domingo, 17 de dezembro de 2017

TRÊS REIS MAGOS

desenho: Gervásio


José Expedito Rego

(Para minha mãe, Carmem Reis)

Gaspar veio das bandas do Jurani
Tinha os cabelos louros e os olhos azuis
O rosto cheio de sardas, o nariz arrebitado
Montava uma motocicleta de sonhos
Ultrapassava todos os carros
Na avenida Transamazônica
Ouvira sua mãe dizer
Que Jesus nasceria naquela noite
E que uma grande estrela pendurada no céu
Apontava para o lugar do prodígio
Gaspar montava sua motocicleta de sonhos
E voava no rumo da grande estrela

Melchior morava ao pé do morro do Leme
Tinha o moreno afogueado dos caboclos do Brasil
Cabelos lisos e corridos
Olhos ardentes, corpo desnutrido
Montava um cavalo de talo de carnaúba
E viu a grande estrela
Na direção da grande praça
Perguntou a uma mulher que passava a seu lado
E soube que nascera o Salvador
E que haveria presentes para as crianças
Aumentou o galope de seu cavalo de pau

Baltazar desceu do alto do Rosário
Negrinho como a noite
Vinha chutando uma lata sobre os lajedos
Com o pé saído dos murais de Portinari
Viu também a estrela
Que parecia pairar sobre o largo da Matriz
E quis saber o que era...
- Foi Jesus que nasceu! - uma voz disse ao lado
Ele montou num carneiro que passava
E atravessou a ponte do riacho da Pouca Vergonha
E Gaspar
E Melchior
E Baltazar
Chegaram juntos na grande praça
A estrela estava sobre a torre da matriz
E as freiras distribuíam presentes aos meninos pobres
Mas já estava no fim
Cada um ganhou apenas um saquinho de bombons
E saíram pulando
Chupando os confeitos
Foram visitar os presepes

Entraram numa casa
Onde havia um muito bonito
Todo enfeitado de ramos verdes
Bolas coloridas e bichinhos de matéria plástica
Sobre a areia da mesa
No centro o Menino-Deus
Deitado sobre o bercinho de palha
Em volta, José, Maria, os pastores

E Gaspar
E Melchior
E Baltazar
Ficaram parados em redor do presepe
Admirando tanto bichinho bonito...
Gaspar roubou em elefante
Melchior roubou uma vaquinha
E Baltazar roubou o galo
Que estava empoleirado num ramo de alecrim
Saíram de mansinho
Sem que ninguém notasse
A não ser o menino-Jesus de barro
Que do berço sorriu seu mais belo sorriso
_______________

Extraído do livro "Horas sem tempo", (1999) de José Expedito Rêgo

Sobre o autor: José Expedito Rêgo, romancista, poeta, médico e jornalista nasceu em Oeiras no dia 1° de junho de 1928. Escreveu, entre outros, os romances "Né de Souza" (biografia romanceada do Visconde da Parnaíba Manoel de Souza Martins) e Malhadinha, considerado pela crítica como sua obra-prima. Como jornalista editou em Oeiras em parceria com Possidônio Queiroz e Costa Machado, o jornal mensal "O Cometa" que circulou na cidade de 1971 a 1976. Foi membro titular da cadeira número 2 da Academia Piauiense de Letras.
Faleceu no dia 31 de março de 2000.


Esse poema foi garimpado por Joca Oeiras, o Anjo Andarilho e publicado no Piauinauta de 18 de dezembro de 2007, marcando a primeira folha do blog. Na ocasião, tínhamos contato com Joca Oeiras e o convidamos para viajar conosco neste espaço. Ele compareceu algumas vezes e forneceu literatura dos filhos de Oeiras para estas páginas.

Joca já não está mais entre nós. Foi um paulista andarilho que escolheu a cidade de Oeiras, antiga capital do Piauí, para viver seus intensos últimos anos de vida. Estive com ele em Oeiras e em Teresina algumas vezes. De camiseta regata para o calor do sertão, uma sacola - que mais parecia um embornal nordestino e a bengala tosca marcavam sua figura doce e simpática.

Nesse maravilho poema, que ele nos deu a conhecer, fazemos nossa homenagem a Joca Oeiras.

Desenho especial para esta edição: Gervásio. Joca é o menino com a vaquinha.







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