domingo, 3 de dezembro de 2017

LEMBRANDO CHICO SALLES



Tornamo-nos amigos tarde, já quase perto de eu mudar para Laranjeiras em 2009. Dos nossos encontros às quartas-feiras no Mercadinho São José, arregimentando amigos, surgiu a Confraria do Botero. 

Praça São Salvador, Largo do Machado, Rua do Ouvidor, Feira de São Cristóvão, bares da Lapa, Bracarense, Chico e Alaíde e Manolo conheceram algumas de nossas conversas com a boemia do Rio. Ele já era um artista da gravação, de shows e do cordel, enquanto eu mal começava a escrever. Fez a orelha do meu primeiro livro e foi um incentivador dos outros. Em comum tínhamos a origem nordestina, a vinda ao Rio pra não mais voltar, o amor pela cidade que já nem é tão maravilhosa assim.

Tornamo-nos amigos “de infância”. Eu lhe “apresentei” Sérgio Sampaio e ele, com a maestria de Henrique Cazes e José Milton, fez um trabalho primoroso gravando os sambas do capixaba tido como maldito e desconhecido. Foi o criador do Bloco na Rua, em homenagem a Sampaio, que reunia Bambas no Mercado das Artes de Laranjeiras. Luiz Melodia, Renato Piau, Leo Gandelman, Moacyr Luz, Jards Macalé, Henrique Cazes, Tony Platão, Xico Sá, Edy Star (único remanescente da Ordem Grã-Cavernista de Raul e Sampaio) sempre prestigiaram o bloco a seu convite. Foi também a convite seu que a Confraria do Botero recebeu os ilustres Vladimir Carvalho, Moraes Moreira, Luís Carlos Maciel, Socorro Lira, Salgado Maranhão, Bráulio Tavares, Wilson Flora, Marcus Fernando, Hugo Sukman, José Milton Pinho entre tantos outros que nos deram o prazer de uma conversa agradável. Fomos parceiros na Casa Lima Barreto, onde conheci Simão Curuca, Geraldo do Norte, Sergival, Monarco, Carlinhos Nascimento, Rubem Confete, Roberto Serrão, Adriano do Borel entre tantos outros bambas.

Cordelista de primeira linha, sentado na cadeira de Catulo da Paixão Cearense na Academia Brasileira de Cordel, vendia cordéis na feira de São Cristóvão e nas livrarias, enquanto gravava musicas com Zeca Baleiro, Fagner, Zeca Pagodinho, Chico César, Maciel Melo, Silvério Pessoa e outros consagrados que emprestavam voz aos seus trabalhos em oito CDs autorais gravados, o último ainda inédito. Gostava do contato com o público em shows ao vivo. Num dos últimos comandou o lançamento do meu SITIADO, há um mês, aqui no Rio.

Na sua intransigente defesa da cultura nordestina, desafiava os cariocas: “Vocês concordam que num tripé de sustentação da música brasileira podemos colocar Luiz Gonzaga?” – perguntava aos que concordavam, certamente querendo ouvir dele, Chico, quais os outros dois pilares. – “Agora, procurem vocês os outros dois, porque um já estamos de acordo que é Gonzaga”. E soltava uma gaitada do malandro nordestino que passou pra trás o carioca. As tiradas “chicosalianas”, como ele mesmo chamava, eram divertidas. Tinha humor para tudo.

Duas coisas o tiravam do sério: O “iê-iê-iê” com Roberto Carlos, Beatles e tudo; e a Tropicália – não engolia Caetano. Embora reconhecesse em Gil um músico completo e dizia que só seria entendido inteiro no futuro, não gostava do movimento dos baianos.

Assistimos juntos “Torquato, todas as horas do fim” (de Eduardo Ades e Marcus Fernando), de que gostou muito e criou uma tirada “chicosaleana”:  “eu sempre soube que ele não se misturava aos baianos”, disse – elogiando os diretores do filme. Já tirava Torquato dos baianos – de quem tinha bronca – e queria os responsáveis pelo filme como aliados. Eu tinha separado a última Revestrés, com uma matéria de Carlos Galvão sobre a coleção de cordéis de Torquato e que falava sobre a influência da literatura de cordel nas letras de Torquato, ressaltado pelo autor. Certamente teria gostado muito. Pena que não deu tempo.

Tínhamos combinado fazer no Clube do Choro, um encontro a que ele denominou “Sitiados em Brasília” agregando a nós dois, o acordeonista maravilhoso Adelson Viana. Na sua generosidade, me botava no show e promovia meu livro. No dia anterior, eu já tinha um lançamento em Brasília na Visconde Livraria, a convite do Coletivo de Poetas na pessoa do conterrâneo Menezes y Moraes. Quando soube que estava doente, me pediu que desmarcasse o Clube do Choro e o nosso Sitiado, mas insistia com veemência que eu fosse ao lançamento na Livraria.

Depois do lançamento de Sitiado na livraria soube da sua morte no dia que seria realizado o show desmarcado. Na madrugada. Tinha falado com ele na véspera da viagem e não achava que ele partisse assim tão cedo.

Escrevo essas lembranças alguns dias depois e a ficha ainda não caiu. Tô achando que o encontro no Botero numa quarta feira dessas qualquer. Ou ainda espero um telefonema para tomar um chope no Manolo. Ele me mandou pra longe e morreu. Não pude ir ao enterro, não sou testemunha de sua partida. Eu aqui fiquei puto. Mas ele me explicou numa tirada “chicosaleana” as razões de sua partida – já que estava com um câncer – que me apareceu nesse instante, abrindo aleatoriamente um dos seus cordéis:

“A conclusão que cheguei
Sobre a morte repentina
Tem lá o seu lado bom
O lado que nos ensina
Viver não é permissão
Viver é uma missão
Naquilo que se destina

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Versos tirado do cordel “As Minas de Minas”, grifado no original.
Desenho: 1000TON

     



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