domingo, 29 de janeiro de 2017

é desse jeito, meu chapa (7)

Pedro IV imponente num cartão postal antigo do Porto. No detalhe: Pedro I e Domitília

(...) Só não me fale de política, que é uma coisa que eu não tenho o menor interesse. O vate de Lisboa, aquele da estátua no Chiado, na pele de Álvaro de Campos já disse tudo o que eu desejava dizer. Ele disse ontem, mas serve pra hoje e amanhã. Lembras que recitávamos nas pessoas a pessoa do Fernando? Posso ativar tua memória recitando o que o nosso Baiano dizia com uma entonação dramática: “Fora tu, /  reles /  esnobe /  plebeu /  E fora tu, imperialista das sucatas /  Charlatão da sinceridade /  e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro // Ultimatum a todos eles / E a todos que sejam como eles /  Todos! // Monte de tijolos com pretensões a casa /  Inútil luxo, megalomania triunfante /  E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral /  Que nem te queria descobrir // Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular / Que confundis tudo /  Vós, anarquistas deveras sinceros /  Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores /  Para quererem deixar de trabalhar / Sim, todos vós que representais o mundo / Homens altos /  Passai por baixo do meu desprezo /  Passai aristocratas de tanga de ouro /  Passai Frouxos /  Passai radicais do pouco /  Quem acredita neles? / Mandem tudo isso para casa /  Descascar batatas simbólicas // Fechem-me tudo isso a chave /  E deitem a chave fora /  Sufoco de ter só isso a minha volta /  Deixem-me respirar /  Abram todas as janelas /  Abram mais janelas /  Do que todas as janelas que há no mundo //  Nenhuma ideia grande /  Nenhuma corrente política /  Que soe a uma ideia grão /  E o mundo quer a inteligência nova /  A sensibilidade nova / O mundo tem sede de que se crie /  Porque aí está apodrecer a vida /  Quando muito é estrume para o futuro /  O que aí está não pode durar /  Porque não é nada //  Eu da raça dos navegadores /  Afirmo que não pode durar /  Eu da raça dos descobridores / desprezo o que seja menos /  Que descobrir um novo mundo //  Proclamo isso bem alto /  Braços erguidos / Fitando o Atlântico // E saudando abstractamente o infinito”. N tomou fôlego após tomar emprestado a entonação de nosso falecido amigo – que até esqueceu o próprio nome para se chamar Baiano – e sorveu do vinho, molhando a boca para estalar a língua. É isso, meu chapa. Os mandarins do mundo se cagam todos diante desse poema. E nós somos apenas uma pilhéria do Cabral com os nossos trabalhadores que tomaram o poder para deixar de trabalhar. Só acho que o estrume para o futuro do poeta ainda não germinou nada. Continuamos sendo o estrume fétido esperando a vida brotar de uma merda que parece estéril. Nem pra isso serve a merda em que transformamos esse mundo, podemos proclamar de braços erguidos, fitando o Atlântico ali na foz e saudando esse infinito que talvez nunca saia da merda cantada pelo poeta. É que a herança dos navegantes fez a soberba dos portugueses que procurando o rabo do gato acharam o gato e ficaram sabendo que eles eram tão somente o rabo, compreendeste? Mas um rabo que impôs o equilíbrio no gato. E que puderam ser retirados para fazer o governo do império na colônia. Nosso Pedro I, que nos independeu da corte brigando com o pai, teve que vir aqui dar uns cascudos no seu irmão Miguel, entrando pelo Porto, aqui onde nos encontramos. Ficou conhecido como o príncipe soldado e de tanto guerrear pelas ideias liberais contra os absolutistas daqui e de Castela ficou tuberculoso e morreu jovem. O coração do Pedro IV, a ordem de sua numeração aqui, está guardado ali na igreja da Lapa, mesmo que seu corpo tenha sido devolvido ao Brasil em 1979. Os tripeiros têm boa lembrança dele e aqui ele não tem a fama de raparigueiro que ganhou entre nós por seus casos com as moças de vida nada fácil. E por falar nisso não chame ninguém aqui de moça que significa vagabunda. Pode chamar de rapariga que pra nós significa puta. Uma questão de troca entre os dois costumes: a moça deles é rapariga pra nós e a nossa rapariga é a moça deles. E não volte pra nossa aldeia chamando alguém de rapariga. Pois bem, o Pedro daqui já não era o menino raparigueiro que nós lembramos. O soldado guerreiro tem outra reputação em Portugal, no Porto, então, seu coração é guardado como o de um santo na igreja da Lapa. Nem parecem a mesma pessoa. Não teve Domitila aqui no Porto, pelo menos que os tripeiros lembrem. No Rossio ele está acima num pedestal imponente de quase trinta metros de altura. E os brasileiros se espantam com aquele quarto Pedro que foi antes o nosso primeiro, no meio da praça onde os pombos cagam branco no bronze tornado preto e cagam preto na parte embranquecida do pedestal. Mas antes ele foi homenageado aqui no Porto na praça da Liberdade, onde traz nas mãos a constituição portuguesa que ele outorgou e as rédeas do cavalo como garbosamente teria entrado no Porto, retratado numa plaquinha de bronze no pedestal. Noutra placa temos a entrega do coração do monarca liberal a esta cidade de tripeiros, onde fez das tripas coração para novamente unir o reino de Portugal. E lá no Brasil ele é mais lembrado pelo túnel que cavou da Igreja da Glória para a casa de Maria Benedita, Marquesa de Sorocaba e irmã de Domitila. Também pegava a Benedita escondido da Domitila e teve uma filha com ela, reconhecida em testamento. Comia a amante durante a missa escondido pela proteção divina. Enviuvado enjoou das amantes e aqui chegou com Amélia de Leuchtenberg e posa de monarca liberal, bom soldado, mas nós o bem sabemos ser bom moço no sentido que cá se usa. Se lá ele foi um dos que passaram por baixo do nosso desprezo – fazendo a poesia do vate valer para antes de composta – cá eles o tem como um altaneiro monarca esclarecido que doou seu coração a pátria amada, o mesmo coração que a Marquesa de Santos não conseguiu ter para si e que a mandou de volta a São Paulo após a morte de Maria Leopoldina que ficou esquecida apodrecendo frente ao canal do mangue. Talvez por isso São Paulo não goste do quadro de Pedro Américo e fuxiquem pelas esquinas do Bexiga que Pedro primeiro montava uma mula e se cagou nas margens do Ipiranga quando gritou a nossa independência com dor de barriga depois de ter comido um virado e tomado um fogo também paulista. Hoje o riacho Ipiranga atravessa o bairro do mesmo nome pra desaguar já cheio de merda no Tamanduateí, rio que vai inundar o Tietê com mais bosta. Mas os paulistas juram que quem primeiro cagou nos rios da cidade foi Pedro I. E cá o Douro com esse esverdeado encrespado cheio de douradas – que tu bem devias pedir uma assada na brasa para sentir o que é ter um rio há mais de dez séculos sem a poluição que nos é tão costumeira. Ainda dá pra sentir o Pedro IV desembarcando no cais da Ribeira para reivindicar o trono que o irmão Miguel tinha usurpado, mesmo tendo casado com a herdeira sobrinha filha do Pedro. Me intriga como a história aqui é séria e a nossa completamente debochada, até quando os personagens são os mesmos. Aqui dizem que a esperteza de João VI deixou os franceses a ver navios quando tomaram Portugal. Lá nós o achamos corno, engordando comendo frango e limpando as mãos na suja roupa, com a cabeça cheia de piolhos e Carlota Joaquina mandando e fodendo na corte. Dá pra acreditar? Não é o monarca esperto que fugiu pra governar de longe e não perder o trono. E ainda fez do filho Pedro monarca de dois reinos. Ou esses portugueses não têm senso de humor ou nós somos uns incorrigíveis deformadores dos fatos ou a história não tem seriedade abaixo da linha do Equador(...) 

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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rioem 1976. Em 31 de janeiro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)

O Campo e a Cidade

Desenho: Amaral

(Geraldo Borges)
                                                                                                            
Está no DNA a visceral inclinação para voltarmos para  o campo. E claro que saímos do campo. E quem vai volta. E a lei do retorno. No principio fomos todo camponeses. Depois, com o desenvolvimento do comercio e o aparecimento das cidades, a corrida para as metrópoles se acentuou. Na cidade você tinha uma sensação de maior liberdade. Não via o patrão. Mesmo assim não esquecia o interior. A nossa literatura romântica e moderna cheia de louvação a natureza. Descrição de lindos por do sol. Na poesia nem se fala. Na verdade, o Brasil durante o período romântico era uma vasta fazenda com seu engenhos e plantações de café.

A nossa literatura vai marcando no seu texto como uma espécie de rodapé cronológico   todos as etapas da evolução da nossa vida no campo e a ponte para a cidade.

Vidas Secas, por exemplo, termina com a família de Fabiano chegando a cidade, na esperança de ter uma vida melhor. Em Angustia, o personagem principal, Luís da Silva, veio do campo. O romance quase todo gira em torno da angustiante lembrança do seu tempo de menino na fazenda de seus avos.  O personagem tem uma experiência da vida na cidade, vivendo com um salário miserável, cheio de dividas, e uma vida sentimental destruída. Voltar ao campo não podia mais A cidade já tratara de degenerá-lo a ponto de tornar-se um assassino. Matou um representante do Poder.

Hoje não se distingue mais o campo da cidade. Tudo que está no campo está na cidade. A tecnologia é onipresente. Quem tem um pedaço de terra aqui no Nordeste, chama-o de sitio. Lugar na beira a estrada, ou dentro do mato, onde você pode chegar por uma estrada vicinal. Geralmente o sitio tem riacho ou poço, até mesmo piscina, televisão, geladeira, bar. E ali se ritualiza os mesmos prazeres da cidade. Muito churrasco e cerveja, mulheres bonitas, e o mesmo papo superficial de sempre. O sitio é para fim de semana. Nele não existe nenhuma unidade de produção, a não ser fruta silvestres que muitas vezes apodrecem ou são comidas por passarinhos. Para se manter um sítio tem que se contratar um caseiro, Segurança. Mas o caseiro termina sendo experto. E o dono do sitio sente-se lesado. No começo tudo é uma beleza. Convidam-se os amigos. Bebe-se muita cachaça. Tudo isso passa rápido. E me faz recordar um amigo meu que caiu nessa de comprar um sitio depois vendeu. Ele dizia.


Só tem dois dias felizes para o dono de um sitio: o dia que comprou e o dia em que vendeu. Vendi o meu. E se um dia tiver de voltar para o campo, voltarei para o campo santo ou para a cidade dos pés juntos, o que é tudo a mesma coisa.





o sertão

Desenho: Ciro de Uiaruna


O sertão areia em minha boca
Gosto amargo de fel no coração
Uma enxada na terra gleba pouca
E não é minha a minha plantação

O sertão é joelho no lajedo
E tirar o chapéu para o patrão
Não poder falar suor e medo
De encontrar barata no gibão

O sertão veredas no caminho
Por desvios de morte e  solidão
Uma agreste ferida de punhal

O sertão servil ser tão mesquinho
Já não posso aguentar esse surrão
Nas minhas costas vou pro litoral

(Geraldo Borges)




domingo, 15 de janeiro de 2017

é desse jeito, meu chapa (6)




Mas vocês que foram para o Rio de Janeiro também não encontraram pote de ouro algum. Lá o arco-íris bebe água poluída na baia de Guanabara para cagar balas nas comunidades do subúrbio. Houve um tempo que o Rio parecia uma Paris sofisticada na rua do Ouvidor, no bulevar da Rio Branco imitando Haussmann que abriu grandes avenidas para higienizar as insalubres ruelas da Paris que trazia os miasmas da peste da idade média. Lima Barreto passeava às tardes nessa imitação parisiense até ficar bêbado e não conseguir voltar para Todos os Santos. Mas a embriaguez não lhe tirou a perspicácia de mostrar nos seus escritos a alma carioca que transitava nesse cenário de mentira. Houve uma época também em que a burguesia se enganou e procurou terrenos na linha do trem que desbravava o sertão carioca. Iam em busca de ar puro até a percepção de que o litoral era mais propício a forma carioca de viver adquirida na exploração do cabaré de madame Mère Louise em Copacabana no mesmo lugar que depois foi construído o Cassino Atlântico até ser fechado pela mulher do Dutra. Mas aí Copacabana já era a Princesinha do Mar e a burguesia já tomava banho na praia que ficou conhecida como a maior diversão do carioca em dia de sol. À noite o teatro de revista com suas vedetes e seus artistas evoluíam do Copacabana Palace ao Vogue, até a boate pegar fogo num incêndio no meio da tarde para uma crônica de Antônio Maria, habitué e hóspede do Barão von Stuckart. A Princesa Isabel ficou mais larga e Copacabana mais triste com o fim de uma era de glamour de verdadeiros ricos que não trabalhavam para apreciar o árduo trabalho dos profissionais notívagos do samba canção. Vozeirões que se perdem para pequenas vozes nos apartamentos e nos recitais da bossa nova. Mas aí já é outra história e esses anos dourados de um Rio de Janeiro em preto e branco vocês não viveram. No samba canção das boates, Jorginho Guinle calculou malgastar sua fortuna pelo tempo que viveu. Viveu mais do combinado com o destino e morreu pobre. Mas enquanto foi rico não precisou trabalhar para prometer as melhores noites ao Rio. Jango participou daquela esbórnia dourada carioca presenteando amantes com apartamentos e casas de espetáculos por um encontro às escuras num rendez-vous. Preferia comer as garotas do Carlos Machado do que apreciar a bela Teresa que o serviria de adorno no comício da Central passando a imagem de termos tido a mais bonita primeira dama de um sonho infantil do comunismo. Mas antes disso vivemos um tempo pensando que os anos dourados não acabariam. As revistas traziam propagandas coloridas de enceradeiras, liquidificadores, panelas de pressão, vitrolas de alta fidelidade e televisores que prometiam nos levar ao American Way of Life no Terceiro Mundo. O Gordini, a Rural, o Aero-Willys mudaram a paisagem das cidades concorrendo com os carros importados que a classe média não podia comprar. O pic-nic com toalha xadrez e cestinha de vime com sanduiche e refrigerante só era atrapalhado pelas saúvas e pouca saúde que os males do Brasil são – como gritava Macunaíma. Mas os anos dourados vividos pelos cariocas e vendidos como ilusão aos demais pontos do país acabaram com a inauguração de Brasília no sonho de Juscelino. Com o poder foi embora o dinheiro fácil que alimentava os ricos que sempre viveram na sombra do estado, que tem de ser mínimo para que só a eles comportem. Mas quando vocês chegaram ao sul maravilha, embora acreditassem, essa época era só de ouvir falar. O golpe que ajudou destruir tanto a esquerda – que apreciava, quanto a direita – que vivenciava tal tempo, já tinha endurecido e mandado os opositores para o porão. Talvez alguns de vocês estejam vivos por terem perdido o bonde que desejaram, entendes, meu chapa? Nós somos da geração que resistiu ao golpe e também não fizemos resistência consequente por um fosso espacial entre o sertão e a província, entre o norte e o sul, entre um chegar e um já morar no lugar. Porque o espaço aqui é tempo, concordas, meu chapa? O tempo que alarga a distância do conhecimento, da informação, da participação. Uma distância temporal que esmaece a fotografia de tentarmos pertencer a um lugar em que não estávamos. Como se o teletransportador de nossa Enterprise não funcionasse direito para que a nossa jornada nas estrelas não acontecesse. E é dessa distância entre o presente e o nosso passado que quero falar consigo hoje. Foi preciso que o acaso nos colocasse em outro continente para que a distância fosse entendida na sua dimensão. Um lugar muito longe, mas que contivesse o nosso passado ancestral, estás a entender? É cá do Porto, nesse céu cinzento da Ribeira, que se debruça ao Douro que quero te falar do que é tão longe que nem parece ter acontecido. A Torre Eiffel não me disse nada, mas ela aqui esparramada de um lado a outro do Douro, como uma passagem entre margens, ela me diz da nossa ponte metálica que se debruça sobre o Parnaíba numa tarde de sol. Mas não é só porque não queremos lembrar e nisso tens razão. Nós destruímos nosso passado e assim somos atingidos nas lembranças. Já vistes que fizeram uma ponte nova, cheia de estaias como asas ao céu e um miradouro para que observemos como nosso passado é pequeno, como nossa cidade foi reconstruída do outro lado do rio, os prédios brotam da terra para fazer a cidade velha ser pequena, insignificante, desbotada, como se não tivesse existido? A ponte metálica, colocada lá depois de mais de cinquenta anos que essa daqui, está desaparecendo, sem conservação, como se fosse desmoronar com o nosso passado. Essa aqui de tão viçosa parece mais nova e de uma função vital para a vida da cidade. Lá nós abandonamos a ponte e a vida da cidade para construirmos uma outra que não tem nenhuma relação com a cidade que conhecemos. Aqui no Porto dez séculos te contemplam carregados de toda a história de Portugal. Nossa aldeia nem bem fez um século e meio e já quase não há sombra de sua pouca história. Não é doloroso? Quando a nossa geração veio ao mundo a nossa aldeia tinha preparado a festa do seu primeiro centenário. Na pressa da modernidade tocou fogo nas velhas casas de palhas – herança do nosso gentio – para construir palacetes modernos de influência árabe. Se os minaretes não tinham a serventia da antiga função da torre, servia para aplainar o calor. E nos orgulhamos do Palácio de Karnak, do casario da Frei Serafim. E era assim quando vocês saíram de lá. Não quero contar a destruição dessas construções para escritórios modernos, quando não estacionamentos para que os habitantes da cidade nova viessem aos escritórios do poder público – só o que lá ficou – em seus carros com ar condicionado. A cidade mudou para o outro lado do rio nas assas da ponte estaiada. A cidade antiga foi abandonada e com o nosso passado se perde na indefinição de uma fotografia que se desbota quanto mais se olhar querendo fixar o que não se pode deter numa imagem que se apaga inexoravelmente. As portas se fecharam com medo de uma violência imaginária, quando nos roubamos a nós mesmos os encontros nas calçadas em cadeiras indolentes contando histórias de ontem quando a televisão ainda não tinha ascendido a luz mágica de um tubo de ilusões. Pela fresta da lembrança ainda é possível ver o que os olhos não podem mais dizer que existem essas lembranças de um dia que existiu. Talvez mais difuso seja enxergar uma cerca de paus entrançados que cerca um território de imagens que ainda pensamos existir dentro de nós. Talvez as águas de nosso rio, que nos banhou no tempo em que eram caudalosas e tínhamos medo da pororoca que podia nos tragar a vida, hoje não tenham lembrança de sua força que foi perdida nos assoreamentos de seu leito, que hoje tem preguiça em correr. Tinha vento em maio, lembras? O poeta até escreveu uma canção saudando a visita deste lindo ausente. Era o tempo que empinávamos papagaios e das cheganças do que vinha de muito longe para as notícias alvissareiras: “Desapeie dessa tristeza / Que eu lhe dou de garantia / A certeza mais segura / Que mais dia, / Menos dia / No peito de todo mundo / Vai bater a alegria”. Depois do maio éramos marginais, “eu brasileiro confesso minha culpa meu pecado, meu sonho desesperado, meu bem guardado segredo, minha aflição”. E todo mundo deu de sair da aldeia como se a fugir de um destino marcado, sem lembrar que ele vem é grudado no umbigo, tatuado na pele para que a nossa aldeia não saia de nós onde quer que nos escondamos. Nem aqui do outro lado do Atlântico escapamos de lembrar dela, a nossa mãe comum, a capital do sertão. E cada um de nós tem a sua particular de onde os caminhos ressecados do sertão ou os caminhos das águas do rios nos trouxeram num vapor que não navega mais no mar ou num Chevrolet cortado ao meio para fazer uma cabine maior de passageiros. Eu vejo um menino numa rede no convés do barco a vapor que apitava na curva do rio e deixava um rastro de fumaça da lenha queimada nas suas caldeiras de ferro fundido fabricado na Inglaterra e montado na foz do rio para galgar o sertão a dentro entre palmeiras e carnaubais ou buritizeiros das margens daquela estrada onde navegava a ilusão. Ou talvez veja o menino na carroceria do Chevrolet entre as bagagens de uma mudança brusca de uma família que cansada da seca jogou a mobília velha de qualquer jeito para que a sorte deixasse que ela de novo fosse tentada na capital pra onde o caminhão em disparada naquela estrada de terra fazia poeira e pulava na buraqueira tentando levar os náufragos da seca para a cidade das ilusões. Cada um de nós deixou seu passado mais perdido lá dentro no fundo do sertão para tentar a sorte na cidade grande em que a luz elétrica brilhava pra lá da estaca zero confundindo o destino que se queria tomar. O poeta de Angical já disse que “toda vereda de roça vai descambar na cidade”.  E eu acho que vejo um menino no roçado, ainda sem forças para o cabo da enxada, tentando espichar o olho de vontade de navegar no vapor que passava ao largo esfumaçando o céu ou subir na boleia daquele Chevrolet cortado no meio para levar passageiros buzinar na estrada de terra deixando um rabo de poeira levantada que custava assentar. Os sonhos são feitos de poeira ou se esfumaçam no céu azul, mas um dia a vontade foi maior que o sonho e o menino arribou para descambar na cidade da iluminação elétrica que apagava as estrelas do céu. Se fizer um dia de sol bonito aqui no Porto assunta que as nuvens de algodão sem gota d’água se parecem com o algodão do sertão que brota no céu, mas nunca se enche d’água pra chover. Aqui, na maioria das vezes, os algodões do céu enchem d’agua e se desmancham em chuva. Lá, quase nunca. Mas num momento hão de parecer iguais e é nesse instante que a nossa aldeia nos assalta o peito de saudade do que fomos. Porque só se tem saudade do que se viveu e nem me pergunta se é bom o ruim o vivido que isso não tem a menor importância. Como é que se pode ter saudade de uma terra que se esturrica, o verde fica cinza, o mandacaru e o xique-xique e a macambira e o velame e o veleiro e o facheiro e a coroa de frade, todos eles eriçados em duros e grandes espinhos fazem inóspita e colérica e insultuosa e adversa e hostil e crua e hostil terra em que nascemos? Mas se é esse o lugar que habitamos é dele que temos saudade, me entendes? Porque saudade é que nem cu, cada um tem o seu e a sua, compreendeu? Pode mandar abrir mais uma garrafa de vinho que aqui no Porto nenhum é marromeno como se diz no nosso dialeto de comer a metade das palavras, carregar nos erres e não usar do plural, que tudo pra nós é singular. 




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Quando eu estive em Portugal dessa vez fiquei pensando muito na minha aldeia e nos camaradas que se foram na distância desses quarenta anos. Cheguei no Rio em 1976. Em 31 de janeiro, com um diploma na mão e um gosto  por sonhos. A saudade em terra estranha me fez sonhar só alguns desejos e viver de outros na incompletude dessa vida. As mortes recentes de Ana e Antônio, que como outros me deram sobro de vida, me deixaram ainda mais melancólico. Inicio aqui a publicação de um texto do inventário pessoal da minha geração. Como se a mim meus fantasmas me contassem. Escrito num só fôlego começado em terras de Portugal, que hoje remexo acertando alguns erros. Mas é um texto único sem parágrafo e ainda a remexer outras vezes. Publicarei em pedaços aqui no Piauinauta. Não sei ainda se o imprimirei em papel. Continua no próximo número. (Edmar Olivieira)

Antigamente e hoje



(Geraldo Borges)


Antigamente eu sabia fazer uso de muitas coisas. Hoje não sei fazer uso de quase nada que está por aí, e representa o pós-moderno. Alcancei muita coisa do tempo de meus avós, que foram responsáveis pelo meu patrimônio cultura, a formação da minha personalidade.
A revolução tecnológica foi aos poucos mudando os nossos hábitos. E mexendo em nossa postura física e moral. No tempo de meus avós a gente defecava de cócoras, dentro de um buraco, em uma sentina, no fundo do quintal. Tomava banho de cuia tirando água de um tanque.
Hoje tomo banho quente ou frio dependendo da situação climática. Antigamente banhava no rio Poty ou Parnaíba sem medo da poluição. Hoje se quiser nadar terei de me associar a um clube ou fazer um passeio ao litoral, ou ir aos riachos do interior do Maranhão.
Antigamente quase todo mundo andava a pé, as cidades eram pequenas. O conjunto arquitetônico constituía-se de poucas ruas, uma igreja, uma praça, com um coreto, para a banda tocar, e casario de alvenaria, portas e janelas. Vizinhos bisbilhoteiros. Não existia imprensa. Tudo era perto. Todo mundo se conhecia. Os vizinhos eram como se fossem irmãos.
Hoje caminhar parece até que não é mais uma necessidade biológica. Virou apenas esporte. Tem tênis apropriado para tal ginástica recomendado pela NASA. Tudo está sob o comando da tecnologia. Quando a luz falta o homem faz uma viagem no túnel do tempo. Cai no reino da escuridão. E como fica alegre quando a luz elétrica volta. E como a luz de sua alma ressuscitasse. Fiat. A luz de vela é coisa para defuntos e pessoas romântica. Mas já teve outras serventias nas tarefas do cotidiano, serve ainda para encomendar almas de falecidos.
Na linguagem, patrimônio cultural que evidencia a singularidade de uma nação, muita coisa mudou aqui. Podemos dizer que as palavras também envelhecem, se aposentam no dicionário, e dão lugar no palco da vida para outros personagens. Isso faz me lembrar de meu avô, que se sentava à cabeceira da mesa; naquele tempo de antigamente existia essa hierarquia. Hoje o velho não sabe mais qual é seu lugar. Mas voltando ao velho, quer dizer ao meu avô. Ele tinha uma palavra, ou melhor, uma frase para excomungar os maus exemplos dos netos. Dizia casmurro: eu arrenego de tu moral. Ou então reclamava: na hora da mesa não se fala.
Hoje as nossas palavras perdem o fôlego e se entocam dentro dos dicionários, tímidas, com medo de concorrer com neologismo, anglicismo, galicismos. Ficaram opacas.  A sensação é que estamos perdendo o domínio de nossa língua, que ela está virando uma colcha de retalho. Com certeza não é mais o idioma de meus avós, uma linguagem muito mais rural que propriamente urbana. É isso memo. O processo e irreversível.
A tecnologia, o mundo pós-moderno vai criando uma nova paisagem para o seu espetáculo, com seus novos deuses que dão novos nomes as coisas. Inclusive um novo nome para nos mesmo, já que não somos mais simplesmente humanos. E precisamos de votos virtuais para um Feliz Ano Novo. E de muita tecnologia.

Guerra






A guerra maior
E mais feroz
É a que está
Dentro de nós
E é preciso ser
Super herói
Para desamarrar
Os nossos nós.

(Geraldo Borges)