da Iria no céu aparece a Virgem Maria. E todo o segredo não pode ser discutido cá em Portugal pela força da fé no rosário poder destruir quaisquer pretensões dos esquerdistas da terrinha. Afinal, segredo é segredo e bom que fique assim, oh pá!      
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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rioem 1976. Em 31 de dezembro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)     

Literatura húngara



(Geraldo Borges)


Há muitos anos atrás, no tempo eu que eu era devorador de estórias curtas, eu li e reli, não sei quantas vezes, um conto húngaro, de inefável beleza, intitulado o “Ferreiro da Catarata“ de Makszáth Cálmán que faz parte de uma  antologia,  de contos húngaros,  organizada e traduzida por Paulo Rónai, e  prefácio de Guimaraes Rosa, mesclado de bastante erudição, onde ele ministra uma aula sobre a  historia da formação cultural da Hungria.

O conto em questão trata de uma estória a respeito de um ferreiro, de mão pesada, que, por um estranho dom, sabia fazer operação de catarata. Que beleza. Fazia as criaturas de Deus voltar a enxergar. E nesses milagrosos momentos suas mãos ficavam leves como borboletas.

A sua fama correu a vizinhança da sua aldeia, chegou até a Universidade. O mundo acadêmico quis coloca-lo à prova. E arranjou um paciente para que ele o operasse dos dois olhos. Deram-lhe uma passagem de trem. Ele veio de pé. Um dos médicos reclamou por que ele tinha vindo de pé. Ele retrucou. Vou fazer a operação com as mãos. Então mãos a obra, disse o médico, tentando conter a sua curiosidade.

O ferreiro empunhou o seu canivete e começa a descascar um olho do paciente tão delicadamente como se tivesse descascando a pele de uma maçã. E os médicos olhando aparvalhados, perplexos. O caso era complicado. Mas o ferreiro saiu-se bem no primeiro olho que era até mais estragado do que o outro, mais comprometido.

Nisso, um dos médicos, querendo mostrar conhecimento cientifico, não aguentou e abriu o verbo falando sobre a organização do olho humano, a rede de seus nervos, a sua fragilidade, e o que uma operação efetuada por um leigo poderia ser uma temeridade. Esta advertência abalou o animo do ferreiro.

Mesmo assim o médico  permite que ele trabalhe no outro olho do paciente. Mas as mãos antes firmes e leves começam a tremer, como um leque travado. E o ferreiro deixa cair o seu canivete, e sentindo-se culpado desiste de continuar o seu serviço. Começa a transpirar frio com medo de encarar um órgão tão complexo.

O conto, na verdade, é escrito em forma de prefácio para a obra de um suposto autor E o narrador parece que está dizendo que a técnica não é tudo, que há mais coisas entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia. E que não se aprende a escrever apenas com os instrumentos acadêmicos, e que o talento, o dom, e a graça não tem preço. E que é perigoso deixar de ser louvado. Hoje se promove oficinas literárias para que estudantes apreendam a escrever. Tudo bem. Não custa nada. Mas, é bom saber que os maiores escritores brasileiros foram autodidatas, e se guiaram mais pelo talento do que pela técnica.

o poeta e as flores



(Geraldo Borges)
                     
        
Manhã de sábado. Tinha acabado de ver o programa Feito em Casa de Cineas Santos. Logo mais sai de minha residência no bairro Aeroporto na companhia de meu filho, Amadeu Neto, para entregarmos as marmitas do nosso almoço na casa da senhora que nos fornece a boia, a um quarteirão de distancia de nossa casa. 

Quando íamos chegando, ao dobrar a esquina, o Amadeu avistou o Cineas. E disse: Olha ali o Cineas.

Na verdade, não era mais a mesma  criatura,  que, tínhamos visto, ainda, há pouco,  na televisão. Era uma figura fora da tela. Real. Não estava representando.

Ele estava  ao lado de seu carro, um Fiat. Achei  a sua presença, estranha,  ali, naquele local. E como se  tivesse saltado da tela para a realidade  Seus cabelos prateados brilhavam ao sol. 

Cumprimentamo-nos. Ele disse que estava fotografando flores silvestres. Notei que elas cresciam exuberantes, devido a força das chuvas e do sol, ali, por perto, no passeio da calçada. Flores silvestres do subúrbio que nasceram ali por obra e graça da polinização, como os lírios do campo. Depois  explicou-se dizendo que fotografar flores  era coisa de velho.

Aproveitei para me lembrar dos versos do final de um soneto chamado “Envelhecer” de Bastos Tigre. (quem se lembra de Bastos Tigre?)

Que a neve caia! O teu ardor não mude!
Mantém-te jovem, pouco importa a idade!
Tem cada idade a sua juventude...

Eu acho que o Cineas não quis dizer que estava velho. Nem todo velho fotografa flores. Eu se fosse  esperto, espirituoso, teria respondido direto  para ele. Coisa de poeta, meu velho.

Tabatinga