domingo, 26 de março de 2017

é desse jeito, meu chapa! (10)

Nise e o autor em tempos remotos

(...) Devotado à mestra entregaste as liberdades da loucura aos preceitos da Reforma Psiquiátrica. E da reforma viraste um sacerdote reconhecido nas pregações canônicas. Mas não és atormentado pelo o abandono que pode ser o resultado da liberdade nessa sociedade onde sãos não conseguem ter os seus direitos, que dirão dos direitos de quem não reivindica? A psiquiatra rebelde, certa vez, inquiriu o autor da lei da reforma psiquiátrica, lembras? Perdoou-o por não ser psiquiatra. E reivindicou um território livre para a loucura, assim como era reclamado um território indígena. Onde a loucura, como os costumes gentios, ficasse livre das leis dessa perversa sociedade capitalista predatória e individualista. Era uma preocupação da mestra que foi esquecida pelos que implantaram a reforma psiquiátrica no país. Nós copiamos muito da reforma italiana, um pais mais estável que o nosso. Imagina a mudança de política que agora estamos atravessando, com a desregulamentação de tudo. Num país instável, de leis mutáveis e constituição remendável seria de bom tom ouvir com certa atenção a preocupação da doutora, não para negar o que foi feito, mas para afirmar um território de autogestão onde, pelo menos, o louco pudesse buscar refúgio quando não encontrasse lugar na intolerância cá fora. Um hotel da loucura, como já foi experimentado e também abortado por que as boas ideias não vingam entre nós. Lembras? Quando deixastes o hospital do Engenho de Dentro, um médico artista fez de Nise, Dionísio e experimentou um modelo de convívio bastante diferente do manicômio. Os somatórios dessas experiências teriam sido bons, não concordas? Acho que vocês foram cínicos em negarem um porém que a psiquiatra rebelde apresentou, apenas porque tal porém podia fazer pensar que estavam sendo complacente com o manicômio. Mas o que eu dizia antes? Nossa felicidade é feita de angustias e o teu mesmo pequeno reconhecimento não levou em conta a dúvida que tivestes em tentar encerrar um manicômio e a angústia por um futuro que não sabes prever. O que pode minorar tua aflição, posso garantir, é que a certeza é absolutamente impossível de ser alcançada. E ainda bem, senão não haveria a evolução humana necessária ao movimento de uma gangorra que só segue em frente com necessários recuos. Ou seria a própria negativa de democracia, não te parece? A democracia não é a espiral histórica marxista, mas a inevitável gangorra sobe e desce, direita – esquerda, mais tempo lá em cima – mais tempo cá embaixo, que na espiral do tempo navegam novos atores, que os velhos não aguentariam de ver a repetição dos tempos pela a eternidade tediosa. Ainda bem que se morre, meu chapa! Mas fiquemos por hora no movimento da gangorra em que estamos vivendo. Não te parece que há uma apropriação das ações de todos por um saber acadêmico que pretende organizar o movimento e orientar o carnaval?  Como se precisasse de um “Processo dos Távoras” tão bem conhecido aqui em Portugal. Depois do terremoto que botou Lisboa abaixo, em 1755, a cidade era um assombro e o Marquês de Pombal precisava de um rei forte para empreender as reformas necessárias numa corte poderosa e reivindicatória. Mas Dom José I era um fraco rei faminto das tentações da carne. Mesmo na cidade arrasada, usava os préstimos de um fâmulo – um proxeneta que intermediava encontros amorosos – para passear incógnito com sua amante por ruas sem iluminação e destroçadas. Talvez tenha sido vítima de um assaltante comum transformado num atentado pelo maquiavelismo do Marquês de Pombal para destroçar a família aristocrática da moça – a família dos Távoras – e alguns jesuítas. A crueldade do episódio serviu para mostrar o absolutismo do reino e a carta branca a Pombal, que num terremoto político, maior que o geológico, conseguiu colocar os inimigos em quietude para fazer absoluto as reformas necessárias. E Lisboa deve a Pombal a sua bela reconstrução. Os reis absolutistas da academia também conseguiram empreender um belo movimento em que alguns pretensos aristocratas não tiveram o direito de participar porque podiam atrapalhar a reconstrução do saber. E tu que ficastes fora da academia, por mais contribuição que possas dar ao processo de formação de novos atores, ficarás distantes como um estrangeiro – mesmo conhecendo o lugar. Acontece que não tens o passaporte para o ensino. A tua experiência esgotar-se-á consigo? Talvez não, porque alguns podem ter sabido ler nas linhas tortas da tua prática. E esses rir-se-ão dos professores, nas salas de aula da academia, quando ficar claro que eles sabem do livro, mas nunca viram o livro fazer na prática. Não, não quero que tu fiques satisfeito com o que eu digo aqui. Comestes a mosca enquanto o tempo passava. Ficastes por muito tempo na prática sem recorrer a sapiência acadêmica. Quem mandou? É muito certo que hoje antes de se conhecer a prática existe o mestrado e o doutorado em nada. A academia está cheia de sabedores dos livros com a prática do nada. São apenas belos transmissores do que aprendem nos livros. Afastando-se um pouco das leituras dos livros o saber desmorona sepultado pela ignorância. Sim, eu sei que tens até um livro que o atrevimento te fez colocar entre os livros dos mestres. Serviu para mostrar tua prática, mas não foi além porque te faltou o saber atestado na academia. E por isso és um Távora. Apenas morres para que o absolutismo acadêmico se instale sem contestação. Além de ser traído pelo rei, servistes aos interesses dum Marquês de Pombal que montou a sapiência acadêmica e pôs fora os pretensos nobres que não rezaram na cartilha doutora mestra. Entendesses ou quer que eu desenhe? (...)

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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rioem 1976. Em 31 de janeiro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)

VENTOS DE OUTONO


Esses ventos de outono
Embalam meus pensamentos

Eu sonho com caju
E outras frutas esquecidas
Que travavam meus dentes
Na longínqua mocidade


(Climério Ferreira)










Cenas da vida provinciana





(Geraldo Borges)
 
Domingo. Dia nublado. Bom para um passeio. Pego o ônibus à frente do hospital da Primavera, bairro onde moro, há mais ou menos três quarteirões distante de minha residência.  Não demorei muito. Logo que cheguei o ônibus passou. Embarquei. Dei bom dia ao motorista e sentei em uma cadeira, ao lado da janela, reservada para pessoas idosas, senti a brisa suave da manhã. O ônibus não estava superlotado como sempre acontece durante a semana de expediente. As pessoas exprimiam um ar mais relaxado. Nenhum passageiro estava em pé. Pela fisionomia das pessoas não havia ninguém apressado.

Era domingo. Notei algumas pessoas com a bíblia na mão. O coletivo flui bem pelas avenidas. De vez em quando um passageiro tocava a campainha para avisar que ia descer na próxima parada. Enquanto isso eu me distraia olhando os transeuntes que passavam pelas calçadas, e observando detalhes em seus movimentos. Da Primavera ao Pro Morar, o conjunto habitacional para o qual eu estava me dirigindo o ônibus gasta uns cinquenta minutos. Atravessa o centro da cidade, passa pela Piçarra, o Parque Piauí, e finalmente chega ao Pro Morar.

Ao entrar no conjunto, já perto do ponto onde eu teria de descer, o motorista parou sem nenhum sinal anunciado, e deixou o carro ligado. E desceu para a rua. Atravessou o meio fio, subiu a calçada e entrou em uma farmácia. De repente me lembrei de um personagem de um romance de Carlos Heitor Cony, que, no papel de motorista, abandona o seu ônibus e deixa os passageiros a ver navios. Perguntei a pessoa que estava ao meu lado, se ele tinha ido mijar. Ela respondeu: foi comprar remédio. Quando íamos dando continuidade ao diálogo ele apareceu. Continuamos a viagem. Pedi o cara da catraca que passasse o meu cartão. E avisasse ao motorista que eu iria sair na próxima parada. Dito e feito. Quando chegou no ponto eu desci.

Em menos de cinco minutos eu estava na porta de minha comadre. Antes que eu me esqueça, levava embrulhada em papel jornal dentro de uma sacola de pano, uma garrafa de vinho. Subi a calçada, que é bastante alta e não tem degraus. A porta da casa estava fechada. E não tinha combinado a minha visita com a minha comadre. Estava me ariscando. Toquei a campainha várias vezes, e nada. Cansei. Só os gatos ouviram. A casa dela está cheia de gatos. A última vez que estive com ela, na volta, foi me deixar, no ponto de ônibus, e encontrou um gatinho abandonado, miando e o levou para casa. Pensei em deixar um aviso escrito na porta. Desisti. Pensei em deixar o vinho dentro do terraço, meio escondido num jarro de planta, também desisti.

Resolvi voltar para casa. Ao fazer o caminho para o ponto de ônibus passei pelo bar e restaurante, onde minha comadre é freguesa, e perguntei por ela. O dono respondeu que ela tinha viajado para a cidade de Colinas, Maranhão, onde meu afilhado, professor de inglês e francês, está lecionando.

Atravessei a avenida para pegar o ônibus de volta para casa. Quando ia chegando próximo ao ponto, avistei o ônibus já saindo da parada. Ia perde-lo. Mesmo assim, dei um aceno, apelando para a boa vontade do motorista; se ele não parasse eu teria de esperar outro coletivo. E com ia custar. Pois aos domingos a frota de ônibus fica reduzida O tempo estava se desnuviando. Para ventura minha o motorista parou, a abriu a porta, e eu entrei. Era o mesmo ônibus que eu tinha pegado antes.

Termino essa crônica pensando, como seu desfecho seria diferente, se a minha comadre estivesse em casa. Ou se eu tivesse brigado com o motorista pelo simples fato de ele ter parado o seu ônibus para comprar um tranquilizante.



Salgado Maranhão

A imagem pode conter: comida
desenho: Amaral

COMO UM RIO 9

Trouxeram-nos até aqui
à pilha da usura --
com louvores e degolas
laureadas;

trouxeram-nos até aqui
(a guindaste) para brotar
nos caules secos:

o vento cáustico e a razão
muscular inaugurando
a dor;

o longo acervo de auroras
para guardar constelações
de mármore.

E o lavrar do braço
que arrima a luz
e as flores(o braço
açoite e capuz).

Então durmo sobre a fenda
aberta à radiação
dos séculos,

e sigo com os que perderam
a caravana de volta:

o que ainda não sou
me acena o penhasco.

Quem ergueu esse trapézio
com as cordas rotas?

Quem semeou esse pomar
de nuvens?

O poema pede silêncio
para sonhar.

(SALGADO MARANHÃO)






Viagem




Na juventude
Eu tinha vontade
De conhecer o mundo
Principalmente
O velho Mundo

Mas o meu dinheiro
Só dava para comprar
           Livros leitura loucura           
De um leitor do novo mundo
Em busca de aventura

Num voo rasante envelheci
Folheando papeis amarelos
E descobri que o meu
Novo mundo tinha
Virado o velho mundo.

(Geraldo Borges)